Cniva (ou Kniva, reinou por volta de 250 até possivelmente 270 d.C.) foi o rei dos Godos que derrotou o imperador Decius (reinou de 249 a 251) na Batalha de Abrito, em 251. Pouco se sabe sobre ele além de sua campanha em 251, na qual tomou com sucesso Filipópolis (a moderna Plovdiv, na Bulgária), matando mais de 100.000 cidadãos romanos e escravizando os sobreviventes, sitiou a cidade de Nicópolis e derrotou os romanos sob o comando de Décio, matando tanto o imperador quanto seu filho.
Cniva pode ter aprendido habilidades estratégicas e táticas no exército romano, já que muitos guerreiros godos se alistavam ou serviam como mercenários, ou pode simplesmente ter tido talento natural para a guerra. De qualquer forma, mostrou-se adversário terrível para Roma e derrotou suas forças de maneira tão completa que, após a morte de Décio, os romanos não tiveram escolha a não ser permitir que ele deixasse seu território em segurança, levando consigo todo o saque e os prisioneiros capturados em Filipópolis.
O estudioso Michael Grant observa que “em Kniva, os godos tinham um líder de calibre sem precedentes, cuja estratégia em larga escala criou os mais graves perigos que o império havia enfrentado até então” (31). Ainda assim, após a campanha de 251, nada mais se ouve sobre Cniva, a menos que se aceite a teoria de que ele seja a mesma pessoa que o rei Cannabaudes (também grafado como Cannabas, por volta de 270), morto em batalha, junto com 5.000 de seus soldados, em confronto com o imperador Aureliano (reinou de 270 a 275).
Esse confronto foi uma vitória decisiva para os romanos e, caso se aceite que Cniva e Cannabaudes sejam o mesmo homem, isso explicaria por que Cniva conseguiu tomar com sucesso uma cidade murada por meio de cerco, enquanto exércitos godos posteriores não conseguiram: aqueles que possuíam o conhecimento e a habilidade para a guerra de cerco foram mortos em 270.
A Crise do Terceiro Século
Cniva viveu e lutou durante o período da história romana conhecido como a Crise do Terceiro Século (também chamada de Crise Imperial, 235–284). Esse período foi marcado por guerras civis quase constantes, pragas, incerteza econômica, ameaças de invasão, os impérios separatistas sob Póstumo (reinou de 260 a 269) e Zenóbia (reinou de 267 a 272), além de um Império Romano instável e em declínio, governado por líderes que, em sua maioria, estavam mais interessados em sua própria glória pessoal do que no bem do Estado.
A Crise do Terceiro Século começou com o assassinato do imperador romano Alexandre Severo (reinou de 222 a 235). Alexandre era controlado por sua mãe, que ditava a maioria, se não todas, as suas políticas, o que se mostrou uma grande fragilidade. Em campanha com suas tropas contra as tribos germânicas, Alexandre seguiu o conselho da mãe para pagar aos germânicos pela paz em vez de enfrentá-los em batalha. Essa decisão foi vista por suas tropas como desonrosa e covarde, e eles o mataram juntamente com sua mãe, elevando o comandante Maximino Trácio (reinou de 235 a 238) para substituí-lo.
Entre 235 e 284, mais de 20 imperadores assumiriam e deixariam o poder, alguns muito rapidamente, em comparação com os 26 que reinaram de 27 a.C. a 235 d.C. Esses governantes são hoje chamados de “imperadores de quartel”, porque eram apoiados e, em grande parte, provinham do exército. O imperador de Roma sempre contou, em algum grau, com o apoio militar, mas agora esse apoio tornou-se vital para seu sucesso e até para sua sobrevivência. A diferença entre esses imperadores e os que vieram antes e depois era que eles eram amplamente movidos por ambição pessoal e dependiam de sua popularidade junto ao exército romano — e, portanto, do contínuo apoio militar — para manter sua autoridade.
Durante a Crise do Terceiro Século, o valor do imperador era medido por resultados imediatos e perceptíveis; um homem ponderado ou cauteloso não sobreviveria no cargo por mais tempo do que alguém inepto ou covarde e, ainda assim, esses julgamentos eram inteiramente subjetivos. Ao longo desse período, não é exagero dizer que elevar um homem à posição de imperador era praticamente o mesmo que condená-lo à morte; se um imperador não apresentasse resultados, era morto e substituído por outro que demonstrasse mais potencial.
Cniva, Décio e a Queda de Filipópolis
Esse padrão se manteve quando Maximino Trácio foi assassinado por suas tropas em favor do jovem imperador Gordiano III (reinou de 238 a 244), que possivelmente foi assassinado por seu sucessor Filipe, o Árabe (reinou de 244 a 249), que por sua vez foi morto por Décio. Em cada um desses casos, o assassinato não ocorreu no vazio nem foi orquestrado por um único homem. Se um imperador perdesse o favor de suas tropas, podia praticamente contar com a formação de uma conspiração que resultaria na sua morte.
