Relações Nipo-Coreanas Antigas

Mark Cartwright
por , traduzido por Tobias Nedel Graeff
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A Ásia Oriental Antiga era dominada pelos três Estados conhecidos hoje como China, Japão e Coréia. Esses reinos comercializavam matérias-primas e produtos manufaturados de alta qualidade, trocavam ideias e práticas culturais e lutavam entre si de forma equilibrada ao longo dos séculos. A complexa cadeia de reinos sucessivos nos três estados criou uma rica teia de eventos que os historiadores às vezes têm dificuldade em desvendar; uma situação que não é facilitada pelas reivindicações e ideais nacionalistas modernos sobrepostos à antiguidade por todas as três partes. Como afirmou o historiador Kim Won-Yong, “a Coreia atuou como uma ponte cultural entre a China e o Japão” (Portal, 20). Os historiadores continuam a discutir se essa ponte era de sentido único ou duplo e, no primeiro caso, em qual direção, mas basta dizer que essa ponte existiu e que suas consequências na arte, na política e na história de ambos os países repercutem até hoje.

Map of East Asia
Mapa do Leste Asiático Fabartus (Public Domain)

Primeiras Relações Comerciais

É provável que tenha havido contato entre as ilhas japonesas e a península coreana no período Neolítico (6.000-1.000 a.C.), especialmente considerando o nível do mar mais baixo naquela época e, portanto, a proximidade geográfica entre as duas massas continentais. No entanto, os primeiros laços registrados entre o Japão, especificamente a ilha de Kyushu, que os coreanos chamavam de Wae (e os chineses de Wa), ocorreram no período conhecido como Proto-Três Reinos, entre os séculos I e III. Os territórios fragmentados no sul da península ainda não eram ainda Estados centralizados, mas as relações internacionais eram desenvolvidas pelas comandâncias chinesas que ocupavam o norte da Coreia nessa época, especialmente Lelang. Enviados e tributos foram enviados pelos Wa, que até então era uma confederação de pequenos estados no sul e oeste do Japão, sendo o mais importante deles Yamato. Essas missões estão registradas nos anos 57, 107, 238 e 248 d.C.

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Período dos Três Reinos

A partir do século IV d.C., a Coreia passou a ser dominada pelos três reinos de Baekje (Paekche), Goguryeo (Koguryo) e Silla, com uma quarta entidade, menos centralizada, a confederação Gaya (Kaya). Dentre eles, as relações entre Gaya e o Japão eram particularmente estreitas. Os estudiosos continuam a debater qual influenciou mais o outro, e a questão é frequentemente influenciada por preconceitos nacionalistas, de modo que alguns historiadores afirmam que Gaya era uma colônia japonesa, enquanto outros propõem que cavaleiros das estepes eurasianas chegaram ao Japão via Gaya e introduziram o túmulo funerário nessa cultura. Não há evidências conclusivas, embora a maioria dos estudiosos concorde que a cultura Gaya era mais avançada, e descobertas recentes de armaduras de ferro para cavalos, notadamente em uma tumba do século V d.C em Pokchon-dong, sugerem que o povo Gaya dominava o uso desse animal.

Three Kingdoms of Korea Map
Mapa dos Três Reinos da Coreia Ashraf Kamel (CC BY-NC-SA)

Do lado japonês, a ocupação da Coreia no século XX buscou justificativa histórica a partir de uma interpretação do Nihon shogi. Aqui, neste texto, datado do século VIII, afirma-se que entre 369 e 562 d.C. regiões do sul da Coreia eram colônias japonesas. No entanto, muitos historiadores consideram a fonte pouco confiável no que diz respeito à história antiga e, de qualquer forma, acreditam que ela tenha sido mal interpretada para se adequar ao viés nacionalista, já que o Japão, naquela época, não possuía a tecnologia, os recursos ou o governo centralizado necessários para conquistar territórios estrangeiros. Talvez a complexa relação entre os dois Estados neste período obscuro da história seja melhor resumida da seguinte forma pelo historiador M.J. Seth:

