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title: A História da Inquisição: A Batalha da Igreja Católica Contra o Desvio
author: Rebecca Denova
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2960/a-historia-da-inquisicao/
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license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-06
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# A História da Inquisição: A Batalha da Igreja Católica Contra o Desvio

_Escrito por [Rebecca Denova](https://www.worldhistory.org/user/rdenova/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

A Inquisição foi a instituição oficial da Igreja Católica medieval que estabeleceu juízes eclesiásticos para investigar e julgar opiniões e práticas divergentes que iam contra aquilo que se tornou a "teologia católica sistemática". Uma inquisição era um procedimento judicial católico no qual os juízes eclesiásticos podiam iniciar, investigar e julgar casos na sua jurisdição. Popularmente, a Inquisição passou a ser o nome atribuído a vários tribunais organizados pelo Estado, nos períodos medieval e da Reforma, cujo objetivo era combater a heresia, a apostasia, a blasfémia, a [alquimia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22185/alquimia/), a bruxaria e costumes considerados desviantes, recorrendo a este procedimento judicial.

[ ![Expulsion of the Cathars from Carcassonne](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/9344.jpg?v=1751718311) Expulsão dos Cátaros de Carcassonne Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/9344/expulsion-of-the-cathars-from-carcassonne/ "Expulsion of the Cathars from Carcassonne")### As Origens

As origens daquilo que se tornou o [Cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/) remontam ao século I, com relatos sobre o ministério de Jesus de Nazaré, um pregador itinerante à maneira dos profetas de Israel. Os seus seguidores afirmavam que ele era o esperado "messias", o "ungido" do [Deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) de Israel, que instauraria o seu "reino na terra". Os primeiros discípulos e o Apóstolo Paulo levaram esta mensagem para além de [Jerusalém](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-194/jerusalem/) e estabeleceram comunidades nas províncias orientais do [Império Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-100/imperio-romano/) e, posteriormente, em [Itália](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-207/italia/). No entanto, as décadas passaram e o "reino não chegou".

Nesse ínterim, os crentes, agora chamados de "cristãos" (*christianoi*, "seguidores de *christos*", o "ungido" em grego), receberam preceitos dos líderes da igreja sobre como conduzir uma vida moral e como seguir os papéis de género e as convenções sociais dos mandamentos do Deus de Israel. Em meados do século I, surgiu um problema. Os judeus tinham marcadores de identidade únicos, como a circuncisão e as suas próprias leis alimentares. Deveriam os crentes gentios ser obrigados a submeter-se à circuncisão e a outras regras do judaísmo para serem admitidos no novo movimento? Estes grupos foram designados como "judeu-cristãos" (observantes da Torá) e "gentio-cristãos".

Convocou-se uma reunião importante em Jerusalém. Tiago, o irmão de Jesus, ditou uma carta que terá sido enviada a todas as comunidades:

> Portanto, o meu parecer é que não devemos criar dificuldades aos gentios que se estão a converter a Deus. Em vez disso, devemos escrever-lhes para que se abstenham de alimentospolluídos por ídolos, da imoralidade sexual, da carne de animais sufocados e do sangue. Pois a lei de [Moisés](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14009/moises/) tem sido pregada em todas as cidades desde os tempos mais antigos e é lida nas sinagogas todos os sábados.

"Alimentos poluídos por ídolos..." referia-se muito provavelmente às carnes restantes dos sacrifícios nos templos, que eram distribuídas ou vendidas nos mercados públicos de carne. Evitar "a carne de animais sufocados e o sangue..." eram regras judaicas contra a ingestão de qualquer animal que tivesse morrido no estado selvagem, uma vez que a carne tinha de ser drenada de sangue. Devido a estas exigências, os judeus tinham os seus próprios talhantes nas cidades. Abster-se de "imoralidade sexual..." significava não seguir a cultura dominante, caracterizada por uma taxa elevada de adultério e divórcio no [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Romano. Embora não fosse explicitamente mencionado, os crentes gentios não tinham de se submeter à circuncisão. Os profetas de Israel tinham afirmado que, no "reino", alguns gentios seriam salvos, mas como gentios crentes; não precisavam de se converter ao judaísmo.

