Cutty Sark

O veleiro mais rápido do mundo
Mark Cartwright
por , traduzido por Marco Terres
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Com milhares de pés quadrados de lonas capturando cada sopro dos ventos alísios, um clíper transportador de chá do século XIX representava o auge absoluto da evolução da navegação à vela. O Cutty Sark era exatamente esse tipo de navio, carregando chá e depois lã pelos distantes postos do Império Britânico. O Cutty Sark conquistou o título de navio mais rápido do mundo na década de 1880 graças ao seu design elegante e às suas 32 velas. Esse verdadeiro mercador veloz podia passar "voando" pelos mais modernos navios a vapor, mas a era da vela chegava ao fim à medida que a tecnologia do motor a vapor avançava. Hoje, o Cutty Sark, totalmente restaurado após uma carreira de 50 anos no mar, é um museu no rio Tâmisa.

Cutty Sark by Spurling
Cutty Sark, por Spurling Jack Spurling (Public Domain)

Os Clíperes

Os clíperes eram navios dos séculos XVIII e XIX, construídos especificamente para a velocidade. Com cascos esbeltos e aerodinâmicos e uma verdadeira floresta de mastros e velas, os clíperes transportavam cargas pelo oceano Atlântico e ao longo de toda a costa leste dos Estados Unidos. Eles quebraram todos os recordes de velocidade e passaram a ser usados em rotas muito mais longas, especialmente através do Império Britânico. Os clíperes transportavam mercadorias como ópio, lã e, mais reconhecidamente, chá.

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O Cutty Sark ainda tinha a chance de fazer história, & o chá ainda era um grande negócio.

Os maiores produtores de chá em meados do século XIX eram a Índia e a China, e a demanda na Grã-Bretanha e em suas colônias era praticamente insaciável. Por isso, surgiu então uma tradição competitiva entre os importadores para ver quem conseguiria entregar o primeiro carregamento de chá da temporada aos comerciantes britânicos em Londres. Como o chá estava no auge da moda, clientes mais ricos estavam dispostos a pagar preços altos para desfrutar da bebida antes de todos os outros. As companhias importadoras podiam lucrar enormemente nas vendas se conseguissem apenas alguns dias de vantagem sobre suas rivais. Como a velocidade se tornou a prioridade absoluta, os clíperes eram tripulados e comandados pelos melhores marinheiros disponíveis. A imprensa acompanhava as viagens desses navios, e havia até apostas sobre qual clíper em particular voltaria primeiro para casa. O Cutty Sark foi um desses clíperes de chá.

O Cutty Sark entrou tardiamente no comércio do chá; na verdade, quando zarpou pela primeira vez, em fevereiro de 1870, com destino a Xangai, o comércio de chá já havia sido transformado pela abertura do Canal de Suez no ano anterior. Já não era mais necessário contornar o Cabo da Boa Esperança, e os clíperes enfrentavam forte concorrência de navios rivais que tinham uma rota 4.800 quilômetros mais curta. Felizmente para o Cutty Sark e seus contemporâneos, os ventos em torno do Canal de Suez eram imprevisíveis, ao contrário dos ventos alísios que os clíperes aproveitavam com suas enormes velas. O tempo podia estar se esgotando, mas o Cutty Sark ainda tinha a chance de fazer história, e o chá ainda era um grande negócio: só em 1869 a Grã-Bretanha importou 28 milhões de quilos de chá.

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Cutty Sark Photograph
Fotografia do Cutty Sark A.C.Green / R.Woodget (Public Domain)

Contruído para correr

O Cutty Sark foi construído em Dumbarton, na Escócia, e foi feito para uma única coisa: velocidade. O nome do navio vem de um poema de Robert Burns: Tam O’Shanter, no qual o autor se refere a uma curiosa camisola curta usada por uma bruxa. O navio possuía um casco com estrutura de ferro coberto de teca da Índia Oriental e olmo-americano. Com mais de 85 metros de comprimento, o navio de três mastros era extremamente resistente e decididamente esguio e elegante, com sua característica proa afilada. Qualquer clíper era uma visão estonteante quando todas as suas velas estavam içadas, e o Cutty Sark não era exceção, ou melhor, era a exceção, já que o casco reforçado do navio permitia que ele carregasse mais velas do que qualquer outro navio jamais ousara. O Cutty Sark podia içar 3.000 m² de vela. Por isso, com mais de 17,7 km de cabos de estai para mantê-lo em ordem, era necessária uma tripulação especializada para conduzir o navio em ventos fortes. A velocidade máxima do Cutty Sark era de 17,5 nós, 2,5 a mais que a média dos vapores contemporâneos.

