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title: Amor, Sexo e Casamento no Antigo Egito
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-934/amor-sexo-e-casamento-no-antigo-egito/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-10-06
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# Amor, Sexo e Casamento no Antigo Egito

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Embora os casamentos no Antigo Egito fossem combinados em prol da estabilidade comunitária e da ascensão pessoal, existem provas de que o amor romântico era tão importante para aquela população quanto o é para as pessoas de hoje. O amor romântico constituía um tema popular na poesia, especialmente no [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Novo (cerca de 1570–1069 a.C.), época em que surgem obras a exaltar as virtudes da pessoa amada ou da mulher.

O *Papiro Chester Beatty I* (*Papyrus Chester Beatty I*), datado de cerca de 1200 a.C., figura entre estes testemunhos. Neste texto, o sujeito poético refere-se à sua «irmã», porém, não se tratava de uma parente consanguínea. Era habitual tratar a mulher amada por «irmã», as mulheres mais velhas por «mãe», os homens da mesma idade por «irmãos» e os homens mais velhos por «pai». A voz que nos fala no trecho do *Papiro Chester Beatty I* não só tece elogios à sua amada, como também apresenta o ideal egípcio de beleza feminina da época:

> A minha irmã é única — ninguém se lhe equipara, pois é a mulher mais bela à face da terra. Olhai, é como Sothis \[Sírio\], que assinala o início de um bom ano \[renovação da inundação\]. Ela irradia perfeição e reluz de saúde. O olhar dos seus olhos é deslumbrante, as suas palavras são doces e não profere uma única palavra a mais. Tem o pescoço esguio e seios alvos; os seus cabelos têm a cor do lapis-lazúli puro. O ouro nada é comparado aos seus braços, e os dedos são como flores de lótus. As suas nádegas são fartas e a sua cintura é estreita. Quanto às suas coxas — apenas acrescentam mais beleza à que já possui.
> (Lewis, pág. 203)

As mulheres no Antigo Egito gozavam de um estatuto de quase igualdade em relação aos homens, em consonância com o mito segundo o qual, após a aurora da criação, quando Osíris e [Ísis](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-770/isis/) reinavam sobre o mundo, Ísis igualou o poder entre os sexos. Ainda assim, o elemento masculino era considerado o sexo dominante, sendo os escribas — predominantemente homens — quem redigia a [literatura](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-562/literatura/) que influenciava a perceção social sobre as mulheres.

[ ![Ancient Egyptian Music and Dancing](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/3028.jpg?v=1776587046) Música e Dança Egípcia Antiga Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/3028/ancient-egyptian-music-and-dancing/ "Ancient Egyptian Music and Dancing")Na citação supra, a expressão «seios alvos» (também traduzida como «de peito branco») não significa que a mulher fosse caucasiana, mas sim que a sua pele era mais clara do que a de alguém que tinha de trabalhar nos campos o dia inteiro. As mulheres eram tradicionalmente responsáveis pela gestão da casa e, em particular, as mulheres das classes elevadas faziam questão de se resguardar do sol, uma vez que a pele mais escura assinalava a pertença ao campesinato e às camadas populares que trabalhavam ao ar livre. Estes membros dos estratos sociais mais baixos nutriam os mesmos sentimentos de devoção e amor que as elites, e muitos antigos egípcios viviam o amor, o sexo e o casamento de forma muito semelhante à de um indivíduo da atualidade.

### O Amor no Antigo Egito

O rei do Antigo Egito mais famoso da atualidade é conhecido não pelas suas realizações, mas sim pelo achado da sua tumba intacta em 1922 da nossa era: o [faraó](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-288/farao/) [Tutankhamon](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11752/tutankhamon/) (1336–1327 a.C.), embora fosse muito jovem quando subiu ao trono, fez tudo o que esteve ao seu alcance para restaurar a estabilidade e as práticas religiosas egípcias após o reinado do seu pai, Akhenaten (1353–1336 a.C.). Fê-lo na companhia da sua jovem mulher e meia-irmã Ankhesenamon (cerca de 1350 a.C.), e as representações do casal figuram entre as mais interessantes imagens do amor romântico no Antigo Egito.

