Mapungubwe, localizada no extremo norte da África do Sul, logo abaixo do Rio Limpopo, foi um povoado e reino da Idade do Ferro que floresceu entre o século XI e o XIII, e provavelmente, o primeiro estado da África Austral. O nome Mapungubwe significa ou "monumentos de pedra", em referência às grandes casas e muros de pedra do local, ou "colina do chacal". O reino prosperou devido à criação de gado na rica savana, e ao acesso ao cobre e ao marfim, o que permitiu o comércio de longa distância e trouxe ouro e outros bens exóticos para a elite governante. O sítio entrou em declínio a partir do final do século XIII, muito provavelmente devido ao esgotamento dos recursos locais, incluindo as terras agrícolas, e ao movimento do comércio inter-regional para locais como o Grande Zimbábue, mais a norte. Mapungubwe foi designado Património Mundial da UNESCO em 2003.
O Planalto de Mapungubwe
Uma história um tanto incompleta das comunidades que viviam nesta região, pode ser reconstruída apenas a partir de achados arqueológicos, dada a inexistência de registos escritos contemporâneos. Há também muito poucas provas da existência de qualquer tipo de governo além da riqueza óbvia da capital, o que sugeriria uma autoridade centralizada que monopolizava o comércio e a riqueza, e que podia comandar mão de obra para construir grandes estruturas de pedra.
O reino de Mapungubwe foi formado por povos agro-pastoris da língua banta. A área controlada pelos governantes de Mapungubwe tem no seu coração um grande planalto de arenito, facilmente defendido devido à sua inacessibilidade. Tal como acontece com os outros reinos na região da África Austral, a agricultura, especialmente o cultivo de sorgo e feijão-frade, e a criação de gado, proporcionava bastante alimento e um excedente que podia ser trocado por bens necessários. A arqueologia revelou extensas camadas de ossos e estrume, que indicam que a partir do século IX já existiam grandes rebanhos de gado, a fonte tradicional de riqueza e poder político nas comunidades da África Austral. O registo arqueológico para o século X mostra um aumento acentuado no número de gado domesticado na área, bem como o cultivo e tecelagem de algodão, como é comprovado pelos abundantes achados de fusos.
Governo & Sociedade
O chefe ou rei de Mapungubwe era provavelmente o indivíduo mais rico da sociedade, ou seja, seria o que possuía mais gado e materiais preciosos adquiridos através do comércio do que qualquer outra pessoa. Havia também algum tipo de associação religiosa entre o rei e a criação de chuva (ou rituais de chuva), uma necessidade vital para a agricultura numa paisagem tão seca. O rei e a corte residiam num recinto de pedra composto por muros de pedra e habitações construídas no nível mais alto do território da comunidade — uma colina natural de arenito que tem cerca de 30 metros de altura (98 pés) e 100 metros (328 pés) de comprimento. A ocupação na colina data do século XI. Um número de habitações separadas, onde foram descobertas pedras de moer, é factor indicativo de que as esposas reais viviam separadamente do rei. Todo o complexo estava originalmente rodeado por uma paliçada de madeira, como indicam os buracos de postes feitos na rocha.
Na parte de baixo, em redor da colina, apesar de haver uma estrutura de pedra o resto da comunidade vivia de forma espalhada em casas de barro e colmo. Esta área é conhecida como Babandyanalo ou K2, tem cerca de 5 hectares (12,3 acres), e o povoado original é anterior aos que viveram no topo da colina. Babandyanalo é abundante em currais, sepulturas e figurinhas, tudo comprovando a importância deste animal no local. Em meados do século XIII, no seu auge, a população total de Mapungubwe era de cerca de 5.000 pessoas.
O rei era sepultado juntamente com os seus predecessores no topo da colina (no local de Mapungubwe), numa área demarcada e afastada das habitações, enquanto o povo era enterrado no vale. Uma escadaria de madeira ligava os dois níveis, sendo os encaixes dos degraus claramente visíveis na falésia de arenito. Existem algumas residências mais imponentes espalhadas pelos arredores da cidade no nível inferior, e estas provavelmente pertenciam a parentes masculinos do rei. Sabe-se que na sociedade bantos tais homens, por serem sérios competidores pelo cargo do rei, não tinham permissão para viver diretamente dentro da comunidade.
