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title: O Património de Cuicul
author: Irene Fanizza
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-436/o-patrimonio-de-cuicul/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-03
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# O Património de Cuicul

_Escrito por [Irene Fanizza](https://www.worldhistory.org/user/Irene/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Há poucos lugares na Terra onde podemos dizer que estas pedras, sobre as quais estamos a pisar, são as mesmas pedras onde os pés repousaram séculos antes.

Estes lugares são importantes. Caminhamos no Fórum Romano, exploramos as ruínas do Anfiteatro Flaviano e viajamos até às pirâmides de Gizé, Cairo. Estes locais são conhecidos e, como tal, preservados desde a antiguidade até aos dias de hoje, preservados devido à proximidade em cidades contemporâneas de grande dimensão, ou perto delas, que protegem e promovem o seu valor ilimitado.

Roma, [Atenas](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-292/atenas/) e o Cairo retêm um valor que vai além do mero arqueológico, contendo um interior zelosamente guardado e oculto da vista normal.

Estamos empenhados na escavação normal e em retirar da areia o testemunho de um mundo preservado por acaso, e podemos também dizer que, por vezes, ajuda a preservar a natureza do que agora se encontra sob camadas de solo, turfa ou debaixo de água, mas a seleção natural não é apenas para os seres vivos, aplica-se também aos vestígios materiais do passado. Contudo, todos os tipos de clima, e todos os tipos de terreno, podem tanto preservar como destruir vários materiais, deixando apenas as mais meras migalhas para tentar seguir de modo a reconstruir o mundo que foi.

Mas onde está a humanidade, onde os humanos construíram? Este é um fator que prevalecerá através de todos os tipos de clima. Deu-nos a identidade de uma sociedade de contadores de histórias que nos entretêm com estes contos do passado há muito abandonado.

Há lugares nesta terra que foram gradualmente abandonados e esquecidos. No entanto, continuam a existir. Elementos da vida como vias e estradas, habitações e teatros, todos permanecem perfeitamente imóveis e à espera.

O exemplo que mais me marcou no meu passado é Djemila, nas montanhas do norte da Argélia, na província de Sétif.

[ ![Cuicul Cardo Maximus](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/795.jpg?v=1599288304) Cardo Maximus de Cuicul Yelles (GNU FDL) ](https://www.worldhistory.org/image/795/cuicul-cardo-maximus/ "Cuicul Cardo Maximus")A UNESCO regista-o como monumento inicialmente em 1982, como um sítio cuja importância é a de ser um exemplo de uma cidade romana numa zona montanhosa. Em 2009, o seu perfil é atualizado com novos níveis de critérios de avaliação e, como tal, agraciado com uma maior importância. Para compreender o porquê, devemos considerar o peso da palavra "abandonado" ou compreender o que torna este lugar único. A cidade construída sob o imperador Nerva manteve-se próspera durante 450 anos. No entanto, foi precipitadamente abandonada após a conquista pelos Bizantinos no ano de 553.

Nada mais de verdadeiramente relevante aconteceu na história de Cuicul. Antes de a UNESCO aparecer, em 1909, foi tocada por mãos que não se sentiam há 1500 anos.

É espantoso se pensarmos que a cidade moderna se expande a partir de Djemila, logo a sul da cidade abandonada. Quase como uma expansão, a cidade nova é um bairro adjacente à antiga.

Desde a década de 1980, quando a cidade passou a ser gerida pela UNESCO, houve um lento progresso nos estudos do local. As referências são quase inexistentes. O museu começou como uma instalação degradada de mosaicos. Pergunto-me se esta falta de estudos modernos poderá ser atribuída ao facto de não haver nada para explicar, nenhum debate académico; temos as datas, temos as inscrições e sabemos perfeitamente a utilização pretendida de cada edifício público. É quase como se a falta de problemas interpretativos não o tornasse especial.

[ ![Djemila Museum](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/788.jpg?v=1599288304) Museu de Djemila Fanizza (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/788/djemila-museum/ "Djemila Museum")É na glória do detalhe que esta cidade ganha vida.

Cuicul é o estabelecimento de uma antiga colónia romana fundada durante o reinado do imperador Nerva no final do século I (96 a 98). A fórmula clássica do urbanismo romano foi adaptada às restrições físicas do local. Em ambas as extremidades do *Cardo Maximus* (via principal), que é a própria espinha dorsal da cidade, existem duas portas.