Ankhesenamon é sempre retratada ao lado do marido, mas tal facto não é invulgar, dado que essas imagens eram comuns. O que torna estas representações em particular tão interessantes é a forma como o artista enfatiza a devoção mútua através da proximidade, dos gestos das mãos e das expressões faciais. O egiptólogo Zahi Hawass nota:

> A julgar pela forma como são retratados na arte que preenche o túmulo do rei dourado, esse era certamente o caso \[amavam-se mutuamente\]. Podemos sentir o amor entre ambos ao vermos a rainha diante do marido a oferecer-lhe flores e a acompanhá-lo enquanto este caçava.
> (pág. 51)

[ ![Tutankhamun & Ankhsenamun](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2508.jpg?v=1788416774-1788416774) Tutancâmon e Anquesenamon Pataki Márta (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/2508/tutankhamun--ankhsenamun/ "Tutankhamun & Ankhsenamun")Tutankhamon morreu por volta dos 18 anos de idade e Ankhesenamon desaparece do registo histórico pouco tempo depois. Ainda que as representações de ambos tivessem sido idealizadas, como sucedia com a maioria da arte egípcia, continuam a transmitir um profundo nível de devoção que se encontra igualmente, em diferentes graus, em outras pinturas e inscrições ao longo da história do Egito.

Numa inscrição de um sarcófago da XXI Dinastia, um marido diz a respeito da mulher: «Ai de mim, foste-me tirada, tu de rosto tão belo; não havia outra que se te comparasse e nada encontrei em ti de censurável.» O marido nesta inscrição assina como «o teu irmão e companheiro», e em muitas outras inscrições semelhantes os homens e as mulheres surgem como parceiros iguais e amigos numa relação. Embora o homem fosse o chefe de família, a quem era devida obediência, as mulheres eram respeitadas como companheiras de trabalho dos seus maridos, e não como suas subordinadas. A egiptóloga Erika Feucht escreve:

> Nas decorações do túmulo do marido, a mulher é representada como uma igual, participando na vida terrena do esposo, bem como no Além. A mulher não só não tinha de ocultar o seu corpo em nenhum período da história egípcia, como os seus encantos eram até acentuados nas pinturas murais e nos relevos.
> (Nardo, pág. 29)

A sexualidade no Antigo Egito era considerada apenas mais um aspeto da vida terrena. Não existiam tabus relativamente ao sexo nem estigma associado a qualquer uma das suas vertentes, à exceção da infidelidade e, entre as classes populares, do incesto. Em ambos os casos, a reprovação social era substancialmente mais grave para a mulher do que para o homem, uma vez que a linha de descendência era transmitida por via feminina. O historiador Jon E. Lewis nota:

> Embora os antigos egípcios tivessem uma atitude descontraída em relação ao sexo entre adultos solteiros e de mútuo consentimento (não existindo um estigma particular contra os filhos ilegítimos), quando uma mulher casava esperava-se que fosse fiel ao marido. Assim, este podia ter a certeza de que os filhos da união — os seus herdeiros e sucessores nos seus bens — eram seus. Não existia uma sanção oficial explícita contra a mulher que mantivesse relações extraconjugais, mas as punições no âmbito privado incluíam o divórcio, castigos corporais e, por vezes, a morte.
> (pág. 204)

Embora tal corresponda à realidade, existem registos de magistrados e funcionários do Estado a intervir em determinados casos e a ordenar a pena de morte para uma mulher por adultério quando o marido apresentava a queixa perante as autoridades. Num desses casos, a mulher foi atada a uma estaca em frente à sua própria casa — a qual fora julgada como tendo sido profanada — e queimada viva.

### Os Antigos Egípcios e o Sexo

Histórias e advertências sobre mulheres infiéis surgem com frequência na literatura do Antigo Egito. Uma das mais populares é o "Conto dos Dois Irmãos" (também conhecido como "O Destino de uma Esposa Infiel", no *Papiro D'Orbiney, BM EA 10249*), que relata a história de Anpu e sua mulher e, de Bata. Anpu, o irmão mais velho, vive com a mulher e o irmão mais novo, Bata. Um dia, quando Bata regressa dos campos para buscar mais semente para a sementeira, a mulher do irmão tenta seduzi-lo. Bata recusa-a, prometendo que nada dirá sobre o ocorrido, e regressa ao campo para junto do irmão. Quando Anpu chega a casa mais tarde, encontra a mulher «deitada, parecendo ter sofrido violência às mãos de um malfeitor». A mulher alega que Bata a tentara violar, o que lança Anpu contra o próprio irmão. A narrativa, datada de cerca de 1200 a.C., constitui uma provável inspiração para o relato bíblico posterior do Livro do Génesis (39:7), respeitante a José e à mulher de Putifar.