Existem muitos outros locais mais pequenos, mas ainda assim impressionantes, no topo de colinas por todo o planalto de Mapungubwe, localizados entre 15 a 100 quilómetros (9 a 60 milhas) da capital, com residências e muros de pedra, que provavelmente pertenciam a chefes locais que atuavam como vassalos do rei em Mapungubwe.
Comércio
O planalto de Mapungubwe apresenta um número muito elevado de restos de animais carnívoros e fragmentos de marfim, o que sugere que acumulavam as peles de animais e presas de elefante (o marfim), provavelmente para comércio com as áreas costeiras alcançadas através do Rio Limpopo. A presença de contas de vidro, quase certamente provenientes da Índia, e de fragmentos de vasos celadon chineses indica que havia certamente algum tipo de comércio com outros estados na costa que, por sua vez, negociavam com mercadores que viajavam por mar vindos da Índia e da Arábia. Contemporâneo do Reino do Grande Zimbábue (séculos XII-XV), localizado a norte no planalto da savana, do outro lado do Rio Limpopo, Mapungubwe também teria beneficiado do cobre de origem local e do comércio do ouro que passava do sudoeste do Zimbábue para a cidade costeira de Kosala. De facto, inicialmente, o Grande Zimbábue pode ter sido um estado cliente de Mapungubwe. Decerto, a prosperidade trazida pelas ligações comerciais teria conduzido a um fortalecimento da autoridade política a fim de controlar e até mesmo monopolizar estas lucrativas ligações inter-regionais.
Arte
A cerâmica era produzida numa escala grande o suficiente para sugerir a presença de oleiros profissionais, sendo mais um indicador de uma sociedade próspera, talvez com diferentes níveis de classes. As formas incluem: vasos esféricos com gargalos curtos, copos, tigelas hemisférica; e muitas peças estão decoradas com incisões e carimbos em forma de pente, bem como discos de cerâmica (desconhece-se o propósito), apitos e uma figurinha de girafa. Além disso, foram descobertas figurinhas de gado bovino, ovino e caprino; e pequenas figuras de humanos altamente estilizadas, com corpos alongados e membros curtos, muitas vezes em ambientes domésticos. As figuras podem ter sido usadas como oferendas votivas a antepassados ou a deuses e estar relacionadas com a prosperidade e a fertilidade, mas desconhece-se a sua função precisa. Outros achados incluem pequenas peças de joalharia feitas de cobre ou marfim.
Um tipo particular de decoração, encontrado apenas noutro lugar no Grande Zimbábue, consistia em bater o ouro até formar pequenas folhas retangulares, que eram então decoradas com padrões geométricos feitos por incisão e usadas para cobrir objetos de madeira (que não sobreviveram) utilizando pequenos pregos, também de ouro. Um destes objetos cobertos pode ter sido um cetro, enquanto evidências adicionais do trabalho local com ouro incluem: uma figurinha de rinoceronte feita de pequenas folhas marteladas, fragmentos de braceletes de ouro e milhares de pequenas contas de ouro. Estes objetos foram encontrados no local da sepultura real e, datando de cerca de 1150, são os primeiros indicadores conhecidos de que o ouro tinha um valor intrínseco próprio (em oposição a ser apenas uma moeda de troca) na África Austral.
Declínio
No final do século XIII, o reino de Mapungubwe já se encontrava em declínio, talvez, devido à sobrepopulação que colocava demasiada pressão sobre os recursos locais, uma situação que pode ter atingido um ponto de crise devido a uma série de secas. Igualmente, os recursos locais poderão ter-se esgotado e as rotas comerciais poderão ter-se deslocado para o norte; dado que, os reinos que prosperaram a seguir encontravam-se a norte, como o Grande Zimbabwe e depois o Reino de Monomotapa, no norte do Zimbábue e ao sul da Zâmbia, estabelecido por volta de 1450.
Quando no século XIX os europeus "descobriram" as ruínas de Mapungubwe, tal como aconteceu com as do Grande Zimbábue, não acreditavam que os africanos tivessem constuído estruturas tão impressionantes. Abundaram teorias, para de alguma forma, explicar a presença e confirmar as crenças racistas europeias, como atribuí-las aos antigos egípcios ou fenícios. No entanto, a arqueologia provou desde então que ambos os locais foram de facto construídos pelos povos indígenas no período medieval. Muitos dos artefatos de Mapungubwe podem ser vistos hoje nos Museus da Universidade de Pretória, na África do Sul, enquanto o local em si é protegido como parte do Parque Nacional Mapungubwe.
