A literatura (do latim littera, que significa «letras» e se refere ao conhecimento da palavra escrita) é a obra escrita de uma determinada cultura, subcultura, religião ou filosofia, ou ainda o estudo dessas obras escritas, que podem assumir a forma de poesia ou prosa. A literatura é a expressão artística da experiência humana e as obras assim designadas, embora ostentem a marca da cultura que as produziu, apresentam uma semelhança notável nas histórias que contam.
A escrita teve origem na região da Mesopotâmia Meridional, na Suméria, na cidade de Uruque, por volta de 3600/3500 a.C., e floresceu no Egito, mais tarde na Grécia (tendo a palavra escrita sido importada para lá pelos fenícios) e, daí, para Roma.
A escrita parece ter surgido de forma independente na China a partir de práticas de adivinhação e também de forma independente na Mesoamérica e noutros locais. O sistema de escrita mais antigo da Mesopotâmia (conhecido como proto-cuneiforme) tratava de questões práticas do comércio, mas, por volta de 2600 a.C., já se tinha tornado suficientemente sofisticado para produzir literatura e, por volta de 2100, o grande A Epopeia de Gilgamesh, a obra literária mais antiga existente no mundo.
A primeira autora de literatura do mundo, de ambos os géneros, cujo nome é conhecido, foi a sumo-sacerdotisa acádia da cidade de Ur, na Mesopotâmia, Enheduanna (por volta de 2300 a.C.), que escreveu hinos em louvor à deusa suméria Inanna (mais tarde conhecida como Ishtar). Grande parte da literatura primitiva da Mesopotâmia diz respeito às atividades dos deuses, mas, com o tempo, os humanos passaram a ser retratados como personagens principais em obras como Gilgamesh e o ciclo de poemas conhecido como a «Matéria de Aratta», que inclui Enmerkar e o Senhor de Aratta, Enmerkar e En-suhgir-ana e Lugalbanda na Caverna da Montanha (compostos por volta de 2112 a cerca de 2004 a.C.).
Para efeitos de estudo, a literatura é hoje dividida nas categorias de ficção e não-ficção, mas estas são frequentemente decisões arbitrárias, uma vez que a literatura antiga — tal como era entendida por quem escrevia as histórias, bem como por quem as ouvia recitadas ou cantadas na época pré-alfabetizada — não era compreendida da mesma forma que o é nos dias de hoje. Para um público antigo, «verdade» não era sinónimo de «factos», mas podia ser entendida através do que um público moderno chamaria de «mito» e «fábula».
As odes grandiosas de Homero à magnificência da frota grega a navegar para Tróia ou a viagem de Odisseu/Ulisses através do mar escuro como o vinho eram tão reais para os ouvintes quanto as suas descrições da feiticeira Circe, do ciclope Polifemo ou das sereias. Esses contos, que hoje são considerados mitos, eram então tidos como tão verdadeiros e sagrados quanto qualquer um dos escritos contidos na Bíblia judaico-cristã ou no Alcorão muçulmano o são para os crentes.
Designações como ficção e não-ficção são rótulos relativamente recentes aplicados às obras escritas. A mentalidade antiga compreendia que, muitas vezes, a verdade pode ser apreendida através de uma fábula sobre uma raposa e algumas uvas inatingíveis. A preocupação moderna com a veracidade de uma história não teria preocupado ninguém que ouvisse um dos contos de Esopo; o que importava era o que a história tentava transmitir.
Mesmo assim, atribuía-se valor à precisão no registo de acontecimentos reais (como demonstram as críticas antigas aos relatos do historiador Heródoto). As primeiras obras literárias tinham geralmente uma abordagem didática e um propósito religioso subjacente (ou, muitas vezes, explícito), como no caso do Enuma Elish sumério, de 1120 a.C., ou da Teogonia (tít. original: Θεογονία: transliterado: Theogonia) do escritor grego Hesíodo, do século VIII a.C.
Uma das primeiras obras literárias conhecidas é A Epopeia de Gilgamesh, suméria e babilónica, datada de cerca de 2100 a.C., que aborda temas como o heroísmo, o orgulho, a nacionalidade, a amizade, a desilusão, a morte e a busca pela vida eterna. Se o que aconteceu na história de Gilgamesh «realmente aconteceu» ou não era irrelevante para o escritor e para o ouvinte. O que importava era o que o público conseguia retirar da história.
O melhor exemplo disso é um género conhecido como literatura naru mesopotâmica, na qual figuras históricas aparecem em enredos ficcionais. Entre as obras mais conhecidas deste género encontram-se os poemas A Maldição de Ágade e A Lenda de Cutha, ambos protagonizados pelo grande rei acádio Naram-Sin (reinou 2254-2218 a.C.), neto do rei Sargão de Acádia (reinou 2334-2279 a.C., pai de Enheduanna). Em ambas as obras, Naram-Sin comporta-se de formas que são contraditas por evidências físicas e por outros escritos, mais factuais.
O objetivo da literatura naru, no entanto, não era relatar o que «realmente» aconteceu, mas sim enfatizar uma importante lição moral, cultural ou religiosa. A literatura naru mesopotâmica é hoje considerada o exemplo mais antigo de ficção histórica, que ensina ao mesmo tempo que entretém.
Os Textos das Pirâmides do Egito, também considerados literatura, narram a viagem da alma para a vida após a morte no Campo dos Juncos, e estas obras apresentavam o tema como verdade absoluta. A cultura religiosa egípcia baseava-se na realidade de uma vida após a morte e no papel que os deuses desempenhavam na jornada eterna de cada um, da qual a vida na Terra era apenas uma parte. Embora um escritor do Antigo Egito não pudesse saber o que acontecia após a morte, a jornada para o além era apresentada como um facto para sustentar a compreensão cultural coletiva da vida eterna e de como se deveria comportar enquanto se estava na Terra.