[ ![Nephthys on Painted Linen](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/4622.png?v=1727020508) Neftis em Linho Pintado Keith Schengili-Roberts (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/4622/nephthys-on-painted-linen/ "Nephthys on Painted Linen")O tema da mulher infiel era recorrente e popular devido aos potenciais transtornos e perturbações que a infidelidade podia suscitar na comunidade. No conto de Anpu e Bata, a ligação interpessoal e fraterna entre ambos é destruída e a mulher acaba por ser morta; contudo, antes de morrer, continua a semear discórdia na vida dos dois irmãos e, mais tarde, no seio do próprio grupo social. A importância extrema dada pelos egípcios à estabilidade social e à harmonia (*maat*) tornava este assunto de primordial interesse para o público da época.

Um dos mitos mais difundidos relativos às divindades era o de Osíris e Ísis e do assassínio de Osíris pelo seu irmão Set. Na versão mais copiada e transmitida desse relato, Set decide matar Osíris depois de Neftis (a esposa de Set) se ter disfarçado de Ísis para o seduzir. O caos social e cosmos que se segue ao assassínio de Osíris, desencadeado no contexto de uma infidelidade, causava um impacto impressionante na mentalidade egípcia. Osíris é perspetivado como isento de culpa no mito, visto que julgava estar a deitar-se com a sua própria esposa. Tal como noutras narrativas da época, a responsabilidade e o opróbrio recaem sobre a «outra mulher» ou a «mulher estranha», Neftis.

Para além de estas narrativas incentivarem a fidelidade, não existe uma grande quantidade de escritos sobre a sexualidade no Antigo Egito. A informação sobre posições e práticas sexuais é extremamente parca, o que é habitualmente interpretado pela comunidade académica como um sinal de que os egípcios atribuíam pouca relevância pública ao assunto. Não se encontram quaisquer proibições relativamente à homossexualidade e considera-se provável que o rei Pepi II (cerca de 2278–2184 a.C.), cujo reinado foi de longa duração, fosse homossexual. As mulheres solteiras gozavam de liberdade para manter relações sexuais com quem entendessem e o *Papiro Médico de Ebers* (*Ebers Medical Papyrus*), redigido por volta de 1542 a.C., fornece receitas de contracetivos. Uma dessas formulações dita o seguinte:

> Receita para fazer uma mulher cessar a gravidez por um, dois ou três anos. Moer finamente em conjunto uma medida de tâmaras de acácia com um pouco de mel. Humedecer um pedaço de algodão com a mistura e introduzir na vagina.»
> (Lewis, pág. 112)

O aborto também era uma prática acessível e não lhe estava associado qualquer estigma, à semelhança do que acontecia com o sexo pré-conjugal. Na verdade, não existe qualquer vocábulo equivalente a «virgem» na língua egípcia antiga, o que sugere que o grau de experiência sexual — ou a sua ausência — não era considerado uma questão de relevo. A prostituição também não era tida como um problema social e, como nota o egiptólogo Steven Snape, «os testemunhos de prostituição no Antigo Egito são bastante escassos, em particular antes da Época Baixa» (pág. 116). Não foi identificado nenhum prostíbulo no Egito e a prostituição não é mencionada nem textos literários nem em decisões judiciais.

O célebre *Papiro Erótico de Turim* (*Papiro Turim 55001*), que retrata vários encontros eróticos, continua a escapar a uma interpretação consensual quanto a saber se descreve relações entre uma prostituta e um cliente ou se se trata de uma obra satírica. Muito mais grave do que o recurso a uma prostituta ou do que a inexperiência ou perícia sexual de uma mulher era aquela que podia seduzir um homem e desviá-lo da sua mulher e família. "As Instruções do Escriba Ani" (no *Papiro de Boulaq 4*) deixam a seguinte advertência:

> cautela-te da mulher estranha, que não é conhecida na cidade. Não fites o teu olhar nela quando passar e não tenhas relações sexuais com ela. Uma mulher distante do seu marido é como uma água profunda cujo curso é desconhecido.
> (Lewis, pág. 184)

