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title: Ideal da Cristandade na Antiguidade
author: Rebecca Denova
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2997/ideal-da-cristandade-na-antiguidade/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-11-01
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# Ideal da Cristandade na Antiguidade

_Escrito por [Rebecca Denova](https://www.worldhistory.org/user/rdenova/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

O ideal da cristandade é uma visão histórica e política em que a sociedade e o governo estão unificados sob a fé cristã. De acordo com esta visão, o poder na Terra está dividido entre a Igreja, através do clero, e os governantes seculares. A Igreja zelava pelas necessidades espirituais, e os governantes seculares impunham as suas visões e protegiam a Igreja, enquanto ambos eram entendidos como cumpridores dos mandamentos do [Deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) de Israel.

[ ![Sermon on the Mount Fresco](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/19574.jpg?v=1793009726-1793009726-53dqywjr) Fresco do Sermão da Montanha Franz Xaver Kirchebner (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/19574/sermon-on-the-mount-fresco/ "Sermon on the Mount Fresco")### O Judaísmo e o Levítico

No mundo antigo, a religião não era uma entidade independente. Em muitas culturas, o rei desempenhava simultaneamente as funções de sumo sacerdote, mas, na maioria das vezes, essas funções eram delegadas a sacerdotes, que se distinguiam pelas suas responsabilidades individuais. Todos os templos antigos, enquanto morada terrena dos deuses, eram considerados espaços sagrados e tinham regras de pureza. Tratava-se de um estado de ser que distinguia entre o sagrado e o comportamento mundano.

O livro de Levítico é o terceiro livro da [Bíblia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-191/biblia/), que detalha a Lei de [Moisés](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14009/moises/), recebida numa revelação de Deus no [Monte Sinai](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21769/monte-sinai/). Conhecido como «o manual dos sacerdotes», distinguia as regras de pureza para o [Templo de Jerusalém](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-852/templo-de-jerusalem/) enquanto espaço sagrado. Apresentava as visões dos levitas, os descendentes da tribo de Moisés e Aarão depois de terem fugido do Egito. Os levitas eram os sacerdotes responsáveis pelo Templo de [Jerusalém](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-194/jerusalem/), o que incluía as seitas judaicas dos [saduceus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20492/saduceus/) e dos [fariseus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20491/fariseus/).

O livro de Levítico distingue dois tipos de pureza: a pureza ritual e a pureza/impureza moral. Os marcadores de identificação étnica do judaísmo incluíam a circuncisão, as suas próprias leis alimentares — que diferiam dos cultos nativos — e a suspensão do trabalho no sábado. Além disso, os judeus tinham as suas próprias leis contra o incesto, que incluíam tios, meio-irmãos e parentes por afinidade. A pureza ritual aplicava-se apenas aos judeus. A pureza moral aplicava-se tanto aos judeus como aos gentios (não judeus, pagãos) no seu comportamento e estilo de vida. Naquela época, tal como hoje, todos criticavam os estilos de vida de outras culturas.

Na tradição cristã, as leis do Levítico foram interpretadas como uma separação completa entre judeus e gentios. Isto é manifestamente falso. O complexo do Templo tinha zonas de «sacralidade», desde os pátios interiores reservados apenas aos sacerdotes, passando pelos homens e pelas mulheres, até ao «pátio dos gentios» exterior. Os gentios estavam autorizados a oferecer sacrifícios ao Deus de Israel e, de facto, faziam-no.

No mundo antigo, o culto significava sacrifícios. [Paulo, o apóstolo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12376/paulo-o-apostolo/), eliminou os sacrifícios nas suas comunidades, e sabemos muito pouco sobre o culto nessas primeiras comunidades. Curvar-se perante imagens dos deuses já era uma prática comum no paganismo. Tudo o que sabemos é que os cristãos entoavam hinos a Cristo e que os missionários cristãos expulsavam demónios e curavam deficiências em nome de Cristo.

