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title: O Culto Cristão dos Santos em Ascensão: Relíquias, Túmulos e Peregrinações
author: Rebecca Denova
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2973/o-culto-cristao-dos-santos-em-ascensao/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-20
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# O Culto Cristão dos Santos em Ascensão: Relíquias, Túmulos e Peregrinações

_Escrito por [Rebecca Denova](https://www.worldhistory.org/user/rdenova/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Muitas religiões mundiais elevaram indivíduos com o título de "santo", o que frequentemente significa apenas "pessoa piedosa", "devota" ou "consagrada". A referência diz respeito ao seu estilo de vida ou ensinamentos morais, bem como à sua lealdade e obediência aos códigos de leis estabelecidos pelos deuses. Outro termo era "homens sábios" ou "sábios", frequentemente homens idosos, a quem se podia recorrer em busca de conselhos.

[ ![Ethiopian Icon of the Nine Saints](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/14802.jpeg?v=1646781303) Ícone Etíope dos Nove Santos Ondřej Žváček (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/14802/ethiopian-icon-of-the-nine-saints/ "Ethiopian Icon of the Nine Saints")### Os Encontros Divinos

A adivinhação era o meio pelo qual os deuses comunicavam com os humanos e estes com os deuses. Um "oráculo" era uma visão ou mensagem divina enviada pelos deuses, sendo também a designação atribuída à pessoa que a recebia. Compreendia-se que os oráculos eram "possuídos" por um [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) ou deusa, entrando em transe êxtase. Por vezes, um sacerdote tinha de traduzir as mensagens, uma vez que estas se exprimiam frequentemente em línguas desconhecidas. O equivalente hebraico dos oráculos eram os profetas de Israel. Os profetas não eram teólogos modernos que interpretassem os elementos por conta própria, nem cartomantes. Quando entravam em transe, proferiam as palavras do Deus de Israel. Os livros ingleses dos profetas tornaram fácil distinguir estes elementos: as palavras de Deus são sempre introduzidas pela expressão «Assim diz o Senhor» e aparecem indentadas como obras poéticas para realçar os Seus mandamentos.

Os encontros divinos podiam ser vividos por qualquer pessoa e em qualquer lugar, embora os locais mais comuns fossem perto de rios, florestas e cumes de montanhas. Uma reação comum era construir um pequeno monte de pedras, um carão, para indicar aos outros que algo de extraordinário tinha acontecido naquele sítio. Muitos destes montes tornaram-se templos que passaram a ser considerados espaços sagrados, o local onde a adivinhação ocorria e as moradas terrestres dos deuses.

### Peregrinação, Tumbas de Culto de Heróis & Deuses Patronos

Muitas cidades afirmavam ter sido fundadas por heróis nascidos de encontros sexuais entre deuses — habitualmente disfarçados — e humanos, e promoviam os seus túmulos como locais de peregrinação. Havia pelo menos 14 cidades que reivindicavam possuir o túmulo de Héracles/[Hércules](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10115/hercules/), tão longe quanto em Espanha. Devido aos seus grandes feitos, era concedida aos heróis a apoteose, o que significava que podiam ser adorados e invocados em busca de favores, funcionando como graus intermédios de divindade.

Cada cidade-estado e vila grega tinha um deus ou deusa local. Alguns eram ancestrais, enquanto outros tinham sido adotados através de conquistas militares ou da exposição comercial. Faziam-se petições ao deus ou deusa local para que «mediasse» entre a cidade e os olímpicos, tal como um cliente suplicaria favores ao seu patrono — daí a designação de deus ou deusa patrono/a. A comunidade cuidava da divindade e das funções do templo através de sacrifícios e rituais; em retribuição, a divindade demonstrava a sua gratidão assegurando a prosperidade da comunidade.