[ ![Saint Augustine Ordained a Bishop](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/15543.jpg?v=1755231365) Santo Agostinho Ordenado Bispo Fr Lawrence Lew, O.P. (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/image/15543/saint-augustine-ordained-a-bishop/ "Saint Augustine Ordained a Bishop")### As Inovações Institucionais

Por volta das décadas de 70 e 80, as comunidades cristãs tinham desenvolvido uma hierarquia com o governo dos bispos. O modelo era a administração das cidades-estado com as suas assembleias, bem como o domínio romano nas províncias. Um bispo equivalia a um magistrado que supervisionava a lei e a ordem numa secção da província, designada por diocese. Um segundo nível de administração pertencia aos diáconos, aqueles que ajudavam a distribuir caridade pelos membros. Juntos, estes níveis constituíam o clero. Mas num movimento onde se assumia a igualdade para todos, porque razão haveriam os membros de escutar o clero?

Os bispos e os diáconos foram elevados ao exigir-se que permanecessem celibatários e castos. O celibato consistia em não celebrar um contrato legal de casamento, e a castidade em não se entregar a relações sexuais. Isto conferia ao clero a sensação de serem "santos". Além disso, eram considerados "mártires vivos", por terem sacrificado uma vida normal de família e filhos.

Durante o século II, um grupo de bispos, conhecidos retroativamente como "os Pais da Igreja", iniciou o processo que conduziu à eventual separação do judaísmo para uma nova religião, o Cristianismo. Escreveram tratados que descreviam os conceitos e os rituais. Na altura, não existia uma autoridade central como o posterior Vaticano; havia dezenas de comunidades cristãs diferentes espalhadas pelas cidades do Império. Estes escritos tornaram-se no "dogma" cristão.

[ ![Gospel of Thomas](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/13815.jpeg?v=1765360384) Evangelho de Tomé Unknown author (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/13815/gospel-of-thomas/ "Gospel of Thomas")### A Ortodoxia vs. a Heresia

Nos primeiros dois séculos, existiam dezenas de histórias e interpretações diferentes sobre a história de Jesus. Um grupo coletivamente denominado "gnósticos" afirmava possuir "conhecimento secreto" (a palavra grega *gnosis*) sobre diferentes visões de Jesus, a sua natureza divina e a razão pela qual veio à terra. Ao criticarem os gnósticos, os Pais da Igreja criaram os conceitos de "ortodoxia" e "heresia". Ortodoxia significava "crença correta". A heresia derivava do grego haeresis, um termo utilizado para descrever os ensinamentos das escolas de [filosofia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-340/filosofia/). A heresia passou a ser "crença e prática incorretas". No entanto, estes conceitos são as duas faces da mesma moeda. Os heréticos não se descrevem a si próprios como tal; alegam possuir os conceitos e rituais corretos.

A heresia a este nível era punida com a "excomunhão", ou seja, a expulsão da comunidade. Uma acusação de heresia significava que a pessoa não podia participar nos rituais da igreja, como a "comunhão". Na ausência de uma autoridade central, alguns "heréticos" simplesmente partiam e criavam as suas próprias igrejas em várias cidades. Desde o mundo antigo até aos tempos modernos, a "heresia" continua a ser o critério definidor de várias visões divergentes, em particular para aqueles que acabam por ir para o Céu ou para o Inferno na vida após a morte.

### O Imperador Constantino

O Imperador [Constantino I](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-699/constantino-i/) (reinou 306-337) converteu-se ao Cristianismo no ano de 312. Como chefe do Império e, a partir de então, também chefe da Igreja, detinha a autoridade para ditar os parâmetros da nova fé. Numa tentativa de alcançar a unidade, convocou uma reunião em Niceia, nos arredores da nova capital, [Constantinopla](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-700/constantinopla/) — mais tarde chamada Istambul após a conquista da cidade pelo Islão.

