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title: Encenações Mitológicas nos Espetáculos da Roma Antiga
author: Dana Murray
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-796/encenacoes-mitologicas-nos-espetaculos-da-roma-ant/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2025-12-01
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# Encenações Mitológicas nos Espetáculos da Roma Antiga

_Escrito por [Dana Murray](https://www.worldhistory.org/user/murrayd7/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Até hoje, os antigos romanos continuam famosos pelo uso dramático dos espetáculos e doutras formas de entretenimento. Uma variação menos conhecida dos espetáculos romanos são as reconstituições mitológicas que aconteciam durante os *ludi meridiani* (espetáculos do meio-dia); apresentações que não eram só reconstituições para entretenimento, mas também uma forma bem real de execução. As almas infelizes forçadas a reencenar os mitos eram principalmente criminosos condenados que tinham cometido um crime capital, mas também podiam ser prisioneiros de guerra. No mundo romano, apenas os *humiliores* (pessoas de estatuto inferior) e os não cidadãos eram condenados à morrer desta forma, já que as execuções públicas eram frequentemente realizadas de uma maneira considerada degradante e humilhante. Kathleen M. Coleman sugere que os não cidadãos, juntamente com os criminosos de menor importância, tinham direito às penas mais degradantes devido à sua falta de estatuto na sociedade. A intenção do responsável por condenar os criminosos/prisioneiros era separar os condenados da sociedade, tanto física quanto emocionalmente, a fim de evitar a simpatia entre os espectadores. Ao humilhar os condenados, os espectadores experimentariam uma espécie de superioridade moral compartilhada sobre o indivíduo que tinha sido condenado à morte.

Embora seja difícil determinar os verdadeiros motivos por trás das execuções, é provável que o imperador realizasse jogos como os *ludi meridiani* para controlar a população e permitir que as reconstituições servissem de exemplo do que poderia acontecer ao público se também infringisse a lei. Se este era o caso ou não, e se era eficaz ou não, permanece incerto. É claro, no entanto, que tais espetáculos serviam a um propósito político, e a inclusão do mito não é coincidência. Como a história da Grécia e da Roma antigas era medida em termos de mitos, e os mitos, por sua vez, eram incorporados em muitos aspectos da vida quotidiana e do espetáculo no mundo antigo, servindo a propósitos políticos, sociais e religiosos.

As fontes primárias destes eventos incluem Marcial, um poeta do século I, e Clemente de Alexandria, um teólogo cristão dos séculos II-III. A obra de Marcial *Sobre os Espetáculos*, (Lat. "*Liber Spectaculorum*" ou "*De Spectaculis*") descreve os jogos inaugurais de Tito no ano de 80 e fornece três relatos de reconstituições mitológicas, que incluem: [Hércules](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10115/hercules/), [Orfeu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11694/orfeu/) e Pasífae.

### **Hércules**

É provável que os romanos tenham escolhido especificamente os mitos e personagens mais populares para que os condenados fossem facilmente identificados, como Hércules vestido com uma pele de leão e empunhando um bastão. O resultado inevitável desta reconstituição era *a crematio* (cremação), como no mito. O cenário em si pode diferir do mito, mas acredita-se que o mais comum para a reconstituição do mito de Hércules seria a pira de imolação do Monte Ida. Caso contrário, a reconstituição incluiria simplesmente "Hércules" vestindo a túnica que lhe foi dada por Dejanira, que, segundo o mito, tinha sido untada com o sangue do centauro Nesso. Na realidade, a túnica foi embebida em piche para se tornar mais inflamável, e designada de *tunica molesta*. Em comparação com o mito original, a reconstituição é bastante semelhante. Os atributos de Hércules são geralmente os mesmos, até mesmo a túnica que lhe foi dada por Dejanira. Mais importante ainda, o desfecho do mito também continua o mesmo: "Hércules" morre queimado vivo de uma forma ou de outra.

