Henry Every

Mark Cartwright
por , traduzido por Ricardo Albuquerque
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Henry Every (by Naughty Dog/Sony, Copyright, fair use)
Henry Every Naughty Dog/Sony (Copyright, fair use)

Henry Every (nascido em 1653), também conhecido como Henry Avery, Benjamin Bridgeman, ‘Long Ben’ e (incorretamente) John Avery, foi um dos piratas mais selvagens e bem-sucedidos da Era de Ouro da Pirataria. Em 1695, após capturar um navio do imperador mogol com tesouros cujo valor estimado alcançava 95 milhões de dólares em valores atuais, ele prontamente desapareceu para nunca mais ser visto.

Graças ao butim excepcional resultante da captura do Ganji-i-Sawai, Every conquistou o apelido de "Arquipirata". Há muito se considera que o espetacular sucesso de Every inspirou vários outros marinheiros, cansados dos biscoitos secos [um item essencial nas longas viagens marítimas da época] e do chicote, a adotar a pirataria na esperança de obter uma bolada substancial de uma só vez. A despeito da recompensa pela cabeça de Every, ele conseguiu desaparecer por completo, ainda que tenha surgido uma lenda segundo a qual perdeu sua fortuna para receptadores inescrupulosos e morreu na miséria na Inglaterra.

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Início da Vida

Henry Every nasceu em ou nos arredores de Plymouth, no condado de Devon, na Inglaterra, em 1653. Seguindo o exemplo do pai, embarcou na carreira de marinheiro, começando como imediato num navio mercante. Em 1690, alistou-se na Marinha Real e serviu como aspirante no HMS Kent e HMS Rupert. Talvez tenha se envolvido no tráfico de escravos e pirataria nas Bahamas, em ações apoiadas por um governador corrupto. Pouco mais se conhece sobre Every antes que tenha conquistado a fama no Atlântico ocidental e no Oceano Índico, ainda que existam várias histórias fictícias sobre sua juventude.

Costumava ser chamado de "Long Ben" ou "Long John", algo curioso, já que não parece ter sido excepcionalmente alto. O historiador D. Cordingly resume a aparência física de Every:

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Henry Avery não se adapta a nenhuma das imagens populares que temos dos piratas atualmente. Com estatura média e acima do peso, ele tinha uma aparência dissoluta, além do que pode ser descrito como uma disposição jovial. (Cordingly, 21)

Jolly Roger of Henry Every
Bandeira Pirata de Henry Every WarX (CC BY-SA)

Motim e Pirataria

Em 1694, Every passou a integrar a tripulação do navio corsário Charles II (incorretamente chamado de Duke em algumas fontes), numa expedição financiada pela Coroa Espanhola para atacar corsários e contrabandistas franceses no Caribe. Numa noite de maio de 1694, quando o navio estava atracado no porto de La Coruña, na Espanha, Every aproveitou-se da embriaguez do capitão e promoveu um motim apoiado por 100 tripulantes. Os marinheiros estavam descontentes após vários meses de inatividade no porto sem pagamento de salários. Apesar de ser somente o segundo imediato do Charles, Every recebeu os votos dos amotinados para assumir o comando da embarcação. Ele renomeou o navio como Fancy [Chique] e se dirigiu a Madagascar, no Oceano Índico, reunindo-se a duas chalupas piratas no caminho. Quando alcançou a costa da África, o capitão e tripulantes que não haviam apoiado o motim foram colocados num pequeno bote a remo para chegar à costa. O Fancy, com seus 46 canhões, era uma visão formidável para os indefesos navios mercantes que navegavam no Oceano Índico.

Every reuniu uma frota de seis navios piratas para atacar os navios de tesouros anuais do Império Mogol.