[ ![Constantine I](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2571.jpg?v=1779475287) Constantino I Mark Cartwright (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/2571/constantine-i/ "Constantine I")Constantino convidou bispos de todo o império, pagando-lhes o alojamento, bem como o das respetivas comitivas. Foi nesta altura que se criou a complexa doutrina da "Trindade", a unidade de três aspetos da divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Enquanto lá esteve, criou o "credo", definindo aquilo em que todos os cristãos deviam acreditar e praticar. A ortodoxia e a heresia passaram a ser determinadas pela adesão ao credo de Constantino. Qualquer desvio era visto como uma crítica ao imperador e interpretado como o desejo de que o império não prosperasse, o equivalente a traição. A traição era sempre punida com pena de morte; os heréticos eram considerados traidores e executados nas arenas.

Agostinho (354-439), o Bispo de Hipona, no Norte de África, argumentou contra todos os grupos que não concordavam com as suas opiniões. Deu o passo sem precedentes de apelar ao Imperador Honório, em 410, para que enviasse as legiões. Todas as visões divergentes de quem quer que fosse passaram a ser punidas com a execução, e as respetivas igrejas foram desmanteladas. O massacre foi de tal forma severo que até o próprio Agostinho se opôs.

### A Inquisição

O problema da heresia não desapareceu. Os Segundo e Terceiro Concílios de Latrão (1139, 1179) prescreveram a prisão e a confiscação de bens como punição para os heréticos e ameaçaram excomungar os príncipes que falhassem em puni-los. Durante o século XII, seitas cristãs conhecidas como os Albigenses no sul de França, os Cataros e os Valdenses nos Balcãs, foram acusadas de ensinar doutrinas de tipo gnóstico. Isto levou a uma cruzada especial nestas regiões para os destruir, conhecida como a [Cruzada Albigense](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17485/cruzada-albigense/).

A Inquisição Episcopal foi formalmente instituída pelo Papa Gregório IX em 1231, que determinou que os heréticos fossem procurados e julgados perante um tribunal eclesiástico. Esta tarefa foi confiada às ordens dos Dominicos e dos Franciscanos. A autoridade independente dos Inquisidores era uma causa frequente de atrito com o clero local e os bispos. A Igreja "não podia sujar as mãos com sangue", pelo que o interrogatório e a subsequente execução eram da responsabilidade das forças policiais locais. Famosa pelos seus procedimentos notavelmente severos (incluindo a tortura), a Inquisição foi defendida durante a Idade Média através do apelo a práticas bíblicas e a Agostinho, com a frase "Obriga-os a entrar...". Em Lucas 18, alguns [fariseus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20491/fariseus/), e até mesmo os seus discípulos, criticaram Jesus por dar bênçãos às multidões que traziam os seus filhos. "Então Jesus chamou as crianças para junto de si e disse aos discípulos: 'Deixem vir a mim as crianças e não as proíbam, porque o Reino de Deus pertence aos que são como elas. Digo-vos a verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele.'"

[ ![Pope Innocent III & the Albigensian Crusade](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/9343.jpg?v=1775824635) Papa Inocêncio III e a Cruzada Albigense Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/9343/pope-innocent-iii--the-albigensian-crusade/ "Pope Innocent III & the Albigensian Crusade")Quando os Inquisidores chegavam a uma cidade, era concedido um período de graça para que qualquer herético renunciasse às suas crenças. As denúncias podiam ser feitas por qualquer pessoa, incluindo outros heréticos. O tribunal conduzia um interrogatório e tentava obter uma confissão. O acusado era torturado através de queimaduras com brasas vivas, amputação de dedos, artelhos, língua, testículos e seios, ou através do strappado (estiramento num potro vertical). A única forma de interromper a tortura era assinar uma confissão, o que, no entanto, confirmava a culpa do indivíduo. A execução padrão era a fogueira. O público presente funcionava como "testemunhas" de que o herético tinha sido punido.