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Os Wa do oeste do Japão podem ter vivido em ambos os lados do estreito da Coreia e aparentemente mantiveram laços estreitos com o povo Kaya. É possível que os povos Wa e Kaya pertencessem ao mesmo grupo étnico. O fato de a evolução política japonesa e coreana ter seguido padrões semelhantes é muito marcante para ser mera coincidência. (32)

Mais certo do que a precisa história política é que o ferro era o principal produto exportado por Gaya para o Japão. Os ceramistas de Gaya provavelmente transmitiram a inovação da cerâmica cinza de alta temperatura (dojil) também para o Japão, onde a famosa cerâmica sueki (ou sue) seria produzida como resultado. Gaya também exportava produtos manufaturados de ferro, como ferramentas agrícolas, espadas, armaduras rebitadas, capacetes e pontas de flechas. Outra exportação bem-sucedida foi o gayageum (kayagum), uma cítara com 12 cordas de seda,cuja invenção é atribuída ao rei Gasil no século VI, que seria adotada por músicos no Japão e que continua sendo um símbolo potente da cultura coreana até hoje.

O reino de Baekje também estabeleceu laços comerciais e culturais com o Japão durante o Período Asuka (538-710). A cultura Baekje foi exportada, especialmente por meio de professores, estudiosos e artistas, que também espalharam elementos da cultura chinesa no Japão. Assim, juntamente com os comerciantes e colonos de Baekje e Gaya vieram o cultivo de arroz, a cerâmica feita em torno, os sistemas de classificação social, os códigos legais e o governo, os textos clássicos de Confúcio e a língua altaica do nordeste da Ásia. Os monges Baekje podem ter levado a escrita chinesa para o Japão em 405 d.C. e o budismo em 538. Além disso, elementos do projeto arquitetônico de Baekje podem ser vistos em muitos edifícios de madeira preservados (por exemplo: o templo Horyuji, em Nara) bem como em câmaras de túmulos horizontais no Japão, já que um grande número de artesãos de Baekje esteve presente naquele país durante o período no qual o Japão Wa era um aliado.

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Gaya Iron Helmet
Capacete de Ferro Gaya Pressapochista (CC BY-SA)

Os ataques conjuntos de Baekje, Gaya e Wa contra Silla em 400 d.C., repelidos por um exército enviado pelo rei Gwanggaeto, o Grande, de Goguryeo, provam que as relações não se limitavam meramente ao comércio. Em 660, mais uma vez Baekje solicitou (embora sem sucesso) a ajuda militar de Wa para enfrentar um exército combinado da dinastia Tang e Silla. Baekje foi conquistada, mas as forças rebeldes resistiram e conseguiram persuadir seu aliado japonês a enviar um exército de 30.000 homens. No entanto, isso foi destruído por uma força naval conjunta de Silla e Tang no rio Baecheon (atual Kum), e o destino de Baekje estava selado.

O FATO DE QUE AS RELAÇÕES ENTRE A COREIA E O JAPÃO FORAM ALÉM DO SIMPLES COMÉRCIO É COMPROVADO PELO ATAQUE CONJUNTO DE BAEKJE, GAYA E WA À SILLA EM 400 D.C.

O reino Goguryeo também negociava com o Japão antigo, e artistas e estudiosos são conhecidos por terem residido por um tempo em Yamato. A evidência do intercâmbio cultural é mais evidente nas pinturas das tumbas, pelas quais o reino é famoso hoje em dia, e nas obras semelhantes da tumba Fujinoki, em Ikaruga, datada de cerca de 700. É provável que os emigrantes que fugiram do reino de Goguryeo após sua queda nas mãos de Silla tenham levado essa e outras práticas culturais para o Japão, assim como seus homólogos de Baekje.

