A Primeira Guerra Mundial viu o nascimento de uma forma totalmente nova de combate: homens solitários enfrentando o inimigo em combates aéreos. Os vencedores tornaram-se heróis nos seus países, mas era uma ocupação tão mortal quanto emocionante.Nnum instante, uma bala, uma falha no motor ou na estrutura, ou simplesmente azar podiam acabar com a carreira de um piloto. Um "ás" da aviação era um piloto que acumulava cinco "vitórias", ou seja, que abatia cinco aviões, dirigíveis ou balões inimigos. O "ás dos ases" era um piloto que alcançava mais vitórias do que qualquer outro piloto da força aérea do seu país.
Uma Nova Forma de Combate
Nos primeiros anos da Primeira Guerra Mundial (1914-18), os aviões eram usados principalmente para patrulhas e reconhecimento, identificando as posições da artilharia inimiga e localizando grandes movimentos de tropas. Com o rápido desenvolvimento da tecnologia, os triplanos e biplanos tornaram-se muito mais rápidos, mais manobráveis e capazes de subir a altitudes mais elevadas. Na parte dianteira do avião montaram-se metralhadoras que podiam ser sincronizadas para disparar através do arco da hélice, permitindo ao piloto atacar aeronaves inimigas. Nasceu o avião de caça e desenvolveu-se uma nova forma de guerra, em que cada lado tentava destruir os caças do inimigo, geralmente em confrontos um a um, conhecidos como "combates aéreos". A ideia de combate mais individual capturou a imaginação do público, especialmente porque contrastava fortemente com as cargas de infantaria em massa e em grande parte anónimas que caracterizavam a guerra de trincheiras da Frente Ocidental. Os pilotos de caça tornaram-se os mais glamorosos de todos os homens em serviço, representando, pelo menos para o público em casa, uma forma mais emocionante e cavalheiresca de combate.
A realidade da guerra para os pilotos de caça era bastante diferente da percepção do público de uma rápida incursão, abatendo alguns alvos fáceis e voltando diretamente para a messe para um farto café da manhã com bacon e ovos. Os pilotos (e seus artilheiros em aviões de dois lugares) enfrentavam o duplo risco de máquinas altamente instáveis e um inimigo tenaz lutando pela sua própria sobrevivência.
Como veremos, mesmo os melhores pilotos arriscavam a vida cada vez que subiam aos céus. Não é por acaso que algumas aeronaves ganharam apelidos de "caixão voador". As taxas de mortalidade entre os pilotos de todos os lados eram de pelo menos 50%, e muitos pilotos duravam apenas algumas semanas ou até mesmo dias. A morte podia chegar em qualquer momento devido a falhas estruturais, problemas no motor, encravamento da arma, colisões acidentais, fogo inimigo ou um erro cometido por inexperiência ou fadiga.
À medida que o conflito se prolongava, a eficácia e a sobrevivência na guerra aérea passaram a depender muito mais do voo em esquadrões coordenados do que de pilotos voando sozinhos como cavaleiros do ar. É significativo que muitos dos ases da aviação mais duradouros fossem líderes de esquadrão. O sucesso duradouro no ar só veio quando a habilidade e a bravura individuais foram apoiadas por outros pilotos, tripulação de solo, projetistas inovadores de aeronaves e armas, e uma boa dose de sorte.
Medindo o Sucesso dos Pilotos
No início da guerra, decidiu-se que se um piloto abatesse cinco aeronaves inimigas, ganharia o título de "ás". À medida que a guerra avançava, a tecnologia desenvolveu-se e os céus ficaram bastante mais movimentados. Ficou claro que cinco talvez fosse um número muito pequeno, mas nunca foi desenvolvida uma hierarquia rígida de "abates"/"acertos"/"vitórias". Os métodos usados para determinar uma vitória eram frequentemente muito rigorosos, por isso é provável que a maioria dos ases tenha realmente alcançado mais do que lhes foi atribuído. Os ases mais reverenciados eram os que conseguiam abater dezenas de aeronaves inimigas e ganhar medalhas de prestígio, como a Pour le Mérite (Blue Max) da Alemanha e a Distinguished Flying Medal da Grã-Bretanha.
Abaixo estão os pilotos mais bem-sucedidos de algumas das principais nações que lutaram no ar na Primeira Guerra Mundial. Estes cinco homens ganharam o glorioso título de "Ás dos Ases" por serem os melhores caças das suas nações.
Manfred von Richthofen
O Rittmeister (Capitão) Manfred von Richthofen (1892-1918), conhecido como o "Barão Vermelho" pela cor marcante do seu triplano, foi sem dúvida o piloto de caça mais famoso durante a guerra. Membro da nobreza que primeiro se juntou a uma unidade de cavalaria, Richthofen percebeu que o futuro da guerra estava no ar. Treinado e pronto para voar no início de 1916, Richthofen provou ser um talento natural e conquistou uma vitória por semana durante o resto do ano. Caçador implacável, era uma combinação devastadora de excelente piloto, estrategista e atirador, atacando normalmente os inimigos vindo do sol.
Richthofen voava frequentemente num Albatros DI e posteriormente um DIII monoplano e, a seguir, num Fokker DR 1. Pintou a aeronave de encarnado como um gesto de intimidação e indiferença, pois isso só o tornaria mais visível para o inimigo. Ele liderava um esquadrão, mas costumava ser distante. Sempre que podia, Richthofen guardava troféus das aeronaves que abatia; as paredes do seu quarto na casa da família em Schweidnitz estavam cobertas com números de série recortados e peças de motores das suas vítimas. Richthofen foi condecorado com a medalha Blue Max/Pour le Mérite, entregue pelo próprio Kaiser Guilherme em maio de 1917.
