A Campanha de Galípoli aconteceu na Turquia, entre 1915 e 1916, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Essa grande expedição envolveu tropas britânicas, francesas, australianas e neozelandesas (ANZAC). Foi lançada com o objetivo de forçar passagem pelo Estreito de Dardanelos e alcançar o Mar Negro, oferecendo assim uma nova rota de suprimentos para a Rússia. As defesas otomanas se mantiveram firmes e o conflito degenerou em um combate de atrito em trincheiras, que durou oito meses e acabou resultando na retirada dos Aliados. Famosamente vista como um fracasso custoso, a campanha resultou em 250.000 baixas para os Aliados. Seu defensor mais ardente, Winston Churchill, foi demitido de seu cargo no Almirantado britânico.
Objetivos da Campanha
Na Primeira Guerra Mundial, a Entente, formada por Grã-Bretanha, França, Rússia e seus aliados, enfrentou as Potências Centrais, nome dado ao pacto que uniu Alemanha, Áustria-Hungria e o Império Otomano, bem como outras nações aliadas. Já que a Frente Ocidental — principal teatro de operações, localizado na França e na Bélgica — ficou atolado em uma guerra de trincheiras, os Aliados passaram a buscar um ponto fraco alternativo onde os interesses do inimigo pudessem ser prejudicados. Um desses pontos fracos poderia ser a península de Galípoli, que conecta o Mar Egeu ao Mar Negro e que, à época, era controlada pelo Império Otomano, constituindo uma rota vital para o transporte marítimo. Essa rota consistia em uma passagem estreita, com 48 quilômetros (30 milhas) de comprimento e menos de 1,6 quilômetro (1 milha) de largura em seu ponto mais angusto. Ao longo dos séculos, atraiu inúmeros exércitos ambiciosos, desde a desastrosa Batalha de Adrianópolis, quando o imperador romano Valente (reinou 364–378) foi morto. Essa parte do Mediterrâneo oriental foi o objeto de disputas até mesmo em lendas, sendo o cenário da Guerra de Troia.
Esperava-se que a Campanha de Galípoli resultasse na conquista de Constantinopla (a atual Istambul), o que permitiria o envio recorrente de suprimentos para a Rússia. De fato, o Império Russo havia solicitado que seus aliados abrissem uma nova frente de combate nos Dardanelos. Um outro resultado vantajoso seria a remoção de tropas alemãs da Frente Ocidental, que seriam remanejadas para reforçar seu aliado otomano. Havia ainda uma ambição mais vaga: a de que, se a Entente controlasse essa região, o Império Otomano talvez entrasse em colapso. De forma ainda mais ambiciosa, tal colapso permitiria que os Aliados abrissem uma nova frente contra a Alemanha, possivelmente rompendo o impasse na Frente Ocidental.
O plano de ataque nos Dardanelos era defendido por figuras proeminentes como Winston Churchill (1874-1965), então Primeiro Lorde do Almirantado, e Lorde Herbert Kitchener (1850-1916), Secretário de Estado da Guerra, como uma forma de romper o impasse na Frente Ocidental e de envolver mais ativamente a Marinha Real no conflito. Uma expedição naval franco-britânica, composta por 20 navios aliados e conhecida como Operação dos Dardanelos (19 de fevereiro a março de 1915), foi enviada para capturar os fortes do Estreito. Essa expedição fracassou em forçar passagem pelos Dardanelos, devido ao fogo intenso das principais fortalezas turcas — que dispunham de peças de artilharia móveis difíceis de atingir — e à densidade inesperada de minas que haviam sido lançadas naquelas águas. Nove encouraçados foram afundados ou seriamente danificados durante a expedição, e um ataque da infantaria naval britânica (os Royal Marines) ao forte de Kum Kale terminou em um fracasso custoso.
Pensava-se que agora era preciso um desembarque anfíbio, utilizando uma quantidade de tropas muito maior. O plano funcionava no papel. Entretanto, ao ser colocado em prática, foi prejudicado por diversas deficiências operacionais - a maior delas foi a escassez de soldados para uma operação criada especificamente, talvez de forma excessivamente esperançosa, para conquistar grandes objetivos com poucos recursos. Com as armas otomanas ainda intactas e com seus artilheiros alertados acerca de uma invasão iminente após o fracassado ataque naval, a expedição de Galípoli foi lançada em 25 de abril de 1915.
Com Dificuldades desde o Início
O comando da expedição de Galípoli foi entregue ao general Ian Hamilton (1853-1947), que possuía vasta experiência nas guerras coloniais, mas não muita quando se tratava de guerra moderna. A decisão de Hamilton de posicionar seu posto de comando longe das operações na Ilha de Imbros foi ruim.