No *Núcleo* (centro) fica o fórum, uma praça fechada rodeada por edifícios essenciais para a função da vida civil e social. O Capitólio a norte, a leste a Cúria e a Basílica Civil (Basílica Júlia) a oeste.

As habitações aristocráticas adornadas com ricos mosaicos — dos quais retêm os seus nomes contemporâneos (a Casa de Anfitrite, a Casa da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/), etc.) — multiplicaram-se ao longo do século II neste bairro central, onde também se encontram o Templo de [Vênus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-462/venus/), a Vênus Genetrix (Mãe) e o *Macellum* (mercado coberto). Contudo, esta posição defensiva da área resultou numa paisagem urbana apertada, cercada por muralhas, o que dificultou o desenvolvimento posterior da cidade.

Os vestígios do Templo de Vénus e as residências aristocráticas ricamente decoradas com mosaicos também são visíveis. Os vestígios de monumentos que marcaram a expansão da cidade (meados do século II) para sul também incluem um novo bairro, rico em edifícios públicos e privados, bem como em habitações.

Aqui foi construído o Arco de Caracalla, o templo da família da linhagem da dinastia imperial dos Severos. Um novo Fórum foi estabelecido de acordo com a tradição; um teatro com capacidade para 3000 lugares foi desenvolvido (já concluído sob Antonino Pio). Mais adiante, foram construídas termas durante o reinado de Cómodo. Entre os edifícios do período clássico, destacam-se a basílica dos tecidos (mercado de tecidos) e uma fonte que é uma réplica à escala reduzida da Meta Sudans em Roma.

[ ![Cuicul Thermae](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/789.jpg?v=1599288304) Termas de Cuicul Fanizza (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/789/cuicul-thermae/ "Cuicul Thermae")O local também foi marcado pelo [cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/) sob a forma de vários edifícios de culto: uma catedral e um batistério de uma igreja são considerados dos maiores do período paleocristiano.

Dos critérios de avaliação do sítio da UNESCO:

> Critério (iii): Testemunho excecional — Djémila testemunha uma [civilização](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10175/civilizacao/) que desapareceu. É uma das ruínas romanas mais bonitas do mundo. Os vestígios arqueológicos, o urbanismo romano integrado e o ambiente circundante compõem os elementos que representam os valores atribuídos a este sítio.
> Critério (iv): É um exemplo excecional de Djémila de um tipo de conjunto arquitetónico que ilustra uma etapa significativa na história do Norte de África romano, do século II ao século VI. Neste caso, a fórmula clássica do urbanismo romano foi adaptada às restrições geofísicas do local. O sítio compreende um repertório arquitetónico e tipológico diversificado, com um sistema defensivo, um Arco de Triunfo, instalações sanitárias públicas e edifícios e instalações de teatro para o comércio e trabalhos artesanais. Inclui também o mercado dos irmãos Cosinus, que constitui um testemunho notável da prosperidade económica da cidade.

Há lugares fora da realidade normal, e queremos que estes lugares sejam acessíveis; embora sejam acessíveis à maioria das oportunidades, Djemila poderá tornar-se um dos lugares mais populares do mundo, um local para turistas, com uma livraria e um café. O seu estado incrível, devido ao facto de poucas pessoas terem visitado a Cuicul abandonada, levanta a questão: como funcionaria um desenvolvimento intensivo deste lugar?

Neste caso, conseguiremos preservar melhor o sítio para a posteridade, melhor do que alguém o fez durante 1500 anos?

#### Editorial Review

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## Sobre o Autor

A Irene é fotógrafa e licenciada em topografia. Antes de se dedicar à arqueologia, estudou geologia durante dois anos, escalando e entrando nas entranhas da terra, procurando, desde cedo, uma forma de combinar o seu amor pelas ciências da terra com a sua outra paixão: as humanidades.

## Cite Este Artigo

### APA
Fanizza, I. (2026, August 03). O Património de Cuicul. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-436/o-patrimonio-de-cuicul/>
### Chicago
Fanizza, Irene. "O Património de Cuicul." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 03, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-436/o-patrimonio-de-cuicul/>.
### MLA
Fanizza, Irene. "O Património de Cuicul." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 03 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-436/o-patrimonio-de-cuicul/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 03 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