[ ![Cult Statue of Zeus Hypsistos](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/14086.jpg?v=1621792346) Estátua de Culto de Zeus Hypsistos Carole Raddato (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/14086/cult-statue-of-zeus-hypsistos/ "Cult Statue of Zeus Hypsistos")Os festivais religiosos eram organizados com celebrações anuais de homenagem. A estátua de culto era retirada e lavada num rio próximo, sendo vestida com mantos novos. Uma procissão encabeçada pela estátua de culto num carro alegórico incluía sacerdotes, acólitos do templo, dançarinos e cantores. A história do deus ou deusa e a sua relação com a cidade eram narradas através de reconstituições e peças teatrais, e celebradas com jogos atléticos. As sobras dos sacrifícios desse dia eram depois distribuídas.

### A [Revolta dos Macabeus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-827/revolta-dos-macabeus/) (167 a.C.)

A cultura e a religião gregas impregnaram o [Médio Oriente](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16/medio-oriente/) quando Alexandre o Grande, da [Macedónia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-386/macedonia/), conquistou a região. Ele trouxe os conceitos gregos sobre os deuses, as convenções sociais e a [filosofia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-340/filosofia/), sobrepondo-os às tradições mais antigas. Após a morte de Alexandre o Grande, os seus generais lutaram pela liderança nas Guerras dos Diágocos — com destaque para Seleuco I na Síria e Ptolomeu I no Egito.

Em 167 a.C., o líder selêucida Antíoco IV tomou a medida sem precedentes de proibir os «costumes judaicos». Esta história encontra-se nos livros intertestamentários de I a IV Macabeus nas Bíblias posteriores. Um grupo de judeus, sob a liderança de Matatias, da família dos Hasmoneus, rebelou-se contra o domínio grego, acabando por expulsar temporariamente os gregos. Os rebeldes que tinham sido presos e torturados deram-nos um novo termo, «mártir», que significa «testemunha». Não uma testemunha no sentido de ver algo, mas sim uma testemunha num tribunal, que «testifica a verdade».

[ ![Martyrdom of the Seven Maccabee Brothers and Their Mother](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/15252.jpg?v=1735396806) Martírio dos Sete Irmãos Macabeus e da sua Mãe Dirck Vellert (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/15252/martyrdom-of-the-seven-maccabee-brothers-and-their/ "Martyrdom of the Seven Maccabee Brothers and Their Mother")À medida que cada um deles morria, proferia discursos elaborados, dirigidos a Antíoco, proclamando a sua fé num Deus que os «ressuscitaria» e faria justiça. Dado que o Deus de Israel controlava tudo, Ele tinha permitido que os gregos conquistassem os judeus por causa dos seus pecados e, assim, os mártires estavam a «morrer pelo bem da nação», ou seja, a sofrer de forma vicária por todos. O conceito tornou-se, e continua a ser, um elemento fundamental do Judaísmo, do [Cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/) e do Islão. O facto de serem «erguidos» transformou-se em «ressurreição» após a morte, uma recompensa através da transfiguração automática para o Céu.

### A Perseguição dos Cristãos

Durante o reinado do [imperador romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-1032/imperador-romano/) [Domiciano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-677/domiciano/) (81–96 d.C.), o [Império Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-100/imperio-romano/) começou a perseguir e a executar cristãos pelo crime de ateísmo, definido como desrespeito para com os deuses. Os judeus tinham sido dispensados disso ao abrigo de um édito de [Júlio César](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-95/julio-cesar/) como recompensa pelos serviços prestados por mercenários judeus, mas os cristãos gentios não tinham a mesma isenção porque não eram circuncidados. Os cristãos gentios convertidos foram dispensados da circuncisão, mas, a começar pelo apóstolo Paulo e pelos restantes discípulos, estes novos crentes gentios tiveram de cessar todos os sacrifícios aos outros deuses. Roma via isto como «irritar os deuses» e, por conseguinte, eram executados por traição.

Os cristãos aproveitaram a história dos Macabeus para passar a reivindicar que qualquer cristão que tivesse sofrido e morrido sob o domínio de Roma era um mártir, que se juntava aos anjos em redor do trono de Deus, entoando louvores eternamente. Do Céu, estes mártires encontravam-se agora numa posição de intervir em prol de preces e favores para a comunidade. Deste modo, os mártires cristãos tornaram-se «santos patronos».