Entre as vítimas notáveis da Inquisição contavam-se a ordem dos Templários, a patriota francesa [Joana d'Arc](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16982/joana-darc/) e o astrónomo [Galileu Galilei](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19494/galileu-galilei/). Galileu seguiu as pisadas de outros astrónomos que ensinavam que a terra não era o centro do universo, acabando por ser salvo quando mais tarde retratou as suas opiniões.

A Inquisição expandiu-se de modo a abranger a alquimia, a bruxaria, a blasfémia, a imoralidade sexual e o infanticídio, acusações dirigidas em particular contra aqueles que ainda mantinham os resquícios do paganismo. Acreditava-se que Lúcifer, o Diabo, estava por trás de todos estes pecados. O antigo conceito de "possessão por demónios" foi revitalizado através de Lúcifer e dos seus muitos agentes.

A alquimia consistia na tentativa de transformar metais base em ouro. Era frequentemente acompanhada por "elixires mágicos", poções que garantiriam uma vida longa. Ambas as práticas foram condenadas como heresia, uma vez que subvertiam o conceito de que Deus era o criador de todas as coisas e das respetivas naturezas, além de violarem os preceitos divinos que limitavam a vida humana a "setenta anos" após o dilúvio.

[ ![The Alchemist by Wright](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17809.png?v=1766834054-1692816029) O Alquimista, por Wright Joseph Wright (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17809/the-alchemist-by-wright/ "The Alchemist by Wright")No folclore judaico medieval, e posteriormente no Cristianismo, a principal bruxa era a primeira mulher de Adão, Lilith, que o seduziu para ter relações sexuais. Uma bruxa era considerada um incubus — um termo que aqui descreve uma figura feminina possuída através de relações sexuais com o Diabo ou com pelo menos um dos seus demónios. O sémen do Diabo era o que conferia às bruxas o poder de "voar à noite" e praticar magia. As bruxas eram frequentemente descritas como mulheres belas e voluptuosas que visitavam os homens durante a noite. Elas transformavam-se num succubus ao roubar o sémen de um homem, drenando a sua energia vital e gerando outros demónios. Em última análise, isto conduzia a uma saúde precária, à ruína financeira e à morte.

No século XV, dois inquisidores, Heinrich Kramer e James Sprenger, criaram o *Malleus Maleficarum*, também conhecido como "O Martelo das Feiticeiras". Tratava-se de um manual "científico" que enumerava as diversas formas pelas quais as bruxas podiam ser identificadas. Por exemplo, uma das maneiras de reconhecer uma bruxa era examinar o número de pintas no seu corpo, consideradas cicatrizes deixadas pela possessão do Diabo. O número de bruxas queimadas após finais do século XV superou o de heréticos, estimando-se que tenha alcançado cerca de 60.000 vítimas.

### O "Mergulho"

Inicialmente, o desvio era julgado através de "provas de fogo" (ou juízos de Deus), nos quais Deus era o juiz da inocência. As bruxas eram testadas através do "mergulho", sendo atiradas a um rio ou colocadas num mecanismo semelhante a uma prancha de saltos, onde eram repetidamente mergulhadas em rios. Uma vez que as bruxas rejeitavam o batismo, acreditava-se que a água as rejeitaria, fazendo-as flutuar até à superfície, sendo assim consideradas culpadas. Se se afogassem, significava que eram efetivamente inocentes, mas, naturalmente, nessa altura já estariam mortas de qualquer maneira. As "provas de fogo" foram abolidas em Inglaterra quando Henrique III de Inglaterra (reinou 1216-1272) criou o seu novo conceito de governo ao estabelecer as origens do Parlamento Inglês.