[ ![Hercules and the Hydra](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2876.jpg?v=1773050412) Hércules e a Hidra The Yorck Project (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/2876/hercules-and-the-hydra/ "Hercules and the Hydra")### **Orfeu**

Em relação a Orfeu, outra figura facilmente identificável na [mitologia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-427/mitologia/), Marcial descreve uma manipulação do mito. Embora Orfeu continuasse identificável por carregar uma lira, talvez até tocando música e cantando, o desfecho do mito foi alterado. Ao contrário do mito, Marcial registra que a morte de "Orfeu" foi causada por um urso, e não pelas Bacantes. Nesta reconstituição, teriãm sido usadas as maravilhas do anfiteatro, aproveitando as múltiplas entradas, alçapões e exibições cênicas. "Orfeu" teria entrado na área com a lira, enquanto animais domesticados e inofensivos teriam sido lentamente soltos. Alguns deles podem até ter sido treinados para interagir com a personagem e a música. Por fim, um urso teria sido solto e talvez "Orfeu" tivesse sido capturado com uma rede para impedir a fuga. Uma vez que "Orfeu" estivesse preso e o urso solto, o criminoso teria sido despedaçado, provavelmente interpretado como uma reviravolta irónica do mito, que o público, sem o ter previsto, acharia divertido e cheio de suspense: "Orfeu", morto pela própria fera que deveria encantar.

[ ![Orpheus](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/1015.jpg?v=1761950673) Orfeu Dan Diffendale (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/1015/orpheus/ "Orpheus")### **Pasífae**

Por fim, Marcial também relata a reconstituição da história de Pasífae, mulher do rei Minos e mãe do [Minotauro](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-423/minotauro/). Segundo o mito, foi o rei Minos quem trouxe a ruína sobre Pasífae, ao enganar [Poseidon](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-950/poseidon/) com um magnífico touro que deveria ser sacrificadoem sua honra em troca da legitimação da reivindicação do rei Minos ao trono. Como punição pelo crime, Pasífae foi amaldiçoada a apaixonar-se pelo touro. Cheia de desejo pelo animal, pediu ao artesão Dédalo que lhe construísse uma vaca de madeira coberta com uma pele para que pudesse entrar nela e se unir ao touro no seu campo. [Ovídio](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-561/ovidio/) zomba da situação na sua obra *Ars Amatoria* ("A Arte de Amar"), afirmando: "Pasífae gritou de alegria quando o animal a fez sua amante... Bem, o senhor do harém, enganado por um manequim de madeira coberto de pelúcia, engravidou Pasífae. A criança era parecida com o pai". (pág. 289)

[ ![Torso of the Minotaur](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2325.jpg?v=1728897555-1728897580) Torso do Minotauro Carole Raddato (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/2325/torso-of-the-minotaur/ "Torso of the Minotaur")A reconstituição de um mito tão chocante é cética e pouco clara. Embora a bestialidade também estivesse presente na obra de Apuleio *Metamorfoses* (Lat. *Metamorphoseon Libri XI*), e haja casos conhecidos de mulheres que praticaram bestialidade com vários animais noutras culturas, é difícil acreditar que tal realmente tenha ocorrido na arena sob o olhar dos espectadores. Pode ser que a multidão tenha sido simplesmente levada a acreditar que era verdade, mas talvez o mito tenha sido reencenado exatamente como Ovídio nos conta. Marcial parece encorajar os leitores a acreditar que o espetáculo era verdadeiro, a fim de dar ao imperador o poder sobre o próprio mito, escrevendo: "Acredite em Pasífae unida ao touro cretense: nós vimos; a velha história é crível. Nem, ó César, a antiguidade se deve surpreender consigo mesma: tudo o que a Fama canta, a arena apresenta-lhe." (Coleman, pág. 66.). Se tal reconstituição realmente ocorreu, os condenados teriam aparecido vestindo a pele de uma vaca. [Nero](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10280/nero/) era conhecido por vestir os cristãos com peles de animais antes de jogá-los aos cães como forma de degradá-los, e assim a prática não era desconhecida e talvez não fosse incomum dentro da arena. Coleman sugere que a única maneira de um touro realmente montar uma mulher seria se a condenada tivesse sido untada com o cheiro de uma vaca no cio. Como a reconstituição tinha como objetivo ser um método de execução, parece haver pouca preocupação por parte dos romanos com os danos internos que tal encontro causaria. De qualquer forma, se a mulher sobrevivesse ao evento, ela teria sido morta com uma espada de qualquer maneira.

