Os Horrores do Gás Venenoso na Primeira Guerra Mundial

Mark Cartwright
por , traduzido por Marcelo Otokovieski
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Já sujeitos a constantes borbardeios pelas artilharias, tiros de franco-atiradores inimigos e condições de vida horríveis, os soldados lutando nas lamacentas trincheiras não imaginaram que as condições poderiam ficar piores. Então, a partir de abril de 1915 um novo pesadelo começou: guerra química. Gás letal e venenoso foi usado pelo Exército Alemão na guerra, mas isso foi adotado por todos os lados. Embora as consequências para os soldados afetados pelos ataques com gás fossem terríveis e duradouras, a arma não se mostrou muito decisiva estratégicamente, uma vez que o vento e a contramedida como a máscara de gás muitas vezes neutralizavam seus efeitos.

Gassed by Sargent
Atacados por Gás, de Sargent John Singer Sargent (CC BY-NC-SA)

Primeiro Uso do Gás: Ypres

Gás lacrimogêneo não letal (lacrimatório) foi experimentado no início da Primeira Guerra Mundial, mas o primeiro grande ataque usando gás venenoso mortal foi realizado pelo Exército Alemão contra as tropas francesas, argelinas, britânicas e canadenses na tarde de 22 de abril de 1915, na Segunda Batalha de Ypres. Esse ataque de gás liberou 168 toneladas de cloro venenoso a partir de 500 cilindros especiais. O ataque foi primitivo, já que o Exército Alemão simplesmente confiava que o vento espalharia o gás na direção correta: as trincheiras inimigas. O gás matou de 5.000 a 6.000 soldados aliados e feriu outros 10.000 em apenas dez minutos, seja diretamente pelos efeitos do gás, seja porque alguns soldados subiram para fora das trincheiras tentando espacapar e acabaram sendo baleados. Os comandantes alemães ficaram surpresos com os efeitos devastadores do gás e, por isso, não estavam preparados para tirar pleno proveito da brecha de 8 km (5 milhas) causada pela nova arma. Além disso, as tropas alemãs estavam compreensivelmente relutantes em avançar por uma área que ainda continha gás e, de qualquer forma, não tinham reservas suficientes para obter uma grande ruptura. Essa seria a última oportunidade desse tipo na Frente Ocidental até as fases finais do conflito.

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O gás venenoso provavelmente era mais eficaz como uma arma psicológica.

A reação dos Aliados ao primeiro ataque com gás foi de horror e indignação. A Convenção de Haia proibia o uso de gás em 'projéteis', uma formulação que permitiu as autoridades alemãs alegar, de maneira enganosa, que liberar o gás por meio de cilindros não constituía, portanto, uma violação das regras da guerra. De qualquer forma, embora amplamente considerado em outros lugares como contrário às regras e bastante covarde, após Ypres, todos os lados adotaram rapidamente a arma química. Unidades especializadas foram formadas para usar o gás em ataques, como os Royal Engineers do Exército Britânico.

Tipos de Armas Químicas

Foram usados diferentes tipos de gás. O gás cloro "causava a queima dos tecidos nos pulmões e fazia os soldados caírem no chão convulsionando, sufocando e eventualmente morrendo" (Yorke, 39). As vítimas efetivamente se afogavam à medida que os pulmões se enchiam de líquido. Um segundo tipo de gás, o fosgênio (também chamado de gás Green Cross e usado pela primeira vez em dezembro de 1915), era ainda mais letal e temido porque era incolor, tornando-o invisível. Outra peculiaridade do fosgênio era que seus efeitos muitas vezes só se manifestavam 24 horas após o ataque. O fosgênio foi responsável pelo maior número de mortes por gás durante a guerra (seis em cada sete). Um terceiro tipo era o gás mostarda (dicloretil sulfeto, usado pela primeira vez em julho de 1917), muito menos letal, mas capaz de causar ferimentos graves ao destruir o revestimento das vias respiratórias ao redor do nariz e da boca, limitar a visão e provocar grandes e dolorosas bolhas na pele. O gás mostarda também era uma arma mais duradoura, pois formava poças de líquido no chão que permaneciam perigosas por semanas após o ataque inicial.

