A Batalha das Fronteiras da Primeira Guerra Mundial (1914-18), travada entre 14 e 25 de agosto, envolveu uma série de confrontos entre os exércitos alemão, francês, belga e britânico, enquanto ambos os lados tentavam cruzar as fronteiras e estabelecer a linha de combate no território inimigo. A Alemanha esperava avançar pela Bélgica e travar as principais batalhas da Frente Ocidental na França, enquanto os franceses queriam atacar a fronteira franco-alemã pela Alsácia e conduzir a guerra em território alemão. Os exércitos alemães, mercê da sua superioridade numérica e de artilharia, alcançaram o seu objetivo, embora à custa de um elevado número de baixas, e, a partir de então, os combates mais intensos da guerra passaram a ter lugar em solo francês.
O Plano Schlieffen
O exército alemão estudou a melhor forma de derrotar a França nas primeiras semanas da Primeira Guerra Mundial, quando, como previsto, a França, a Grã-Bretanha e a Rússia enfrentaram a Alemanha e a Áustria-Hungria. O Plano Schlieffen foi elaborado em 1905 e tinha como objectivo derrotar rapidamente a França, de forma a que a Alemanha pudesse então voltar-se para a Rússia, a leste, e não tivesse de lutar em duas grandes frentes simultaneamente. A estratégia estipulava que as forças alemãs realizassem um avanço célere pelos territórios neutros da Bélgica, do Luxemburgo e da Holanda, evitando as principais fortificações francesas na fronteira franco-alemã. O plano era atacar as linhas francesas pela retaguarda, capturar Paris e obter a rendição em seis semanas, o tempo que os generais alemães achavam que a Rússia levaria para mobilizar totalmente seus exércitos.
O Plano Schlieffen era altamente ambicioso, e até mesmo os generais alemães reconheceram que provavelmente não tinham tropas suficientes para realizá-lo. O plano foi ainda mais enfraquecido pela decisão de passar apenas pela Bélgica (entre Antuérpia e Liège), estreitando a rota para a França e potencialmente causando bloqueios logísticos: foi exatamente isso que aconteceu.
A Grã-Bretanha esperava permanecer neutra numa guerra continental, mas estava obrigada a defender a neutralidade belga através de um tratado que os dois Estados tinham assinado anteriormente. Em todo o caso, a Grã-Bretanha não podia ficar impávida a ver a França ser esmagada e a assistir à formação de uma nova Europa totalmente dominada pela Alemanha, a sua maior rival económica e militar no continente. A Grã-Bretanha informou o governo alemão de que uma mobilização através da Bélgica resultaria numa declaração de guerra de Londres a Berlim. A 3 de agosto, as tropas alemãs marcharam pela Bélgica de qualquer das formas, e a Alemanha declarou formalmente guerra à França (e vice-versa). A 4 de agosto, a Grã-Bretanha declarou guerra à Alemanha.
O Avanço Alemão
Mobilizando-se no final de julho, as forças alemãs lideradas pelo General Alexander von Kluck (1846-1934) encontraram o seu primeiro obstáculo: a inesperada resistência belga na cintura de 12 fortes de Liège. Por volta de 14 de agosto, as forças alemãs trouxeram as suas peças de artilharia gigantes, os obuses 'Bertha, a Gorda' (Big Bertha), com canos de 30,5 e 42 cm (12 e 16.5 polegadas), que bombardearam as fortalezas até à sua rendição. Os alemães seguiram então pela Bélgica, capturaram Bruxelas a 20 de agosto e marcharam para enfrentar directamente o exército francês. Para proteger a retaguarda, as tropas alemãs foram incentivadas a implementar a política de Schrecklichkeit ('pavor'), que consistia em aterrorizar e subjugar as populações locais através da destruição de propriedade e da execução de civis. Entre estes horrores, também a cultura belga sofreu; os manuscritos medievais da biblioteca de Lovaina foram consumidos pelas chamas, um repositório inestimável da história humana perdido para sempre. De forma crucial para o avanço, algumas tropas alemãs tiveram de ser desviadas para enfrentar as tropas belgas perto de Antuérpia, Namur e Maubeuge. O cronograma do plano alemão permanecia, mais ou menos, intacto, mas o número de homens alemães mortos ou desviados na Bélgica seria lamentado cerca de uma semana depois.
À medida que os combates alcançavam solo francês, mantinham-se frente a frente nada menos do que sete exércitos alemães contra cinco franceses e um britânico — a Força Expedicionária Britânica (BEF). O contingente britânico era composto por cerca de 70.000 homens, um número reduzido no quadro geral do conflito, mas todos eles eram soldados profissionais, ao contrário dos recrutas conscritos que integravam os restantes exércitos. O que se desenrolou a seguir, quando todos os soldados se enfrentaram, foi uma complexa série de frentes composta por quatro áreas de batalha principais, que se estendiam de Mons, na Bélgica, no norte, até à fronteira franco-suíça, no sul.