### **Dirce e as Danaidas**

Dois outros mitos ambíguos que foram reencenados são os de Dirce e as Danaidas. Ao descrever a perseguição aos cristãos, Clemente de Alexandria registra que "as mulheres sofreram perseguições como as Danaidas e Dirce por causa de seu compromisso. Depois de passarem por torturas agudas e indescritíveis, elas trilharam o caminho firme da sua fé e, fisicamente frágeis, receberam a nobre recompensa" (pág. 4). Parece que os mitos de Dirce e das Danaidas podem ter sido reservados para as mulheres cristãs, embora é ambíguo se havia ou não um nível de significado por trás disso.

No mito, Dirce é amarrada aos chifres de um touro selvagem e arrastada até a morte por Zeto e Anfíon, filhos de Antíope, que foram mantidos prisioneiros por Dirce. Neste caso, o mito e a reconstituição eram essencialmente os mesmos. Dentro da arena, uma mulher condenada, geralmente cristã, era forçada a reencenar o mito, amarrada aos chifres de um touro e arrastada até a morte. No caso das Danaidas, porém, a relação entre o mito e a reencenação é menos clara.

[ ![A Christian Dirce](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/731.jpg?v=1748209625) A Dirce Cristã Franciszek Stolot (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/731/a-christian-dirce/ "A Christian Dirce")De acordo com a mitologia, a história das Danaidas difere de fonte para fonte. As 50 filhas de Dánaos foram casadas com os 50 filhos do seu irmão, Egipto, mas somente após muita persuasão. Dánaos deu a cada uma das filhas uma adaga e instruções para matarem os maridos na noite do casamento; todas, exceto uma filha, o fizeram. A punição parece variar, mas no período helenístico, parece que a crença comum era que as Danaidas foram forçadas a carregar água para o submundo ou [Hades](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-418/hades/) com vasos furados para encher uma manjedoura, ou talvez forçadas a encher um vaso sem fundo. Dentro da área, o castigo é ainda mais obscuro, uma vez que as "Danaidas" só eram reconhecidas pelos recipientes que eram obrigadas a transportar. A forma como morreram é desconhecida e foi provavelmente criada apenas para a reconstituição.

### Átis

Coleman descreve uma reconstituição mitológica adicional relativa a Átis. De acordo com Ovídio, Átis era um belo jovem frígio amado pela mãe dos deuses, Cibele, consagrou-se-lhe jurando fidelidade eterna. Traiu-a com uma ninfa das árvores chamada Sagaritis, e ao enlouquecer resultou na sua auto-castração. Na canção 63 de Catulo, Átis é descrito como um jovem que se castrou como resultado da loucura que Cibele infundiu nele, enquanto uma versão alternativa do mito se refere ao jovem como o Gálos, o principal sacerdote eunuco de Cibele. O resultado final foi o mesmo nas reconstituições. O criminoso condenado à morte como "Átis" seria inevitavelmente castrado, o que talvez fosse até mesmo autoinfligido. Cunhando o termo "charadas fatais", Coleman aborda o mito na sua investigação das reconstituições. Considera: a castração em si não era considerada fatal. Em vez disso, a reconstituição de Átis pode ter sido usada como um meio de tortura durante o interrogatório. Para que "Átis" realmente se castrasse, é provável que o indivíduo fosse ameaçado de morte se se recusasse a fazê-lo. É provável que o condenado estivesse ciente de que morreria de qualquer maneira, já que as reconstituições eram uma forma de execução como um todo, e é difícil acreditar que ameaçar o condenado realmente funcionasse. O mais provável é que "Átis" fosse empalado e instruído a se castrar se quisesse ser libertado. Certamente um conceito gráfico, mas provavelmente teria funcionado.

