Como um Americano Aventureiro Salvou a Indústria da Seda Tailandesa

Kim Martins
por , traduzido por Járdila Soares
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Bangkok já foi mais comumente conhecida como a Veneza do Oriente devido à complexa rede de canais que cruzavam a cidade no século XIX. Havia poucas estradas no século XIX, então os habitantes da cidade viajavam e comercializavam pelos movimentados canais, ou khlongs, do rio Chao Phraya — o principal rio da Tailândia que atravessa Bangkok (Banguecoque).

Era uma cidade muito verde, cheia de árvores-de-fogo floridas com copas vermelhas e laranjas, velhos tamarindos plantados no reinado do Rei Chulalongkorn (1853-1910), árvores-da-chuva gigantes com copas largas e frondosas e figueiras envoltas em fitas coloridas que o povo tailandês acreditava que protegeriam os espíritos que ali habitavam.

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Jim Thompson Silk
Seda Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

No entanto, a Bangkok do século XXI é uma cidade muito diferente. Muitos khlongs foram preenchidos com cimento para dar lugar a condomínios, hotéis e centros comerciais de arranha-céus, e os que restam estão enlameados pelas inundações devastadoras que ocorrem regularmente numa cidade construída sobre um pântano. Árvores antigas foram derrubadas para criar espaço para esculturas de arte pública, ampliar estradas congestionadas ou construir torres comerciais. Os pedestres que caminham pelas ruas úmidas da cidade não têm mais a sombra dos galhos das árvores (uma exceção bem-vinda é a Wireless Road e o Lumpini Park). As árvores podem resfriar as cidades em até 5 °C (9 °F) e reduzir a umidade. É verdade que quem visita Bangkok pela primeira vez costuma se sentir exausto em dias de 35 °C (95 °F) com 90% de umidade.

Mas há um oásis tropical fresco bem no coração da cidade que preservou uma pequena parte da antiga Bangkok. Localizado a poucos passos do popular centro de compras Ma Boon Khrong (ou MBK) e às margens do ainda ativo canal Saen Saeb, está o Museu Casa de Jim Thompson — um dos museus imperdíveis do Sudeste Asiático. Aqui você pode fugir do calor de Bangkok e passear por meio acre de jardins exuberantes pontilhados por bananeiras, palmeiras e sobreiros indianos, admirar flores de lótus flutuantes em grandes vasos de jardim e ver piscinas tranquilas com peixes Koi japoneses brancos. Uma visita guiada por esta magnífica estrutura de teca apresentará ao visitante duas coisas: a arquitetura tradicional tailandesa e a história da seda tailandesa.

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A Bowl of Raw Silk & Silk Cocoons
Uma Tigela de Seda Bruta e Casulos de Seda Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Jim Thompson (1906-1967) foi um americano aventureiro que viveu em Bangkok após o fim da Segunda Guerra Mundial e desapareceu na Malásia em 1967. Ele é chamado de Rei da Seda porque ajudou a salvar a centenária indústria da seda tailandesa e criou uma demanda internacional por este tecido luxuoso. Antes de aprender mais sobre o misterioso e vibrante Jim Thompson, vamos dar uma olhada na longa história da produção têxtil no antigo Sião (como a Tailândia era conhecida até 1939).

A Arte da Fabricação da Seda

Diz-se que a arte da fabricação da seda teve origem na China durante o período Longshan (cerca de 3000 a.C.). A lenda chinesa conta que uma ocorrência fortuita levou à descoberta da seda. Por volta de 2696 a.C., a imperatriz Si Ling-Chi (também conhecida como Xilingshi, Lei-Tsu ou Leizu) estava sentada sob uma amoreira em seu jardim, desfrutando uma xícara de chá, quando um casulo caiu em sua xícara. O casulo se desfez e os fios de seda brilhantes que ela descobriu resultariam no estabelecimento da sericultura (cultivo da seda). A sericultura permaneceu um segredo valorizado pelos chineses por quase 4.000 anos e era ferozmente guardada, sendo considerado um crime punível com a morte levar bichos-da-seda ou seus casulos para fora do país.

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Havia uma Rota da Seda Tailandesa pelo sul da Tailândia e dois portos que faziam parte das antigas rotas marítimas de comércio do mundo.