[ ![Witch Trial of George Jacobs](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/13773.jpg?v=1765537925) Julgamento por Bruxaria de George Jacobs Thomkins H. Matteson (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/13773/witch-trial-of-george-jacobs/ "Witch Trial of George Jacobs")A Inquisição contra a possessão demoníaca por bruxas foi transposta para as colónias americanas. Embora não tenha tido a mesma dimensão que na [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/), o caso mais famoso foi o dos Julgamentos das Bruxas de Salem, em Massachusetts, entre 1692 e 1693. Duzentas pessoas foram acusadas, tendo 30 sido consideradas culpadas e executadas por enforcamento. Salem continua a ser um enorme evento turístico na altura do Dia das Bruxas (*Halloween*), incluindo atualmente vendedores e astrólogos associados à Wicca e aos movimentos da Nova Era.

### A Inquisição Espanhola

No século VII, os muçulmanos de Marrocos e do Norte de África invadiram e conquistaram a Espanha. Conhecida como "o florescimento da cultura", judeus, cristãos e mouros (o nome dado aos muçulmanos na Península Ibérica ) reuniam-se frequentemente em debates públicos nas câmaras municipais, dissertando sobre a interpretação das escrituras. No século XV, o casal real Fernando II de Aragão e [Isabel I de Castela](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22313/isabel-i-de-castela/), revelando-se conservadores católicos tradicionais e fiéis ao Papa em Roma, levaram a cabo a '[reconquista](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17457/reconquista/)' de Espanha aos mouros, culminando na tomada da cidade de Granada (a Reconquista). Procuraram também eliminar os judeus de Espanha. O Inquisidor-Mor, Tomás de Torquemada, desenvolveu uma relação especial de autoridade com a coroa. Para além dos heréticos, estendeu a perseguição aos marranos (convertidos do judaísmo) e aos moriscos (convertidos do [islamismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-731/islamismo/)) que já eram cristãos há gerações. Torquemada acusou-os de continuarem a praticar secretamente a sua fé original. Judeus, muçulmanos e os seus descendentes convertidos foram expulsos de Espanha em outubro de 1492.

### O Auto de fé

Um auto de fé, do português ou espanhol, significava "ato de fé". Realizava-se nas praças públicas, com uma procissão de líderes eclesiásticos e civis. Nesta cerimónia, o herético tinha uma última oportunidade para se retratar. A cerimónia incluía:

- Uma procissão solene dos acusados, enfatizando o seu sofrimento através da tortura.
- Os sinais de contrição, o uso de vestes especiais ou o ato de se benzer com o sinal da cruz.
- Uma missa que enfatizava a obediência à Igreja.
- A leitura das acusações.

### As Características Raciais

Este período coincidiu com o momento em que os europeus começaram a estabelecer "colónias" através da exploração global. O contacto com os outros povos e raças propiciou o estudo "científico" de diferentes raças, como a medição de crânios, sobrancelhas, textura do cabelo e cor da pele de diferentes indivíduos. Isto conjugou-se com a teoria de Torquemada de que o comportamento estava "no sangue", tratando-se de impurezas físicas e raciais que eram transmitidas aos descendentes. Por outras palavras, a sua "conversão" seria sempre suspeita. À medida que os europeus iniciaram o período de colonialismo sobre outras culturas mundiais, depararam-se com populações indígenas e aplicaram-lhes estas teorias raciais. O papel das missões cristãs consistia em monitorizar constantemente o comportamento nativo e fazer cumprir os conceitos cristãos e as convenções sociais.

[ ![Joan of Arc in Orleans](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/11998.png?v=1775745445) Joana d'Arc em Orleães Jean-Jacques Sherrer (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/11998/joan-of-arc-in-orleans/ "Joan of Arc in Orleans")A heresia inquisitorial podia mudar ao longo do tempo, dependendo do governo em exercício. Por exemplo, Joana d'Arc foi condenada por heresia em 1431 por um tribunal inglês e queimada na fogueira. Contudo, em 1456, um tribunal inquisitorial da França reinvestigou o processo e anulou-o, declarando que este estava "viciado por engano e ordens processuais". Joana foi reabilitada, tornando-se mais tarde numa santa padroeira de França.

