A juventude de George Washington (1732-1799), o primeiro presidente dos Estados Unidos, continua a ser o capítulo menos compreendido da sua vida, envolto em folclore e mitos. No entanto, as experiências da sua juventude e o vínculo que sentia pelo meio-irmão mais velho, Lawrence, moldaram o homem que se tornaria e ajudaram a colocá-lo no caminho da revolução e da presidência.
Este artigo examina o que se sabe sobre a linhagem e a juventude de George Washington, desde a primeira vez em que o seu bisavô pisou as costas da Virgínia em 1657 até à maioridade de George em 1753, um ano antes dos tiros disparados na Batalha de Fort Necessity mudarem a trajetória da sua vida e, pode-se argumentar, da história mundial.
Alto, forte e um pouco desajeitado fisicamente, o jovem George Washington cresceu numa plantação nos arredores de Fredericksburg, Virgínia, e mudou-se para Mount Vernon como pupilo do seu irmão logo após a morte do pai. Tornou-se agrimensor aos 16 anos, medindo mais de 60 000 acres de terra ao longo da fronteira ocidental não mapeada da Virgínia. Quando Lawrence contraiu um caso fatal de tuberculose, George acompanhou-o a Barbados, a única vez que saiu dos limites dos futuros Estados Unidos; enquanto lá esteve, teve um breve mas doloroso surto de varíola e, pela primeira vez, deparou-se com o poderio militar da Grã-Bretanha. Em 1753 quando completou 21 anos já tinha vivido muitas experiências, embora nada que o pudesse ter preparado para o que ainda estava por vir.
Família e Ascendência
A história da família Washington na Virgínia começa com um naufrágio: em 28 de fevereiro de 1657, o navio mercante Seahorse of London encalhou nos bancos de areia do rio Potomac durante uma tempestade; carregado com precioso tabaco, o navio iniciara a viagem de regresso à Inglaterra. Entre a tripulação estava um jovem inglês chamado John Washington (nascido em 1633), que havia abraçado a vida no mar depois do pai, um reitor anglicano, ter tido as suas propriedades confiscadas por apoiar os monarquistas durante as Guerras Civis Inglesas (1642-1651). Enquanto os tripulantes trabalhavam na reparação do Seahorse of London, John Washington fez amizade com vários habitantes locais, incluindo Anne Pope, filha de um rico agricultor de Maryland. Foi talvez por amor a Anne — ou talvez porque viu mais oportunidades na América do que em alto mar — que John decidiu ficar para trás depois dos tripulantes terem partido de regresso à Inglaterra no navio reparado. John Washington casou-se com Anne Pope em fins de 1658, e o casamento acabou por gerar cinco filhos.
Antes da sua morte, em agosto de 1677, John Washington causou grande impacto na sua terra adotiva, a Virgínia. Tinha comprado ou herdado mais de 5.000 acres de terra, nas quais plantara tabaco que era colhido por escravos africanos e trabalhadores brancos contratados. O filho mais velho de John, Lawrence (nascido em 1659), recebeu, portanto, uma herança considerável e estava perfeitamente preparado para entrar no serviço público. Antes dos 25 anos, serviu como juiz de paz e na Câmara dos Burgueses, consolidando o lugar da família Washington entre a nobreza rural da colónia. Por volta de 1686, casou-se com Mildred Warner, filha do presidente da Câmara dos Burgueses, com quem teve três filhos: John (1692-1746), Augustine (1694-1743) e Mildred (1698-1747). Lawrence morreu prematuramente em 1698, e a viúva voltou a casar com um comerciante inglês, George Gale, e mudou-se com os filhos para Whitehaven, Inglaterra, antes de falecer em 1701. Gale cuidou dos filhos órfãos de Washington, matriculando os rapazes na escola secundária próxima, em Appleby.
Augustine Washington, o filho do meio de Lawrence e Mildred, regressou à Virgínia algum tempo antes de atingir a maioridade, em 1715, para reivindicar a herança. Chamado de «Gus» pela família e amigos, era alto, loiro e musculoso, e diziam que era tão gentil quanto forte. Ao completar os 21 anos, herdou 1.000 acres de terra, bem como seis escravos; após o casamento com Jane Butler, naquele mesmo ano, acrescentou mais 1.700 acres à sua já considerável propriedade. O casal estabeleceu-se na propriedade de Gus, em Pope's Creek, no condado de Westmoreland, Virgínia, onde logo começou a construção de uma casa que denominaram de Wakefield: onde Jane deu à luz os três filhos: Lawrence (1718-1752), Augustine Jr. (1720-1762) e Jane (1722-1735).