Dado que os egípcios valorizavam a harmonia social (*maat*), é natural que atribuíssem especial relevância a narrativas que promovessem a tranquilidade doméstica. Curiosamente, não existem histórias semelhantes nas quais a responsabilidade recaia sobre o elemento masculino. A monogamia era enaltecida como um valor essencial, mesmo nas narrativas mitológicas respeitantes às divindades — nas quais os deuses masculinos tinham, regra geral, apenas uma esposa ou consorte —, contudo ao rei era permitido ter tantas esposas quantas pudesse sustentar, o mesmo sucedendo com qualquer homem nobre ou abastado, o que terá muito provavelmente influenciado a perceção social em torno da infidelidade masculina. Ainda assim, o ideal de uma relação no Antigo Egito continuava a ser o de um casal que permanecia fiel entre si e gerava descendência.

[ ![Akhenaten Stele](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2591.jpg?v=1729734858) Estela de Akhenaton wikipedia user: Maksim (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/2591/akhenaten-stele/ "Akhenaten Stele")### O Casamento no Antigo Egito

Não existia cerimónia de casamento no Antigo Egito. Uma mulher considerava-se casada com um homem assim que entrava na sua casa com os bens previamente acordados. Os casamentos eram habitualmente arranjados pelos pais, mediante um dote ou preço de noiva estabelecido e a troca recíproca de presentes entre as famílias dos noivos. Os contratos pré-nupciais eram comuns, e todos os bens materiais que a noiva levava para o casamento permaneciam sob a sua propriedade, podendo dispor deles como bem entendesse. A finalidade do casamento era a procriação, contudo, esperava-se que o casal se amasse e honrasse mutuamente. A egiptóloga Barbara Watterson comenta o seguinte sobre esta matéria:

> Tomar uma esposa parecia ser sinónimo de constituir lar. Esperava-se que o homem amasse a sua mulher, como torna claro o seguinte conselho do sábio Ptahhotep: "Ama a tua mulher, alimenta-a, veste-a e faz com que seja feliz... mas não permitas que ela tome o domínio!" Outro sábio, Ani, oferecia uma fórmula para uma vida feliz: "Não deves dar ordens à tua mulher na sua própria casa quando sabes que ela é eficiente. Não pases a vida a perguntar-lhe: `Onde está? Tráz-me!', especialmente quando sabes que está no lugar onde devia estar!"
> (pág. 15)

O noivo e o pai da noiva redigiam um contrato de casamento que era assinado perante testemunhas, ficando o casal considerado casado a partir desse momento. Os filhos resultantes do matrimónio pertenciam à mãe e, em caso de divórcio, ficavam à sua guarda. Embora abundassem os avisos sobre a mulher infiel, era concedida às mulheres uma enorme liberdade no seio do casamento. O historiador Don Nardo escreve:

> Na maioria das sociedades da Antiguidade, as mulheres eram pouco mais do que uma propriedade aos olhos da maioria dos homens, e o foco nessas sociedades recaía quase sempre sobre a forma como as mulheres podiam ou deviam fazer os homens felizes. É certo que, à semelhança de outras terras da Antiguidade, o Egito era maioritariamente dominado pelos homens e, na sua maior parte, esperava-se que as mulheres acatassem a vontade dos seus maridos. Ainda assim, muitos casais egípcios parecem ter desfrutado de relações positivas e afetuosas.
> (pág. 23)

As pinturas murais nos túmulos, bem como outras manifestações artísticas e inscrições, retratam maridos e esposas a comer, a dançar e a trabalhar juntos. Nas famílias reais, um irmão podia casar com uma irmã ou meia-irmã, contudo essa prática era desaconselhada ao resto da população. Para a generalidade das pessoas, o casamento era arranjado tendo em vista o máximo benefício de ambas as partes, esperando-se que, ao viverem juntos, passassem a amar-se mutuamente, caso isso ainda não sucedesse. Nardo escreve:

> Mesmo no caso de não estar profundamente apaixonado pela esposa, um homem podia encontrar uma certa felicidade ao saber que ela se sentia realizada, mantinha de boa mente a casa arrumada e bem gerida, e ensinava boas maneiras aos filhos. Podia também orgulhar-se de trabalhar arduamente para colocar comida na mesa e garantir um teto sob o qual ambos vivessem.(págs. 23-24)