### **Significado social e político do mito na arena**

Assim como as obras de Marcial, as reconstituições mitológicas tinham significado político e ambas podem ser atribuídas a uma encomenda do imperador. Na verdade, ao recriar o mito, o imperador ganhou controlo sobre o mesmo; não só conseguiu atrair multidões usando o espetáculo como meio de propaganda, mas também conseguiu mostrar ao público que, como imperador, tinha poder sobre a história e os próprios mitos. Para ir ainda mais longe, sempre que o mito de Orfeu era reencenado e o condenado era morto por um urso em vez das Bacantes, o público ficava satisfeito com a mudança inovadora, ao mesmo tempo que notava que o imperador não só era capaz de recriar o mito, mas também de o alterar. Um imperador capaz de recriar o mito era capaz de «provar» que um mito era real e, portanto, capaz de fazer um milagre.

Num mundo onde o mito e a história estão ligados, o indivíduo que pode reivindicar a mitologia não apenas detém poder sobre a história, mas também tem a capacidade de reivindicar qualquer prestígio e poder que os próprios mitos possuam. De fato, os membros da aristocracia teriam reconhecido facilmente o conceito de se associar ao mito e se apropriar dos poderes a ele ligados, pois a elite seguia a prática há gerações. Os romanos acreditavam que, por meio do mito, aprendia-se a moralidade, a conduta e as virtudes da nobreza. Naturalmente, muitos tentariam reivindicar uma linhagem mitológica para merecer tais traços nobres. As cidades e regiões também ligavam a sua herança a heróis mitológicos, pois frequentemente exibiam elementos importantes de valorização, entre os quais se incluem antiguidade, feitos civilizacionais e bravura marcial.

Os romanos tinham grande respeito pelas religiões e culturas que podiam se orgulhar da sua antiguidade, e a mesma teoria se aplicava aos indivíduos. Embora fictícia além da terceira ou quarta geração, a elite frequentemente associava a sua família a heróis e reis antigos ou mitológicos, a fim de reivindicar o mesmo prestígio que o suposto ancestral possuía. Tal não é muito diferente dos próprios organizadores dos jogos, que organizavam os espetáculos mais eficazes e grandiosos para honrar e ganhar prestígio para a própria família. Como o mito ocupava um lugar integral na ancestralidade, sociedade, política e religião romanas, não é de surpreender que as reconstituições mitológicas nos espetáculos romanos também tivessem um papel importante. Embora poucas fontes modernas e antigas abordem diretamente a prática, as reconstituições mitológicas desempenham um papel subtil, mas valioso, nos jogos romanos como meio de propaganda e controlo que não deve ser negligenciado.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

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## Sobre o Autor

Estudante de doutoramento com interesse em arte, arquitetura e religião da Grécia Antiga e do Próximo Oriente.

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### APA
Murray, D. (2025, December 01). Encenações Mitológicas nos Espetáculos da Roma Antiga. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-796/encenacoes-mitologicas-nos-espetaculos-da-roma-ant/>
### Chicago
Murray, Dana. "Encenações Mitológicas nos Espetáculos da Roma Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, December 01, 2025. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-796/encenacoes-mitologicas-nos-espetaculos-da-roma-ant/>.
### MLA
Murray, Dana. "Encenações Mitológicas nos Espetáculos da Roma Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 01 Dec 2025, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-796/encenacoes-mitologicas-nos-espetaculos-da-roma-ant/>.

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