Tal como o próprio pai, Augustine entrou na vida pública, servindo como juiz de paz e xerife do condado de Westmoreland, continuou a premissa do pai de comprar propriedades, incluindo um terreno perto de Accokeek Creek, 13 km (8 milhas) a nordeste de Fredericksburg. Foi nesta terra que, no final da década de 1720, foram descobertos ricos depósitos de ferro ; procurando capitalizá-lo, Augustine começou a negociar com a 'Principio Company', uma associação de mestres ferreiros e comerciantes britânicos, para construir uma siderurgia na terra. Em 1729, Augustine foi à Inglaterra para finalizar as negociações com os seus novos parceiros de negócios, mas ao regressar descobriu que a sua mulher, Jane, tinha falecido. Apesar de estar perturbado, não era costume os viúvos da Virgínia permanecerem solteiros por muito tempo e, em 6 de março de 1731, Augustine Washington casou-se novamente com Mary Ball, de 23 anos.
Infância e Educação
Mary Ball Washington deu à luz o seu primeiro filho em Wakefield, às 10h00 da manhã de 22 de fevereiro de 1732, de nome George, seguido de cinco irmãos: Elizabeth (1733-1797), Samuel (1734-1781), John Augustine (1736-1787), Charles (1738-1799) e Mildred (1739-1740). Em 1734, Augustine mudou a família em rápido crescimento 96 km (60 milhas) para a plantação Little Hunting Creek, junto ao rio Potomac, onde poderia ficar de olho na sua lucrativa siderurgia. Mandou construir uma casa na propriedade que viria a ser a base para Mount Vernon. Pouco tempo depois, Augustine mudou a família mais uma vez, desta vez para a propriedade Ferry Farm, perto de Fredericksburg, na Virgínia; onde George Washington passou grande parte da sua juventude.
Pouco se sabe sobre a infância de George; na verdade, em termos de estudos históricos, continua a ser o capítulo mais obscuro da sua vida. Ele certamente foi criado na plantação Ferry Farm e provavelmente frequentou uma escola local em Fredericksburg, onde se destacou nas disciplinas de geometria, trigonometria e cartografia. Alguns dos seus trabalhos escolares chegaram até aos dias de hoje e nos quais copiou conjuntos de ensinamentos morais do livro Rules of Civility and Decent Behavior in Company and Conversation (Regras de Civilidade e Comportamento Decente em Companhia e Conversação); estas «regras», que incluíam conselhos como «na presença de outras pessoas, não cante murmurrando, nem bata com os dedos ou os pés», ensinaram-no como ser um perfeito cavalheiro virginiano, orientação que seguiria pelo resto da vida. Histórias folclóricas sobre a infância de George — como o suposto caso em que não conseguiu mentir ao pai sobre ter derrubado uma cerejeira valiosa — foram inventadas posteriormente, para preencher as lacunas desta parte desconhecida de sua vida.
Em 1743, Augustine Washington morreu inesperadamente e com apenas 11 anos, George herdou a Ferry Farm, bem como dez escravos. Muito jovem para cuidar de si mesmo, foi enviado para viver com o meio-irmão mais velho, Lawrence, que herdara a propriedade Little Hunting Creek e a renomeara Mount Vernon, em homenagem ao almirante britânico Edward Vernon, seu comandante na Guerra da Orelha de Jenkins (ou Guerra do Asiento). George idolatrava e adorava Lawrence e logo tentou imitar a «graça, porte e maneiras» do refinado irmão mais velho (Freeman, pág. 5). Eventualmente, George passou a considerar Lawrence como uma figura paterna e melhor amigo. Lawrence Washington parecia ser um bom modelo para o jovem George, pois estava rapidamente a ganhar fama na Virgínia. Em 1744, foi eleito para a Câmara dos Burgueses e, alguns anos mais tarde, ajudou a fundar a 'Ohio Company', uma empresa de especulação imobiliária criada para colonizar as terras não colonizadas do Vale do Rio Ohio. Lawrence também se casou com Anne Fairfax, filha do seu influente vizinho Thomas Fairfax, cujo patrocínio logo afetaria a vida de George.