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German Gas Tests, WWI
Testes de Gás Alemães, Primeira Guerra Mundial. Unknown Photographer (CC BY-NC-SA)

O soldado britânico Walter Clarke descreve os efeitos de um ataque em sua trincheira quando os projéteis de artilharia haviam sido adaptados para conter o gás mortal:

Você não sabia, eram apenas projéteis. Mas o que acontecia: quando esses projéteis explodiam, liberavam tudo no chão, em forma líquida. E pela manhã, a névoa, sempre havia uma névoa toda manhã, subia para o ar, e você a respirava completamente. Ninguém sabia até que um ou dois rapazes começaram a vomitar, e muitos outros estavam caídos, ficando cegos e com feridas por toda a volta dos olhos. E então eles perceberam o que era.

(Imperial War Museums)

Outro soldado britânico, Jack Dorgan, descreve os efeitos de um ataque com o gás cloro nas unidade de linha de frente:

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Nossos olhos ficavam lacrimejando de água e dor. Felizmente, mais uma vez, eu era um dos que ainda conseguia enxergar. Mas não tínhamos nenhuma proteção, nenhuma máscara de gás ou algo do tipo. Tudo o que tínhamos era um rolo de bandagens do nosso kit de primeiros socorros, que carregávamos no canto da túnica. Então tínhamos um pouco de proteção para os olhos. E então você tinha que ser enviado de volta. Qualquer um que conseguisse enxergar, como eu, ia na frente. E meia dúzia ou 10 ou 12 homens, cada um com a mão no ombro do homem à frente, em linhas — você podia ver linhas e linhas e linhas de soldados britânicos voltando com rolos de bandagens nos olhos, indo de volta em direção a Ypres.

(ibid)

British Soldiers Injured by a Gas Attack, 1918
Soldados Britânicos Feridos por um Ataque com Gás, 1918. T.K. Aitken - Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

O soldado britânico Harry Saunders descreve a sensação de usar gás contra o inimigo:

Foi em uma daquelas noites quando as armas de ambos os lados estão quietas e não há nada pra mostrar que a guerra estava acontecendo. O ataque começou com os sinalizadores. Depois disso, uma linha de cilindros assobiando lançou uma densa névoa cinza avançando sobre a terra de ninguém. A brisa que havia devia estar exatamente certa para o propósito, e aquela nuvem rastejante de morte e tormento criou uma cena de pesadelo que jamais esquecerei. Pareceu uma eternidade antes que os alemães percebessem o que estava acontecendo. Finalmente, no entanto, o primeiro alarme de gás soou, e acho que a maioria de nós ficou aliviado ao pensar que não seriam pegos desprevenidos. Fiquei assombrado por horas depois pelo pensamento do que estava acontecendo lá.

(Williams, 33)

Uma Arma Psicológica

Os efeitos do gás eram bem reais – e alguns eram de longo prazo, afetando os soldados por anos após o fim do conflito – mas, na época, provavelmente era mais eficaz como arma psicólogica. Certamente a maioria dos soldados temia os efeitos persistentes de um gás invisível mais do que a morte rápida por bala ou projétil.

O impacto psicológico não se limitava às linhas de frente, mas também antingia os lares. Quando começaram os ataques de bombardeio com Zeppelins na Primeira Guerra Mundial, os civis na Grã-Bretanha e na França temiam não apenas que bombas caíssem sobre eles, mas também que o gás venenoso fosse usado nos ataques. Em casa e nas trincheiras, avisos alertavam sobre a necessidade de sempre carregar uma máscara de gás e, acima de tudo, agir rapidamente para se afastar do gás e soar um alarme para avisar os outros. Como um cartaz alertava de forma direta: "Existem dois tipos de homens em ataques com gás: os rápidos e os mortos" (IWM). A guerra química tornou-se tema de propaganda anti-inimigo, e os Aliados não demoraram a explorar o fato de que a Alemanha havia usado primeiro essa terrível arma.

