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title: Postura de Friedrich Gentz face à Revolução Francesa: A Fusão do Iluminismo de Berlim e do Conservantismo Britânico
author: Ambika Natarajan
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2956/postura-de-friedrich-gentz-face-a-revolucao-france/
format: machine-readable-alternate
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updated: 2026-08-06
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# Postura de Friedrich Gentz face à Revolução Francesa: A Fusão do Iluminismo de Berlim e do Conservantismo Britânico

_Escrito por [Ambika Natarajan](https://www.worldhistory.org/user/ambika/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

A história da [Revolução Francesa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19568/revolucao-francesa/) fica incompleta sem o diplomata e escritor prussiano-austríaco Friedrich von Gentz (1764-1832), que foi o responsável pela tradução alemã mais conhecida da obra de Edmund Burke, *Reflexões sobre a Revolução em França* (tít. original: *Reflections on the Revolution in France*). No entanto, embora esta obra revele Gentz como um reacionário face à Revolução Francesa e um conservador da linhagem burkeana, tal caracterização constitui um retrato muito simplista desta figura complexa do passado.

[ ![Portrait of Friedrich von Gentz](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/22006.png?v=1785829272-1785829364) Retrato de Friedrich von Gentz Thomas Lawrence (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/22006/portrait-of-friedrich-von-gentz/ "Portrait of Friedrich von Gentz")A Revolução Francesa foi um acontecimento complexo que gerou personalidades igualmente complexas. Gentz foi um desses produtos complexos construídos pela Revolução e, por sua vez, procurou influenciar os desfechos da mesma através das suas atividades diplomáticas e literárias. Para Gentz, a Revolução apresentava uma contradição entre os ideais humanitários que alegava defender e a violência da sua manifestação real.

A exposição de Gentz ao clima iluminista e racionalista de Berlim moldou grande parte das suas opiniões iniciais sobre a Revolução Francesa. No século XVIII, Berlim, a capital da Prússia e cidade onde Gentz passou a infância, encontrava-se sob o governo do rei Hohenzollern Frederico II, comummente conhecido como Frederico o Grande, cujo reinado começou com considerável entusiasmo, mas, na década de 1780, ele tornara-se num monarca barroco antiquado na era do [Iluminismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-22613/iluminismo/). O Iluminismo, ou *Aufklärung*, como era designado nos Estados de expressão alemã, tornara-se progressivamente mais sofisticado devido a filósofos como Immanuel Kant, Christian Garve e Moses Mendelssohn, que escreviam sobre as relações entre a ética e o governo. Estes filósofos questionavam o governo e o privilégio de algumas centenas de aristocratas sobre milhares de pessoas, especialmente quando era evidente que a ética individual era suspensa em prol da manutenção da autoridade do governante. Consequentemente, por altura da sua morte em 1786, Frederico II já não gozava de grande entusiasmo por parte dos seus súbditos. O desenvolvimento intelectual de Gentz ocorreu nos salões do Berlim de Frederico e no meio de figuras proeminentes da *Aufklärung* nas universidades. Nos salões e clubes sociais da época, Gentz conviveu com pessoas e ideias vibrantes do racionalismo iluminista e da moralidade descontraída do período.

Foi Kant quem mais contribuiu para a sofisticação intelectual de Gentz. Quando Gentz ingressou na Universidade de Königsberg em 1783, fê-lo sob a tutela de Kant, que já então era um filósofo consagrado, tendo publicado a sua obra-prima *Crítica da Razão Pura* (tít. original: *Kritik der reinen Vernunft*) em 1781. A formação universitária de Gentz expôs-o aos pensadores do Iluminismo de Berlim, que deixaram uma marca indelével no seu intelecto e o abriram às possibilidades das ideias de Jean-Jacques Rousseau. Por volta de 1789, Gentz defendia que a razão e a liberdade eram os aspetos mais importantes da natureza humana. Acreditava que os sistemas políticos internos e as relações diplomáticas externas de um país deviam basear-se nestes valores, e que o governante num tal sistema político era legitimado pelo povo e, por conseguinte, perante ele responsável. Em 1791, descreveu a Revolução Francesa como o "primeiro triunfo prático da [filosofia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-340/filosofia/), o primeiro exemplo de uma forma de governo fundamentada em princípios e num sistema consistente e lógico" (Reiff, pág. 57).

