O Ankh

Joshua J. Mark
por , traduzido por Larissa Souza
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Chain of Ankhs (by Osama Shukir Muhammed Amin, Copyright)
Corrente de Cruzes Ansatas Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O Ankh é um dos símbolos mais reconhecíveis do antigo Egito, conhecido como "a chave da vida" ou "cruz da vida" e datado do Período Dinástico Inicial (c. 3150 - 2613 a.C.). É uma cruz com um laço no topo, às vezes ornamentada com símbolos ou floreios decorativos, mas geralmente apenas uma cruz dourada simples.

É um símbolo hieroglífico egípcio para "vida" ou "sopro de vida" (`nh = ankh) e, como os egípcios acreditavam que a jornada terrena era apenas parte de uma vida eterna, o ankh simboliza tanto a existência mortal quanto a vida após a morte. É um dos símbolos mais antigos do antigo Egito, muitas vezes visto com os símbolos djed e uas, em diversas pinturas e inscrições em túmulos de deuses egípcios e usado pelos egípcios como um amuleto.

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A associação do ankh com a vida após a morte o tornou um símbolo especialmente potente para os Cristãos Coptas do Egito no século IV d.C., que o tomaram como seu. Esse uso do ankh, como um símbolo da promessa de Cristo da vida eterna através da crença em seu sacrifício e ressurreição, é provavelmente a origem do uso cristão da cruz como um símbolo de fé hoje.

Os primeiros cristãos de Roma e de outros lugares usavam como sinal de sua fé o símbolo de fertilidade do peixe. Eles não considerariam usar a imagem da cruz, uma forma conhecida de execução, mais do que alguém hoje escolheria usar uma cadeira elétrica como amuleto. A cruz ankh, já estabelecida como um símbolo da vida, prestou-se facilmente à assimilação na fé cristã primitiva e continuou como o símbolo dessa religião.

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Origem e Significado

A origem do ankh é desconhecida. O egiptólogo Sir Alan H. Gardiner (1879 - 1963) acreditou que se desenvolveu a partir de uma tira de sandália com a alça superior em torno do tornozelo e a haste vertical presa a uma sola nos dedos dos pés. Gardiner chegou à sua conclusão porque a palavra egípcia para "sandália" era "nkh", que veio da mesma raiz que "ankh" e, além disso, porque a sandália fazia parte da vida diária do povo do antigo Egito e o sinal ankh passou a simbolizar a vida. No entanto, essa teoria nunca foi amplamente aceita.

Ankh, Djed & Was
Ankh, Djed e Uas Kyera Giannini (CC BY)

A teoria do egiptólogo E.A. Wallis Budge (1857-1934), que afirma que se originou da fivela do cinto da deusa Ísis, é considerada a mais provável, mas ainda não é universalmente aceita. Wallis Budge equiparou o ankh ao símbolo egípcio tjet, o "nó de Ísis", um cinto cerimonial que se acredita representar a genitália feminina e simbolizar a fertilidade. Essa teoria, da origem do ankh decorrente de um símbolo de fertilidade, está de acordo com seu significado ao longo da história egípcia antiga e além, até os dias atuais. O egiptólogo Wolfhart Westendorf (n. 1924) apoia a afirmação de Wallis Budge, observando a semelhança do ankh com o tjet e o uso de ambos os símbolos desde o início da história do Egito. O ankh sempre foi associado à vida, à promessa de vida eterna, ao sol, à fertilidade e à luz. A acadêmica Adele Nozedar escreve:

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A quantidade de significados que podem ser extraídos de um símbolo tão simples é inspiradora. O ankh representa a genitália masculina e feminina, o sol surgindo no horizonte e a união do céu e da terra. Essa associação com o sol significa que o ankh é tradicionalmente desenhado em dourado - a cor do sol - e nunca em prata, que se relaciona com a lua. Deixando de lado as complexidades desses elementos separados, no entanto, como o que o ankh se parece? Sua semelhança com uma chave dá uma pista para outro significado desse símbolo mágico. Os egípcios acreditavam que a vida após a morte era tão significativa quanto a atual e o ankh fornecia a chave para os portões da morte e o que estava além. (18)

Anúbis ou Ísis são frequentemente vistos colocando o ankh contra os lábios da alma na vida após a morte para revitalizá-la.

É por essa razão que o ankh aparece com frequência em pinturas e inscrições de túmulos. Divindades como Anúbis ou Ísis são frequentemente vistas colocando o ankh contra os lábios da alma na vida após a morte para revitalizá-la e despertar essa alma para uma vida após a morte. A deusa Ma'at é frequentemente retratada segurando um ankh em cada mão e o deus Osíris segura o ankh em diversas pinturas de túmulos. A associação do ankh com a vida após a morte e os deuses tornou-o um símbolo proeminente em caixões, para amuletos colocados no túmulo e em sarcófagos.

