Primeira Batalha do Marne

Como Paris foi Salva na Primeira Guerra Mundial
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A Primeira Batalha do Marne, travada entre 6 e 10 de setembro de 1914, constituiu um contra-ataque aliado de grande envergadura e bem-sucedido face à invasão alemã do território francês, ocorrida no mês de agosto anterior. Muitas vezes referida como o "Milagre do Marne", os exércitos francês e britânico uniram-se para explorar uma divisão nas linhas alemãs e impor uma derrota estratégica ao inimigo. Embora parecesse muito provável no final de agosto, a França não caiu e Paris foi salva. A Batalha do Marne foi crucial porque deitou por terra as esperanças alemãs de uma vitória rápida e decisiva, apenas seis semanas após o começo da guerra.

French Infantry Charge
Carga da Infantaria Francesa Gallica Digital Library (Public Domain)

O Ataque Alemão

Num plano de ataque altamente ambicioso, conhecido como o Plano Schlieffen, o alto comando alemão pretendia invadir a Bélgica neutra e atacar o exército francês em solo francês. A manobra contornaria as principais fortificações francesas, permitiria a captura de Paris e levaria à rendição da França em apenas seis semanas. Mesmo os generais alemães estavam longe de estar convencidos de que tinham tropas suficientes para concretizar o plano, e tinham razão para estarem cépticos de que tudo seria tão fácil como parecia no papel.

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em apenas 14 dias de combate Os exércitos francês e alemão perderam 300 000 homens.

Com o início do avanço das forças alemãs a 3 de agosto, sucederam-se as declarações de guerra entre todas as partes. Deflagrava, assim, a Primeira Guerra Mundial: de um lado, a Bélgica, a Grã-Bretanha e a França; do outro, a Alemanha e a Áustria-Hungria. Infelizmente para os generais alemães, a resistência belga e francesa foi maior do que o previsto, e houve problemas logísticos significativos no abastecimento do exército em avanço, que realizou um enorme arco pelo norte da França. Ao mesmo tempo, os franceses lançaram a sua própria ofensiva contra a fronteira franco-alemã da Alsácia. Este ataque francês, devidamente antecipado pelo inimigo, colidiu com uma feroz resistência alemã e acabou por ser repelido. Pelo meio encontrava-se também a pequena Força Expedicionária Britânica (BEF), composta por 70 000 homens, entalada entre dois grupos de exércitos consideravelmente mais vastos.

Enquanto ambos os lados corriam para desferir um único golpe decisivo ao inimigo, desenvolveu-se uma longa frente composta por muitos exércitos envolvidos em várias áreas de batalha importantes. Esta Batalha das Fronteiras durou até meados de agosto. Os exércitos alemães eram superiores ao inimigo em termos de número de homens e artilharia. Além disso, os comandantes franceses demonstraram uma total falta de compreensão em relação aos danos que as metralhadoras bem entrincheiradas podiam causar à infantaria e até à cavalaria em carga. Os exércitos francês e alemão perderam cerca de 300.000 homens em apenas 14 dias de combate. O exército alemão venceu a Batalha das Fronteiras, mas não obteve a vitória esmagadora que esperava. Tanto as tropas francesas como as britânicas conseguiram levar a cabo uma retirada minimamente ordeira perante a investida alemã. Crucialmente, foi mantida uma linha defensiva aliada entre Nancy e Verdun.

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Map of the Schlieffen Plan v. the 1914 Reality
Mapa do Plano Schlieffen vs. a Realidade de 1914 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

As forças alemãs estavam cansadas, famintas, a ficar sem munições e outros suprimentos vitais. Pior ainda, o objectivo do Plano Schlieffen — evitar lutar contra a França no oeste e a sua aliada Rússia no leste ao mesmo tempo — fracassou quando a Rússia se mobilizou com relativa rapidez, alcançando o território alemão em apenas 15 dias. O alto comando alemão decidiu que seria prudente retirar algumas tropas da França e enviá-las para o leste, mas isto enfraqueceu seriamente a ala direita da Alemanha na Frente Ocidental. Os Aliados tinham agora a sua melhor oportunidade para desferir um golpe contra os invasores. O local escolhido seria o vale do rio Marne.

A Contra-Ofensiva

Joseph Joffre (1852-1931), Marechal de França, estava determinado — apesar da precariedade da sua posição — a reagrupar as forças à sua disposição, incluindo as reservas e as tropas provenientes da falhada ofensiva na Alsácia, para lançar um ataque contra os invasores alemães. O Primeiro Exército Alemão era comandado pelo General Alexander von Kluck (1846-1934). O Sexto Exército francês, adversário, era liderado pelo General Joseph Gallieni (1849-1916). O Primeiro Exército de Kluck conseguiu avançar até 48 quilómetros (30 milhas) de Paris. A guarnição de Paris foi reforçada para o caso de ocorrer o pior. Os exércitos franceses também recuavam mais para o leste, mas o avanço alemão perdia força na região. Joffre ordenou que os seus generais recuassem para uma área ao sul do rio Somme, onde poderia ser formada uma linha defensiva mais forte.