A obra de Homero Ilíada (tít. original: Ἰλιάς; transliterado: Iliás) relata a famosa guerra de dez anos entre os gregos e os troianos, enquanto a sua Odisseia (tít. original: Ὀδύσσεια; transliterado: Odýsseia) narra a viagem de regresso a casa do grande herói Odisseu, após a guerra, para junto da sua amada mulher Penélope, de Ítaca, e isto, tal como as outras obras mencionadas, reforçava os valores culturais sem se preocupar com o que poderia ou não ter acontecido relativamente à guerra de Tróia ou à viagem de regresso do herói. A experiência humana face aos desafios da vida tornou-se tema da literatura e continuou a sê-lo.
A história contada no livro bíblico do Êxodo é considerada hoje por muitos como verdade histórica, mas, originalmente, poderia ter sido concebida para ser interpretada como uma libertação da escravidão num sentido espiritual, uma vez que foi escrita para fortalecer os adoradores de Yahweh, encorajá-los a resistir às tentações dos povos indígenas de Canaã e elevar a perceção que o público tinha de si próprio como povo escolhido de um deus todo-poderoso.
O Cântico dos Cânticos, da Escritura hebraica do Tanakh, imortaliza o amor apaixonado entre um homem e uma mulher (interpretado pelos cristãos, muito mais tarde, como a relação entre Cristo e a Igreja) e o aspeto sagrado dessa relação. O épico indiano Mahabharata relata o nascimento de uma nação, enquanto o Ramayana conta a história do grande Rama a resgatar a sua esposa Sita, raptada pelo maléfico Ravna. O Shahnameh, o épico «Livro dos Reis» da Pérsia, relata as lutas e os triunfos dos seus heróis da mesma forma que os da antiga Mesopotâmia relatavam os seus.
As obras encontradas na Biblioteca de Assurbanípal, nas ruínas da antiga Nínive, registam os feitos heróicos dos deuses e das deusas, bem como as lutas e os triunfos de reis heróicos da antiga Mesopotâmia, tais como Enmerkar, Lugalbanda e Gilgamesh. O estudioso Samuel Noah Kramer salienta que as primeiras obras sumérias — e, na verdade, a cultura suméria no seu conjunto — têm ressonância nos dias de hoje a vários níveis, sendo isso especialmente evidente na literatura. Kramer escreve:
Ainda é evidente na Lei de Moisés e num provérbio de Salomão, nas lágrimas de Jó e num lamento de Jerusalém, na triste história do homem-deus moribundo, numa cosmogonia hesíode e num mito hindu, numa fábula de Esopo e num teorema de Euclides, num signo do zodíaco e num desenho heráldico.
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A maioria das obras antigas foi redigida na métrica poética que o autor tinha ouvido repetir ao longo do tempo, mas é impossível distinguir o intervalo de tempo entre a composição original e a forma escrita e, por isso, a datação de obras como o Enuma Elish ou a Odisseia é difícil, uma vez que foram finalmente registadas por escrito muitos anos após a sua composição oral.
É também difícil determinar até que ponto uma obra literária antiga pode ser considerada «verdadeira», uma vez que o grande valor que os leitores e críticos modernos atribuem à «originalidade» na literatura era desconhecido para os povos antigos. A própria ideia de atribuir a uma obra fruto da imaginação de um indivíduo qualquer grau de respeito nunca teria ocorrido a ninguém do mundo antigo. As histórias eram recontagens dos feitos de grandes heróis, dos deuses, das deusas ou da criação, como em Hesíodo e Homero.
Com o tempo, porém, tal era o respeito por aquilo a que hoje se chamaria «não-ficção», que Geoffrey de Monmouth (1100-1155) afirmou que a sua famosa História dos Reis da Bretanha (tít. original: History of the Kings of Briton, que, em grande parte, inventou) era, na verdade, uma tradução de um texto anterior que tinha «descoberto», e Sir Thomas Malory (1405-1471), famoso como autor da Morte de Artur, negou qualquer contribuição original para a obra que compilou a partir de autores anteriores, embora hoje seja claro que acrescentou muito ao material de origem do qual se inspirou.
Esta tradição literária de atribuir uma obra original a fontes anteriores, aparentemente autorizadas, é exemplificada de forma notória nos evangelhos do Novo Testamento cristão, na medida em que as narrativas evangélicas de Mateus, Marcos, Lucas e João — consideradas por muitos crentes como relatos de testemunhas oculares do ministério de Jesus — foram escritas muito mais tarde por autores desconhecidos que escolheram nomes associados ao ministério terreno de Jesus para conferir peso autoritário às suas obras.
Embora a literatura tenha tido início como poesia, hoje em dia abrange poesia, teatro, prosa, folclore, contos épicos, narrativas pessoais, história, biografia, sátira, diálogos filosóficos, ensaios, lendas e mitos, entre outros.A obra Os Diálogos de Platão (tít. original: Τὰ Πλάτωνος διάλογοι; transliterado: Tá Plātōnos dialógoi), embora não tenham sido os primeiros a combinar temas filosóficos com a forma dramática, foram os primeiros a fazer com que o teatro funcionasse bem ao serviço da investigação filosófica.
Escritores posteriores inspiraram-se nessas obras anteriores (como Virgílio fez ao compor a Eneida (tít. original: Aeneis), baseada na Ilíada e na «Odisseia» de Homero) e esta tradição de se inspirar, de embelezar a verdade para narrar a verdade da condição humana através de histórias, mitos e fábulas, continuou até à época de Ferdowsi, de Murasaki Shikibu, de Chaucer e, posteriormente, de Shakespeare, e estende-se até aos dias de hoje.