Suas chances de sucesso foram ainda mais prejudicadas pela falta de informações atualizadas sobre as fortificações turcas que sua força multinacional teria que enfrentar. Além disso, a operação ainda seria afetada pela natureza excessivamente ambiciosa dos seus objetivos, pela subestimação dos problemas logísticos que a afetariam e das capacidades inimigas, bem como pela quase absoluta ausência de sigilo. Para piorar a situação, a concentração de tropas tornou-se ainda mais evidente devido à lentidão dessa fase da operação e aos deslocamentos visíveis entre Lemnos, Alexandria e, por fim, Galípoli. Os atrasos resultantes desses problemas logísticos fizeram com que o exército turco tivesse tempo o suficiente para se preparar para a invasão iminente.
Enfrentando a força aliada de 75.000 homens estava o Quinto Exército turco, com 84.000 soldados. Eles eram comandados pelo general Otto Liman von Sanders (1855-1929), um alemão que tinha vasta experiência servindo no exército otomano. Outra figura central na defesa foi Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938), futuro presidente da República Turca. Atatürk comandou a 19ª Divisão em Galípoli com firmeza, identificando corretamente, por duas vezes, os locais de desembarque dos Aliados e inspirando seus homens a manter o controle da vital crista de Sari Bair.
As forças aliadas, com pouca cobertura natural a qual pudessem recorrer, logo se viram imobilizadas pelo fogo inimigo.
Os Desembarques
A força aliada, transportada para diversas praias por uma frota de 200 navios mercantes, era composta por tropas do exército britânico, soldados do Império Britânico, uma divisão do exército francês e tropas coloniais francesas. Ao sul, a força principal, comandada pelo tenente-general Aylmer Hunter-Weston, desembarcou no Cabo Helles. Ao norte, o Corpo do Exército Australiano e Neozelandês (ANZAC), comandado pelo general William Birdwood, desembarcou em Ari Burnu, que prontamente se tornaria conhecida, por todas as razões erradas, como Enseada ANZAC - ainda que cemitério ANZAC fosse um nome mais apropriado. Enquanto isso, a divisão francesa, encarregada de realizar um ataque diversionário, desembarcou em Kum Kale, no lado oposto ao Cabo Helles. Em outro movimento diversionário, tropas britânicas navegaram pelo Mar de Mármara, com o objetivo de convencer os turcos de que um quarto desembarque aconteceria ao norte. Esse plano funcionou. Liman von Sanders não tinha certeza onde o ataque principal ia acontecer. Ao longo dos primeiros dois dias, o desembarque principal enfrentou somente uma divisão turca. As duas cabeças de praia principais dos Aliados foram asseguradas e gradualmente expandidas. Então, as coisas começaram a dar errado para os atacantes.
As forças aliadas, com pouca cobertura natural a qual pudessem recorrer ao redor do Cabo Helles, logo se viram imobilizadas pelo fogo inimigo, especialmente das bem protegidas metralhadoras turcas. A seguir, os comandantes aliados deixaram que a situação saísse do controle ao hesitar nas praias, não esmagando o inimigo sob o peso de seus números. O desembarque ANZAC em Gaba Tepe, por outro lado, correu muito bem, e os soldados recém-chegados já avançavam em direção ao interior. Então, Atatürk organizou um contra-ataque, o qual assegurou as estratégicas posições elevadas de Chunuk Bair. Os ANZACs foram forçados a recuar em direção à praia. Mal sabiam eles que suas chances de avançar haviam se perdido para sempre.
A partir de então, as tropas aliadas passaram a ser obrigadas a construir sistemas de trincheiras para se proteger. Estava claro que a operação não conquistaria uma vitória rápida e fácil. Havia ainda deficiências organizacionais, como, por exemplo, o não provimento das unidades de artilharia com munição o suficiente. A batalha se transformou em uma luta de atrito. Nenhum lado tinha condições de avançar contra o inimigo sem sofrer baixas pesadas. Ao longo das duas semanas seguintes, os Aliados perderam um terço dos seus soldados. Havia um fluxo constante de reforços.
As condições nas trincheiras eram tão ruins quanto as da Frente Ocidental. Algumas das dificuldades diárias eram o calor e o frio, bem como uma umidade interminável - responsável por inundar as trincheiras -, vestimentas inadequadas, suprimentos alimentares inconstantes, e a necessidade de racionar água. Confrontados com condições precárias de higiene e de instalações sanitárias, além da ausência de locais para enterrar os mortos, os soldados logo passaram a correr alto risco de contrair disenteria. Um soldado australiano comentou, ironicamente: "Lutar é a parte mais fácil de todas" (Yorke, 50).