Por volta do primeiro milênio a.C., caravanas de camelos carregadas de seda, prata, ouro e outras mercadorias preciosas percorriam as Rotas da Seda (ou Rota da Seda) da China, passando pela Ásia Central e seguindo para o Egito, Grécia, Roma, o continente africano e até mesmo a Grã-Bretanha.

Até o século XIII, apenas dois exemplos conhecidos apontam para a existência de uma indústria tailandesa de seda e tecelagem. O primeiro exemplo são as ruínas de Ban Chiang, um sítio arqueológico da Idade do Bronze (cerca de 1000 a.C.–c. 300 d.C.) na província de Udon Thani, nordeste da Tailândia. Aqui, arqueólogos encontraram as amostras mais antigas registradas de fibras de seda, datadas entre 1000 e 300 a.C., juntamente com espirais de fuso e fragmentos têxteis. Há fortes evidências de que os tailandeses têm uma longa história de tecelagem e trabalho com tecidos como cânhamo, algodão e fibra de bananeira.

Sítios de escavação revelaram que os antigos tailandeses sabiam como tecer e fazer cordas a partir de fibras animais ou vegetais. Cerâmica marcada com cordões, datada de aproximadamente o sexto milênio a.C., foi encontrada na província de Mae Hong Son, no norte, incluindo peças com motivos de bicho-da-seda e folhas de amoreira.

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Há poucas evidências históricas ou arqueológicas que permitam estabelecer quando a produção de seda chegou ao Sião. Muito provavelmente, a seda foi introduzida pelos chineses por meio de uma rota marítima a partir de um porto na costa oeste da Tailândia, às margens do Mar de Andamão. De fato, existia uma Rota da Seda Tailandesa através do sul da Tailândia, utilizada por comerciantes estrangeiros para transportar mercadorias por mar entre os impérios Grego e Romano e a China, e vice-versa. Havia dois portos ou estações comerciais que faziam parte das antigas rotas marítimas comerciais do mundo — Phu Khao Thong, em Ranong, e Khuan Lukpat, na província de Krabi.

King Mongkut of Siam in State Robes
Rei Mongkut do Sião em Trajes Oficiais J. Thomson and Wellcome Images (CC BY-NC-SA)

O segundo exemplo é do período Sukhothai (1238-1438). Sukhothai foi o primeiro reino tailandês e estava localizado no nordeste da Tailândia. Zhou Daguang (1266-1346) era um jovem enviado chinês que estava em missão diplomática da corte Yuan ao Camboja. Ele registrou sua visita em suas memórias, Os Costumes do Camboja (1296-1297), e observou que o povo siamês conhecia a arte da tecelagem e da sericultura.

Além desses dois exemplos, muito pouco se sabe sobre a indústria da seda tailandesa até 1861, quando o Rei Chulalongkorn, conhecido como Rei Rama V (reinou 1873-1910), incentivou o aprimoramento da sericultura e inaugurou uma unidade de produção de seda perto de Bangkok. Mas, na década de 1950, a sericultura havia declinado a tal ponto que o conhecimento sobre a criação de bichos-da-seda e a arte da fabricação da seda corriam o risco de se perder. Embora as técnicas de tecelagem de seda e o trabalho com diferentes tecidos fossem um artesanato popular firmemente estabelecido no nordeste da Tailândia (particularmente em Isan), a corte real tailandesa e a elite importavam seda chinesa altamente valorizada e algodão indiano.

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Casulos de qualidade inferior e a falta de conhecimento técnico adequado entre os produtores de seda tailandeses eram dois motivos pelos quais a qualidade da seda chinesa era considerada superior. O Reino de Sukhothai também dependia da importação de sedas da China e do Império Khmer, no Camboja (802–1431), apesar das fortes evidências de práticas locais de sericicultura. A realeza tailandesa, no final do século XIX, também havia adotado o vestuário ao estilo ocidental.

Thai Woman Boiling  Silk Cocoons
Mulher Tailandesa Fervendo Casulos de Seda Peter van der Sluijs (GNU FDL)

A fé budista do povo tailandês proíbe qualquer forma de matança, e o processo de coleta da seda do casulo envolve a matança da larva do bicho-da-seda. Isso também contribuiu para o declínio da indústria da seda tailandesa.