Foi em meio a esse período instável que Cniva marchou para o território romano, em 250, à frente de um exército composto por diferentes povos: carpos, bastarnas, taifalos, vândalos e seus próprios godos. Ele atacou primeiro a cidade fronteiriça de Novae, mas foi repelido pelo general (e futuro imperador) Galo (reinou de 251 a 253). Cniva então avançou e sitiou a cidade de "Nicópolis junto ao Ístrio" (Ístrio era o antigo nome do rio Danúbio), enquanto o contingente carpo de seu exército tentava tomar Marcianópolis. Ambas as cidades repeliram os ataques graças às suas fortificações e Décio chegou com seu exército para aliviar o cerco de Nicópolis.
Décio estava na região do Danúbio desde 249, quando depôs Filipe e assumiu como imperador. Ele havia estado bastante ocupado com várias incursões em território romano porque Filipe havia interrompido os pagamentos aos godos, aos persas sassânidas e a outras tribos, iniciados por Maximino Trácio, que os mantinham sob controle (ou, pelo menos, não abertamente hostis). Décio expulsou as forças de Cniva de Nicópolis, mas não o derrotou de forma decisiva. Cniva conduziu suas forças para o norte, devastando o território, sendo perseguido por Décio.
No norte, próximo à cidade de Augusta Traiana, Décio fez uma pausa para descansar seu exército e foi atacado pelas forças de Cniva. Os romanos foram completamente surpreendidos e sofreram pesadas baixas, enquanto Décio e seus comandantes fugiam do campo de batalha com o que restava de seu exército. Cniva reuniu os suprimentos e armas deixados para trás e marchou novamente para o sul, em direção a Filipópolis.
Ele sitiou a cidade no final da primavera de 250, enquanto Décio tentava reorganizar o seu exército. Filipópolis estava guarnecida por uma força trácia sob o comando de Tito Júlio Prisco (por volta de 250), que era pequena demais para derrotar a imensa força dos godos e os seus aliados fora das muralhas. Os trácios proclamaram Prisco imperador, talvez para capacitá-lo legalmente a negociar com os godos, e ele firmou um acordo pelo qual a cidade e seus habitantes seriam poupados caso se rendessem sem resistência. Contudo, assim que os portões foram abertos, os godos ignoraram o acordo e a cidade foi saqueada e incendiada. Prisco foi morto ou capturado nessa ocasião, pois não volta a ser mencionado em relatos posteriores.
A Batalha de Abrito
Cniva saqueou completamente a cidade e fez milhares de cidadãos prisioneiros. Ele então voltou suas forças em direção às fronteiras e à sua terra natal com seus tesouros, enquanto Décio ainda reorganizava suas tropas. Uma vez reorganizadas, as forças romanas novamente perseguiram o exército de Cniva enquanto ele marchava para o norte, em direção à fronteira. Ao saber da perseguição, Cniva interrompeu sua retirada do território romano e posicionou-se em área pantanosa nos arredores da cidade de Abrito (próxima a atual Razgrad, no nordeste da Bulgária), região que aparentemente conhecia bem.
O líder godo dividiu suas forças em várias unidades (as fontes registram pelo menos três e possivelmente sete divisões separadas) ao redor de um grande pântano. Sua linha de frente foi posicionada do outro lado do pântano, enquanto ele e outra unidade se colocaram atrás dele; outras unidades foram posicionadas em ambos os lados. Quando Décio soube que os godos haviam interrompido sua marcha e estavam acampados, apressou-se até o local, organizou suas forças e atacou a linha de frente de Cniva — a única força inimiga que conseguia ver.
Os godos recuaram diante das forças romanas e fugiram pelo pântano, atraindo Décio e o seu exército atrás deles. O pântano anulou completamente qualquer vantagem das formações romanas, e eles se viram presos e então atacados por três lados pelo exército de Cniva. Décio e seu filho foram mortos, e o restante do exército foi quase aniquilado. O comandante Galo, agora proclamado imperador, conduziu os sobreviventes para fora do pântano e recuou.
Cniva levou seus homens e o saque de Filipópolis e seguiu caminho para casa. Desde então, Galo foi criticado por não perseguir os godos e resgatar os cativos, mas como observa o estudioso Herwig Wolfram, ele tinha pouca escolha:
[Galo] teve de permitir que os godos seguissem com seus ricos despojos humanos e materiais e ainda teve de prometer-lhes pagamentos anuais. É por isso que até hoje é acusado de traição e incompetência. Mas, na verdade, suas ações foram impostas pelas circunstâncias. Após as derrotas em Deroea e Filipópolis, e especialmente após a catástrofe em Abrito, o novo imperador não tinha outra escolha. Ele precisava se livrar dos godos o mais rápido possível. (46)
Cniva como Cannabaudes
Após deixar Abrito, em 251, não há mais notícias sobre Cniva. Entre cerca de 253 e 270, no entanto, os godos dominaram os territórios do Danúbio e nenhum imperador romano conseguiu desalojá-los. Eles lançaram navios no Mar Negro e devastaram as costas como piratas, além de continuarem agindo livremente por toda a região. A Batalha de Naissus, em 268/269, foi a grande vitória romana sobre os godos, mas ainda assim não os expulsou das fronteiras romanas.
