A Primeira Batalha do Somme ocorreu no norte da França durante a Primeira Guerra Mundial, de 1 de julho a 18 de novembro de 1916. A batalha (que não deve ser confundida com a Segunda Batalha do Somme, também conhecida como a Ofensiva do Somme de 1918) foi travada entre as forças alemãs e os exércitos da Grã-Bretanha e da França, bem como as respetivas forças coloniais. Sendo uma das batalhas mais sangrentas da história, registaram-se 58.000 baixas britânicas e do Império Britânico apenas no primeiro dia — um número sem paralelo durante toda a guerra. No total, mais de um milhão de homens foram mortos ou feridos na batalha, e muito pouco território foi conquistado por qualquer um dos lados, enquanto esta guerra de atrito, largamente estática, prosseguia na Frente Ocidental por mais um ano e meio.
As Metas
A batalha foi originalmente concebida como parte de uma ofensiva aliada mais ampla, mas acabou por se converter numa operação de diversão para aliviar a pressão sobre as tropas do Exército Francês na colossal e prolongada Batalha de Verdun. Esta desenrolava-se mais a sul, na Frente Ocidental, onde os alemães tentavam capturar a cidade-fortaleza francesa com o mesmo nome. Foi o alto comando francês que insistiu para que os britânicos atacassem a zona do Somme, uma vez que era o ponto de junção entre as linhas da frente britânica e francesa. Infelizmente, esta área era, também, uma das mais bem defendidas pelo inimigo. O plano previa que a Força Expedicionária Britânica (BEF) atacasse as linhas alemãs ao longo de uma frente de 29 km (18 milhas). Esta linha estendia-se de Gommecourt, a norte, até Maricourt, a sul — estando esta última situada a norte do rio Somme, o que deu origem ao nome da batalha.
O Comandando
O General Henry Rawlinson (1864-1925) comandava o Quarto Exército Britânico, ao qual cabia a responsabilidade de liderar o ataque. Em apoio estava parte do Terceiro Exército, liderado pelo Tenente-General Edmund Allenby (1861-1936), conhecido como 'o Touro' devido ao seu temperamento notoriamente difícil. O contingente total do Império Britânico ascendia a 19 divisões e incluía unidades da Austrália, Canadá, Índia, Nova Zelândia, Terra Nova, África do Sul e das Índias Ocidentais. A maioria dos soldados britânicos eram voluntários inexperientes; apenas as forças da Corpo de Exército da Austrália e da Nova Zelândia (ANZAC) tinham enfrentado condições de combate anteriormente (na Campanha de Gallipoli, em 1915). A sul do rio Somme encontrava-se o Sexto Exército Francês, comandado pelo General Marie Fayolle (1852-1928) e composto por oito divisões (não havendo mais disponíveis, uma vez que as restantes forças francesas tinham sido mobilizadas para a Batalha de Verdun). A aviação também esteve envolvida na batalha do Somme, com os Aliados a operarem 180 aeronaves, gozando assim de uma superioridade numérica de 3:1 sobre a força aérea alemã.
O Segundo Exército Alemão, que ocupava este sector da frente, era liderado pelo General Otto von Below (1857-1944), que viera de uma série de sucessos militares contra o Exército Russo na Frente Leste. As forças alemãs detinham posições defensivas sólidas, profundamente escavadas na crista de uma colina. Um sistema triplo de linhas de trincheiras era reforçado por várias aldeias fortificadas e búnqueres profundos, destinados a proteger grandes contingentes de tropas do fogo da artilharia inimiga.
Rawlinson e o comandante-geral da BEF, o Marechal de Campo Douglas Haig (1861-1928), divergiam quanto à forma exata de desalojar o inimigo. Haig sonhava com uma ruptura profunda e dramática das linhas alemãs, enquanto Rawlinson defendia uma abordagem mais realista de 'conquista e consolidação' (bite and hold), baseada na tomada e fortificação sucessiva de pequenos ganhos territoriais. A visão de Haig de uma combinação de artilharia, infantaria e cavalaria para derrotar o inimigo, revelou-se totalmente irrealista, mas foi o plano que usou.
Os Erros da artilharia
A batalha foi precedida por oito dias de fogo preparatório de artilharia pesada. Infelizmente para os Aliados, as posições alemãs, que incluíam búnqueres de betão, não sofreram danos tão graves como se esperava com a barragem de artilharia. A frente de ataque de 32 km (20 milhas) era simplesmente demasiado extensa para que as cerca de 400 peças de artilharia pesada fossem eficazes. As baterias britânicas careciam também de peças de grande calibre para atingir tal objectivo, a par de problemas com a qualidade das granadas disparadas. O Ministério das Munições britânico tinha, de forma imprudente, abandonado os controlos de qualidade para aumentar a produção. O resultado foi que cerca de 30% das granadas não explodiram ou, pior ainda, explodiram prematuramente, danificando a própria peça de artilharia que as disparara.