[ ![Edmund Burke, 1774](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/18326.png?v=1760530086-1704730020) Edmund Burke, 1774 Joshua Reynolds (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/18326/edmund-burke-1774/ "Edmund Burke, 1774")No início de 1791, a Revolução Francesa ainda era, para Gentz, a aplicação prática de uma ideia brilhante e ele era um seu fervoroso apoiante. No entanto, na primavera de 1791, Gentz deparou-se pela primeira vez com a obra de Edmund Burke *Reflexões sobre a Revolução em França*, na sua tradução alemã. A tradução foi publicada em Viena por Joseph Stahel, editor de livros e filósofo amador, e surgiu nos primeiros meses de 1791, poucos meses após a publicação das *Reflexões* de Burke em Londres, em 1790. Embora desajeitada e mal redigida, a tradução transmitia bem os principais temas da obra. Gentz leu-a, num primeiro momento, com hostilidade face ao seu conteúdo e discordou claramente dos argumentos de Burke. Contudo, por volta de 1792, a Revolução Francesa tinha enveredado por um caminho de violência e terror que Gentz achou alarmante.

A admiração de Gentz pelo seu caro amigo Wilhelm von Humboldt, que desaprovava cada vez mais a revolução, também despertou as suas reservas quanto à causa dos Revolucionários. Por volta de 1791, Humboldt, que outrora fora um fervoroso defensor da Revolução Francesa, começara a tornar-se cético em relação a ela. Gentz foi influenciado pela mudança de opinião do amigo e, no final desse ano, encontrava-se também no campo antirrevolucionário. Nesse ano, Gentz começou a trabalhar na tradução das *Reflexões* de Burke. Esta obra, intitulada *Betrachtungen über die französische Revolution nach dem Englischen des Herrn Burke* (*Reflexões sobre a Revolução Francesa, segundo o Inglês, do Senhor Burke*), foi publicada em 1792. A clara transição de Gentz da sua posição pró-revolucionária para uma postura antirrevolucionária estava consolidada por esta altura. É evidente que, em dezembro de 1792, ele considerava a Revolução Francesa uma ameaça à paz e à segurança de todas as nações. A tradução de Burke consagrou, portanto, a sua posição na Alemanha como antirrevolucionário, mantendo-se assim pelo resto da sua vida.

No entanto, Gentz não era de modo algum um discípulo acrítico de Burke. Quando a sua postura política mudou em 1791, os argumentos de Burke granjearam certamente a admiração de Gentz. Contudo, essa admiração nunca foi de uma devoção cega e indiscriminada. Gentz era, antes de mais, um kantiano. O que motivou o ceticismo de Gentz em relação à Revolução Francesa foi o terrorismo que esta desencadeou. Opos-se aos excessos de pilhagem, massacres e vandalismo, mas não aos princípios que a Revolução afirmava abraçar, a saber, a razão e a liberdade. No entanto, à medida que a Revolução avançava, passou a representar para ele precisamente aquilo que supostamente deveria combater: a injustiça e a opressão. A admiração de Gentz por Burke decorria, assim, da sua concordância com este em determinados pontos fundamentais. Aceitou a posição de Burke sobre a importância da história e da tradição, bem como a inutilidade de se fixar em conceitos abstratos para construir um sistema político real.

[ ![An Allegory of the Revolution](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/16013.jpg?v=1779280944) Uma Alegoria da Revolução Nicolas Henri Jeaurat de Bertry (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/16013/an-allegory-of-the-revolution/ "An Allegory of the Revolution")A insensatez da Revolução Francesa residia, segundo Gentz, na sua falta de moderação, no seu delírio vingativo e na total ausência de bom senso político. Em 1800, Gentz publicou o opúsculo *Der Ursprung und die Grundsätze der Amerikanischen Revolution, verglichen mit dem Ursprunge und den Grundsätzen der Französischen* (*A Origem e os Princípios da [Revolução Americana](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19591/revolucao-americana/) Comparados com a Origem e os Princípios da Revolução Francesa*) onde defendeu esta posição. Argumentou que, ao contrário da Revolução Americana, a Revolução Francesa começou como uma guerra ofensiva e não como uma guerra defensiva. A vertente ofensiva da guerra não demonstrou moderação e, em consequência, tornou-se mais desenfreada, incontrolável e violenta quando deveria ter-se tornado mais branda.