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Kluck, seduzido pela relativa facilidade do seu avanço até então, cometeu um erro fatal: em vez de seguir o Plano Schlieffen e avançar para oeste em direção a Paris, perseguiu o exército francês para sudeste, acreditando que poderia esmagar o inimigo com um golpe final. Esta decisão foi tomada sem consultar o comandante geral da frente, o General Helmuth von Moltke (1848-1916), embora Moltke tenha dado a sua aprovação posteriormente, uma vez que estava de acordo com o objetivo geral do avanço de destruir completamente as forças inimigas. Talvez com apenas um dia de atraso em relação aos franceses em retirada, o exército de Kluck cruzou o rio Marne a 4 de setembro. O desvio para sudeste foi detetado por aviões franceses enviados para acompanhar de perto os movimentos do inimigo — naquela que foi a primeira utilização eficaz de reconhecimento aéreo na guerra moderna. Joffre percebeu que a última manobra germânica tinha exposto o flanco direito de Kluck, a secção mais vulnerável da curva, à medida que as forças alemãs se embrenhavam no centro de França.

Marshal Joffre
Marechal Joffre Gallica Digital Library (Public Domain)

Joffre encarregou então o experiente General Michel-Joseph Maunoury (1847-1923) de mobilizar uma força vinda da direção de Paris em 5 de setembro, atacando o flanco direito do inimigo. Kluck, percebendo o erro, tentou rapidamente reforçar a sua ala direita, que já estava sob ataque. Moltke, apercebendo-se também do perigo, ordenou tanto ao Primeiro Exército de Kluck como ao Segundo Exército, liderado pelo General Karl von Bülow (1846-1921), que se virassem para oeste, de modo a enfrentarem devidamente o ataque francês e oferecerem proteção aos restantes exércitos alemães que se encontravam a leste, na sua retaguarda. Isto constituía, na prática, o reconhecimento de que o Plano Schlieffen — e a adaptação que Kluck dele fizera — tinha corrido seriamente mal. Kluck conseguiu repelir Maunoury entre 7 e 9 de setembro; contudo, Maunoury logrou travar o avanço e, num passo crucial para o desfecho da batalha, alargou a frente, o que permitiu a entrada em jogo de exércitos franceses adicionais e da BEF.

foram requisitados 600 táxis parisienses para transportar as tropas da guarnição da capital.

Com o colapso das linhas de comunicação alemãs, a contraofensiva de Maunoury atingiu as reservas da retaguarda do Primeiro Exército Alemão ao longo do rio Ourcq (um afluente do Marne). Por conseguinte, Kluck viu-se obrigado a retirar as suas tropas da linha da frente para lidar com o ataque na sua retaguarda. A consequência disto não foi apenas o abrandamento do avanço do Primeiro Exército, mas também a abertura de uma perigosa brecha de 48 quilómetros (30 milhas) entre o Primeiro e o Segundo Exércitos alemães. O Quinto Exército francês e a BEF avançaram nessa brecha e atacaram os dois exércitos alemães, Kluck à esquerda e Bülow à direita. O Nono Exército francês atacou o ponto onde os dois exércitos alemães estavam em contacto mais próximo.

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Enquanto isso, os combates continuavam mais a leste. De Verdun ao Alto Marne, o Terceiro e o Quarto Exércitos franceses enfrentaram o Quarto e o Quinto Exércitos alemães. Ainda mais a leste, o Primeiro e o Segundo Exércitos franceses repeliram com sucesso os ataques ferozes e repetidos do Sexto e do Sétimo Exércitos alemães e, assim, mantiveram o controlo das várias cidades fortificadas espalhadas ao longo do rio Mosela: Épinal, Charmes, Nancy e Toul.

Parisian Taxi Used in WWI
Táxi Parisiense Utilizado na Primeira Guerra Mundial Rama (CC BY-SA)

A frente principal permaneceu de Verdun a Compiègne, uma linha de batalha com cerca de 160 quilómetros (100 milhas) de extensão. Aqui, os combates foram mais intensos, atingindo o auge entre 6 e 8 de setembro. O Sexto Exército francês, em particular, esteve sujeito a uma pressão colossal, mas conseguiu resistir graças ao fluxo contínuo de reforços, embora, neste caso, tenha sido necessária alguma improvisação radical. Num dos episódios mais célebres da guerra, foram requisitados 600 táxis parisienses para transportar as tropas da guarnição da capital para a frente de combate. Três mil homens adicionais convergiram para o campo de batalha. O marechal Foch, com a sua famosa fleuma, preparou a sua mensagem, hoje lendária: "O meu centro cede, a minha direita retira, situação excelente. Ataco." (Keegan, pág. 119).