Outro erro da artilharia foi usar projéteis de estilhaços, que não causavam danos graves aos sistemas de trincheiras bem construídos ou ao arame farpado que cobria a no man's land (a terra de ninguém). Não era a primeira vez que a incompetência atrás das linhas resultava num alto preço a ser pago apenas pelos soldados na frente de batalha. Em contraste, os franceses, usando uma concentração muito maior de artilharia e armas mais pesadas, conseguiram destruir partes das defesas alemãs. Como resultado, a infantaria francesa sofreu comparativamente menos baixas do que os seus colegas britânicos.
A Tragédia do Primeiro Dia
Os comandantes aliados mobilizaram finalmente a infantaria às 07:30 da manhã do dia 1 de julho. Quinhentos mil homens avançaram resolutamente pela 'pela terra de ninguém'. A infantaria estava armada com espingardas, metralhadoras ligeiras, granadas e morteiros. As metralhadoras alemãs, bem protegidas, causaram uma carnificina total contra este alvo indefeso. Como um observador notou, os homens foram mortos como 'feixes de trigo ceifados em tempo de colheita' (Yorke, pág. 32). Ao contrário do que a crença popular dita, a maioria da infantaria não caminhou simplesmente em direção ao inimigo a um passo compassado. Muitos oficiais incentivaram os seus homens a correr e a ziguezaguear, mas, como nota o historiador R. Prior, perante as metralhadoras, 'pouco importava se os homens caminhavam, corriam ou faziam a dança das Terras Altas (Highland fling) pela terra de ninguém' (Winter, pág. 102).
As forças britânicas não fizeram qualquer progresso, salvo numa pequena brecha. 'Ao final do dia, os britânicos tinham sofrido 58.000 baixas (das quais 19.000 foram mortos), a maior perda alguma vez registada pelo exército britânico num único dia' (Bruce, pág. 352). O pesado preço em vidas humanas, cerca de 40% dos efectivos envolvidos na batalha naquele dia, tinha rendido um avanço de apenas de 1,6 km (uma milha) e a captura de duas aldeias: Montauban e Mametz. Unidades inteiras foram praticamente dizimadas; num exemplo devastador, entre um grupo de 700 homens que se tinham alistado todos ao mesmo tempo durante uma iniciativa local na cidade de Accrington, 584 foram mortos logo no primeiro dia da batalha. Quando a notícia chegou à cidade, em East Lancashire, os sinos das igrejas dobraram em sinal de luto durante um dia inteiro. O governo britânico manteve-se estranhamente silencioso sobre o quão mal a Batalha do Somme estava a correr, e Haig recebeu permissão para continuar a ofensiva da forma que entendesse.
Mudança de Tática
À medida que os Aliados obtinham mais alguns ganhos territoriais menores nos dias seguintes, tornou-se claro que eram necessárias tácticas diferentes. Primeiro, foi adoptada a estratégia da 'barragem rolante' (creeping barrage), na qual o fogo de artilharia era calculado para avançar em simultâneo com a infantaria. Esta técnica revelou-se frequentemente eficaz, mas apresentava inconvenientes — nomeadamente a falta de precisão, o que levava a que, por vezes, os homens fossem mortos pelas granadas do seu próprio lado. Outros factores negativos foram as condições meteorológicas, em que a má visibilidade tornava muito mais difícil o cálculo do alcance variável da barragem, e as más condições do terreno, que atrasavam o avanço das tropas e criavam um fosso demasiado grande entre a infantaria e o fogo de artilharia.
Um ataque nocturno surpresa em meados de julho, lançado por quatro divisões comandadas por Rawlinson, conseguiu capturar a crista de Bazentin, empurrando os alemães cerca de 5500 metros (6,000 jardas) para trás. No entanto, como acontecia frequentemente nesta frente, a chegada de reforços ajudou rapidamente o Exército Alemão a recuperar as suas posições anteriores. O uso de cavalaria pelos britânicos (na verdade, tropas indianas) revelou-se um desastre, uma vez que se provou que os cavalos eram tão vulneráveis ao fogo das metralhadoras como os homens. Ainda assim, os comandantes insistiram. Uma ofensiva aliada para conquistar uma crista perto de Pozières falhou a 23 de julho, embora duas divisões australianas tenham capturado a localidade. O Corpo Australiano sofreria 23.000 baixas e deixaria de existir como força de combate até ao final da batalha.