### [Os Evangelhos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19436/os-evangelhos/) do [Cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/)

Através das histórias dos evangelhos, os ensinamentos de Jesus de Nazaré foram promovidos como a interpretação correta do judaísmo e das leis do Levítico. A tradição cristã afirma que Jesus se opunha às visões religiosas dominantes e às convenções sociais tanto do judaísmo como do [Império Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-100/imperio-romano/). Particularmente nos evangelhos de Mateus e Lucas, os saduceus e os fariseus são o contraponto aos ensinamentos de Jesus. Em discurso após discurso de Jesus, os seus seguidores são exortados a «não fazer as coisas» da maneira como os outros fazem. Curiosamente, nos evangelhos, Jesus pouco tem a dizer sobre os gentios.

Os quatro evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João foram escritos entre os anos 70 e 100. Não dispomos de escritos cristãos contemporâneos do ministério de Jesus (26-36 d.C.). Nem Jesus nem os discípulos escreveram nada. Os autores criaram discursos à luz do que se sabia sobre a figura e do contexto histórico.

[ ![St. Matthew from the Ebbo Gospels](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/3085.jpg?v=1779546666) São Mateus dos Evangelhos de Ebbo Codrinb (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/3085/st-matthew-from-the-ebbo-gospels/ "St. Matthew from the Ebbo Gospels")A Grande Revolta Judaica de 66 d.C. contra o [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Romano resultou na destruição do Templo de Jerusalém. A apologia de Marcos a Roma (uma explicação) foi uma tentativa de convencer Roma de que os seus judeus, os seguidores de Jesus, não eram rebeldes. Os cristãos tinham de viver no Império Romano. Na narrativa do julgamento e da [crucificação](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11867/crucificacao/) de Jesus de Nazaré, a crucificação — uma pena por traição — tinha de ser explicada. Marcos afirmou que Pôncio Pilatos foi forçado a fazê-lo por causa dos judeus. Na realidade, porém, nenhum magistrado romano permitiria que os habitantes locais ditassem quaisquer procedimentos no exercício do seu poder.

### Os Judeus e os Gentios

O Evangelho de Marcos estabeleceu o modelo segundo o qual os fariseus se opunham a tudo o que Jesus pregava e fazia, numa série de «diálogos de conflito». Nas sinagogas, um fariseu (ou, por vezes, um ancião ou um escriba) desafiava Jesus, especialmente quando este curava alguém no sábado. A resposta de Jesus consistia em recitar um ensinamento das escrituras judaicas. Ele salientava que, se a ovelha ou o animal de alguém caísse numa vala no sábado, essa pessoa iria resgatá-lo. Argumentava que um ser humano é muito mais valioso do que um animal. Jesus resume isto dizendo que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado, o que significa que o dia foi criado como uma bênção para ajudar as pessoas, e não para se tornar um fardo rígido. Nas escrituras judaicas, a cessação do trabalho no sábado não definia quais tipos de trabalho eram permitidos, mas os fariseus já haviam promovido o conceito de salvar vidas humanas no sábado no século I.

Em Marcos 7:18-19, os fariseus desafiaram Jesus, queixando-se de que os seus discípulos não lavavam as mãos antes de comer. Jesus explica-lhes que os alimentos que entram no corpo de uma pessoa não a contaminam, porque vão para o estômago e são expelidos, em vez de entrarem no coração. Segundo Marcos, com isto Jesus declarou todos os alimentos puros, rejeitando as leis alimentares do Levítico. A questão é que a impureza espiritual provém da maldade interna do ser humano (o coração), e não de elementos físicos externos, como os alimentos.

[ ![Christ and the Pharisees, from Das Plenarium](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/15215.jpg?v=1784075167) Cristo e os Fariseus, de Das Plenarium Hans Schäufelein (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/15215/christ-and-the-pharisees-from-das-plenarium/ "Christ and the Pharisees, from Das Plenarium")Uma das principais histórias dos [Atos dos Apóstolos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23691/atos-dos-apostolos/) é a de Pedro e Cornélio, que narra como o ensinamento de Jesus se espalhou entre os gentios (Atos 10). Cornélio era um [centurião](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12929/centuriao/) das legiões romanas que acreditava no Deus de Israel. Pedro e Cornélio tiveram visões simultâneas indicando que os dois deveriam encontrar-se. Na visão de Pedro, desceu do céu um lençol contendo todos os animais e aves puros e impuros enumerados em Levítico. Em seguida, uma voz disse-lhe para comer. Esta passagem também é interpretada como uma reviravolta nas leis alimentares judaicas.