Quebra-recordes

A especialidade do Cutty Sark era transportar mercadorias como vinho, destilados e cerveja vindos da Grã-Bretanha e, na viagem de volta, chá da China. O porão do Cutty Sark podia acomodar impressionantes 10.000 caixas de chá. Tal carga de chá valeria hoje cerca de 8 milhões de dólares. Contudo, com a abertura do Canal de Suez, os navios a vapor já conseguiam chegar a Londres vindos da China dez dias antes dos clíperes. Foi por esse motivo que o Cutty Sark realizou apenas oito viagens de chá. O comércio mundial, como tantas vezes fez antes e depois, se adaptou aos novos tempos.

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Os donos do navio relutavam em perder seu investimento em uma embarcação de tão alta velocidade, e assim o Cutty Sark passou a seguir rotas comerciais alternativas, onde a concorrência era menos intensa. Embora continuasse tão rápido como sempre, nem tudo eram águas calmas. Uma famosa mutinada em 1880, enquanto atravessava o Mar de Java, levou o capitão do Cutty Sark ao desespero, fazendo-o se lançar ao mar, onde foi prontamente devorado por tubarões. Em 1883, o Cutty Sark mudou novamente de rota, desta vez para transportar lã da Austrália. O navio conseguia retornar a Londres 25 dias mais rápido do que qualquer outro navio nessa rota. Em 1886, a embarcação fez o trajeto de Sydney a Londres em um recorde de 73 dias. Para alcançar o recorde, o capitão do clíper navegou muito mais ao sul do que o habitual, arriscando os ventos traiçoeiros, porém favoráveis, das quarenta rangentes e até alguns icebergs, mas ninguém se importava muito com isso (talvez apenas os seguradores). O Cutty Sark tinha sido construído justamente para esse tipo de recorde.

Map of the Movement of "Tea" & "Cha" Around the Globe
Mapa da Circulação do Chá pelo Mundo Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A propulsão a vapor evoluía mais rápido do que nunca, e, na década de 1890, clíperes como o Cutty Sark começaram a ser aposentados das rotas comerciais mais agitadas. Uma empresa portuguesa comprou a embarcação, que foi renomeada "Ferreira" e depois "Maria do Amparo". O clíper continuou a transportar mercadorias, desta vez pelo Império Português. Ainda em operação no início do século XX, o navio escapou de ser afundado por submarinos na Primeira Guerra Mundial, mas o tempo e os mares revoltos estavam literalmente desgastando a velha embarcação.

Um Cutty Sark já bastante deteriorado retornou permanentemente à Grã-Bretanha quando foi comprado pelo capitão Wilfred Dowman, que o restaurou à sua antiga glória em 1923 e devolveu ao navio seu famoso nome. Servindo como navio de treinamento para cadetes e como atração curiosa, Dowman legou o navio ao Thames Nautical Training College (Colégio Náutico do Tâmisa). Recursos públicos ajudaram a Cutty Sark Preservation Society (Sociedade de Preservação do Cutty Sark) a restaurar o navio novamente na década de 1950. Um incêndio em 2007 exigiu mais uma rodada de restauração, mas o grande clíper, hoje um museu fixo no Tâmisa, em Greenwich, ainda preserva 90% do material original de seu casco. Embora agora preso para sempre em seu dique seco de concreto, o Cutty Sark transmite com facilidade seu potencial de velocidade, sendo um poderoso lembrete da magnificência perdida da era de ouro da navegação à vela.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Marco Terres
Marco Terres é professor de inglês e português brasileiro, revisor de textos e tradutor. Atualmente está terminando a graduação em Letras inglês pela UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e é um amante de literatura inglesa e brasileira.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, setembro 04). Cutty Sark: O veleiro mais rápido do mundo. (M. Terres, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2782/cutty-sark/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Cutty Sark: O veleiro mais rápido do mundo." Traduzido por Marco Terres. World History Encyclopedia, setembro 04, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2782/cutty-sark/.

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Cartwright, Mark. "Cutty Sark: O veleiro mais rápido do mundo." Traduzido por Marco Terres. World History Encyclopedia, 04 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2782/cutty-sark/.

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