Os túmulos dos famosos mártires cristãos tornaram-se locais de peregrinação, onde o Céu e a Terra se integravam. Mas, em termos práticos, os túmulos dos mártires traziam benefícios económicos para a cidade, através do alojamento de peregrinos, do fornecimento de comida e dos omnipresentes vendedores de recordações.

### O Bispo Ambrósio de Milão

À medida que os cristãos começavam a apoderar-se de templos antigos e de basílicas administrativas e a construir novas igrejas, surgiram debates sobre a forma de transpor para estes edifícios o conceito antigo dos templos enquanto espaços sagrados. Os templos antigos estavam manchados pela idolatria. Até as funções cívicas nos edifícios administrativos — as basílicas, as reuniões dos conselhos municipais, o [Senado Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15522/senado-romano/) e os tribunais — começavam com sacrifícios aos deuses. Santo Ambrósio resolveu o problema da idolatria ao construir a sua nova igreja em Milão. Afirmou ter tido um sonho com dois antigos soldados cristãos mártires (Gérvasio e Protásio), que lhe mostraram onde estavam sepultados. Mandou desenterrar os seus esqueletos e sepultá-los nas paredes da nova igreja.

[ ![St. Ambrose](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/5335.jpg?v=1786440826-1786440826) Santo Ambrósio Fr Lawrence Lew, O.P. (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/5335/st-ambrose/ "St. Ambrose")Tanto os filhos como as filhas representavam um encargo financeiro para as famílias. Era preciso financiar as campanhas eleitorais dos filhos, e os dotes das filhas constituíam outro peso financeiro. As famílias romanas davam frequentemente os filhos excedentes a outras famílias estéreis para adoção. A filha mais velha continuava a ser destinada a um casamento com outra família, mas as filhas seguintes eram «entregues à igreja» para passarem a vida a praticar boas ações e caridade. Para algumas mulheres cristãs, isto traduzia-se numa espécie de «virgindade do berço à sepultura». Ambrósio defendia que os corpos físicos das virgens dotavam o edifício de sacralidade. Na Idade Média, um fugitivo da justiça podia evitar a prisão fixando residência numa igreja, ficando protegido da turba até ao seu julgamento — o chamado direito de asilo.

### O Incidente em Menorca

Em 415, um monge [britânico](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21913/britanico/), Pelágio, foi julgado em [Jerusalém](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-194/jerusalem/) por heresia. Durante o julgamento, um pároco local teve um sonho que lhe revelou onde Estêvão, o primeiro mártir cristão mencionado no livro dos Atos, estava sepultado. Desenterraram Estêvão e trouxeram os seus ossos para se sentarem literalmente no tribunal em Jerusalém. Isto convenceu o painel de que se tratava de um sinal de Deus de que Pelágio era um herético, tendo-o assim condenado.

O Bispo Agostinho de Hipona tinha enviado o seu agente, Orosírio, para assistir ao julgamento. Orosírio estava encarregado de recolher alguns dos ossos de Estêvão e de ajudar a distribuí-los em pedaços por todo o Mediterrâneo, para que outros pudessem partilhar «deste poder maravilhoso». Por essa altura, os vândalos tinham invadido a Espanha, e ele receava ir para lá; por isso, dirigiu-se à vila de Maó, na ilha de Menorca, ao largo da costa espanhola. Havia uma comunidade sinagogal em Maó, e o magistrado governante era judeu. Ao apresentar os ossos de Estêvão aos cristãos da ilha, o Bispo Severo recordou a morte de Estêvão às mãos dos judeus. Enfurecida, uma multidão cristã incendiou a sinagoga e roubou o candelabro de ouro e outros artigos do local. Conhecemos esta história através de uma carta circular que o Bispo Severo enviou a outras cidades. Ele alegou que os ossos de Estêvão provocaram o arrependimento de todos os judeus, que posteriormente pediram para ser batizados. Este é, muito provavelmente, o primeiro incidente de batismo forçado de judeus. A partir de então, as relíquias passaram a estar associadas a «milagres».

