A Batalha de Leuctra, em 371 a.C., deu a Tebas a vitória decisiva sobre Esparta e estabeleceu Tebas como a cidade-estado mais poderosa da Grécia. A vitória foi alcançada graças às táticas premeditadas, ousadas e brilhantes do general tebano Epaminondas, que aniquilou os hoplitas espartanos e pôs fim ao mito da invencibilidade que Esparta ostentara por séculos.
Os detalhes exatos da batalha, que ocorreu na planície de Leuctra, perto de Tebas, e até mesmo todas as suas consequências são debatidas entre os estudiosos, apesar de a fonte mais antiga ser Xenofonte, que pôde se basear em testemunhas oculares para o seu relato da batalha na sua obra Helénicas (Hellenika).
Contexto Histórico
No início do século IV a.C., as cidades-estado gregas, após um século de conflitos intermitentes e mutuamente prejudiciais, tinham estabelecido uma paz instável. Contudo, quando Esparta exigiu a abolição da Confederação Beócia, liderada por Tebas, a guerra parecia novamente iminente. Tebas, naturalmente, rejeitou as exigências espartanas, uma reação previsível, como demonstra o fato de Esparta já ter mobilizado o seu exército e se posicionado na fronteira ocidental da Beócia antes mesmo da resposta tebana.
Os Exércitos Reunidos
Esparta e os seus aliados eram liderados pelo rei Cleombroto. O exército era composto por quatro divisões (morai), totalizando 2.048 homens, dos quais 700 eram hoplitas espartanos. A estes, somavam-se cerca de 9.000 homens fornecidos pelos aliados de Esparta. Desse total de 11.000, 1.000 eram cavaleiros. Vale ressaltar também que, após mais de uma década de combates, os aliados de Esparta provavelmente não estavam entusiasmados com os novos conflitos.
Tebas tinha à sua disposição cerca de 7.000 hoplitas, incluindo os 300 membros da elite do Batalhão Sagrado, uma unidade de casais homoeróticos que juravam defender seus amantes até a morte e que, em Leuctra, eram liderados pelo talentoso e carismático Pelópidas. Os tebanos também contavam com 600 cavaleiros, provavelmente os melhores da Grécia na época. Além disso, havia pequena força de infantaria leve (hamippoi) armada com dardos, que apoiava a cavalaria. Toda a força era comandada pelo brilhante general Epaminondas. O austero comandante militar, estudioso da teoria pitagórica, provaria ser o comandante mais inovador e bem-sucedido que Tebas já teve e um dos melhores generais da Grécia de todos os tempos.
Preliminares
Alguns comandantes tebanos inicialmente acharam prudente recuar para trás das muralhas de Tebas e atrair um cerco, em vez de enfrentar os temíveis espartanos em campo aberto. No entanto, Epaminondas os convenceu do contrário. Sempre hábil em usar propaganda e imagens para elevar o moral, Epaminondas relembrou o notório estupro de duas virgens locais por dois espartanos em Leuctra. As duas vítimas cometeram suicídio envergonhadas e foi erguido um monumento em sua memória. Epaminondas assegurou-se de que a devida homenagem fosse prestada a esse monumento antes da batalha, e outro gesto simbólico que lhe foi atribuído foi o de brandir uma serpente e declarar que, ao atingir a cabeça da serpente – o exército espartano , toda a serpente morreria – simbolizando o domínio espartano sobre a Grécia.
A primeira ação real da batalha ocorreu quando os espartanos atacaram os civis tebanos (carregadores de bagagem, mercadores etc.) que recuavam para Tebas. Contudo, no ataque, Hieron, o líder espartano, foi morto e os tebanos foram forçados a se reintegrar à força principal.
A Batalha
Cleômbroto posicionou as suas tropas na tradicional formação de falange de hoplitas fortemente armados, com 12 homens de profundidade e duas alas. O próprio Cleômbroto, cercado pela sua elite de guarda-costas montados (hippeis) de 300 homens, posicionou-se no lado esquerdo da ala direita.
