O Museu Nacional de Zurique inaugurou recentemente uma exposição abrangente e multiperspectiva sobre o passado colonial da Suíça: Colonial – Switzerland’s Global Entanglements (Colonial – Os Envolvimentos Globais da Suíça). Com base nas mais recentes pesquisas originais e recorrendo a biografias, bem como utilizando objetos, obras de arte, fotografias e documentos escritos para fins ilustrativos, Colonial explora as vicissitudes da história colonial suíça desde o século XVI até à era atual. Nesta entrevista, James Blake Wiener conversa com a co-curadora Marina Amstad para saber mais.
JBW: Marina Amstad, muito obrigado por conversar comigo. Suspeito que muitos visitantes do museu – assim como os potenciais leitores desta entrevista – possam considerar o conceito de “colonialismo suíço” intrigante, dado que a Suíça é conhecida pela sua política de neutralidade e nunca teve colónias próprias.
O que foi então que impulsionou uma exposição sobre a história colonial suíça?
MA: Durante muito tempo, a história suíça foi vista apenas em termos do que aconteceu no território da atual Suíça. Desde o século XVI, porém, a sociedade suíça tornou-se cada vez mais interligada globalmente. Houve inúmeros suíços que participaram do sistema colonial. Por um lado, a exposição tem como objetivo mostrar as áreas de atividade colonial nas quais os suíços estiveram envolvidos. Por outro lado, mostra que a história suíça também é uma história global.
JBW: Várias empresas e indivíduos suíços participaram no comércio transatlântico de escravos e acumularam fortunas com o comércio de produtos coloniais e da exploração de pessoas escravizadas.
Qual foi a extensão da participação suíça no Comércio Triangular (do século XVI ao XIX – um sistema comercial tripartido entre a África, a Europa e as Américas) e como a economia da Suíça enriqueceu com as atividades relacionadas ao comércio?
MA: As pesquisas actuais identificaram mais de 250 empresas e indivíduos suíços envolvidos no comércio e na deportação de mais de 172.000 escravos. Alguns obtiveram grandes lucros, outros tiveram prejuízos. A economia suíça lucrou de várias maneiras: por um lado, através dos lucros directos que fluíram para a Suíça, mas também através das matérias-primas baratas das colónias, como o algodão para a indústria têxtil.
No entanto, a questão de saber se a Suíça (como Estado) também se tornou rica como resultado de suas ligações coloniais é difícil de responder com base nas pesquisas correntes. As empresas e famílias individuais sem dúvida beneficiaram do colonialismo, enquanto a maioria da população suíça ainda vivia uma vida pobre e desfavorecida por volta de 1900. É importante ressaltar que ainda há uma lacuna na pesquisa (em parte porque certos arquivos na Suíça ainda são inacessíveis aos pesquisadores).
JBW: Embora muitos tenham uma imagem idealizada da Suíça como um bastião da neutralidade, a bravura marcial e a astúcia dos soldados mercenários suíços são tão lendárias quanto importantes na história da Suíça.
O que nos pode dizer sobre os suíços que serviram como mercenários em exércitos europeus no exterior? Como é que as suas ações são apresentadas em Colonial?
MA: Durante muito tempo, os mercenários suíços foram lembrados de uma forma muito positiva, ignorando a violência que cometeram e sofreram. Os mercenários suíços serviram nos exércitos coloniais europeus desde o final do século XVI, participando de violentas campanhas de conquista e manutenção da ordem colonial. Por exemplo, a exposição apresenta Hans Christoffel, um mercenário de Graubünden que serviu no Exército Real Holandês da Índia de 1886 a 1910; era conhecido pelo seu estilo militar autoritário e comportamento inescrupuloso, incluindo vários massacres aos povos indígenas, por exemplo, na Ilha de Flores, na atual Indonésia. Num filme, os descendentes dos sobreviventes destes massacres explicam como se lembram dos mercenários e dos excessos de violência.
JBW: Um número considerável de suíços viajou pelo mundo como missionários, e uma secção inteira da exposição é dedicada às suas atividades e zelo religioso.
Qual é a sua importância na história colonial suíça? Como eles moldaram os empreendimentos coloniais e os assentamentos na Ásia, África e América Latina?
MA: Os missionários trabalharam com as autoridades locais para estabelecer hospitais e escolas. Embora fossem, por vezes, agentes de mudança social, as suas relações eram frequentemente caracterizadas por uma autoimagem paternalista. Acima de tudo, mostramos como os missionários moldaram a imagem das colónias e dos colonizados, especialmente a imagem das culturas «inferiores», na Suíça.
JBW: Pode contar-nos como os cientistas das universidades de Zurique e Genebra formularam as teorias raciais para legitimar os sistemas coloniais no final do século XIX e início do século XX?
MA: Por volta de 1900, as universidades de Zurique e Genebra tornaram-se os centros internacionais da chamada «antropologia racial». Os supostos «antropólogos raciais» mediram os crânios de pessoas de todo o mundo e classificaram-nas em «raças». O método da «Escola de Zurique», em particular, tornou-se a norma internacionalmente aceite a partir da década de 1920. Estas análises também foram utilizadas para proteger uma «raça branca» alegadamente em perigo de extinção. A chamada «teoria racial» e a eugenia continuaram a ser praticadas na Suíça em casos isolados até à década de 1960. Hoje, em parte graças à investigação genética, a ideia de uma «raça humana» foi oficialmente desacreditada.
JBW: Ao traçar paralelos com questões contemporâneas, Colonial também pondera a questão em aberto sobre o que esta herança colonial significa para a Suíça actual.
Com isso em mente, como os visitantes devem lidar com a natureza complexa dos envolvimentos coloniais da Suíça? Além disso, o que gostaria que os visitantes levassem consigo após uma visita ao Colonial?
MA: Com todas estas questões históricas, sempre nos preocupamos com a seguinte pergunta: o que é que isto tem a ver conosco como sociedade? Não é da nossa responsabilidade o que as pessoas antes de nós fizeram. Mas é da nossa responsabilidade como lidamos com este legado colonial. Porque o colonialismo deixou a sua marca na nossa língua, nos nossos livros de história, nas nossas administrações, nas nossas conciências. A mentalidade colonial ainda tem impacto hoje em dia e, para reconhecê-la e quebrá-la, precisamos de entender de onde ela vem. Os visitantes devem perceber que a Suíça, como parte do mundo globalizado, também tem que lidar com as consequências do colonialismo.
JBW: Em nome da World History Encyclopedia e dos seus leitores, agradeço-lhe muito por partilhar o seu tempo e os conhecimentos connosco.
MA: Muito obrigada pelo seu interesse na nossa exposição.
Colonial – Switzerland’s Global Entanglements está em exibição no Museu Nacional de Zurique até 19 de janeiro de 2025. A exposição continua numa forma adaptada, de 27 de março a 11 de outubro de 2026, no Château de Prangins.
Marina Amstad é historiadora e curadora de exposições no Museu Nacional Suíço. Estudou história e estudos eslavos em Basileia, especializando-se em história moderna e contemporânea. Desde 2016, trabalha em várias exposições no Museu Nacional de Zurique. Ela é co-curadora da exposição Colonial – Os Envolvimentos Globais da Suíça.