O capitão Every começou sua carreira como pirata antes mesmo de chegar ao Oceano Índico. No caminho, ele capturou três navios mercantes ingleses nas Ilhas de Cabo Verde e duas embarcações dinamarquesas ao largo de São Tomé, antes de seguir a costa oeste da África. Nas Ilhas Comores, capturou um navio pirata francês que seguia para o Cabo da Boa Esperança. Nessa ocasião, em 1695, ele escreveu uma carta aberta às autoridades inglesas, deixando-a na Ilha Joana do arquipélago das Comores. Endereçada a todos os comandantes ingleses, ela alardeava suas ações e declarava que "Nunca ataquei ingleses ou holandeses e não pretendo fazê-lo enquanto for comandante" (Cordingly e Falconer, 85). Aparentemente, Every esqueceu das capturas em Cabo Verde.

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Ele hasteava a bandeira pirata (Jolly Roger), projetada para estimular os navios a se render sem luta ou enfrentar consequências terríveis. A versão de Every ostentava um crânio em perfil com ossos cruzados, num fundo vermelho ou, em outras ocasiões, preto. Instalado num reduto pirata já existente em Madagascar e talvez assumindo uma posição de liderança, Every reuniu uma frota de seis navios para que pudesse atacar as muito lucrativas, mas bem protegidos embarcações mercantes da região: os navios de tesouros anuais do Império Mogol.

O Ganj-i-Sawai

A frota pirata vagueou pelo Oceano Índico e chegou até o Mar Vermelho, ao norte, onde se apossou, em setembro de 1695, da sua maior presa até então, um navio de tesouros pertencente ao imperador mogol Aurangzeb, líder do Império Mogol da Índia (reinado 1658-1707). Essa caverna de Aladim flutuante era o Ganj-i-Sawai (mais tarde chamado de Gunsway nos relatos dos jornais). A embarcação, repleta de canhões, tinha proteção adicional de um comboio que carregava ainda mais tesouros, além de peregrinos que retornavam de Meca - incluindo as esposas de autoridades importantes. Every perseguiu a frota mogol por mais de uma noite, alcançou o Fateh Mohammed e tomou o navio. Após a abordagem, constatou-se um butim nada insignificante: um belo montante de 50.000 libras em ouro e prata (equivalentes a 10 milhões de libras ou 14 milhões de dólares em valores atuais).

Henry Every and his Ship Fancy
Henry Every e seu Navio, o Fancy Unknown Artist (Public Domain)

A frota pirata voltou então suas atenções para o alvo principal, o Ganj-i-Sawai, disparando várias salvas de canhões à medida que o navio se aproximava da costa de Surat, ao norte da Índia. Como a embarcação indiana tinha cerca de 40 canhões e 400 soldados a bordo, a batalha levou duas horas, mas os piratas venceram, ainda que com pesadas baixas. Um canhão derrubou o mastro principal do Ganj-i-Sawai, abordado em seguida. A maioria dos passageiros acabou assassinada ou jogada ao mar, após terem sido torturados para revelar o paradeiro de seus objetos de valor. Muitas das mulheres que permaneceram sofreram estupros. Every negou a violência da captura, mas um de seus tripulantes, John Sparcks, fez a seguinte confissão às autoridades antes da execução por enforcamento, ocorrida em Londres, em 1696:

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Expressou a consciência de sua vida perversa, em particular sobre as mais horríveis barbaridades que cometeu, ainda que cometidas contra as pessoas de pagãos e infiéis [...] tão desumanamente assaltadas e tratadas tão impiedosamente, declarando [...] que sofria uma morte justa por tamanha desumanidade. (Citado em Cordingly e Falconer, 89)

Os piratas de Every roubaram pelo menos 325.000 libras (69 milhões de libras ou 95 milhões de dólares em valores atuais) do navio de tesouros. Tratava-se de um saque impressionante, uma das mais valiosas pilhagens da história da pirataria. Cada membro da tripulação sobrevivente recebeu um quinhão equivalente a uma vida inteira de salários. O espólio compunha-se de ouro, prata, pedras preciosas, moedas, especiarias valiosas e rolos de seda. Também havia objetos luxuosamente manufaturados, como uma sela incrustada de diamantes.