O soldado britânico Vere Harmswoth escreveu para casa:
Passamos quatro dias na trincheira da linha de frente. Sofremos apenas algumas baixas. Fomos colocados ali logo depois de um grande ataque que fracassara parcialmente, e o terreno entre a nossa trincheira e a dos turcos estava coberto de corpos. Parece-me que eles ficarão ali por muito tempo. Com esse calor, o corpo e o rosto enegrecem bastante em menos de 24 horas, e o cheiro é terrível. As moscas, que estão em todo lugar, aumentam o desconforto generalizado.
(Williams, 37)
O cadete australiano Henry Barnes se lembra de um ataque inimigo contra as trincheiras ANZAC:
Os turcos lançavam bombas e atiravam com suas espingardas, e era muito difícil evitar que algum inimigo ocasionalmente avançasse sobre nós. Um deles caiu bem na minha frente – veio avançando aos berros, dizendo alguma coisa, e praticamente – foi atingido por mim e pelo homem ao meu lado; dois ou três de nós atiramos ao mesmo tempo, pois estávamos bastante aglomerados perto da entrada da trincheira. Ele acabou avançando praticamente por cima da minha baioneta e - tratava-se de um homem bastante grande - e caiu em cima de mim. Nenhum de nós conseguia retirá-lo. Ele era pesado demais para ser erguido cerca de um metro (três pés), enquanto era preciso manter-se abaixado, fora do alcance do fogo inimigo. Literalmente, fiquei sentado naquele turco por dois dias – comemos nosso almoço sentados sobre ele. Comíamos carne enlatada e biscoitos.
(Imperial War Museums)
Outra Investida
Dois meses mais tarde, para romper o impasse das trincheiras, Hamilton enviou mais divisões como reforços. Infelizmente para os aliados, os turcos, naquele momento, já tinham reforçado suas posições de maneira considerável. Em 6 de agosto, um terceiro desembarque anfíbio aconteceu em Suvla, mas não foi capaz de promover qualquer avanço. Ao mesmo tempo, as tropas ANZAC realizaram um novo assalto contra as linhas inimigas, em uma tentativa de capturar Chunuk Bair. Esse ataque, feito à noite, foi contido, mais uma vez, pelo fogo das metralhadoras turcas. Novamente, apesar do desembarque recorrente de mais soldados, a tropa reforçada ainda era incapaz de avançar para o interior e cortar os defensores pela retaguarda. Nesse momento, o clima do fim do outono também começou a piorar.
Razões para o Fracasso
O governo britânico decidiu que aquilo era o suficiente. Hamilton foi removido de seu comando em outubro. Durante o restante da guerra, ele nunca mais conseguiu outra posição de liderança militar. O novo comandante da operação foi Charles Monro (1860-1929), que, logo após chegar e avaliar a situação em primeira mão, recomendou a retirada imediata da península. Como Churchill colocou, sarcasticamente: "Ele veio, ele viu, ele capitulou" (Bruce, 149). Entretanto, Monro estava certo. Aquele fiasco precisava acabar. Kitchener visitou em pessoa e concordou.
A Campanha de Galípoli foi um fracasso por vários motivos:
...não houve nenhum tipo de preparação sistemática, não existia nenhuma unidade com equipamentos especiais, não se via qualquer tipo de sistema de comando e controle, a inteligência sobre o inimigo era escassa e a capacidade de enganá-lo deficiente, inexistia, por fim, uma posição central de comando.
(Winter, 332)
Homens lutaram bravamente em ambos os lados, mas, se operações adequadas de reconhecimento tivessem sido realizadas - expondo pontos de desembarque ridiculamente pequenos e sem cobertura -, é provável que nenhuma operação anfíbia fosse lançada.
A retirada envolvia seus próprios riscos, mas foi realizada ao longo de dezembro e da primeira semana de janeiro de 1916. Notavelmente, nenhuma vida foi perdida ao longo do recuo, uma vez que os turcos se mantiveram ignorantes do que estava acontecendo, graças a vários estratagemas. Esse sucesso contrastava fortemente com a operação como um todo. Os Aliados desembarcaram uma força total de cerca de 480.000 soldados, mas sofreram cerca de 250.000 baixas ao longo da Campanha de Galípoli. As forças turcas provavelmente sofreram perdas semelhantes, ou talvez de até 300.000 homens.
A campanha tinha fracassado. A Rússia permaneceu isolada de seus aliados na guerra. Além disso, a Bulgária entrou no conflito, do lado das Potências Centrais. Churchill foi removido do Almirantado em decorrência do fiasco, embora um inquérito oficial posterior tenha concluído que ele não havia desconsiderado o aconselhamento profissional relativo à expedição. Os esforços agora foram reconcentradas na Frente Ocidental europeia, mas a guerra ainda se arrastaria por mais dois anos e meio. Na Austrália e na Nova Zelândia, quando a Primeira Guerra Mundial finalmente terminou, o dia escolhido para comemorar os caídos na guerra foi 25 de abril - conhecido como Dia ANZAC -, data do primeiro desembarque em Galípoli.
