Ema da Normandia

Brandon M. Bender
por , traduzido por Matheus Kunitz Daniel
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Emma of Normandy (by The British Library, Public Domain)
Ema da Normandia The British Library (Public Domain)

Ema da Normandia (morta em 1052), esposa do rei Etelredo, o Despreparado, de 1002 a 1016 e depois esposa do rei Canuto de 1017 a 1035, foi uma figura dominante na política inglesa por quase 50 anos. Ema é a primeira rainha inglesa retratada em obras de arte contemporâneas, e ela também encomendou sua própria obra histórica, o Encomium Emmae Reginae. Sua longa carreira a fez sobreviver a ambos os maridos, mas ela também viveu o suficiente para ver dois de seus filhos, Hardacanuto (r. 1040-1042) e Eduardo, o Confessor (r. 1042-1066), se tornarem reis da Inglaterra.

Contexto e Primeiro Reinado como Rainha

O ano de nascimento de Ema é desconhecido, mas ela nasceu na Normandia, filha do duque Ricardo I; sua mãe, Gunhilda, provavelmente tinha ascendência dinamarquesa. Ema aparece pela primeira vez nos registros históricos em 1002, com seu casamento com o rei inglês Etelredo II, "o Despreparado" (r. 978-1013 e 1014-1016). Etelredo já era rei dos ingleses desde 978 e tinha vários filhos de seu primeiro casamento com Elfleda de York, que desapareceu dos registros históricos por volta da virada do milênio.

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Ema foi honrada com o título de rainha, que a primeira esposa de Etelredo não havia recebido.

Ema foi honrada com o título de rainha, que a primeira esposa de Etelredo não havia recebido. Ema nomeou seguidores normandos para posições importantes na Inglaterra, como um administrador chamado Hugo em Exeter já em 1003. Ema, diferentemente da primeira esposa de Etelredo, também aparece em muitos diplomas do reinado dele. Seus filhos com o rei, Eduardo e Alfredo, aparecem ao lado dela também.

Mas a Inglaterra não estava totalmente estável quando Ema se tornou rainha. Os ataques vikings na Grã-Bretanha eram comuns; eles assolavam o reino desde os anos 980, mas, por volta dos anos 1000, haviam se tornado muito mais intensos. O rei dinamarquês Sueno Barba-Bifurcada (r. 986-1014) liderou exércitos particularmente grandes na Inglaterra, saqueando o reino de 1003 a 1005 e de 1006 a 1007. Outro líder dinamarquês, Torkel, o Alto, dominou quase todo o reino de 1009 a 1012.

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Ema e a Conquista Dinamarquesa da Inglaterra

Em 1013, Sueno retornou, e muitos dos nobres ingleses se submeteram a ele sem lutar. Quando a Inglaterra caiu diante dos invasores dinamarqueses, Ema foi para o exílio com seu próprio grupo de nobres e clérigos, aparentemente agindo independentemente de seu marido. Ela chegou à sua terra natal, a Normandia, onde seu irmão Ricardo II agora era o duque. Etelredo logo enviou seus filhos pequenos para a Normandia por segurança também. Depois de uma última resistência em Londres e na Ilha de Wight, Etelredo se juntou à família no exílio.

Aethelred II
Etelredo II The British Library (Public Domain)

Quando Sueno morreu em fevereiro de 1014, a família real inglesa teve uma segunda chance. Etelredo foi convidado a voltar do exílio com a condição de governar com mais justiça do que em seu primeiro reinado. Eduardo, o primeiro filho de Ema e Etelredo, foi encarregado de levar a aceitação de Etelredo de volta aos nobres na Inglaterra.

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De volta à Inglaterra, o jovem filho de Sueno, Canuto, assumiu o exército viking de seu pai. Ele também havia se casado com Elfleda de Northampton, uma poderosa nobre inglesa, garantindo a lealdade das partes central e norte da Inglaterra. No entanto, Etelredo liderou um exército a Lincolnshire que destruiu grande parte das forças de Canuto. Canuto fugiu de volta para a Dinamarca, deixando Etelredo no controle mais uma vez. Depois de seu breve exílio, Ema era a rainha da Inglaterra novamente.

Canuto retornou em 1015, porém. No final de 1016, tanto Etelredo quanto seu sucessor, Edmundo Braço de Ferro (r. 1016), o filho mais velho sobrevivente de Etelredo de seu primeiro casamento, estavam mortos. Canuto se tornou rei da Inglaterra, e quando seu irmão Haroldo morreu na Dinamarca em 1018, ele também se tornou rei dinamarquês.