Ao perceberem que os Aliados estavam determinados a atacar em força neste sector da frente, a estrutura de comando alemã foi dividida para melhor comandar uma defesa reforçada. O General Below passou a encarregar-se apenas da secção norte, enquanto o General Max Gallwitz (1852-1937), um especialista em situações de crise com vasta experiência, assumiu o comando da secção sul. A batalha prosseguiu intermitentemente, mas nem o forte apoio aéreo aliado conseguiu quebrar o impasse. Essencialmente, os Aliados estavam a delapidar as suas tropas em pequenos focos de acção, que os alemães podiam atacar com fogo concentrado de artilharia e metralhadoras. As forças alemãs também sofreram, ao serem submetidas a mais de 7 milhões de granadas de artilharia entre julho e setembro.
A Ofensiva de Setembro
Haig, desprovido de imaginação e sem nunca ter compreendido o poder de metralhadoras bem protegidas, pensou apenas em lançar outra grande ofensiva em meados de setembro. Haig estava convencido, sem grandes provas que o sustentassem, de que o moral alemão estava prestes a ruir. Desta vez, a frente seria alargada em 25,5 km (12 milhas) para sul. A extensão do ataque trouxe o Décimo Exército Francês, comandado pelo General Alfred Micheler (1861-1931), para a contenda. Esta nova fase, por vezes chamada Batalha de Flers-Courcelette, viu os Aliados desfrutarem de uma clara vantagem numérica sobre o inimigo: 12 divisões contra 6,5.
Para a nova ofensiva, os Aliados tinham à sua disposição 49 tanques. Esta nova arma mecanizada revelou-se promissora mas, infelizmente para os Aliados, eram em número demasiado reduzido para serem decisivos aqui, e os que possuíam demonstraram ser mecanicamente pouco fiáveis (17 avariaram antes de chegarem às linhas inimigas). Além disso, as tripulações dos tanques ainda não estavam totalmente treinadas e Haig ainda não tinha a certeza sobre a melhor forma de os utilizar. Mesmo assim, a ofensiva da infantaria conseguiu efetuar rupturas, numa média de cerca de 2,4 km (1.5 milhas) em certas secções centrais. Como era habitual, quando os reforços do inimigo eram mobilizados, os atacantes sitiados não tinham outra alternativa senão retirar.
O Fim da Batalha
O mau tempo contribuiu para a interrupção da ofensiva. Alguns ganhos britânicos menores foram alcançados no final de setembro, mas as condições no campo de batalha tornavam-se cada vez mais decisivas. Em outubro, toda a área era um mar de lama. Continuaram a ser realizados ataques aliados mais limitados, nomeadamente a Batalha da Crista de Transloy. Em novembro, os Aliados capturaram a fortaleza de campanha de Beaumont e a própria localidade. Após quatro meses e meio sangrentos, a Batalha do Somme foi encerrada pelas primeiras quedas de neve.
Os Aliados "tinham conquistado uma área em forma de crescente com cerca de 9,6 km (seis milhas) de largura no seu ponto mais amplo, mas não tinha ocorrido qualquer ruptura" (Bruce, pág. 354). Apesar de terem capturado as três primeiras linhas de trincheiras alemãs, os ganhos foram limitados, uma vez que os alemães tinham construído novos sistemas de trincheiras logo atrás das capturadas. Muitos homens tinham morrido por muito pouco. As forças britânicas e do Império Britânico sofreram 432.000 baixas, as quais incluíam cerca de 150.000 mortos e 100.000 feridos de tal forma graves que não puderam voltar à guerra. As forças francesas suportaram mais de 200.000 baixas. Os alemães sofreram, pelo menos, 230.000 baixas (Winter, pág. 108). Haig tinha aniquilado metade da força britânica na Frente Ocidental, ganhando uma nova alcunha: 'o Açougueiro do Somme'.
As Consequências
Pelo menos a Batalha do Somme cumpriu o seu objectivo estratégico: aliviar a pressão sobre Verdun e enfraquecer uma parte significativa do exército inimigo. Outro aspecto positivo foi que o Exército Britânico aprendeu, embora da maneira mais difícil, como usar melhor a artilharia em combinação com a infantaria, os tanques e o apoio aéreo. Nunca mais se repetiriam as perdas do primeiro dia da Batalha do Somme. O apoio público ao esforço de guerra continuou forte graças a filmes pró-guerra como o "A Batalha do Somme" (Battle of the Somme, 1916), que foi visto por 20 milhões de pessoas.
O custo da batalha foi terrível para os Aliados, mas a Alemanha tinha ainda menos condições de arcar com as suas perdas. Nenhuma grande ofensiva alemã foi lançada nos 15 meses seguintes. Esta parte da França testemunharia mais mortes e feridos na primavera de 1918, quando os Aliados lançaram mais uma vez uma grande ofensiva na região. A Ofensiva do Somme/Segunda Batalha do Somme terminou com uma vitória aliada e alcançou os maiores ganhos territoriais de qualquer um dos três anos anteriores da guerra, mas ainda assim não foi o suficiente para pôr fim a esta 'guerra para acabar com todas as guerras'.