Epaminondas foi muito mais inovador e colocou sua cavalaria e infantaria leve à frente de sua própria formação de falange. Rejeitando a convenção de tornar a ala direita a mais forte, ele fez sua ala esquerda extraordinariamente profunda – com 50 fileiras de homens – e suas linhas mais estreitas do que as dos espartanos. O Batalhão Sagrado também foi posicionado na ala esquerda, com os aliados beócios estacionados na ala direita, com 8 a 12 homens de profundidade.
Cleômbroto respondeu a esse desenvolvimento surpreendente reorganizando as suas próprias linhas, movendo a sua cavalaria para a frente e estendendo a sua linha no esforço para flanquear a ala esquerda de Epaminondas. Essa série relativamente complexa de manobras de batalha expôs o flanco esquerdo imediato de Cleômbroto e, como a cavalaria espartana não era páreo para os tebanos, que logo os derrotaram, os cavaleiros espartanos foram forçados a recuar para suas próprias linhas e a atravessar a brecha que se abrira à esquerda de Cleômbroto. Os tebanos os seguiram por essa brecha e começaram a semear o caos na formação espartana. Epaminondas, enquanto isso, atacou num ângulo para a esquerda, de modo que, na prática, Cleômbroto estava sendo empurrado para longe da sua própria linha. O ataque de Epaminondas também foi conduzido com a sua ala direita ligeiramente em retaguarda, numa formação em escalão, para proteger o seu próprio flanco exposto enquanto atacava os hippeis espartanos. Nesse momento, Pelópidas e o Batalhão Sagrado também atacaram a posição de Cleômbroto, resultando no ferimento fatal do rei espartano e na completa derrota da direita espartana.
Ao todo, 1000 lacedemônios morreram, incluindo 400 hoplitas espartanos. Tebas era agora a pólis mais poderosa da Grécia e, após 200 anos de vitórias em terra, o mito da invencibilidade militar de Esparta foi finalmente destruído.
As estratégias empregadas por Epaminondas na batalha não eram totalmente novas, mas no passado haviam sido usadas mais por necessidade do que por planejamento, e ninguém jamais, as havia combinado para criar fórmula tão vencedora. A ala esquerda maciçamente reforçada, o uso da cavalaria à frente das linhas de hoplitas, o ataque em ângulo, o emprego de uma formação em escalão e o ataque frontal direto à posição do comandante adversário constituíam, coletivamente, a estratégia militar premeditada mais inovadora e devastadora já vista na guerra grega. A derrota da poderosa Esparta chocou o mundo grego.
As Consequências
A derrota de Esparta levou à desintegração da Liga do Peloponeso, já que muitos dos seus aliados se tornaram independentes ou mudaram de lado, passando a apoiar Tebas. Os hilotas messênios foram libertados; uma nova pólis de Messene foi estabelecida; Mantineia, que havia sofrido declínio sob o controle espartano, foi revitalizada e se tornou uma pólis próspera novamente; e outra nova pólis – Megale Polis (Megalópolis) – foi fundada na Arcádia para manter Esparta sob controle.
Após a batalha e a completa reviravolta no status quo na Grécia, Atenas convocou uma conferência de paz, em 371 a.C., mas Tebas recusou, perpetuando a luta pelo poder entre as várias pólis gregas que atormentava a Grécia há mais de um século. Atenas chegou a se aliar à sua antiga inimiga, Esparta, mas Tebas, com o apoio persa, continuou as suas políticas expansionistas e, mais uma vez liderada por Epaminondas, derrotou a aliança espartana-ateniense na batalha de Mantineia, em 362 a.C. No entanto, o próprio Epaminondas foi morto na batalha e, após luta desgastante entre os seus sucessores e a contínua fragilidade de Atenas e Esparta, o breve domínio tebano sobre a Grécia chegou ao fim, e as cidades gregas estavam agora prontas para serem conquistadas, uma situação da qual Filipe II da Macedônia se aproveitou plenamente em 338 a.C.