Carreira de Agrimensor
Depois de terminar os estudos, a proficiência de George em matemática levou-o a considerar uma carreira em agrimensura, que na época era considerada um caminho respeitável para a riqueza e o avanço social. Em 1748, com 16 anos, George Washington partiu numa expedição à região selvagem do Vale Shenandoah para proceder ao levantamento topográfico das propriedades do sogro de Lawrence, Thomas Fairfax. Era a primeira vez que George saía das terras onde crescera, em Virginia Neck, e manteve um diário para relatar as suas experiências nesta que foi a sua primeira aventura. Liderada pelo filho de Thomas, George William Fairfax, a equipa de levantamento topográfico seguiu ao longo da margem do rio Potomac, partindo a 14 de março de 1748. Naquela noite, após um longo dia de viagem, George ficou desapontado ao descobrir que não havia onde dormir, exceto um «cobertor gasto com o dobro do seu peso em parasitas, como piolhos e pulgas». A 22 de março, George encontrou pela primeira vez nativos americanos, que transportava um escalpo. George registou no seu diário como um dos nativos construiu um tambor esticando a pele de veado sobre um pote meio cheio de água, enquanto os outros dançavam ao redor duma fogueira crepitante.
Esta primeira expedição foi, no final das contas, um sucesso, e George recebeu a sua licença de agrimensor no ano seguinte. Impressionado com as habilidades do jovem, Thomas Fairfax usou a sua influência para que George fosse nomeado agrimensor do recém-formado condado de Culpeper, na fronteira oeste da Virgínia. Ao longo dos três anos seguintes, George Washington realizou 200 levantamentos, medindo um total combinado de 60 000 acres de terra. Estas viagens de levantamento levaram-no muito além dos limites do condado de Culpeper, e logo se aventurou nas Montanhas Blue Ridge e noutros territórios não colonizados no oeste. Esta experiência proporcionar-lhe-ia um interesse duradouro pelas terras ocidentais, interesse esse que influenciou as escolhas que o levaram a pegar em armas tanto na Guerra Franco-Indígena quanto na Revolução Americana. Em 1752, deixou de fazer levantamentos topográficos profissionalmente, mas continuaria a fazê-los para as suas próprias propriedades pelo resto da vida.
Viagem a Barbados
Na primavera de 1749, quando se iniciava a sua carreira de agrimensor, Lawrence começou a ter uma tosse forte. No início, tentou ignorá-la e continuar com as suas funções, mas a tosse não passava e ficou tão grave que em maio afastou-se da Câmara dos Burgueses. No início de 1751, ficou claro que o irmão mais velho dos Washington sofria de tuberculose (comummente conhecida como «consunção» naquela época), o que o levou a procurar um clima mais tropical na esperança de que o ar ameno pudesse restaurar a saúde. Barbados, uma pequena ilha no sudeste das Caraíbas, era conhecida por ser um destino popular para pacientes com tuberculose, o que levou Lawrence a escolhê-la como destino. A sua mulher Anne não pôde acompanhá-lo, pois tinha uma filha pequena para cuidar e não queria arriscar a saúde dela numa longa viagem. Assim, George, de 19 anos, concordou em substítui-la. O navio dos irmãos partiu do Potomac a 28 de setembro de 1751, chegando à costa leste de Barbados às 4 da manhã do dia 2 de novembro.
Os irmãos desembarcaram e foram para Bridgetown, o principal povoado da ilha, encontrando alojamento na casa do capitão Crofton, com vista para a baía de Carlisle. Enquanto Lawrence consultava os médicos, George maravilhava-se com a paisagem tropical de Barbados, diferente de tudo o que já tinha visto, e descobriu que estava «perfeitamente encantado» com a beleza da ilha (mountvernon.org). Ambos frequentemente jantavam nas casas de importantes funcionários de Barbados, um dos quais ofereceu a George uma visita ao Forte Charles, em Needham Point. O forte de 36 canhões, que guardava a entrada da baía de Carlisle, foi a primeira fortaleza deste tipo que George viu e teve um forte impacto no jovem virginiano; enquanto antes pouco pensava em assuntos militares, o vislumbre do poderio militar britânico em Barbados fascinou-o e pode tê-lo convencido a seguir a carreira militar quando regressasse para a Virgínia.