[ ![Isis Figurine](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/663.jpg?v=1789554606) Estatueta de Ísis Mark Cartwright (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/663/isis-figurine/ "Isis Figurine")A unidade familiar nuclear e estável era considerada a pedra basilar de uma sociedade coesa. Embora os membros da realeza fossem livres de casar com quem quisessem (seguindo o exemplo das uniões consanguíneas entre irmãos observadas nas divindades, como Ísis e Osíris ou Nut e Geb), a população em geral era encorajada a consorciar-se fora da sua linha de sangue, à exceção dos casos entre primos. As raparigas casavam-se tão cedo quanto aos 12 anos e os rapazes aos 15, embora a média de idades pareça ter-se situado nos 14 anos para as jovens e entre os 18 e os 20 para os rapazes.

Por esta altura, o rapaz já teria aprendido o ofício do pai, estando nele exercitado, ao passo que a rapariga, a menos que fosse de estirpe real, fora instruída na gestão do lar e no cuidado dos mais novos, dos idosos da família e dos animais de estimação. O historiador Charles Freeman nota: «A família constituía a unidade viva da sociedade egípcia. As pinturas murais e as esculturas mostram casais apaziguados e de braço dado, existindo o ideal de que os mais jovens deviam cuidar dos mais velhos» (Nardo, pág. 25). No entanto, estes casamentos nem sempre eram bem-sucedidos e, nesses casos, o divórcio era concedido.

### O Divórcio no Egito

A dissolução do matrimónio era tão simples quanto o seu início. Um dos cônjuges — ou ambos — solicitava o divórcio, os bens materiais eram partilhados segundo o contrato pré-nupcial, assinava-se um novo acordo e o casamento dava-se por terminado. A historiadora Margaret Bunson assinala que «tais dissoluções do matrimónio exigiam uma certa abertura de espírito no que respeitava aos direitos de propriedade e à subsistência económica da ex-esposa» (pág. 156).

Com isto, a autora pretende dizer que até os bens que o marido pudesse ter passado a considerar seus deviam ser divididos com a esposa em conformidade com o contrato original. Tudo aquilo com que ela tinha entrado no casamento podia levar consigo ao cessar a união. Apenas uma acusação de infidelidade, devidamente comprovada, privava a mulher dos seus direitos no processo de divórcio.

Durante o Império Novo e a Época Baixa, estes acordos tornaram-se mais complexos, à medida que os processos de divórcio parecem ter sido objeto de uma maior codificação e a autoridade central passou a intervir de forma mais direta na sua condução. Bunson assinala como «muitos documentos dos períodos tardios se assemelham a verdadeiros contratos de casamento. Em caso de divórcio, o dote concedido pelo noivo aquando do matrimónio revertia a favor da esposa para a sua sustentação, ou era-lhe atribuída uma indemnização única» (pág. 156). A prestação de alimentos era também uma modalidade viável, enviando o marido à sua ex-esposa uma pensão mensal até que esta voltasse a casar, mesmo na ausência de filhos da união.

### O Matrimónio Eterno

Esperava-se, contudo, que o casamento durasse toda a vida do indivíduo e perdurasse até no Além. A maioria dos homens não ultrapassava os trinta anos de idade e as mulheres faleciam frequentemente tão jovens quanto os dezasseis anos, fruto de complicações no parto, alcançando em média uma longevidade apenas ligeiramente superior à masculina. Se o relacionamento com o cônjuge fora harmonioso, a esperança de um reencontro atenuaria em parte a dor da perda trazida pela morte. As pinturas murais e as inscrições nos túmulos representam o casal a gozar da companhia mútua no Campo dos Juncos (Aaru), dedicando-se às mesmas atividades que realizava em vida terrena.