Pedro batizou então a família de Cornélio, afirmando: «Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que qualquer nação que O teme e põe em prática a justiça Lhe é agradável.» (Atos 10:34-35, Villapadierna, Carlos de (†) et al.. *Bíblia Sagrad*a. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 1869). Isto foi fundamental para a aceitação dos gentios no movimento. Isto cumpriu as previsões dos Profetas de que, quando Deus estabelecesse o Seu reino na Terra, os gentios crentes seriam incluídos. Declarar todos os alimentos puros foi outra forma de mostrar que as diferenças alimentares e outras diferenças étnicas não separariam as nações dos judeus no iminente Reino de Deus.

### O Apóstolo Paulo

As cartas de Paulo datam dos anos 52-64, antes da destruição do Templo pelos romanos. Paulo era um fariseu que, segundo ele próprio admitiu, tinha perseguido os seguidores de Cristo, mas nunca forneceu detalhes. Paulo teve então uma visão de Cristo, que lhe disse que seria «o apóstolo dos gentios», e Paulo convenceu-se de que essa era a vontade de Deus.

[ ![Apostle Paul](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/19324.jpg?v=1722938545-1722938574) Apóstolo Paulo Rembrandt (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/19324/apostle-paul/ "Apostle Paul")«Nós somos judeus de nascimento, e não pecadores dentre os gentios. Sabendo, porém, que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, (...)» (Gálatas 2:15-16, *Idem*, pág. 1983). A Paulo é frequentemente atribuída a introdução de um novo conceito, a fé, ausente tanto do judaísmo como dos cultos nativos. É claro que todas as culturas antigas acreditavam nos seus conceitos, mas articulavam-nos de forma diferente. A [religião romana](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10552/religiao-romana/) era frequentemente descrita como um contrato; o sacrifício era oferecido para que a pessoa obtivesse benefícios. Na tradição cristã, a religião romana e o judaísmo eram considerados legalistas, com ausência de iluminação espiritual; judeus e pagãos tinham rituais, os cristãos tinham fé. Para Paulo, as «obras da Lei» eram apenas aqueles elementos físicos e sociais que dividiam as suas comunidades, como a circuncisão. Conforme Paulo pregava, a circuncisão não tinha qualquer efeito nas crenças de uma pessoa.

Em Romanos 5, Paulo criou um conceito de «salvação» para os crentes. De acordo com este conceito, Adão, o primeiro homem, pecou ao desobedecer a Deus e foi punido com a perda da imortalidade. Cristo trouxe a vida através do seu sacrifício de morte e da subsequente ressurreição após a morte. Através da fé cristã, todos os crentes seriam ressuscitados e transportados para o Céu na vida após a morte.

Durante séculos, Paulo foi considerado o verdadeiro fundador do cristianismo, tendo eliminado todos os conceitos das leis de Moisés e do judaísmo. Nas últimas décadas, novas análises sobre Paulo corrigiram esta interpretação. Nas suas cartas, ele defendeu sempre a santidade do Templo de Jerusalém. O consenso é que Paulo continuou a ser judeu, mas com uma nova compreensão das relações humanas com Deus.