A Retirada Alemã

Moltke continuava a sofrer com as graves falhas de comunicação com os seus comandantes na linha da frente, e os persistentes rumores de que um exército russo estaria prestes a desembarcar na Bélgica convenceram-no de que a retirada seria, porventura, a melhor linha de acção. Um recuo permitiria aos exércitos alemães manter uma Frente Ocidental contínua e possibilitaria uma ofensiva para norte, caso a Rússia criasse efetivamente uma terceira frente. Para compreender melhor a situação real, Moltke enviou um oficial do estado-maior, o Coronel Richard Hentsch (1869-1918), para investigar pessoalmente e, se necessário, ordenar ele próprio a retirada. Hentsch descobriu que grandes brechas tinham sido abertas nas linhas alemãs, particularmente nos flancos de exércitos separados. A logística também continuava a ser um problema. Bülow recebeu ordens para retirar o Segundo Exército em 9 de setembro. Hentsch foi posteriormente muito criticado pela decisão, mas as alegações de que a Alemanha poderia ter vencido a Batalha do Marne não se baseiam em factos militares. De qualquer modo, Kluck ordenou também a retirada do seu exército nesse mesmo dia, uma vez que uma BEF reforçada tinha cruzado o Marne através de pontes de barcas e representava agora uma ameaça direta ao seu flanco esquerdo.

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Os exércitos alemães realizaram uma retirada combativa, recuando cerca de 64 quilómetros (40 milhas). Consequentemente, a Frente Ocidental foi estabelecida ao longo do rio Aisne e seus afluentes, à medida que ambos os lados se entrincheiravam e criavam extensos sistemas de trincheiras. As esperanças de uma vitória alemã célere sobre a França foram aniquiladas. Os Aliados, embora fustigados e exaustos, tinham sobrevivido às primeiras semanas caóticas da guerra. De alguma forma, a grande investida da Alemanha fora travada naquilo que ficou conhecido como o 'Milagre do Marne'.

Trench Warfare on WWI's Western Front, 1914-18
Guerra de Trincheiras na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial, 1914-18 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Dois milhões de homens tinham combatido, e um quarto deles tornara-se já baixa de uma guerra com apenas seis semanas de existência. Os números deixaram as populações civis de ambos os lados atónitas. Os comandantes estavam igualmente apreensivos, embora tenham demonstrado uma lentidão extrema a adaptar-se a esta nova realidade militar. Houve uma mudança significativa após a Batalha do Marne. Uma vez que cinco exércitos franceses, a que se somava a BEF, tinham colidido com sete exércitos alemães ao longo de vastas extensões de território, ambos os lados compreenderam que tais efetivos exigiam um nível de comando inteiramente novo entre os chefes de estado-maior e o comandante de um único exército; por conseguinte, criaram-se, a partir de então, os grupos de exércitos.

As Consequências

Após a derrota estratégica, Moltke foi destituído do cargo de Chefe do Estado-Maior. Joffre, por outro lado, foi aclamado como herói nacional por salvar a França. O episódio dos táxis tornou-se matéria de lenda e foi o primeiro sinal de que este novo tipo de conflito exigiria que todos — soldados e civis, homens e mulheres — se unissem num esforço comum para que a vitória pudesse ser alcançada. Chegado o inverno de 1914, e após uma série de manobras de flanqueamento fracassadas de ambos os lados (conhecidas como a 'Corrida para o Mar'), a Frente Ocidental estendia-se desde Ypres, perto da costa belga, até à fronteira suíça, a sul. Seguiu-se um longo impasse de brutal guerra de trincheiras, sem que nenhum dos lados conseguisse fazer progressos significativos contra o outro ao longo dos quatro anos seguintes. Esta era exatamente a situação que os generais alemães temiam quando a Rússia entrou na guerra e, assim, apesar de todo o planeamento, viram-se a lutar em duas frentes massivas, uma situação que acabou por lhes custar a guerra, apesar de a Rússia se ter retirado da Primeira Guerra Mundial após a Revolução Bolchevique em 1917.

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O vale do Marne voltaria a tremer com o estrondo da artilharia no verão de 1918, na Segunda Batalha do Marne. As tropas francesas, britânicas, americanas e italianas uniram-se para derrotar e repelir quatro exércitos alemães, uma retirada que continuaria até o armistício de 1918 com a Alemanha, que finalmente encerrou a guerra a 11 de novembro.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é Diretor Editorial da WHE e possui mestrado em Filosofia Política pela Universidade de York. Ele é pesquisador em tempo integral, escritor, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações.

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Cartwright, M. (2026, março 02). Primeira Batalha do Marne: Como Paris foi Salva na Primeira Guerra Mundial. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2891/primeira-batalha-do-marne/

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Cartwright, Mark. "Primeira Batalha do Marne: Como Paris foi Salva na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 02, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2891/primeira-batalha-do-marne/.

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Cartwright, Mark. "Primeira Batalha do Marne: Como Paris foi Salva na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 02 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2891/primeira-batalha-do-marne/.

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