Tinha-se iniciado a corrida às relíquias. Os cristãos procuravam os túmulos dos primeiros mártires cristãos, exumavam os ossos e estabeleciam santuários e locais de peregrinação junto aos seus jazigos. As relíquias eram os restos mortais de pessoas ou objetos que tinham estado em contacto com indivíduos sagrados. Acreditava-se que as relíquias tinham a capacidade de proteger e dotar o crente de boa sorte nesta vida, bem como de curar doenças e incapacidades. As orações a estes santos eram também petições de ajuda para a sua jornada na vida após a morte, com o objetivo de alcançarem finalmente o Céu.

[ ![Mapa da Peregrinação Cristã Primitiva Séculos IV V](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/16025-pt.png?v=1776780069-1776780126) Mapa da Peregrinação Cristã Primitiva (Séculos IV-V) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/trans/pt/3-16025/mapa-da-peregrinacao-crista-primitiva-seculos-iv-v/ "Mapa da Peregrinação Cristã Primitiva Séculos IV V")Para distribuir este benefício por todos, os cristãos partiam os esqueletos para repartir ossos, dentes, cabelo e vestuário. A concorrência era feroz no que respeitava ao comércio de turismo e peregrinação. Sete igrejas diferentes afirmavam possuir a cabeça de João Batista.

A mãe de Constantino, Helena de [Constantinopla](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-700/constantinopla/), durante a sua peregrinação a Jerusalém em 324, afirmou ter encontrado o túmulo de Jesus Cristo, o local da condenação de Jesus por Pôncio Pilatos a partir da Fortaleza Antónia, a verdadeira cruz, os pregos da [crucificação](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11867/crucificacao/) e outros objetos. Escavações posteriores nas zonas mais antigas de Jerusalém revelaram as ruas e os edifícios originais. Na Idade Média, esta via tornou-se na Via Dolorosa, a «rua das dores», que continua a ser um dos locais de peregrinação mais sagrados para a Igreja Católica. O trajeto de Jesus é percorrido todas as Sextas-Feiras Santas por peregrinos que carregam cruzes. Em termos de iconografia, os vários locais ao longo do percurso são retratados nas «estações da cruz» (ou via-sacra) nas paredes laterais das igrejas católicas. Os fiéis circulam em procissão pela igreja, rezando o terço e contemplando o sofrimento de Jesus.

### As Relíquias

Havia duas pessoas cujo corpo não podia ser reivindicado. Jesus tinha ascendido corporalmente ao Céu e a tradição ditava que Maria, tendo «adormecido» — um eufemismo para a morte —, fora fisicamente levada para o Céu pelos anjos. Em contrapartida, podiam possuir-se relíquias periféricas e associadas: um espinho da coroa de espinhos, um pedaço do véu de Maria, a lança que trespassou Cristo. Esta relíquia encontra-se hoje num museu em Viena, tendo sido recuperada depois de [Adolf Hitler](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19717/adolf-hitler/) a ter roubado durante a sua conquista da Áustria. No entanto, algumas igrejas iam além do normal: várias reclamavam possuir o prepúcio de Jesus após a sua circuncisão, e algumas afirmavam ter a placenta de Maria após o seu nascimento.

As relíquias eram colocadas num relicário, um recipiente ornado, frequentemente coberto de ouro e joias, o que contribuía para a riqueza das igrejas. Desde a Antiguidade Tardia e ao longo de toda a Idade Média, a produção e o comércio de relíquias foram um negócio altamente lucrativo. Os avanços científicos e tecnológicos atuais permitem determinar a autenticidade de tais relíquias, começando pela datação óssea e pela análise dos materiais utilizados no fabrico do relicário.