The North Sea Empire of Cnut the Great, 1016 - 1035
O Império do Mar do Norte de Canuto, o Grande, 1016 - 1035 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Rainha Novamente: Ema e Canuto

O próximo movimento de Ema foi surpreendente: Ema se casou com Canuto, o arqui-inimigo de seu primeiro marido, em 1017. No entanto, fontes medievais fornecem relatos conflitantes sobre como isso aconteceu. Teodorico de Merseburg apresenta Ema como governante de Londres no final de 1016, e a Crônica Anglo-Saxã diz que Canuto a levou de Londres para se casar com ela. A própria versão de Ema da história pode ser encontrada em seu Encomium, que diz que ela estava na Normandia nessa época e que Canuto enviou emissários a ela. Não é impossível que Ema estivesse na Normandia em 1017, já que ela já havia ido para o exílio antes, mas o relato contradiz as fontes anteriores que a colocam em Londres.

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Ema conseguiu manter seu título de rainha ao se casar com Canuto.

É possível que Ema quisesse se retratar como uma figura mais ativa na busca por seu segundo casamento, explicando por que a versão do Encomium difere das outras. O Encomium também omite o primeiro casamento de Ema com Etelredo, referindo-se a ele apenas como um príncipe não nomeado de Londres, e implica que seus filhos com Etelredo eram na verdade filhos de Canuto.

De qualquer forma, Ema conseguiu manter seu título de rainha ao se casar com Canuto. A união também pode ter poupado os filhos de seu primeiro casamento, que viviam no exílio na Normandia. Em contraste, o filho de Etelredo do primeiro casamento, Eduíno, foi assassinado no início do reinado de Canuto, e os netos de Etelredo do primeiro casamento foram enviados para a Suécia, com ordens para matá-los.

Ema e Canuto tiveram dois filhos: um filho, Hardacanuto, e uma filha, Gunilda. Apesar de manter seu título e poder, e possivelmente salvar seus filhos mais velhos de um destino violento, nem tudo estava bem na nova situação de Ema. Canuto já tinha uma esposa, Elfleda de Northampton, com quem se casou por volta de 1013 e teve dois filhos. O casamento de Elfleda com Canuto parece não ter sido dissolvido, e Canuto continuou associado a ela muito tempo depois de se casar com Ema. Elfleda e seu filho Haroldo aparecem ao lado de Canuto, Ema e Hardacanuto no Liber Vitae da Abadia de Thorney, e Canuto deu mais poder a Elfleda do que a Ema. Depois que Canuto conquistou o controle da Noruega no final dos anos 1020, ele enviou Elfleda e seu filho mais velho, Sueno, para governá-la.

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Na Inglaterra, porém, Ema gradualmente subiu de status durante o reinado de Canuto, eventualmente sendo listada logo abaixo do próprio rei em documentos importantes. Ela também se tornou a primeira rainha inglesa a aparecer na arte contemporânea, sendo retratada ao lado de Canuto em 1031 no Liber Vitae do Novo Mosteiro. Ela foi retratada uma segunda vez em seu Encomium no início dos anos 1040.

Emma of Normandy and Cnut
Ema da Normandia e Canuto Unknown Artist (Public Domain)

Crise de Sucessão e Exílio

Quando Canuto morreu em 1035, a Inglaterra caiu em uma acirrada disputa de sucessão. De um lado estavam Ema e seu filho com Canuto, Hardacanuto. Do outro lado estavam Elfleda e seu filho sobrevivente, Haroldo Pé de Lebre. Ema e o poderoso conde Goduíno defenderam Hardacanuto, que já governava a Dinamarca. A versão de Ema dos eventos, do Encomium, era que Canuto havia prometido que os filhos dela teriam precedência sobre os filhos de qualquer outra esposa – uma referência velada à ameaça que Elfleda representava.

Elfleda recorreu às suas antigas conexões no centro e no norte da Inglaterra para promover Haroldo, que tinha um bom argumento por direito próprio. Ele já estava na Inglaterra e era o filho mais velho sobrevivente de Canuto do primeiro casamento. Elfleda e Haroldo logo tiveram o apoio do conde Leofrico e de todos os nobres do norte, junto com a frota inglesa de Londres.

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A facção de Ema foi prejudicada pela ausência de Hardacanuto e logo ficou desesperada. Ela aparentemente desistiu de Hardacanuto e enviou cartas a seus filhos mais velhos com Etelredo, convidando-os a depor Haroldo. Eduardo fez uma tentativa fraca ao atacar Southampton antes de voltar para a Normandia. Alfredo desembarcou na Inglaterra com uma força normanda e foi cegado e morto por forças leais a Haroldo. Apesar dos esforços de Ema, nenhuma das alternativas a Haroldo havia funcionado.

A Crônica Anglo-Saxã relata que Haroldo era o candidato mais popular de qualquer maneira. Ele tomou o tesouro de Ema em 1035, e um conselho no mesmo ano lhe deu a regência da Inglaterra. Quando Hardacanuto ainda não havia chegado em 1037, Haroldo foi finalmente consagrado, tornando-se formalmente o próximo rei da Inglaterra. Até o aliado de Ema, Goduíno, havia se juntado à facção de Haroldo.