### Jesus e a Comunhão à Mesa

Tanto em Mateus como em Lucas, as refeições servem de pano de fundo para a interpretação de Jesus sobre aspetos do Levítico:

> Encontrando-Se Jesus à mesa, na sua casa (de Mateus), numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com Ele e Seus discípulos.
> Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: «Como é que o vosso Mestre come com os publicanos e os pecadores?» Jesus ouviu-os, e respondeu-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: «Prefiro a misericórdia ao sacrifício.Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores».
> (Mateus 9:10-13, *Ibid*., pág. 1657)

A identidade destes cobradores de impostos continua a ser discutível no que diz respeito à sua etnia. Só no século II é que foram atribuídos autores aos evangelhos. «Mateus» era considerado um cobrador de impostos judeu que seguia Jesus. E quem eram «os pecadores»? Nos evangelhos, os «pecadores» não eram especificamente identificados.

No Evangelho de Lucas, um fariseu chamado Simão convidou Jesus para comer na sua casa. (Lucas 7:36–50): Uma mulher local descrita como «pecadora» (muitas vezes interpretada como uma prostituta) entra, chora aos pés de Jesus, enxuga-os com o seu cabelo, beija-os e derrama-lhes um perfume caro. O fariseu fica chocado, mas Jesus repreende Simão, como fariseu, por se concentrar na pureza exterior e não na justiça interior e no amor de Deus. Mas o ponto importante aqui é que uma prostituta foi admitida na casa. Como gentia e idólatra, a sua presença não transmitia qualquer «contágio».

[ ![Christ and Sinner](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/15319.jpg?v=1646209243) Cristo e a Pecadora Henryk Siemiradzki (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/15319/christ-and-sinner/ "Christ and Sinner")Levítico 20:20 afirma que tanto o adúltero como a adúltera devem ser condenados à morte. Em João 8:1-11, os fariseus trazem uma mulher perante a multidão para armar uma armadilha a Jesus, perguntando se ela deve ser apedrejada. Jesus responde: «Quem de vós estiver sem pecado, que atire a primeira pedra contra ela», o que faz com que os seus acusadores se retirem um a um. A mulher não é identificada nesta passagem; só no século VI é que se afirmou que se tratava de Maria Madalena.

### As Parábolas

As parábolas eram histórias curtas e simples que usavam a vida quotidiana para explicar verdades espirituais ou morais profundas. Jesus não inventou as parábolas; as culturas antigas usavam este recurso para produzir interpretações alegóricas de acontecimentos contemporâneos. As parábolas de Mateus centravam-se no iminente «reino de Deus», destacando quem entrará e quem não entrará quando Deus estabelecer o seu reino na Terra.

Talvez uma das parábolas mais famosas de Lucas seja a Parábola do Filho Pródigo, em que um homem tinha dois filhos. O mais velho ajudava o pai. O segundo filho pediu a sua parte da herança e partiu de casa para uma terra distante, onde esbanjou a sua fortuna. Quando já tinha gasto tudo, uma grave fome assolou toda aquela região e ele começou a passar necessidade. Regressou a casa e pediu apenas para ser tratado como um [servo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17609/servo/), mas o pai ofereceu-lhe um grande banquete. O irmão mais velho ficou zangado, mas o pai disse-lhe que deviam celebrar, porque o seu irmão estava morto e voltou à vida. Temos aqui a alegoria de que o pai é Deus e o filho mais novo é aquele que demonstra arrependimento.

### O Sermão da Montanha

A passagem principal que resume Jesus e as Leis de Moisés encontra-se no «Sermão da Montanha» de Mateus. Mateus apresenta Jesus como o novo Moisés; os principais ensinamentos são apresentados numa montanha, a reproduzir o Sinai. O Jesus de Mateus aborda elementos das Escrituras, tais como a ira, o adultério, a retaliação, etc. Talvez um dos elementos mais famosos do sermão seja a *lex talionis*, a lei da vingança. No entanto, «olho por olho e dente por dente» não era um elemento literal da Lei de Moisés. As escrituras judaicas contêm leis antigas de compensação por danos percebidos à propriedade ou à reputação de uma pessoa, e o montante da compensação era categorizado de forma a refletir o valor do dano. Esta máxima está relacionada com o contexto histórico do século I; os processos judiciais eram endémicos na cultura. Da mesma forma, dar a outra face não significa que os cristãos devessem ficar parados a aceitar tudo; era uma admoestação para não procurarem compensação nos tribunais e deixarem a compensação a cargo de Deus.