[ ![Relic of St. Cyprian](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/6120.jpg?v=1751848807) Relíquia de São Cipriano ACBahn (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/6120/relic-of-st-cyprian/ "Relic of St. Cyprian")Nem todos concordavam com este novo conceito. No ano de 369, o Bispo Atanásio escreveu uma carta (*ἘπῚστολαῚ ἙορταστῚΚΑῚ*; transliterada: *Epistolai Heortastikai* — *Cartas Festais ou Pascais*) a criticar um grupo conhecido como os melecianos:

> Eles não deixam os corpos dos mártires, que lutaram nobremente, na terra, mas começaram a colocá-los em camas e estrados, para que quem o deseje possa contemplá-los. Fazem isto ostensivamente para honrar os mártires, mas na realidade é um insulto; e fazem-no com propósitos desprezíveis. Embora não possuam nenhum corpo de mártir na sua própria cidade, e sem saberem o que é um mártir, maquinaram roubar os seus corpos e retirá-los dos cemitérios para as igrejas católicas... têm os meios para enganar aqueles que desencaminham. Mas "o erro não é parte de Israel" e os nossos Pais não nos transmitiram tal costume; pelo contrário, consideram que tal prática é ilegítima.
> (*41.ª Carta Festal*)

Isto poderá não ser Atanásio a denunciar a prática em teoria, mas sim a legitimidade a depender do grupo; ele considerava os melecianos heréticos. Eram acusados de rebatizar bispos excomungados e muitos foram, por conseguinte, encarcerados. Esta passagem poderá ter tido como objetivo negar aos melecianos o estatuto de mártir e, por conseguinte, a subsequente veneração das suas relíquias. Assim, os túmulos dos mártires e as suas relíquias só eram aprovados com base na ortodoxia da vítima.

Mas as objeções mais fortes vieram dos judeus e dos pagãos. Um conceito partilhado no mundo antigo era conhecido como contaminação cadavérica. Os corpos mortos emanam um miasma tóxico e vaporoso que podia poluir o ar, bem como as pessoas. Judeus e pagãos consideravam a recolha de relíquias um anátema, «algo vil que não se fazia», e repugnante.

Atualmente, o Vaticano controla a distribuição e a confirmação de uma verdadeira relíquia. O processo moderno de canonização de um santo começa com a investigação de pelo menos três milagres médicos ou eventos divinos semelhantes na vida da pessoa. Após uma cura milagrosa, deve demonstrar-se que a pessoa continuou a viver como um cristão exemplar. O Vaticano é frequentemente reticente em aceitar milagres divinos. Esta cautela decorre da possibilidade de investigações científicas futuras concluírem que o Vaticano cometeu um erro.

### Os Santos e os Rituais

A Grécia e Roma tinham dias especiais dos mortos, alturas em que os fantasmas podiam escapar temporariamente de [Hades](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-418/hades/) e reunir-se com as famílias. No entanto, este era também um período temido, pois aqueles que tinham morrido assassinados ou vítimas de outros crimes regressavam para procurar vingança. Passado um dia, eram enviados de volta para Hades através do bater de tachos e de feijões atirados por cima do ombro. Retomando a tradição dos dias dos mortos, os cristãos passaram a celebrar os santos falecidos no Dia de Todos os Santos e no Dia de Finados. Todos os santos e os mártires falecidos são honrados coletivamente na Igreja Católica. Na Inglaterra, a data recaía a 1 de novembro, sendo a véspera conhecida como «Hallow's Eve»; esta é a origem histórica do Halloween.