O Avanço Francês
O exército francês marchava para norte, pois era o plano premeditado dos seus generais para vencer a guerra o mais rápido possível, uma ideia conhecida como plano XVII. O objectivo francês era tomar a região da Alsácia-Lorena, que a Alemanha controlava desde que venceu a Guerra Franco-Prussiana de 1870-71. Caso as forças alemãs entrassem na Bélgica, o Plano XVII estipulava o envio de dois exércitos franceses; foi exatamente isso que aconteceu. Deste modo, desenrolou-se a designada 'Batalha das Fronteiras': a norte, a Alemanha progredia através da Bélgica, procurando executar uma manobra de envolvimento colossal ao transpor a fronteira francesa; mais a sul, na Alsácia, a França lançava a sua própria ofensiva, com ambos os contendores a ambicionarem desferir um golpe decisivo que pusesse fim ao conflito. Contudo, para infortúnio de ambos, os cálculos saíram furados: os franceses subestimaram drasticamente o contingente que a Alemanha mobilizaria através do território belga, enquanto os alemães negligenciaram a complexidade logística do seu plano perante a resistência feroz de um inimigo obstinado.
A 14 de agosto, na Batalha de Loraine, entraram em território alemão dois exércitos franceses. O Primeiro Exército, liderado pelo General Auguste Dubail (1851-1934), foi obrigado a recuar após encontrar uma força alemã numericamente superior composta por dois exércitos, o Sexto, liderado pelo príncipe herdeiro Rupprecht (1869-1955), um comandante corajoso, mas talvez excessivamente pessimista, e o Sétimo, liderado pelo experiente Josias von Heeringen (1850-1926). Dubail recuou para a margem oposta do rio Meurthe e as suas tropas entrincheiraram-se. O Segundo Exército Francês, liderado pelo General Noël Édouard Castelnau (1851-1944), perdeu a Batalha de Morhange para o Sexto Exército de Rupprecht a 20 de agosto. Os franceses perderam 20.000 homens e 150 peças de artilharia nesta batalha. Os alemães avançaram, então, através dos Vosges, mas Castelnau conseguiu defender uma nova frente em Le Grand Couronné, que acompanhava o rio Mosela e, assim, pelo menos a cidade de Nancy foi mantida em mãos francesas. O Plano XVII tinha falhado.
Enquanto isso, a 21 de agosto, o Terceiro e o Quarto Exércitos franceses avançaram para o norte, na esperança de atacar o flanco do avanço alemão através das florestas das Ardenas. Quando os dois lados se encontraram, seguiram-se quatro dias de intensos combates em condições de neblina. Por fim, os Quarto e Quinto Exércitos alemães, numericamente superiores, avançaram, e os franceses foram obrigados a recuar e a manter uma linha em torno do complexo fortificado de Verdun. Talvez só neste momento o alto comando francês tenha entendido plenamente a amplitude do avanço alemão e que o inimigo atacava com uma força formidável em profundidade, graças ao uso de reservas.
Um soldado do Exército Francês, François Dolbau, descreve a experiência de enfrentar o ataque, destacando, em particular, a formidável artilharia inimiga:
Bem, quando chegámos perto de Morhange, todos esperavam que tudo corresse sem grandes danos, mas quando chegámos às trincheiras dos alemães, mal conseguíamos vê-los porque tinham uniformes especiais. E então não podíamos fazer nada – absolutamente nada – a não ser esperar. E depois, à noite, os alemães disparavam contra nós e bombardeavam-nos também, com bombardeamentos muito intensos, perdemos muitas pessoas lá, foi horrível. A nossa bateria era muito boa. Tínhamos um canhão muito bom, o canhão 75, mas não era suficiente em quantidade para causar qualquer dano aos alemães, porque eles estavam protegidos nas trincheiras.
(Imperial War Museums/Museus Imperiais da Guerra)
Mais a oeste, o Quarto Exército Alemão também obtinha bons progressos. Comandados pelo General Karl von Bülow (1846-1921), os alemães atravessaram o corredor de Liège, venceram a Batalha do Rio Sambre (22-23 de agosto) e, em seguida, sitiaram a fortaleza de Namur, que foi capturada a 25 de agosto. À esquerda de Bülow, o Terceiro Exército Alemão tomou Dinant a 15 de agosto. Mais uma vez, a superioridade alemã em artilharia e a falta de compreensão do comandante francês sobre os danos que metralhadoras bem entrincheiradas poderiam causar à infantaria em carga foram factores decisivos para a vitória. Os franceses também foram surpreendidos pelo facto de o avanço principal alemão não se situar mais a leste, como haviam previsto
Resistência Aliada Difícil
Mais uma vez, graças à superioridade numérica e de artilharia, o Primeiro Exército Alemão, liderado por Kluck, obteve a vitória, desta vez contra os britânicos em Mons, na Bélgica (23 de agosto), e em Le Cateau (26 de agosto), na extrema esquerda da frente aliada. Um maqueiro britânico, William Collins, descreveu como foi ser bombardeado pela primeira vez:
Naquela floresta, na entrada daquela floresta, ouvi o primeiro projétil explodir por cima da minha cabeça — era um projétil de estilhaços — com uma explosão alta, fumo branco e as balas caíram assobiando como todos os fogões do inferno, como se mil apitos tivessem sido ligados. As balas, é claro, eram redondas, mas tinham uma pequena saliência que as fazia assobiar ao atravessar o ar. Este foi o meu primeiro bombardeio. Elas caíam assim: [assobios]. Este era o barulho que as balas faziam ao cair.