Nas colónias espanholas e portuguesas nas Américas, cada país adotou diferentes métodos inquisitoriais para determinar a heresia. Isto estava particularmente relacionado com as missões cristãs estabelecidas para converter e educar as tribos indígenas escravizadas. Aqueles que se rebelavam ou resistiam eram acusados e condenados como heréticos pelos tribunais da Inquisição, enquanto outros eram libertados da escravidão e convertidos ao Cristianismo.

### O Fim da Inquisição nos Séculos XIX e XX

Por decreto do governo de [Napoleão Bonaparte](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21844/napoleao-bonaparte/) em 1797, a Inquisição em Veneza foi abolida em 1806. Posteriores governantes napoleónicos aboliram-na na América Hispânica entre 1813 e 1825, em Portugal em 1821 e em Espanha em 1825. Em Itália, o Vaticano controlava os Estados Pontifícios no centro do país. Contudo, os Estados Pontifícios foram perdidos nas guerras franco-prussianas em 1870. Nominalmente restaurada em várias ocasiões, a restauração plena ocorreu durante a ditadura de [Benito Mussolini](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19718/benito-mussolini/) (1922-1943) e envolveu a intervenção do Papa Pio XI. A Cidade do Vaticano foi reconhecida como um Estado independente sob a soberania da Santa Sé. Em troca, o Vaticano reconheceu Vítor Emanuel III como rei de Itália, com Mussolini como primeiro-ministro. Itália concordou em conceder compensação financeira pela perda dos Estados Pontifícios. As funções da Inquisição foram mantidas e renomeadas como Congregação para a Doutrina da Fé em 1965.

A reflexão sobre a atividade inquisitorial da Igreja Católica começou a ser seriamente realizada no período de preparação para o Grande Jubileu do ano 2000, por iniciativa do Papa João Paulo II. Este apelou ao arrependimento por "exemplos de pensamento e ação que constituem de facto uma fonte de contra-testemunho e escândalo". Em 2000, durante as celebrações do Jubileu, João Paulo II, em nome de toda a Igreja Católica e de todos os cristãos, pediu desculpa por estes atos e por muitos outros, incluindo os pecados contra os judeus, a dignidade das mulheres e as minorias teológicas e raciais. O Vaticano moderno ainda examina e investiga acusações de "heresia". A punição inclui a "dessacralização" (perda do estado clerical) e a "excomunhão".

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- Fltecher, J. (ed). *On the Spanish Inquisition.* Imperium Press, 2022
- Homza, Lou Ann. *The Inquisition in the New World: The History and Legacy of the Inquisition after Spain and Portugal Colonized the Americas Spanish Inquisition, 1478-1614 .* Hackett Publishing Company, 2019
- Murphy, Cullen. *God's Jury: The Inquisition and the Making of the Modern World .* Mariner Books, 2013

## Sobre o Autor

Rebecca I. Denova, Ph.D. é Professora Emérita de Cristianismo Primitivo no Departamento de Estudos Religiosos da Universidade de Pittsburgh. Ela escreveu recentemente um livro didático, "The Origins of Christianity and the New Testament" \[As Origens do Cristianismo e do Novo Testamento\], publicado pela Wiley-Blackwell.

## Links Externos

- [The Project Gutenberg eBook of Records Of The Spanish Inquisition ...](https://www.gutenberg.org/files/41733/41733-h/41733-h.htm)
- [The Inquisition](https://assets.cambridge.org/97805217/48230/frontmatter/9780521748230_frontmatter.pdf)

## Cite Este Artigo

### APA
Denova, R. (2026, August 06). A História da Inquisição: A Batalha da Igreja Católica Contra o Desvio. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2960/a-historia-da-inquisicao/>
### Chicago
Denova, Rebecca. "A História da Inquisição: A Batalha da Igreja Católica Contra o Desvio." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 06, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2960/a-historia-da-inquisicao/>.
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Denova, Rebecca. "A História da Inquisição: A Batalha da Igreja Católica Contra o Desvio." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 06 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2960/a-historia-da-inquisicao/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 06 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