Muitos historiadores têm argumentado que as *Reflexões* foram o texto fundamental que alimentou os pensadores da contra-ilustração de Berlim, surgidos neste período para resistir à Revolução Francesa. O historiador Johnathan Green assinala que o texto que impulsionou este contra-movimento não foram as *Reflexões*, mas sim a tradução alemã de Gentz, uma vez que era improvável que os berlinenses lessem o original. Esta distinção é crucial, argumenta Green, dado que a tradução de Gentz é muito diferente do original. Burke foi, desde o início, contra a Revolução Francesa por razões morais e políticas, enquanto Gentz ficou desiludido com ela e, por conseguinte, opôs-se-lhe. Contudo, Gentz não herdou o conservadorismo de Burke, nem herdou a repulsa de Burke pelo Iluminismo que impregna o texto original. Gentz era um neto do Iluminismo. Por conseguinte, em 1792, embora Gentz estivesse em total concordância com os intentos e objetivos gerais das *Reflexões*, não estava convencido pelas suas críticas depreciativas ao Iluminismo. Como afirma Green, Gentz acreditava que a força das *Reflexões* residia na importância atribuída à história, à tradição e à moderação, mas que este carecia de sofisticação e rigor filosóficos, os quais Gentz forneceu de boa vontade na sua tradução.

O que Gentz atinge na sua tradução, portanto, segundo Green, é a sobreposição do racionalismo kantiano às *Reflexões* de Burke. Em 1793, Gentz era uma das vozes mais vibrantes contra a Revolução Francesa. Submetia regularmente ensaios e artigos políticos a vários jornais e revistas para publicação. Também traduziu as *Reflexões* de Burke para a intelligentsia culta e iluminada da época. Não apresentou Burke como um tradicionalista e um indivíduo anti-Iluminismo, mas, ao mesmo tempo, preservou a autenticidade dos principais argumentos de Burke. Conseguiu este equilíbrio através de extensas notas de rodapé e esclarecimentos que justificaram a extensão da sua tradução. Por outras palavras, Gentz levou a erudição filosófica do Iluminismo para a sua tradução das *Reflexões* de Burke. Extraiu as melhores qualidades do tradicionalismo [britânico](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21913/britanico/) — a moderação, o respeito pelas instituições estabelecidas, a tradição e o pragmatismo — e forjou a partir delas uma ferramenta diplomática para informar a política do "equilíbrio de poder" na [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/) Central durante o resto do século XIX.

Trabalhando em conjunto com o ministro dos Negócios Estrangeiros austríaco, Klemens von Metternich, Gentz utilizou as suas competências como publicista para se alinhar com as forças do conservadorismo, de modo a negociar a diplomacia externa da Áustria. Gentz surge, assim, como uma figura singular nas histórias alemãs. Introduziu na esfera pública alemã uma linha de pensamento que combinava a filosofia do Iluminismo de Berlim com o conservadorismo britânico.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- Getnz, Friedrich. *Briefe an König Friedrich Wilhelm II von Preußen.* Berlin, 1792
- Allen Green, Johnathan. "“Fredrich Gentz’s Translation of Burke’s Reflections,”." *The Historical Journal*, 57, 2014, pp. 639-659.
- Gentz, Friedrich. *The Origin and Principles of the American Revolution Compared with The Origin and Principles of the French Revolution.* 1800
- Mann, Golo. *Secretary of Europe: The Life of Friedrich Gentz, Enemy of Napoleon.* Yale University Press, 1946
- Reiff, Paul F. *Friedrich Gentz, an Opponent of the French Revolution and Nepoleon.* University of Illinois, 1912
- Sweet, Paul R. *Friedrich von Gentz: Defender of the Old Order .* Greenwood Press, 1941

## Sobre o Autor

A Dr. Ambika Natarajan é Professora Convidada no Departamento de Energia Atómica da Universidade de Mumbai - Centro de Excelência em Ciências Básicas, em Mumbai, na Índia, sendo especialista na história da Europa Central dos Habsburgos.

## Links Externos

- [Friedrich Gentz on Revolutions](https://kirkcenter.org/history/friedrich-gentz-on-revolutions/)
- [Friedrich Gentz, an opponent of the French Revolution and ...](https://archive.org/details/friedrichgentzop00reifrich)

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### APA
Natarajan, A. (2026, August 06). Postura de Friedrich Gentz face à Revolução Francesa: A Fusão do Iluminismo de Berlim e do Conservantismo Britânico. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2956/postura-de-friedrich-gentz-face-a-revolucao-france/>
### Chicago
Natarajan, Ambika. "Postura de Friedrich Gentz face à Revolução Francesa: A Fusão do Iluminismo de Berlim e do Conservantismo Britânico." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 06, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2956/postura-de-friedrich-gentz-face-a-revolucao-france/>.
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Natarajan, Ambika. "Postura de Friedrich Gentz face à Revolução Francesa: A Fusão do Iluminismo de Berlim e do Conservantismo Britânico." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 06 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2956/postura-de-friedrich-gentz-face-a-revolucao-france/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 06 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