Em 270, porém, o imperador Aureliano enfrentou uma grande força de godos sob um rei cujo nome é registrado na Historia Augusta como Cannabaudes/Cannabas. Foi uma vitória romana decisiva, com 5.000 baixas godas. Aureliano expulsou os sobreviventes dos Bálcãs para a Dácia, fortaleceu as defesas do Mar Negro e quebrou o poder godo na região. Em seguida, deixou a Dácia para os godos e retornou ao seu objetivo de reunificar o império, derrotando Zenóbia de Palmira no leste e depois reduzindo o Império Gálico sob Tétrico I (reinou de 271 a 274) no oeste.
Não seria impossível que o mesmo homem tivesse liderado os godos em 251 e em 270, mesmo que Cniva já estivesse relativamente idoso nessa época. O sucesso dos godos em seus confrontos com Roma entre 251 e cerca de 269 permaneceu consistente até a Batalha de Naissus, quando o imperador Cláudio II (reinou de 268 a 270) enfrentou uma força gótica liderada por um rei não identificado, que poderia ter sido Cniva. Cláudio II recebeu o título de Cláudio Gótigo (Claudius Gothicus) por sua vitória, mas seu sucesso deveu-se, na verdade, às táticas de seu comandante de cavalaria, Aureliano, que ao se tornar imperador, utilizaria as mesmas táticas com eficácia contra as forças de Palmira.
Tendo derrotado as forças godas sob Cláudio, Aureliano aparentemente não teve dificuldade em fazê-lo novamente em 270 como imperador, quando matou o rei Cannabaudes e 5.000 de seus homens. Após esse confronto, os godos foram empurrados para a Dácia e perderam o domínio sobre os territórios que haviam conquistado desde 251. Depois de 270, os godos não representaram grande ameaça a Roma até quase meados do século seguinte. É provável, portanto, que seu sucesso anterior tenha sido devido a um rei poderoso e habilidoso na guerra.
Um dos aspectos mais interessantes da história de Cniva é sua capacidade de sitiar cidades romanas. Mais de 100 anos depois, o líder godo Fritigerno (por volta de 380) não conseguiu tomar cidades fortificadas por carecer de máquinas de cerco e das habilidades necessárias. Embora Filipópolis tenha sido entregue pelo comandante da guarnição, o cerco deve ter sido eficaz o suficiente para justificar essa decisão.
Como é evidente que Cniva foi capaz de subjugar uma grande cidade pela força — enquanto Fritigerno evitava deliberadamente tentar tomar cidades — deve-se supor que essas habilidades foram perdidas entre seu tempo e o de Fritigerno. É bastante provável, portanto, que Cniva tenha sido o Cannabaudes morto em 270, juntamente com quaisquer de seus comandantes que também possuíam o conhecimento e as habilidades relacionadas à guerra de cerco.
A respeito dessa possibilidade, Wolfram escreve:
Embora, em termos formais, possamos estar lidando com uma equação de duas incógnitas [os detalhes das vidas de Cniva e Cannabaudes], uma solução hipotética seria a seguinte: Cniva, um bem-sucedido comandante godo e rei do exército no território tribal ocidental, é morto em batalha como Cannabas contra Aureliano. Com ele perecem seu povo, supostamente cinco mil homens; a realeza é extinta. (35)
Se Cniva fosse o rei dos godos derrotado em Naissus (atual Niš, na Sérvia), isso tornaria a vitória de Cláudio II ainda mais gloriosa, ao vingar a morte de Décio e de seu filho em Abrito, em 251. No entanto, se esse fosse o caso, seria de se esperar alguma menção à identidade do rei. Tal como está, o rei dos godos em Naissus permanece sem nome, e a grande vitória de Cláudio II é celebrada simplesmente como a expulsão dos godos das fronteiras balcâs, sem referência à vingança por Décio. Isso levou alguns estudiosos a concluir que o rei godo em Naissus não poderia ter sido Cniva, mas é possível que os escritores romanos simplesmente não soubessem o nome do rei.
Quando a batalha de Aureliano contra os godos é registrada, o rei godo é identificado como Cannabaudes/Cannabas e, embora alguns estudiosos tenham sugerido que fosse filho de Cniva, não há relatos antigos que sustentem essa afirmação. Considerando a perda de conhecimento militar evidente nos confrontos godos após a vitória de Aureliano em 270, o cenário mais provável é que tenha sido o próprio Cniva quem finalmente caiu diante de Aureliano — um adversário capaz de superar até mesmo os maiores reis guerreiros.