[ ![Typical Halloween Decoration, USA](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/21272.jpg?v=1761692431-1761733689) Mapa da Peregrinação Cristã Primitiva (Séculos IV-V) Joshua J. Mark (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/21272/typical-halloween-decoration-usa/ "Typical Halloween Decoration, USA")A partir da Idade Média e posteriormente, alguns santos foram mumificados e colocados em urnas nas abside ou capelas laterais das catedrais. No catolicismo, todas as igrejas católicas são consagradas com a presença de uma relíquia de um santo. A relíquia é sepultada na primeira pedra (Cristo como a «pedra angular»), sob o altar ou numa capela separada com uma estátua do santo correspondente àquela igreja em particular. Daí os nomes das igrejas: Santa Inês, Santa Catarina, Santo Estêvão, etc. Sob o altar-mor da Basílica de São Pedro, em Roma — onde Pedro foi anacronicamente titulado como o primeiro papa —, os papas subsequentes encontram-se sepultados nas catacumbas papais. Apenas alguns dos períodos anteriores se encontram mumificados com máscaras fúnebres de cera. Muitas das catedrais mais famosas da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/) têm santos sepultados em capelas laterais, atrás de painéis de vidro, permitindo que o santo seja visto, com os seus traços físicos preservados para a ressurreição no Céu. Esta preservação é considerada um milagre.

No período moderno, os papas não são submetidos a autópsias médicas. A partir do momento em que é eleito, o Vaticano aloja pessoal médico para supervisionar a saúde do pontífice. A causa da morte é, na maioria das vezes, natural, decorrente da velhice. Mas outra razão é o facto de o corpo de um papa ser considerado propriedade da Igreja e ter de permanecer totalmente intacto para a câmara ardente, visualização pública e posterior sepultamento.

### Os Santos Patronos e a Peregrinação

O conceito de santos foi aplicado tanto a monges vivos como falecidos. Os túmulos de figuras monásticas famosas tornaram-se locais de peregrinação. Por vezes, a antecipação precedia a própria morte: relata-se que de São Francisco de Assis (1181–1226) foram recolhidos o cabelo e as unhas ainda antes de dar o seu último suspiro, sabendo-se que viria a ser inevitavelmente declarado santo.

Os santos foram associados a áreas de funções específicas (agricultura, [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/), metalurgia, etc.). As suas funções especiais derivavam das histórias dos seus martírios. Por exemplo, a Santa Luzia foram esvaziados os olhos antes da execução, tornando-se assim a padroeira dos cegos. São Sebastião (255–288) foi atado a um poste ou árvore e alvejado com setas, convertendo-se no padroeiro dos militares e dos atletas. São Judas é o padroeiro das causas impossíveis, Santo António é o padroeiro para encontrar objetos perdidos, e as estátuas de São José são enterradas no jardim da frente para assegurar a venda rápida de uma casa.

A Basílica de Santo António de Lisboa e de Pádua (1195–1231) destaca-se por albergar no seu interior um enorme monte com muletas, cadeiras de rodas e outros testemunhos deixados por crentes que ali teriam sido curados de deficiências e doenças.

[ ![Map of Christian Pilgrimage in the Middle Ages, c. 1000](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/16082.png?v=1761842302-1751177231) Peregrinação Cristã na Idade Média. cerca de 1000 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/image/16082/map-of-christian-pilgrimage-in-the-middle-ages-c-1/ "Map of Christian Pilgrimage in the Middle Ages, c. 1000")Outro local de peregrinação popular do período moderno localiza-se em Lourdes, em França. Em 1858, Bernadette, uma rapariga camponesa sem instrução, começou a visitar uma gruta com uma nascente, onde afirmou ter visões de uma senhora que lhe falava. Quando interrogada pelos padres, foi-lhe dito para perguntar à senhora o seu nome. A senhora respondeu-lhe: «Eu sou a Imaculada Conceição.» Uma camponesa não saberia este conceito, pelo que Bernadette foi validada como santa. O local em Lourdes fornece garrafas com a água da nascente, considerada sagrada, que hoje em dia podem ser encomendadas através da internet.

### A Necessidade do Purgatório

A elevação dos antigos mártires e monges a santos acabou por se tornar problemática em relação a todos os outros cristãos. Se todos os bons cristãos fossem para o Céu quando morriam, como é que isso os distinguiria dos grandes sacrifícios dos mártires e dos monges? As mortes dos mártires e dos monges constituíam uma expiação de pecados por si próprios e pela comunidade. Eram tidos como um grupo especial e único que precisava de se manter elevado acima de todos os demais cristãos.