WWI Public Service Poster for a Gas Attack
Cartaz de Serviço Público da Primeira Guerra Mundial sobre Ataques com Gás. Unknown Artist (CC BY-NC-SA)

Falhas e Soluções

Uma das falhas mais graves no uso do gás era que a direção variável do vento poderia fazer com que os vapores mortais fossem soprados para longe do inimigo, ou até mesmo na direção de seus próprios soldados. Isso foi exatamente o que acontececu com o Exército Britânico durante sua primeira tentativa de usar 5.000 cilindros de gás cloro na Batalha de Loos, em setembro de 1915. O desenvolvimento de projéteis preenchidos com gás, que poderiam ser disparados contra o inimigo pela artilharia, tornou o uso do gás muito mais preciso. Também foram desenvolvidos projéteis de morteiro e de lançador para conter o gás. Os estoques da arma criavam outro risco, já que, se os cilindros ou projéteis fossem atingidos por um projétil inimigo comum, liberariam o gás na proximidade imediata.

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A partir de agosto de 1916, a máscara de gás com sistema de filtro tornou-se equipamento padrão.

A primeira medida de defesa contra o gás foi instalar gongos e sinos nos sistemas de trincheiras, de modo que ao menos os soldados pudessem avisar seus companheiros asim que o gás fosse detectado. Os soldados logo perceberam que o gás tendia a se acumular no fundo das trincheiras, e subir para a borda da trincheira ajudava a escapar da maior parte de seus efeitos (embora isso também pudesse expor os homens ao fogo inimigo). Um pano úmido segurando sobre o rosto também ajudava. Alguns soldados canadenses descobriram que urinar em um pedaço de pano e segurá-lo na boca neutralizava os efeitos do gás. Pano encharcado em bicarbonato de sódio tornou-se uma alternativa mais eficaz. Alguns remédios mostraram até mais mortais do que o próprio gás. Uma ideia de usar almofadas de algodão úmidas – chegou a haver uma campanha prara arrecadas fundos do público para isso – deu muito errado quando se descobriu que muitos soldados sufovacam com o resultado.

British Soldiers Wearing Gas Hoods, 1916
Soldados Britânicos Usando Capuzes de Gás, 1916. J.W. Brooke - Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

Defesas mais eficazes contra o gás surgiram na forma de capuzes e máscaras de gás. O médico canadense Cluny Macpherson projetou o primeiro capacete de fumaça, que era essencialmente uma bolsa de pano com visores para os olhos. O usuário respirava por um único tubo, que podia ser tratado com produtos químicos para neutralizar o gás venenoso. A partir de agosto de 1916, uma máscara de gás com sistema de filtro tornou-se equipamento padrão, a máscara Small Box Respirator. Os animais não foram esquecidos, e tanto cavalos quanto cães também tiveram máscaras de gás especialemente feitas. As tropas inimigas reagiram a essa nova defesa. Às vezes, gás lacrimogêneo era disparado contra o inimigo para forçar os soldados a retirarem suas máscaras de gás (que eram menos eficazes contra esse tipo de gás) e assim torná-los vulneráveis à proxima onda de projéteis com fosgênio.

Todas essas medidas ajudaram a reduzir os efeitos dos ataques com gás, de modo que eles representaram apenas cerca de 3 em cada 100 mortes durante a guerra. No entanto, o gás venenoso ainda foi responsável por um milhão de vítimas na Primeira Guerra Mundial. Após a guerra, alguns estados e organizações internacionais tentaram proibir o uso de armas químicas em conflitos. Somente em 1925 o direito internacional proibiu o uso de gás venenoso por qualquer meio. Esses esforços, infelizmente, não impediram o reaparecimento ocasional de gás venenoso em conflitos ao redor do mundo desde então.

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Sobre o Tradutor

Marcelo Otokovieski
Marcelo é professor de História, tendo pós-graduação em História Antiga, Medieval e Contemporânea, História da Guerra, dentre outras especializações. Apaixonado por História, arte e música.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, dezembro 26). Os Horrores do Gás Venenoso na Primeira Guerra Mundial. (M. Otokovieski, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2839/os-horrores-do-gas-venenoso-na-primeira-guerra-mun/

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Cartwright, Mark. "Os Horrores do Gás Venenoso na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Marcelo Otokovieski. World History Encyclopedia, dezembro 26, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2839/os-horrores-do-gas-venenoso-na-primeira-guerra-mun/.

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Cartwright, Mark. "Os Horrores do Gás Venenoso na Primeira Guerra Mundial." Traduzido por Marcelo Otokovieski. World History Encyclopedia, 26 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2839/os-horrores-do-gas-venenoso-na-primeira-guerra-mun/.

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