Atahualpa

O último governante dos Incas
Mark Cartwright
por , traduzido por Marco A. Kunzler
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Atahualpa (by Brooklyn Museum, CC BY-NC-SA)
Atahualpa Brooklyn Museum (CC BY-NC-SA)

Atahualpa (Atawallpa) foi o último governante do Império Inca. Ele reinou de 1532 até sua captura e execução pelas forças invasoras espanholas lideradas por Francisco Pizarro em 1533. Os atribulados incas haviam sofrido seis anos de uma devastadora guerra civil, e Atahualpa mal começava a desfrutar de sua ascensão ao trono quando os espanhóis chegaram para virar o mundo inca de cabeça para baixo.

Enfraquecidos ainda mais pelas doenças trazidas pelos europeus, que dizimaram milhões, os incas nada puderam fazer contra os invasores melhor armados, mesmo que fossem apenas 168. Os conquistadores eram absolutamente implacáveis e não mediriam esforços para conquistar as fabulosas riquezas do maior império que as Américas já conheceram.

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Guerra civil e sucessão

O pai de Atahualpa, Wayna Qhapaq, morreu em 1528 de varíola, sendo a vítima mais ilustre da epidemia de doenças europeias que se espalhou a partir da América Central ainda mais rapidamente do que os próprios invasores estrangeiros conseguiram avançar. Essa epidemia exterminou espantosamente entre 65% e 90% da população nativa. Quando Wayna Qhapaq morreu sem escolher um segundo herdeiro (seu primeiro escolhido, Ninan Cuyuchi, também morreu de varíola), Atahualpa disputou o trono com seu meio-irmão Waskar (ou Huascar) em uma guerra civil extremamente devastadora, da qual os espanhóis se aproveitaram plenamente ao chegarem ao território inca em 1532. Atahualpa estava sediado na capital do norte, Quito, enquanto Waskar estava na capital inca, Cuzco. Depois que as relações diplomáticas se deterioraram entre os dois irmãos, eclodiu um conflito armado no norte. Seguiu-se uma série de batalhas entre a nobreza inca, que foi custosa para ambos os lados, até que, após seis anos de luta, Atahualpa finalmente saiu vitorioso.

Quando os espanhóis chegaram, Atahualpa já havia conseguido capturar Waskar, mas as facções que dividiram profundamente o império continuavam existindo. Waskar foi preso e seu grupo familiar foi exterminado, assim como aqueles que o apoiavam. Atahualpa chegou a matar historiadores e destruir os registros incas feitos com quipus. Isso representava uma renovação total, o que os incas chamavam de pachakuti, ou "a virada do tempo e do espaço" — um evento que muda uma época e que, segundo a crença inca, ocorria periodicamente ao longo dos tempos. O que Atahualpa não sabia era que outro pachakuti estava a menos de um ano de acontecer, e desta vez ele seria sua vítima.

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O reinado de Atahualpa pode ter sido breve, mas, como Sapa Inca (“Único”), ele viveu uma vida de extremo luxo.

O reinado de Atahualpa pode ter sido breve, mas, como Sapa Inca (“Único”), ele viveu uma vida de extremo luxo. Bebendo em taças de ouro, calçando sandálias com solas de prata e tratado como uma manifestação do deus Sol Inti na Terra, Atahualpa era o líder do maior e mais rico império que as Américas já haviam visto. Seu gosto pela opulência foi registrado pelos espanhóis, que contaram que ele certa vez mandou confeccionar um manto feito exclusivamente de peles de morcego. Como rei inca e membro da linhagem real, ele tinha o direito de usar ainda mais joias de ouro do que a nobreza já carregava em abundância. Suas insígnias incluíam uma faixa de penas (ilauto), um cetro dourado (champi) e enormes brincos de ouro. O monarca viajava em uma liteira de ouro e prata, ainda mais adornada com penas de papagaio. Ele era alimentado por um servo, e tudo o que o membro da realeza tocava era recolhido e queimado em uma cerimônia anual para afastar a feitiçaria. Se algum governante foi mimado, esse foi o Sapa Inca do antigo Peru.

A chegada de Pizarro

Na sexta-feira, 15 de novembro de 1532, a força espanhola de 168 homens liderada por Francisco Pizarro aproximou-se da cidade inca de Cajamarca, nos Andes do Peru. Pizarro enviou um recado dizendo que desejava se encontrar com o rei inca, que estava ali aproveitando as águas termais locais e celebrando sua recente vitória sobre Waskar. Atahualpa concordou em finalmente se encontrar com os muito comentados homens brancos barbudos, que eram conhecidos por estarem avançando do litoral há algum tempo. Confiante e cercado por seu exército de 80.000 homens, Atahualpa aparentemente não enxergou nenhuma ameaça em uma força inimiga tão pequena e fez Pizarro esperar até o dia seguinte. Então, sentado em um trono baixo de madeira e acompanhado por todas as suas esposas e nobres, o governante inca finalmente ficou cara a cara com esses curiosos visitantes de outro mundo.

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Inca Ruler Atahualpa
Governante Inca Atahualpa Mary Harrsch (taken at the Ojai Valley Museum) (CC BY-NC-SA)

A captura de Atahualpa

O primeiro encontro formal entre Pizarro e Atahualpa incluiu alguns discursos, uma bebida compartilhada enquanto assistiam a uma demonstração de habilidade equestre espanhola, e pouco mais. Ambos os lados se retiraram planejando capturar ou matar a outra parte na primeira oportunidade que surgisse. No dia seguinte, Pizarro, aproveitando-se da arquitetura labiríntica da cidade inca, posicionou seus homens em emboscada para aguardar a chegada de Atahualpa à praça principal. Quando a tropa real chegou, Pizarro disparou seus pequenos canhões e então seus homens, usando armaduras, atacaram a cavalo.