Enquanto as tentativas nacionais de melhorar a produção de seda fracassaram, as comunidades de Isan (que incluem Ban Chiang), no Planalto de Khorat, no nordeste da Tailândia, merecem agradecimentos por preservar a tradição oral de criação de bichos-da-seda e produção de tecidos de seda provinciais com padrões e cores únicos. Isan é delimitada pelo rio Mekong (ao longo da fronteira com o Laos) ao norte e leste, e pelo Camboja ao sudeste. Tecidos de cânhamo e algodão foram descobertos em muitos sítios pré-históricos de Isan, juntamente com grandes contas de vidro azul, que eram usadas por homens como indicador de status. O tecido mais antigo dessa região provavelmente era de cânhamo, datado de cerca de 200 a.C., mas também foram encontrados vestígios de seda datados de 500 a.C. no sítio Ban Na Dee, em Isan.

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Silk Strands
Fios de Seda Kim Martins (CC BY-NC-SA)

As comunidades de Isan criavam bichos-da-seda com uma dieta de folhas de amoreira branca e usavam corantes naturais como o índigo, madeira de jaca, raiz de cominho, goma-laca de insetos, musgos, frutas silvestres e casca da árvore de cúrcuma, que confere ao tecido o tom amarelo característico visto por toda a Tailândia.

Você pode ver muitos designs tradicionais de seda na loja de presentes ligada ao Museu da Casa de Jim Thompson, e também descobrirá como esse intrigante americano praticamente resgatou sozinho a seda tailandesa, modernizou a indústria e a transformou em um tecido famoso e cobiçado mundialmente. Mas a história dele — e a da indústria de seda tailandesa revitalizada — não está livre de dramas.

Queen Sirikit of Thailand
Rainha Sirikit da Tailândia Xiengyod (CC BY-NC-SA)

Jim Thompson: Comerciante de Seda Tailandesa

Como Jim Thompson se envolveu com a seda tailandesa parece coisa de filme de Hollywood. A história envolve o mundo clandestino da espionagem internacional, festas da alta sociedade e encontros com a realeza. Filho de um fabricante de tecidos, James H. W. Thompson nasceu em 1906 em Greenville, Delaware. Tornou-se oficial de inteligência no Office of Strategic Services (OSS), precursor da Agência Central de Inteligência (CIA). Falava francês fluentemente e serviu no Norte da África, Itália e França antes de ser enviado a Bangkok em 1945, justamente quando a Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. Ficou encantado com uma cultura pouco conhecida pelo Ocidente e decidiu permanecer na cidade exótica numa época em que poucos estrangeiros (ou farangs, em tailandês) viviam ali.

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Jim Thompson House Museum
Museu da Casa Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Thompson tinha um senso apurado para cores e imediatamente percebeu uma oportunidade de negócio: a indústria da seda tailandesa, que havia sido praticamente enterrada sob o peso da seda mais barata e durável produzida industrialmente, apesar das tentativas do governo em 1932 e 1941 de revitalizar o setor. Durante a década de 1930, ele trabalhou com figurino para o renomado Ballet Russe de Monte Carlo, o que lhe conferiu um olhar apurado para tecidos.

Ele encontrou um grupo de tecelões muçulmanos Cham vivendo em uma pequena comunidade de Bangkok chamada Ban Krua, localizada do outro lado do canal Saen Saeb, bem em frente ao Museu da Casa de Jim Thompson. Como Thompson contou mais tarde à revista Time em 1958: 'Me incomodava que a produção desse material maravilhoso tivesse parado.

Internal Teak Staircase at the Jim Thompson House Museum
Escada Interna de Madeira de Teca no Museu da Casa Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Ele renunciou ao exército em 1946 (embora circulem rumores de que ele continuava como agente de inteligência freelancer) e partiu para Nova York com 500 amostras de seda tecida em tons de joias que deslumbraram editores de moda e designers. Thompson retornou a Bangkok com um orçamento modesto de US$ 700,00, recrutou 200 tecelões locais, forneceu-lhes seda crua do nordeste da Tailândia e introduziu corantes de anilina da Suíça para substituir os corantes vegetais usados ​​pelos tecelões.