Reino Silla Unificado

Quando o reino Unificado de Silla assumiu o controle de toda a península coreana a partir de 668, as relações com o sul do Japão foram mantidas, especialmente nos períodos Nara e Heian. As relações comerciais (bem como manter relações pacíficas) eram do interesse do Japão, caso quisessem acessar o lucrativo mercado chinês sem impedimentos. Mais uma vez, porém, as hostilidades abertas nunca cessaram completamente, como em 733, quando o Japão enviou uma frota para atacar o território de Silla, e novamente em 746, desta vez com uma frota de 300 navios. As décadas seguintes foram caracterizadas por mais estabilidade regional e foram trocadas embaixadas entre os dois governos. O comércio foi ampliado pelo grande senhor da guerra de Silla, Jang Bogo (falecido em 846), e o reino chegou a ter uma presença administrativa permanente em Dazaifu, em Kyushu, no oeste do Japão, onde os japoneses contrataram uma equipe de tradutores de Silla. Isso ocorreu apesar do fato de que os piratas de Silla continuaram a atacar os comerciantes costeiros japoneses ao longo do século IX.

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Uicheon
Uicheon Unknown Artist (Public Domain)

Dinastia Goryeo

Quando o reino Goryeo (Koryo) substituiu Silla como soberano da Coreia no início do século X, as relações comerciais continuaram e produtos japoneses foram importados, especialmente espadas, mercúrio, tangerinas, pérolas e leques de papel. Em troca, Goryeo exportava grãos, papel, tinta, ginseng, esteiras de palha e livros. Dois monges budistas de Goryeo viajaram ao Japão, onde deixaram registros de suas habilidades artísticas e arquitetônicas. Em 1231, os mongóis liderados por Ogedei Khan invadiram a Coreia no primeiro de seis ataques ao longo das décadas seguintes. Finalmente, quando a paz foi firmada em 1258, o preço para os coreanos foi a obrigação de fornecer navios e materiais para as invasões mongóis (fracassadas) do Japão em 1274 e 1281.

História posterior

As relações Nipo-Coreanas alternaram entre parcerias comerciais amigáveis e hostilidades declaradas ao longo dos séculos seguintes. A pirataria tornou-se um grande problema com grandes frotas transportando invasores que saqueavam profundamente o território coreano. Isso levou o rei Taejong do reino Joseon (Choson) a atacar a base pirata japonesa na ilha de Tsushima, em 1419. Embora essa ação não tenha erradicado completamente os piratas (waegu), permitiu que um acordo comercial fosse firmado com o Japão, o Tratado de Gyehae, redigido em 1443.

No final do século XVI, muitos ceramistas e artistas coreanos foram levados à força para o Japão após a invasão da península coreana por Toyotomi Hideyoshi, em um conflito às vezes chamado de “Guerras da Cerâmica” e mais conhecido como Guerra Imjin (1592-1598). Esses artistas, já admirados pela porcelana branca que produziam em grandes quantidades, teriam uma influência significativa na cerâmica japonesa Satsuma. A Coreia foi devastada pela invasão, e muitos locais culturais e obras de arte foram destruídos ou levados para o Japão. O pior estava por vir com a Guerra Sino-Japonesa travada em solo coreano (entre 1894 e 1895), e a ocupação total da península pelo Japão até o fim da Segunda Guerra Mundial.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Tobias Nedel Graeff
Tradutor brasileiro, atuo com os seguintes pares de idiomas: Inglês ⇄ Português do Brasil e Espanhol ⇄ Português do Brasil. Com formação acadêmica em Relações Internacionais, tenho grande interesse por assuntos globais, ciências humanas, literatura, etc.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, setembro 13). Relações Nipo-Coreanas Antigas. (T. N. Graeff, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-982/relacoes-nipo-coreanas-antigas/

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Cartwright, Mark. "Relações Nipo-Coreanas Antigas." Traduzido por Tobias Nedel Graeff. World History Encyclopedia, setembro 13, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-982/relacoes-nipo-coreanas-antigas/.

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Cartwright, Mark. "Relações Nipo-Coreanas Antigas." Traduzido por Tobias Nedel Graeff. World History Encyclopedia, 13 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-982/relacoes-nipo-coreanas-antigas/.

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