O poeta romano [Virgílio](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-784/virgilio/), na sua obra [*[A Eneida](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13207/a-eneida/)*](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13207/a-eneida/) (tít. original: *Aeneis*), descrevera um lugar no Hades que permitia a purgação (a queima) de faltas passadas. Essa purgação ficou associada ao fogo. Agostinho distinguiu um lugar separado chamado Purgatório, que continha um fogo purificador em contraste com o fogo consumidor dos impenitentes no Inferno. O Papa Gregório I, o Grande (530–604), classificou os pecados através de um *purgatorius ignis* (um fogo purificador). Os pecados menores, após um período de purgação, permitiam que o crente seguisse para o Céu. Os pecados graves — como homicídio, incesto, idolatria e outros crimes civis — tornaram-se pecados mortais, sem esperança de perdão, resultando na condenação imediata e eterna no Inferno.

[ ![Purgatory](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/10950.jpg?v=1778569452) Purgatório Petrusbarbygere (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/10950/purgatory/ "Purgatory")Os principais locais de peregrinação dedicados a santos contêm uma placa ou inscrição que indica quantos anos são abatidos no Purgatório para apagar os pecados. Contudo, há uma condição: antes de apelar a um santo, o fiel deve ter assistido à missa na semana anterior, recebido a Eucaristia e confessado os seus pecados no ritual da penitência.

### As Práticas Modernas

Os funerais católicos modernos promovem santinhos (cartões de oração) com imagens de santos católicos. Os enlutados podem adquirir estas orações através de contributos monetários ao sacerdote, que inclui preces pelos falecidos no elogio fúnebre para ajudar a encurtar a sua permanência no Purgatório. Nas igrejas católicas, a missa solene — as versões mais longas das orações durante a liturgia — inclui uma ladainha dos santos, onde os fiéis são incentivados a invocar individualmente os santos.

As igrejas católicas incluem também o sacramento do Crisma (ou Confirmação), a inclusão ritual dos jovens após atingirem a puberdade. Nesta ocasião, o crismado escolhe o nome de um santo padroeiro para supervisionar a sua fé e desenvolvimento religioso durante o resto da vida.

As igrejas modernas mantiveram o conceito antigo de festividades religiosas para honrar o deus patrono da cidade. Atualmente, temos as festas paroquiais — habitualmente durante o verão —, que incluem celebrações litúrgicas em honra do santo padroeiro, bancas de comida e recordações, e atrações de feira.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Brown, Peter. *The Cult of the Saints.* University of Chicago Press, 2014.](https://www.worldhistory.org/books/022617526X/)
- [Gonzalez, Justo L. *The Story of Christianity.* HarperOne, 2010.](https://www.worldhistory.org/books/006185588X/)
- [Paul, Tessa & Creighton-Jobe, Ronald. *The Illustrated Encyclopedia of Saints.* Lorenz Books, 2023.](https://www.worldhistory.org/books/0754835790/)

## Sobre o Autor

Rebecca I. Denova, Ph.D. é Professora Emérita de Cristianismo Primitivo no Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Pittsburgh. Ela escreveu recentemente um livro didático, "The Origins of Christianity and the New Testament" \[As Origens do Cristianismo e do Novo Testamento\], publicado pela Wiley-Blackwell.

## Cite Este Artigo

### APA
Denova, R. (2026, August 20). O Culto Cristão dos Santos em Ascensão: Relíquias, Túmulos e Peregrinações. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2973/o-culto-cristao-dos-santos-em-ascensao/>
### Chicago
Denova, Rebecca. "O Culto Cristão dos Santos em Ascensão: Relíquias, Túmulos e Peregrinações." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 20, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2973/o-culto-cristao-dos-santos-em-ascensao/>.
### MLA
Denova, Rebecca. "O Culto Cristão dos Santos em Ascensão: Relíquias, Túmulos e Peregrinações." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 20 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2973/o-culto-cristao-dos-santos-em-ascensao/>.

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