(Idem)
Tendo feito avanços em vários pontos-chave da frente, Kluck improvisou o Plano Schlieffen e, em vez de cercar Paris, decidiu avançar para o sul e perseguir o inimigo em retirada. Ao perseguir o Quinto Exército Francês, Kluck expôs o seu flanco direito à guarnição de Paris, uma manobra revelada aos Aliados pelo reconhecimento aéreo. Movendo-se para enfrentar o novo ataque no seu flanco, Kluck deixou uma lacuna incomumente grande entre o Primeiro e o Segundo Exércitos Alemães, uma lacuna que foi rapidamente explorada tanto pela BEF quanto pelos exércitos franceses liderados pelo general Joseph Joffre (1852-1931). As audazes setas curvas do Plano Schlieffen original tinham-se agora transformado num emaranhado de ataques multidirecionais, contra-ataques, manobras de flanqueamento e cercos.
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As vitórias alemãs foram caras em termos de tempo, material e baixas, sendo os atiradores profissionais da BEF particularmente mortíferos nos seus disparos. Os franceses perderam cerca de 300.000 homens em apenas 14 dias; os alemães perderam um número semelhante. O Exército Francês (e a BEF) não entraram em colapso e, o que foi crucial para o prolongamento da guerra, foi mantida uma linha entre Nancy e Verdun.
Lições a Aprender
Os comandantes alemães, embora tivessem alcançado o seu objetivo geral de garantir que as principais batalhas fossem travadas em solo francês, subestimaram enormemente a resistência do inimigo. Os comandantes no campo de batalha também se distraíram com oportunidades estratégicas que surgiram, em vez de se concentrarem no plano geral de ataque. Isso significou que a ala direita do avanço alemão na França ficou seriamente enfraquecida. O plano alemão revelou ser, tal como o plano francês, desmesuradamente optimista, uma vez que "se baseava no élan napoleónico e pouco mais… [e] não levava em conta o poder de fogo defensivo" (Winter, pág. 204).
Ambos os lados estavam a aprender em que consistia, afinal, a guerra do século XX. A regra geral deste conflito em particular ficou firmemente estabelecida logo nas primeiras semanas, embora não tenha sido acatada pelos generais de parte a parte durante bastante tempo. Dito de forma simples: quem atacava tinha, geralmente, de suportar o maior número de baixas. As metralhadoras dizimavam a infantaria com facilidade. As velhas ideias custam a morrer, mas a cavalaria francesa, por exemplo, aprendeu a expensas próprias, naquele louco mês de agosto, a absoluta loucura que era carregar sobre o inimigo trajando calças de um vermelho vivo, capacetes emplumados e medalhas reluzentes no peito.
Outra lição curta e dura foi a de que grandes movimentações de tropas exigiam um apoio logístico colossal, e este não foi assegurado. Os soldados alemães que marchavam em direção a França naquele agosto fustigado pelo calor viram-se rapidamente exaustos, famintos e sem munições suficientes.
Entretanto, o objectivo central do Plano Schlieffen — evitar duas frentes simultâneas — desmoronou-se quando a Rússia se mobilizou com relativa rapidez, alcançando o território alemão em apenas 15 dias. As comunicações do comando alemão falharam gravemente. As forças francesas e britânicas reorganizaram-se para uma grande contraofensiva na Primeira Batalha do Marne, entre 6 e 10 de setembro, no que ficou conhecido como o 'Milagre do Marne'. Os alemães decidiram retirar e a frente recuou, estabelecendo-se finalmente ao longo do rio Aisne.
Consequências
Pelo inverno de 1914, e após uma série de manobras de flanqueamento fracassadas (conhecidas como a 'Corrida para o Mar') levadas a cabo por ambos os lados, a Frente Ocidental estendia-se de Ypres, perto da costa belga, até à fronteira suíça, a sul. Ambos os lados viram-se obrigados a construir sistemas de trincheiras para melhor protegerem as suas tropas do fogo inimigo. Seguiu-se um longo impasse, sem que nenhum dos lados fizesse grandes progressos contra o outro ao longo dos quatro anos seguintes. Esta era exatamente a situação que os generais alemães temiam com a entrada da Rússia na guerra; assim, apesar de todo o planeamento, viram-se a lutar em duas frentes massivas — uma situação que, em última análise, lhes custou a guerra, mesmo com a retirada da Rússia da Primeira Guerra Mundial após a Revolução Bolchevique de 1917.