O Ankh e a Deusa Ísis

O ankh teve seu uso popularizado no Egito durante o Período Dinástico Inicial com a ascensão dos cultos de Ísis e Osíris. A associação do ankh com o tjet mencionado anteriormente é apoiada por imagens antigas de Ísis com o cinto tjet anteriores ao aparecimento do ankh.

Isis Wall Painting
Pintura de Ísis em um Muro The Yorck Project Gesellschaft für Bildarchivierung GmbH (GNU FDL)

O culto de Osíris tornou-se o mais popular no Egito até que o culto de Ísis - que contava a mesma história e prometia as mesmas recompensas - o dominou. Osíris continuou sendo muito admirado, mas, com o tempo, tornou-se um personagem secundário na história de sua ressurreição e renascimento. No começo do Período Dinástico Inicial, no entanto, o culto de Osíris era dominante, pois ele era o deus que havia morrido e voltado à vida, trazendo assim vida aos outros. Ísis, neste momento, era uma deusa-mãe associada à fertilidade, mas logo se juntou a Osíris como sua esposa dedicada, que o resgatou após seu assassinato por Set e o trouxe de volta à vida. O egiptólogo Flinders Petrie escreve:

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Ísis vinculou-se muito no começo ao culto de Osíris e aparece em mitos posteriores como irmã e esposa de Osíris. Mas ela sempre permaneceu em um plano muito diferente de Osíris. Sua adoração e sacerdócio eram muito mais populares do que os de Osíris, as pessoas eram nomeadas em sua homenagem com mais frequência do que em Osíris, e ela aparece muito mais comumente nas atividades da vida. Sua união ao mito de Osíris de forma alguma apagou sua posição independente e importância como divindade, embora isso lhe desse uma devoção muito mais generalizada. A união de Hórus com o mito, e o estabelecimento de Ísis como a deusa mãe, foi o foco principal de sua importância em tempos posteriores. Ísis, como a mãe que amamenta, é raramente mostrada até a 26ª dinastia; e então, ela se tornou mais popular até superar todas as outras religiões do país. (13)

Muitos dos deuses do Egito são retratados segurando o ankh, mas Ísis com mais frequência do que a maioria. Com o tempo, Ísis tornou-se a deusa mais popular do Egito e todos os outros deuses eram vistos como meros aspectos dessa divindade mais poderosa e abrangente. O culto de Ísis prometia vida eterna através da ressurreição pessoal. Da mesma forma que Ísis resgatou seu marido Osíris da morte, ela também poderia resgatar aqueles que depositaram sua fé nela. A associação do ankh com uma deusa tão poderosa o imbuiu de um significado maior, pois agora estava ligado especificamente à grande deusa que poderia salvar a alma e prover outra para a vida após a morte.

A História do Ankh em Uso

A importância do ankh estava no reconhecimento instantâneo do que o símbolo representava. Mesmo aqueles que não sabiam ler eram capazes de entender o simbolismo de objetos como o djed ou o ankh. O ankh egípcio nunca se associou unicamente a Ísis - como mencionado, muitos deuses são retratados carregando o símbolo - mas à medida que o djed se tornou ligado a Osíris, o ankh se encaixava mais no reino de Ísis e seu culto.

Objects from the Tomb of Thutmose IV
Objetos da Tumba de Thutmose IV Keith Schengili-Roberts (CC BY-SA)

Na época do Antigo Império (c. 2613 - 2181 a.C.), o ankh estava bem estabelecido como um símbolo poderoso da vida eterna. Os mortos eram referidos como ankhu (tem vida/vivendo) e caixões e sarcófagos, ornamentados regularmente com o símbolo, eram conhecidos como neb-ankh (possuidores de vida). Durante o Império Médio (2040-1782 a.C.), a palavra nkh era usada para espelhos e vários espelhos de mão foram criados no formato do ankh, sendo o mais famoso o encontrado no túmulo de Tutancâmon.

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A associação do ankh com espelhos não foi uma coincidência. Os egípcios acreditavam que a vida após a morte era uma imagem espelhada da vida na Terra e acreditava-se que os espelhos continham propriedades mágicas. Durante o Festival das Lanternas para a deusa Neith (outra divindade vista com o ankh), todo o antigo Egito queimava lamparinas a óleo durante a noite para refletir as estrelas do céu e criar uma imagem espelhada dos céus na terra. Isso era feito para ajudar a separar o véu entre os vivos e os mortos, para que se pudesse falar com aqueles amigos e entes queridos que haviam passado para o paraíso no Campo dos Juncos. Os espelhos eram frequentemente usados para fins de adivinhação a partir do Reino Médio.