Na batalha que se seguiu, onde armas de fogo enfrentaram lanças, flechas, estilingues e clavas, 7.000 incas foram mortos, enquanto os espanhóis não sofreram nenhuma perda. Atahualpa recebeu um golpe na cabeça e foi capturado com vida. Quer mantido como refém por Pizarro, quer oferecendo um resgate ele mesmo, o retorno seguro de Atahualpa ao seu povo só aconteceria se uma sala de 6,2 x 4,8 metros fosse preenchida com todos os tesouros que os incas pudessem oferecer até uma altura de 2,5 metros. Isso foi feito, e a câmara foi empilhada até o alto com objetos de ouro, desde joias até ídolos. Em seguida, a sala foi preenchida duas vezes mais com objetos de prata. Toda a tarefa levou oito meses, e o valor atual dos tesouros acumulados ultrapassaria os 50 milhões de dólares. Enquanto isso, Atahualpa continuava a governar seu império mesmo em cativeiro, e Pizarro enviava expedições exploratórias a Cuzco enquanto aguardava reforços vindos do Panamá. Então, após receber o resgate, Pizarro julgou e executou Atahualpa sumariamente, em 26 de julho de 1533. O rei inca foi originalmente condenado à morte na fogueira, mas, após o monarca aceitar ser batizado, a pena foi comutada para morte por estrangulamento.

Inca Gold Sun Mask
Máscara Solar de Ouro Inca Andrew Howe (CC BY-NC-SA)

Alguns dos homens de Pizarro acharam essa decisão a pior possível, mas o astuto líder espanhol percebeu o quão subservientes os incas eram ao seu rei, mesmo quando ele estava preso pelo inimigo. Como descreveu Miguel de Estete, o rei recebia visitantes durante seu cativeiro,

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Quando chegavam diante dele, prestavam-lhe grande reverência, beijando seus pés e mãos. Ele os recebia sem olhar para eles. É notável destacar a dignidade de Atahualpa e a grande obediência que todos lhe concediam (D'Altroy, 93).

Como um deus vivo, Pizarro talvez soubesse que apenas a morte do rei poderia causar a derrota total dos incas. De fato, mesmo após a morte, o rei inca continuou a exercer influência sobre seu povo, pois a cabeça decapitada de Atahualpa deu origem à duradoura lenda de Inkarri. Pois os incas acreditavam que, um dia, da cabeça crescerá um novo corpo e seu governante retornará, derrotará os espanhóis e restaurará a ordem natural das coisas.

O colapso do Império Inca.

Uma das razões pelas quais o império inca desmoronou tão rapidamente após a morte de Atahualpa, talvez em menos de 40 anos, foi o fato de ter sido fundado e mantido pela força, e os incas governantes (apenas 40.000) eram frequentemente impopulares entre seus súditos (10 milhões de andinos), especialmente nos territórios do norte. Isso ocorreu, entre outras razões, porque os incas cobravam pesados tributos dos povos conquistados — tanto em bens quanto em trabalho — e forçavam a presença de súditos incas leais nessas comunidades para integrá-las melhor ao império. O Império Inca, na verdade, ainda não havia alcançado um estágio de maturidade consolidada — ele havia atingido sua maior extensão apenas alguns anos antes.

Map of the Inca Empire - Expansion and Roads
Império Inca - Expansão e Estradas Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Foi, portanto, uma combinação de fatores — uma verdadeira tempestade perfeita de rebelião, doenças e invasão — que levou à queda de Atahualpa e do poderoso Império Inca na América do Sul. Além disso, o modo de guerra inca era altamente ritualizado, onde elementos como engano, emboscada e subterfúgio eram desconhecidos. Os guerreiros incas eram altamente dependentes de seus oficiais e, se eles caíssem em batalha, um exército inteiro poderia entrar em pânico e recuar rapidamente. Esses fatores e o armamento superior dos europeus deixaram os incas com poucas chances de defender um império enorme e difícil de administrar.

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Conclusão

Pizarro foi criticado pelo rei espanhol Carlos I por tratar um soberano estrangeiro de forma tão desrespeitosa, e suas tentativas de instalar um governante fantoche - Thupa Wallpa, o irmão mais novo de Waskar - não foram suficientes para restaurar qualquer tipo de ordem política. Rapidamente, os espanhóis descobriram que a vasta extensão geográfica de seu novo império e suas dificuldades inerentes de comunicação e controle (mesmo que seus antecessores tivessem construído um excelente sistema de estradas) fizeram com que eles enfrentassem os mesmos problemas de gestão que os incas. Somado a isso, havia o declínio maciço da população após epidemias e comunidades ainda ressentidas com o domínio externo. Para essas tribos locais, uma mudança de governantes, infelizmente, não trouxe nenhuma trégua de um senhor voraz, mais uma vez, ansioso para roubar suas riquezas e impor-lhes uma religião estrangeira.

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Sobre o Tradutor

Marco A. Kunzler
Marco Kunzler es psicólogo licenciado y traductor certificado con experiencia en ONG internacionales. Apasionado por conectar con diversas culturas, apoya el aprendizaje permanente y valora las interacciones significativas entre profesiones y comunidades

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, agosto 03). Atahualpa: O último governante dos Incas. (M. A. Kunzler, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12512/atahualpa/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Atahualpa: O último governante dos Incas." Traduzido por Marco A. Kunzler. World History Encyclopedia, agosto 03, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12512/atahualpa/.

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Cartwright, Mark. "Atahualpa: O último governante dos Incas." Traduzido por Marco A. Kunzler. World History Encyclopedia, 03 ago 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12512/atahualpa/.

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