Ema não tinha mais ninguém ao seu lado, e o rei Haroldo a exilou no inverno de 1037. O irmão de Ema, Ricardo II, havia morrido uma década antes, então, em vez de voltar para a Normandia, ela foi para Bruges, na Flandres. Hardacanuto finalmente deixou a Dinamarca para se encontrar com Ema na Flandres em 1039. Eles discutiram o lançamento de uma invasão à Inglaterra, mas logo receberam a notícia de que Haroldo não tinha muito tempo de vida. Eles decidiram esperar na Flandres até ouvir sobre a morte de Haroldo, que finalmente ocorreu em março de 1040.

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Retorno à Inglaterra e o Encomium Emmae Reginae

Após a morte de Haroldo, Ema retornou à Inglaterra com Hardacanuto, que se tornou rei. Hardacanuto logo trouxe seu meio-irmão muito mais velho, Eduardo, o Confessor, de volta do exílio. Ema agora tinha um filho de cada um de seus casamentos com ela na Inglaterra, e foi nesse momento que o Encomium Emmae Reginae – a própria versão da história de Ema – foi concluído.

Harthacnut
Hardacanuto British Library (Public Domain)

O Encomium apresentava uma visão idealizada de sua situação, onde ela e seus dois filhos reais coexistiam em harmonia, mas omitia qualquer coisa que a pintasse de forma negativa ou fosse inconveniente. O Encomium é uma versão da vida de Ema em que Etelredo era irrelevante, Elfleda de Northampton era uma concubina e Haroldo Pé de Lebre era um tirano brutal, ilegítimo e irreligioso. Essas alegações podem parecer propaganda descarada, mas também são encontradas em outras fontes medievais, como a Crônica Anglo-Saxã e João de Worcester, sugerindo que o círculo de Ema foi eficaz em espalhá-las.

A realidade da política inglesa dos anos 1040 era muito mais confusa do que o Encomium deixa transparecer; quando Hardacanuto morreu e foi sucedido por Eduardo, o Confessor, Eduardo tomou terras e riquezas de sua mãe. Segundo a Crônica Anglo-Saxã, Eduardo estava chateado com a falta de apoio de Ema ao longo dos anos. O novo rei levou alguns de seus condes mais poderosos para marginalizar Ema, o que sugere tanto a posição precária de Eduardo quanto o alcance do poder de Ema. Ema logo se reconciliou com Eduardo, mas nunca mais influenciou a política inglesa no mesmo nível. Talvez Ema, em seu semi-retiro, tenha funcionado como uma estadista idosa em vez da negociadora de poder que já foi. De qualquer forma, pouco se ouviu dela depois disso.

Morte e Legado

Era raro que as esposas reais inglesas tivessem suas mortes registradas, mas quando Ema da Normandia morreu em 1052, até os cronistas medievais notaram. Diferentes versões da Crônica Anglo-Saxã marcam sua passagem de maneiras ligeiramente diferentes, com uma chamando-a de esposa de Etelredo e Canuto e outra referindo-se a ela como a mãe de Hardacanuto e Eduardo. Ambos são precisos à sua maneira, dois lados da mesma moeda e duas dimensões da mesma pessoa.

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Além de seu status como esposa e mãe de vários reis, Ema também foi altamente significativa por encomendar sua própria obra histórica, aparecer em várias peças de arte contemporânea e por abranger a conquista dinamarquesa de uma forma que ninguém mais poderia: ela esteve no lado perdedor com Etelredo, no lado vencedor com Canuto e foi a mãe de dois dos sucessores de Canuto. Ema também foi uma fonte da reivindicação de Guilherme, o Conquistador, à Inglaterra, como sua tia-avó, o que significa que ela também fez a ponte entre a conquista dinamarquesa e a normanda da Inglaterra.

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Sobre o Tradutor

Matheus Kunitz Daniel
Professor de inglês, game designer e escritor. Entusiasta de história desde criança, traduzo textos com rigor e narrativa fluida, unindo precisão acadêmica e experiência em criação de mundos imersivos.

Sobre o Autor

Brandon M. Bender
Brandon M. Bender's work on early medieval England has appeared in peer reviewed publications (The Year’s Work in Medievalism and Rounded Globe) and publications for wider audiences (Medieval World, Epoch History Magazine, Camedieval, and others).

Cite Este Artigo

Estilo APA

Bender, B. M. (2025, setembro 04). Ema da Normandia. (M. K. Daniel, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23687/ema-da-normandia/

Estilo Chicago

Bender, Brandon M.. "Ema da Normandia." Traduzido por Matheus Kunitz Daniel. World History Encyclopedia, setembro 04, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23687/ema-da-normandia/.

Estilo MLA

Bender, Brandon M.. "Ema da Normandia." Traduzido por Matheus Kunitz Daniel. World History Encyclopedia, 04 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23687/ema-da-normandia/.

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