Em 17 de novembro, no meio da agitação intoxicante da vida social em Bridgetown, George ficou com febre. À noite, queixava-se de forte dor de cabeça e dores nas costas e nos lados, e três dias depois apareceram-lhe na testa pequenos pontos vermelhos. George havia contraído varíola, uma das doenças mais temidas da época — embora fosse muito mais rara na Virgínia, era comum nas Caraíbas. Durante vários dias ficou confinado à cama, travando uma dolorosa batalha contra a varíola. Mas era jovem e saudável e recuperou-se rapidamente, embora o rosto tivesse ficado marcado com cicatrizes reveladoras que denotavam um sobrevivente da varíola. George nunca esqueceria a sua batalha contra a varíola, nem o quão perto da morte tinha estado. Durante a Revolução Americana, quando um surto de varíola assolava as colónias, ordenou que todos os seus soldados fossem vacinados contra a doença, um ato que vários historiadores consideram ter salvado o Exército Continental da destruição.
Morte de Lawrence
Em 21 de dezembro, pouco depois de sua recuperação, George partiu sozinho para a Virgínia; Lawrence, cuja condição não tinha melhorado muito, decidiu tentar as Bermudas, mas insistiu para que o irmão mais novo regressasse a casa. George chegou a Yorktown a 28 de janeiro de 1752 e imediatamente seguiu para Williamsburg para prestar homenagem ao governador, Robert Dinwiddie, que logo desempenharia um papel importante na sua vida. Em seguida, retornou a Mount Vernon e apaixonou-se perdidamente por Elizabeth «Betsy» Fauntleroy, filha de uma família respeitada. Esta não era a primeira vez que George se apaixonava; quando adolescente, escreveu poemas sobre as raparigas por quem se apaixonava, mas nunca tinha cortejado formalmente nenhuma delas. Agora que estava na idade de casar, fez duas tentativas românticas com Betsy Fauntleroy, mas foi rejeitado em ambas as vezes. Levaria mais sete anos para que se casasse com a viúva Martha Dandridge Custis, sua futura primeira-dama.
Por volta do início de junho de 1752, Lawrence regressou das Bermudas, não porque tivesse recuperado; mas porque compreendeu que estava a morrer, decidiu «correr para casa, para [a sua] sepultura», a fim de poder colocar os assuntos em ordem e morrer na terra onde nascera (Freeman, pág. 31). Lawrence concluiu e assinou o testamento a 20 de junho e morreu seis dias depois, aos 34 anos; George, devastado pela dor, ficou encarregado de organizar o funeral e construir um jazigo para o amado meio-irmão. A propriedade de Mount Vernon passou para a viúva de Lawrence, Anne, mas como não morava lá, concordou em alugar a propriedade a George; após a morte de Anne em 1761, George tornou-se o proprietário oficial de Mount Vernon (a única filha de Lawrence e Anne, Sarah, tinha morrido na infância em 1754).
Conclusão: Washington, o Soldado
Em 1753, George Washington completou 21 anos, considerada a idade da maturidade na América colonial. Tal como o pai, era fisicamente forte e media mais de 1,83 m (6 pés) de altura, sobressaindo-se à maioria dos seus contemporâneos. Tinha olhos cinza-azulados e cabelos ruivos que penteava com pó e encaracolava, seguindo a moda da época. Era conhecido por ser um dançarino gracioso, um cavaleiro habilidoso e um caçador aficionado, características que o destacavam como um verdadeiro cavalheiro da Virgínia. No entanto, tal como outros jovens cavalheiros da época, George Washington ansiava por aventuras; a vista impressionante do Forte Charles, em Barbados, levou-o a sonhar com a glória marcial, tal como o irmão idolatrado, Lawrence, alcançou no Cerco de Cartagena durante o seu serviço na Guerra da Orelha de Jenkins.
Logo teria a sua oportunidade: em 1753, chegou à Virgínia a notícia de que os franceses haviam começado a construir fortes no vale do rio Ohio, em terras reivindicadas pela 'Ohio Company', que havia sido parcialmente fundada por Lawrence Washington. O governador Dinwiddie, que era um investidor da 'Ohio Company', enviou George para exigir que os franceses partissem imediatamente do território. A decisão de George Washington de aceitar a missão, embora sem dúvida motivada pela sua sede de glória, também foi tomada com base nas experiências da sua juventude: sentiu-se compelido a defender as reivindicações da 'Ohio Company' tanto por amor e lealdade ao seu meio-irmão mais velho quanto por causa das suas próprias experiências como agrimensor de terras ocidentais, terras que ele acreditava pertencerem por direito aos virginianos. Quaisquer que fossem as suas razões, a viagem de Washington ao Oeste em 1753 mudaria a trajetória da sua vida, colocando-o no caminho para se tornar um soldado e, por fim, presidente de uma nação que ajudaria a forjar, os Estados Unidos da América.