Drawing or Living Room at the Jim Thompson House Museum
Sala de Estar ou de Desenho no Museu da Casa Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Ele tinha uma paixão pela arte e antiguidades tailandesas e voltou sua atenção para projetar sua própria casa para abrigar sua coleção crescente. Ele construiu uma casa tradicional tailandesa de madeira antiga, utilizando portas de templos encontradas em lojas de sucata, e reuniu seis antigos edifícios de madeira de teca das ruínas de Ayutthaya (cerca de 1351–1757) — a segunda capital do Sião após Sukhothai. Thompson organizou os edifícios em um complexo separado por passarelas de jardim exuberantes e os elevou sobre estacas para protegê-los das inundações causadas pelas monções. Os tailandeses já não construíam mais dessa forma tradicional, mas logo passaram a seguir o exemplo de Thompson. Esse complexo é hoje o Museu Casa de Jim Thompson.

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Spirit House at the Jim Thompson House Museum
Casa dos Espíritos no Museu da Casa Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Os moradores locais se referiam ao complexo como a Casa no Khlong, e os visitantes podem apreciar o talento artístico e arquitetônico de Thompson ao fazerem uma visita guiada — ladrilhos de mármore italiano em preto e branco no patamar do primeiro andar, paredes voltadas para o exterior e pintadas de vermelho com um conservante no estilo das antigas casas tailandesas, divisórias de ambiente com degraus altos projetadas para proteger contra insetos; uma escada central interna em vez da escada externa tradicional tailandesa. Os jardins tropicais são pontilhados por antigas estátuas e uma casa de espíritos, para apaziguar quaisquer espíritos que possam ter sido perturbados pela construção da casa de Thompson sobre um terreno antigo.

Ming Dynasty Porcelain
Porcelana da Dinastia Ming Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Talvez o aspecto mais inquietante de uma visita à antiga casa de Thompson seja os dois horóscopos emoldurados na parede acima de sua escrivaninha. Um horóscopo previa boa sorte para o ano de 1959, e Thompson adiou sua mudança para a casa até aquele ano. O outro horóscopo previa má sorte quando ele atingisse 61 anos — Thompson tinha essa idade quando entrou em uma selva na Malásia em 1967 e nunca mais foi visto ou ouvido novamente.

Você ouvirá muitas histórias sobre seu desaparecimento enigmático que talvez ofusquem seu legado duradouro como o americano que salvou a arte em extinção da seda tailandesa, se visitar este magnífico museu.

Old Statue & Koi pond at the Jim Thompson House Museum
Estátua antiga e Lago de Carpas no Museu da Casa Jim Thompson Kim Martins (CC BY-NC-SA)

Como Chegar Lá

O Museu da Casa de Jim Thompson está localizado na Soi Kasemsan 2, em frente ao Estádio Nacional, na Rua Rama I, bem no coração de Bangkok. Se você for de BTS Skytrain, desça na estação Estádio Nacional e saia pela Saída 1. O horário de funcionamento é das 9h às 18h todos os dias, e a entrada custa 100 baht (cerca de US$ 3,20), sendo gratuita para crianças com menos de dez anos.

Se você não gosta de clima quente e abafado, o ideal é visitar em dezembro, janeiro ou fevereiro. E, enquanto passeia pelos belos jardins, sem dúvida refletirá sobre o misterioso desaparecimento de Jim Thompson. Eu tenho minha teoria. Qual é a sua?

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Járdila Soares
Járdila Soares é uma tradutora voluntária brasileira apaixonada por arte, cultura e história. Ama aprender coisas novas e compartilhar conhecimento com outras pessoas.

Sobre o Autor

Kim Martins
A Kim é uma escritora freelancer sediada na Nova Zelândia. Ela tem uma Licenciatura em História e Mestrado em Ciência do Caos & Complexidade. Os seus interesses especiais são fábulas e mitologia, bem como a exploração do mundo antigo.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Martins, K. (2025, novembro 12). Como um Americano Aventureiro Salvou a Indústria da Seda Tailandesa. (J. Soares, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1430/como-um-americano-aventureiro-salvou-a-industria-d/

Estilo Chicago

Martins, Kim. "Como um Americano Aventureiro Salvou a Indústria da Seda Tailandesa." Traduzido por Járdila Soares. World History Encyclopedia, novembro 12, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1430/como-um-americano-aventureiro-salvou-a-industria-d/.

Estilo MLA

Martins, Kim. "Como um Americano Aventureiro Salvou a Indústria da Seda Tailandesa." Traduzido por Járdila Soares. World History Encyclopedia, 12 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1430/como-um-americano-aventureiro-salvou-a-industria-d/.

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