[ ![Sermon on the Mount](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/19573.jpg?v=1730217250-1729148240) Sermão da Montanha Carl Bloch (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/19573/sermon-on-the-mount/ "Sermon on the Mount")O sermão não foi escrito na altura, mas, aparentemente, algumas destas ideias antecederam os evangelhos. As cartas de Paulo foram escritas entre meados da década de 50 e o ano 62. Como fariseu, Paulo conhecia os preceitos da indemnização. Na carta de Paulo aos Coríntios, ele advertiu os crentes por levarem os litígios aos tribunais públicos em vez de os resolverem na comunidade. Também os repreendeu pelo simples facto de terem litígios. Para Paulo, também, Deus seria o juiz final.

A tradição cristã afirma que o Sermão da Montanha substituiu a Lei de Moisés à luz do novo movimento. Mas isto é desmentido pelo próprio Jesus na passagem: «Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-la, mas completá-la» (Mateus 5:17, *Ibid.*, pág. 1648). A Lei de Moisés (reinterpretada) permanece até ao reino iminente de Deus na Terra. Em vez de alterar a Lei de Moisés, Mateus intensificou as leis; não apenas nos seus rituais e comportamentos, mas também nos seus pensamentos.

Paulo afirmava repetidamente que, quando Deus estabelecesse o reino em breve, «já não há judeu nem gentio, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo» (Gálatas 3:28). Por outras palavras, as tradicionais diferenças étnicas, classes sociais e diferenças de género seriam eliminadas — tudo aquilo que dividia a humanidade.

### A Realeza na Terra

Os reis da Antiguidade eram sempre associados à divindade. Em muitas culturas, o rei era considerado descendente de um deus que tinha tido relações com uma mulher humana. No judaísmo, os reis foram exaltados através das histórias de David e do seu filho [Salomão](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-195/salomao/). Conhecida como a Aliança com David, era a promessa de que haveria sempre um descendente de David no trono de Israel.

A [República Romana](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-560/republica-romana/) tinha eliminado os reis, substituindo-os por magistrados e pelo [Senado Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15522/senado-romano/). O primeiro [imperador romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-1032/imperador-romano/), [Augusto](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-412/augusto/) (reinou de 27 a.C. a 14 d.C.), criou o culto imperial, começando com a deificação de [Júlio César](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-95/julio-cesar/), que tinha sido assassinado e que agora podia ser venerado como um deus. Os imperadores subsequentes foram deificados após a sua morte.

[ ![Constantine's Conversion](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/13987.jpeg?v=1779751684) A Conversão de Constantino Peter Paul Rubens (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/13987/constantines-conversion/ "Constantine's Conversion")[A conversão de Constantino ao cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1737/a-conversao-de-constantino-ao-cristianismo/) e o Édito de Milão tornaram o cristianismo uma religião legítima, mas os bispos da época estavam envolvidos em cismas. Durante a última perseguição sob o imperador [Diocleciano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-697/diocleciano/) (reinou 284-305), muitos bispos chegaram, de facto, a oferecer sacrifícios aos deuses para evitar a execução. As comunidades estavam divididas quanto à questão de saber se eles poderiam ser perdoados ou se estavam automaticamente condenados ao inferno. Os bispos apelaram a [Constantino I](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-699/constantino-i/) (reinou 306-337), agora cristão, para que tomasse uma decisão. A principal preocupação de Constantino era a unidade e, por isso, todos os cristãos anteriores que tinham feito sacrifícios aos deuses deveriam ser perdoados. Foi também nessa altura que Constantino se tornou o chefe da Igreja.