O ankh também era um amuleto popular que era usado em vida e levado para o túmulo. A acadêmica Margaret Bunson escreve:

Chamados de wedjau, os amuletos eram feitos de metal, madeira, faiança, terracota ou pedra e acreditava-se que continham poderes mágicos, proporcionando ao usuário benefícios e encantos sobrenaturais. A potência do poder do amuleto era determinada pelo material, cor, forma ou feitiço de origem. Os egípcios vivos usavam amuletos como pingentes e os mortos tinham amuletos colocados em seus envoltórios de linho em seus caixões. Vários estilos de amuletos eram empregados em diferentes épocas e para diferentes propósitos. Alguns eram esculpidos como símbolos sagrados para atrair a atenção de uma divindade em particular, garantindo assim a intercessão e intervenção do deus em nome do usuário. (21)

O djed era um amuleto muito popular, assim como o ankh. Embora o amuleto mais comum no antigo Egito fosse o escaravelho-sagrado (o besouro), o ankh era quase tão amplamente utilizado. Durante o Império Novo (1570-1069 a.C.), quando o culto do deus Amon estava aumentando em poder e tamanho, o ankh foi associado a ele. O ankh era usado nas cerimônias do templo regularmente nesta época e tornou-se associado ao culto de Amon e da realeza.

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Scarab
Escaravelho Walters Art Museum (CC BY-SA)

Durante o Período de Amarna (1353-1336 a.C.), quando Akhenaton proibiu o culto de Amon assim como dos outros deuses e elevou o deus Aton como a única divindade do Egito, o símbolo ankh continuou em uso popular. O símbolo é visto em pinturas e inscrições no final dos feixes de luz que emanam do disco solar de Aton, trazendo vida àqueles que acreditam. Após a morte de Akhenaton, seu filho Tutankhaten (cujo nome contém o símbolo ankh e significa "imagem viva do deus Aton") assumiu o trono, reinando entre 1336-1327 a.C., mudou seu nome para Tutankhamon ("imagem viva do deus Amon") e restabeleceu a antiga religião, mantendo o ankh com o mesmo significado que sempre teve.

O ankh continuou sendo um símbolo popular, embora o reinado de Akhenaton fosse desprezado e o sucessor de Tutankhamon, Horemheb (1320 - 1292 a.C.), tenha tentado ao máximo apagar todas as evidências do Período de Amarna da cultura e história egípcias. O maior governante do Império Novo, Ramsés II (r. 1279 - 1213 a.C.) empregou o ankh regularmente em suas inscrições e ele continuou em uso durante o restante da história do Egito.

O Ankh e o Cristianismo

Conforme o cristianismo ganhou aceitação mais ampla no século IV d.C., muitos dos símbolos da antiga religião caíram em desuso e foram banidos ou simplesmente esquecidos. O símbolo djed, tão intimamente associado a Osíris, era um deles, mas a cruz ankh continuou sendo usada. O estudioso Jack Tresidder escreve sobre o ankh:

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Sua forma tem sido entendida de várias maneiras: como o sol nascente no horizonte, como a união do masculino e do feminino, ou outros opostos, e também como uma chave para o conhecimento esotérico e para o além-mundo do espírito. A igreja Copta do Egito herdou o ankh como uma forma da cruz Cristã, simbolizando a vida eterna por meio de Cristo. (35)

Enquanto outros vestígios da antiga religião desapareceram, o ankh assumiu um novo papel, mantendo seu antigo significado de vida e a promessa de vida eterna. Adele Nozedar comenta:

Símbolos poderosos frequentemente se desviam para outras culturas, apesar de suas origens, e o ankh não é exceção. Por simbolizar a imortalidade e o universo, foi inicialmente emprestado pelos Cristãos Coptas do século IV que o usaram como um símbolo para reforçar a mensagem de Cristo de que há vida após a morte. (18)

A cruz ankh como símbolo da vida eterna acabou perdendo seu laço no topo para se tornar a cruz Cristã que, assim como o antigo ankh, é usada pelos crentes em Jesus Cristo nos dias atuais pela mesma razão: para se identificar com seu deus e tudo o que ele promete.

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Perguntas & Respostas

O que é um Ankh?

O Ankh é um símbolo antigo egípcio na forma de uma cruz com uma alça no topo, associado à vida e à vida eterna após a morte.

Qual é a evidência mais antiga do ankh na história?

O ankh aparece pela primeira vez no antigo Egito durante o Período Dinástico Inicial, c.3150-2613 a.C.

Qual é o significado do ankh?

O ankh é um símbolo hieroglífico egípcio que significa "vida" ou "sopro de vida" e está associado à vida na Terra, à vida após a morte, imortalidade, eternidade e divindade.

O ankh é a origem do símbolo da cruz Cristã?

Estudiosos acreditam que o Ankh é o precursor do símbolo da Cruz Cristã, pois foi adotado pelos Cristãos Coptas do Egito no século IV d.C. para simbolizar seu deus, assim como havia sido anteriormente associado aos deuses e deusas do Egito.

Sobre o Tradutor

Larissa Souza
Larissa Souza, nascida no Rio de Janeiro, Brasil. Formada em Medicina Veterinária, tradutora do Inglês para o português, entusiasta de história.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, agosto 31). O Ankh. (L. Souza, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15054/o-ankh/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "O Ankh." Traduzido por Larissa Souza. World History Encyclopedia, agosto 31, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15054/o-ankh/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "O Ankh." Traduzido por Larissa Souza. World History Encyclopedia, 31 ago 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15054/o-ankh/.

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