O imperador mogol respondeu à terrível perda ameaçando os interesses do governo britânico da Grã-Bretanha na Índia. Para começar, prendeu os mercadores britânicos em Surat, alertando que tomaria medidas mais drásticas se os piratas não fossem combatidos com rigor. Os mercadores foram tratados com tanta severidade que alguns acabaram morrendo na prisão. A fúria de Aurangzeb preocupava a Companhia das Índias Orientais que, pressionada pelos possíveis prejuízos comerciais caso as relações com o imperador azedassem ainda mais, divulgou uma recompensa de 1.000 libras pela cabeça de Every. Esse valor se somava às 500 libras já oferecidas pelo governo britânico.

Henry Every and a Jewel Fence
Henry Every e um Receptador de Joias Howard Pyle (Public Domain)

No entanto, os piratas haviam desaparecido, inicialmente navegando para São Tomé e, em seguida, dirigindo-se ao Caribe, onde se dispersaram na primavera de 1696. O Fancy foi vendido ao corrupto governador das Bahamas, mas o da Jamaica recusou um enorme suborno para conceder aos piratas um perdão real (o governador das Bahamas não tinha esse poder). Henry Every pode ter navegado para Rhode Island e, dali, cruzado o Atlântico para a maior segurança da Irlanda. Em 1696, o Capitão Kidd (cerca de 1645-1701) recebeu a tarefa de livrar o Oceano Índico de piratas e, especificamente, capturar Every, mas, além de não o encontrar, resolveu voltar-se para a pirataria. O governo britânico proclamou uma anistia geral para todos os piratas em 1698, mas Every e Kidd foram especificamente mencionados como exceções.

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Os muitos relatos de avistamentos de Henry Every na Inglaterra jamais foram comprovados.

Conforme a lenda, Every retornou para Bideford, em Devon, com muitos diamantes resultantes de seus atos de pirataria, mas acabou enganado por um receptador desonesto e terminou seus dias na pobreza, já que preferiu não o denunciar às autoridades com receio de que sua identidade fosse descoberta. Houve vários relatos de avistamentos do pirata na Inglaterra nas duas décadas seguintes, mas nenhum dos quais foi comprovado e seu destino permanece um mistério. O que se sabe ao certo é que se trata de um dos poucos piratas famosos a escapar do laço do carrasco ou da morte violenta. Em compensação, 14 dos antigos tripulantes foram eventualmente presos e seis terminaram enforcados.

Legado

A vida de Every tornou-se tema de uma peça teatral popular no início do século XVIII, representada por vários anos no Theatre Royal de Drury Lane, em Londres. Intitulada The Successful Pirate [Um Pirata de Sucesso], tomava várias liberdades com a realidade, mas ajudou a estabelecer Every como uma das lendas da assim chamada Era de Ouro da Pirataria. A maior invenção de todas foi a de que Every casou-se com a filha de Aurangzeb, que seria uma das passageiras do navio do imperador mogol. A peça termina com o pirata vivendo em meio ao luxo na corte indiana.

Uma biografia mais factual, ainda que contendo detalhes fictícios, pode ser encontrada no capítulo sobre Every (no qual é incorretamente chamado de John Avery) na obra História Geral dos Roubos e Assassinatos dos mais Notórios Piratas, compilada na década de 1720. Na sua página de título, o livro tem como autor o capitão Charles Johnson, mas talvez se trate de um pseudônimo de Daniel Defoe (1660-1731). Os estudiosos ainda se dividem sobre essa questão. Defoe estava tão fascinado com a história de Every que já havia escrito um relato sobre sua vida, aparentemente baseado em entrevistas e apresentado como duas cartas escritas pelo próprio pirata. Intitulado The King of Pirates [O Rei dos Piratas], foi publicado em 1719, mas, na realidade, trata-se de um estonteante coquetel de fato e ficção, assim como o capítulo da História Geral, e as duas obras trazem versões bem diferentes sobre a vida de Every.

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Sobre o Tradutor

Ricardo Albuquerque
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

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Cartwright, M. (2025, setembro 27). Henry Every. (R. Albuquerque, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20084/henry-every/

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Cartwright, Mark. "Henry Every." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia, setembro 27, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20084/henry-every/.

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Cartwright, Mark. "Henry Every." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia, 27 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20084/henry-every/.

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