### Nicéia e o que se Seguiu

Em 325, os debates sobre a relação entre Deus e Jesus tinham gerado motins. Constantino convocou uma reunião na cidade de Nicéia, nos arredores da nova capital, [Constantinopla](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-700/constantinopla/), que estava a construir. Constantino convidou bispos de todo o império, arcando com as despesas de alojamento deles e das suas comitivas. Foi então que surgiu a complexa doutrina da Trindade: a unidade de três aspectos da divindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. No período que antecedeu o regresso de Cristo, o imperador, agora cristão, representava Cristo na Terra. A iconografia cristã retratava Constantino e os imperadores e bispos que se seguiram com auréolas à volta das suas cabeças.

[ ![Holy Trinity](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/5408.jpg?v=1789988714) Santíssima Trindade Fr Lawrence Lew, O.P. (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/image/5408/holy-trinity/ "Holy Trinity")Enquanto as delegações lá se encontravam, Constantino elaborou o Credo de Nicéia, que definia o que todos os cristãos deviam acreditar e praticar. A ortodoxia (crenças e conceitos corretos) e a heresia (*haeresis*, proveniente de uma descrição das escolas de [filosofia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-340/filosofia/) que ensinavam conceitos diferentes) passaram a ser determinadas pela adesão ao credo. Qualquer desvio era interpretado como uma falta de desejo de ver o Império Romano prosperar, o equivalente a traição. A traição acarretava sempre a pena de morte; os hereges passaram a ser executados nas arenas, mas era-lhes negado o título e o estatuto de mártires.

No século IV, circulavam já dezenas de evangelhos diferentes. Muitos destes eram evangelhos gnósticos; o [gnosticismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19579/gnosticismo/) era um ramo do cristianismo que tinha visões diferentes sobre a natureza de Cristo. Alegadamente, Constantino ordenou 50 cópias do que viria a ser os evangelhos canónicos do [Novo Testamento](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11401/novo-testamento/) — Marcos, Mateus, Lucas e João —, que foram posteriormente copiados e distribuídos por todo o império como os únicos evangelhos legítimos. Isto tornou-se a base do Novo Testamento das Bíblias cristãs.

Teodósio I (reinou 379-395) foi um grande defensor da ortodoxia. Em 380, promulgou o Édito de Tessalónica, que marcou o fim oficial de todas as formas de paganismo. Teodósio I proibiu todos os cultos e festivais pagãos. Proibiu os Jogos Olímpicos, dedicados a [Zeus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-538/zeus/) e ao deus [Apolo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-946/apolo/). Os Jogos Olímpicos só foram restabelecidos em 1896, em [Atenas](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-292/atenas/).

Com a união entre o Estado e a Igreja, os imperadores cristãos que se seguiram utilizaram os seus exércitos para obrigar toda a gente a aderir à religião cristã. A violência era justificada para levar todas as nações à «verdadeira fé». Séculos de guerras religiosas elevaram muitos governantes ao estatuto de santos. Como tal, acreditava-se que seriam recompensados no céu na vida após a morte.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Levine, Amy-Jill. *Sermon on the Mount.* Abingdon Press, 2020.](https://www.worldhistory.org/books/1501899899/)
- Paula Fredriksen. "Did Jesus Oppose the Purity Laws?." *Bible Review*, 11. 3, 1995.
- [Smith, Dennis E. & Taussig, H. *Meals in the Early Christian World.* Palgrave Macmillan, 2012.](https://www.worldhistory.org/books/1137002883/)

## Sobre o Autor

Rebecca I. Denova, Ph.D., é Professora Emérita de Cristianismo Primitivo no Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Pittsburgh. Ela escreveu recentemente um livro didático, "The Origins of Christianity and the New Testament" \[As origens do Cristianismo e do Novo Testamento\], publicado pela Wiley-Blackwell.

## Cite Este Artigo

### APA
Denova, R. (2026, November 01). Ideal da Cristandade na Antiguidade. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2997/ideal-da-cristandade-na-antiguidade/>
### Chicago
Denova, Rebecca. "Ideal da Cristandade na Antiguidade." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, November 01, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2997/ideal-da-cristandade-na-antiguidade/>.
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Denova, Rebecca. "Ideal da Cristandade na Antiguidade." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 01 Nov 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2997/ideal-da-cristandade-na-antiguidade/>.

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