A crença egípcia na eternidade constituía um pilar fundamental do matrimónio, na medida em que cada indivíduo se esforçava por tornar a sua vida terrena — e a dos outros — o mais aprazível possível, de modo a poder desfrutá-la para sempre. Para os egípcios não existia um «Céu» de natureza transcendente ou metafísica, mas sim uma continuação direta da vida que haviam levado na Terra. Bunson escreve:

> A eternidade era um período de existência sem fim que não devia ser temido por nenhum egípcio. Um dos nomes antigos que a designava era neheh, mas também era chamada shenu, termo que significava circular e, por extensão, eterno ou ininterrupto, dando origem à forma dos cartuchos reais.
> (pág. 86)

Após a morte, a alma submetia-se ao julgamento perante Osíris e, caso fosse julgada justa (*maakheru*), transitava para o Campo dos Juncos (*Aaru*). Ali reencontraria tudo quanto deixara para trás no mundo terreno — a sua casa, a sua árvore preferida, o seu cão ou gato de estimação e os entes queridos que haviam falecido anteriormente, incluindo o cônjuge. Contudo, se alguém não tivesse tratado devidamente a sua esposa ou o seu marido em vida, esse reencontro poderia nunca vir a concretizar-se e, pior ainda, o indivíduo arriscava-se a sofrer reveses tanto na vida presente como no Além. Abundam os exemplos de inscrições e fórmulas mágicas destinadas a afastar a má sorte ou adversidades que se atribuíam à ação de um cônjuge falecido, o qual, a partir do mundo dos mortos, assombrava o sobrevivente ou exercia a sua vingança através de espíritos malignos.

[ ![Egyptian Afterlife](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/4787.jpg?v=1779978426-z5pd3xdz) Vida Após a Morte Egípcia Unknown Artist (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/4787/egyptian-afterlife/ "Egyptian Afterlife")Por vezes, a pessoa assim atormentada recorria a um sacerdote para que este intercedesse junto do falecido e pusesse fim à maldição. Nesses casos, o homem ou a mulher dirigia-se ao sacerdote para que fosse redigido um esconjuro no qual expunha a sua versão dos factos e implorava ao espírito do cônjuge que cessasse a sua perseguição. Se, por outro lado, o indivíduo fosse efetivamente culpado de algum agravo, teria de o confessar e expiar de alguma forma. Os sacerdotes prescreviam a expiação necessária e, uma vez cumprida, a maldição era levantada. Os cacos de cerâmica partidos em diversos locais cerimoniais testemunham a gratidão prestada a um [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) ou deusa pela sua intercessão nestes litígios, bem como súplicas a solicitar o seu auxílio para aplacar a vingança do cônjuge.

Outro meio de resolver tais conflitos consistia em apagar da existência toda a memória da pessoa. Tal era alcançado mediante a destruição de todas as suas representações. Um exemplo célebre desta prática encontra-se no túmulo tipo mastaba do dignatário Kaiemankh, da VI Dinastia, que mandou raspar das paredes todos os vestígios da sua esposa, Tjeset. O espírito de um indivíduo só perdurava se este fosse recordado pelos vivos na Terra, e os grandes monumentos, obeliscos e templos — como o de [Carnac](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13167/carnac/), em Tebas — constituíam esforços destinados a assegurar essa perpétua memória. Uma vez perdidos o nome e a imagem de uma pessoa, a sua alma ficava debilitada, correndo o risco de não conseguir prosseguir no Campo dos Juncos (*Aaru*). Faria com que, garantidamente, deixasse de poder causar perturbações na Terra, uma vez que o espírito necessitava de contemplar uma imagem de si próprio ou o seu nome para poder regressar.

Esperava-se que tais contratempos pudessem ser evitados mediante uma conduta pautada pela consciência da harmonia eterna (maat) e pela prática da bondade na vida quotidiana. O estudioso James F. Romano escreve: «Os egípcios amavam a vida e almejavam perpetuar os seus aspetos mais aprazíveis no Além» (Nardo, pág. 20). Alguns desses aspetos mais aprazíveis eram precisamente o amor, o sexo e o casamento, dos quais se desfrutaria eternamente desde que deles se extraísse o pleno partido enquanto se permanecesse na Terra.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

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## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
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Mark, J. J. (2026, October 06). Amor, Sexo e Casamento no Antigo Egito. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-934/amor-sexo-e-casamento-no-antigo-egito/>
### Chicago
Mark, Joshua J.. "Amor, Sexo e Casamento no Antigo Egito." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, October 06, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-934/amor-sexo-e-casamento-no-antigo-egito/>.
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Mark, Joshua J.. "Amor, Sexo e Casamento no Antigo Egito." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 06 Oct 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-934/amor-sexo-e-casamento-no-antigo-egito/>.

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