A partir de junho de 1917, Richthofen comandou o famoso 'Jagdgeschwader 1' (esquadrão de caças), um grupo de pilotos de elite que incluía o irmão de Manfred, Lothar. Nos dias despreocupados antes da camuflagem se tornar comum, este grupo de caças tinha uma variedade tão grande de triplanos Fokker de cores vivas que era chamado pelos britânicos de "Circo Voador". O 'Jagdgeschwader 1' não tinha palhaços, porém, como lembra Friederich Lubbert, que voou com Richthofen:
É claro que era uma grande honra estar na tropa de Richthofen e foi muito interessante a primeira batalha aérea. Estávamos na frente francesa, perto de Valenciennes, e tivemos batalhas aéreas com as forças aéreas francesa, canadiana e britânica. Um dia, estávamos juntos com seis pilotos e quatro deles abateram dez franceses e ingleses. E Richthofen sozinho abateu quatro deles num dia.
(IWM - Museus Imperiais da Guerra)
O Barão Vermelho, depois de acumular 80 "abates", o maior número de qualquer piloto na Primeira Guerra Mundial, foi abatido e morto por um Sopwith Camel britânico em 21 de abril de 1918. Richthofen, cujo avião caiu em território controlado pelos Aliados perto do Somme, recebeu um funeral militar. Em 1925, os restos mortais do ás foram levantados e recebeu um funeral de estado luxuoso em Berlim, com o seu caixão sendo carregado apenas por detentores da 'Blue Max'.
René Fonck
O capitão francês René Fonck (1894-1953) obteve 75 vitórias (embora o próprio Fonck afirmasse ter obtido 127). Fonck serviu no grupo de caças de elite do seu país, o Groupe de Chase No 12, poeticamente apelidado de Les Cigognes ou "Cegonhas". Conseguindo convencer os seus superiores de que seria mais útil como piloto de caça do que como piloto de reconhecimento, Fonck causou um impacto imediato quando começou a pilotar monoplanos velozes. No primeiro mês, Fonck já tinha quatro vitórias, e num único dia em 1918, o francês abateu seis aviões, um recorde nunca igualado por nenhum outro piloto.
Um planeador cauteloso, Fonck estudava as táticas do inimigo, praticava constantemente a sua pontaria e não apenas verificava pessoalmente as metralhadoras da aeronave, mas chegava ao ponto de verificar cada cartucho para eliminar o risco de encravamentos. Fonck era tão bom atirador que precisava apenas de rajadas curtas para derrubar uma aeronave inimiga e, assim, ao contrário de muitos outros pilotos, raramente ficava sem munição. Fonck ficou famoso por pilotar um Spad VII, um dos melhores aviões de combate da guerra, e o fez com tanta eficácia que acabou ganhando medalhas de quatro países diferentes. O maior prémio de todos, talvez, foi o fato de ter sido um dos poucos ases a sobreviver à guerra.
Edward Mannock
O piloto do Corpo Aéreo Real Britânico, Major Edward 'Mick' Mannock (1887-1918), conseguiu 73 vitórias e foi o maior ás da aviação britânica. Mannock começou a guerra no Corpo de Engenheiros Reais, mas, depois, escondeu um defeito de visão para se tornar piloto em abril de 1917. O primeiro 'acerto' de Mannock foi um balão de observação inimigo, e logo acumulou vitórias suficientes para ganhar a medalha da Cruz Militar. Mannock era outro que acreditava na preparação meticulosa antes das missões e era um fervoroso defensor das vantagens do voo em formação.
Mannock ficou famoso por pilotar um Nieuport Scout e, a partir da primavera de 1918, um Royal Aircraft Factory SE5a. Este último era um dos melhores biplanos monolugar da guerra e, aliado à habilidade do piloto e às suas exímias tácticas, permitiu-lhe alcançar a impressionante marca de 39 vitórias num período de três meses, incluindo três num só combate aéreo.
Mannock foi invensível no ar, até ser abatido por tropas alemãs que disparavam do solo em julho de 1918. O major foi condecorado postumamente com a mais alta medalha militar da Grã-Bretanha, a Cruz Vitória.
Godwin Brumowski
Godwin Brumowski (1889-1936) voou pela força aérea austro-húngara e alcançou 40 vitórias na frente austro-italiana; e ficou famoso por exibir uma grande caveira branca sobre um fundo preto na lateral da aeronave, que foi então adotada pela unidade sob o seu comando, a 'Fliegerkompanie 41'. Brumowski obteve a maioria das suas vitórias ao comando de um Albatros DIII alemão. Um dos raros sobreviventes do conflito, Brumowski continuou a voar pela força aérea da recém-criada República Austríaca.
Francesco Baracca
Francesco Baracca (1888-1918) voou pela força aérea italiana e obteve 34 vitórias; mesmo antes do início da guerra já tinha uma vasta experiência de voo acumulada. Baracca pilotou um caça monoplano Nieuport 11 em 1916 e depois passou para o muito superior Spad VII francês. Os seus aviões ostentavam sempre a insígnia pessoal de Baracca, um cavalo negro empinado sobre um fundo branco, uma homenagem aos seus dias de juventude na cavalaria italiana. Líder de esquadrão desde a primavera de 1917, o sucesso de Baracca continuou, muito graças ao Spad XIII, um dos caças mais rápidos disponíveis. Em junho de 1918, ao participar na Batalha de Piave, Baracca foi abatido e morto pelas tropas terrestres inimigas no final daquele mês.
Tal foi o sucesso e a influência de Baracca na força aérea italiana inicial que o seu emblema do cavalo empinado foi adotado como insígnia de uma unidade de voo e ainda é usado actualmente (com asas) no brasão da Aeronautica Militare. Após a guerra, o cavalo empinado preto de Baracca também foi adotado como logotipo dos carros desportivos da Ferrari.
