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title: Higéia, a Deusa da Saúde
author: Mark Beumer 
translator: Raimundo Raffaelli-Filho
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-253/higeia-a-deusa-da-saude/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-02-18
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# Higéia, a Deusa da Saúde

_Escrito por [Mark Beumer ](https://www.worldhistory.org/user/Mark/)_
_Traduzido por [Raimundo Raffaelli-Filho](https://www.worldhistory.org/user/raffaelli-filho)_

A medicina moderna tem origem no mundo antigo. As civilizações mais antigas usavam magia e ervas para curar os doentes, mas também usavam a religião para libertá-los do perigo e proteger a sua saúde. Os cuidados médicos de hoje têm as suas raízes na [Grécia antiga](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-119/grecia-antiga/). Com a introdução de [Asclépio](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10395/asclepio/) e Higéia (Hígia) em [Atenas](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-292/atenas/), surgiu um culto de cura muito importante que existiu de cerca de 500 a.C. até 500 d.C. Higéia desempenha um papel muito incomum na religião grega devido à sua identidade pouco clara. Ela estava ligada a Asclépio no século V a.C., e juntos eles se tornaram o casal de cura mais famoso do mundo grego e romano. Um dos principais problemas é a identidade de Higéia. Ela recebeu vários nomes, que se cruzam o tempo todo na literatura moderna do final do século XIX . Termos como deusa, personificação, abstração e extensão de Asclépio são apenas alguns dos rótulos dados a ela. É questão interessante porque os cientistas e historiadores modernos usam nomes diferentes para Higéia, quando fontes antigas afirmam literalmente que ela é uma deusa. Um exemplo é o primeiro Juramento de [Hipócrates](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10391/hipocrates/), que afirma: “Juro por [Apolo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-946/apolo/), médico, Asclépio, Higéia e Panaceia, e tomo como testemunha todos os deuses, todas as deusas, para manter de acordo com minha capacidade e meu julgamento, o seguinte Juramento e acordo.” (Juramento de Hipócrates)

[ ![Hygieia, Vatican Museums](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/1299.jpg?v=1751821039) Higéia, Museus do Vaticano Mark Cartwright (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/1299/hygieia-vatican-museums/ "Hygieia, Vatican Museums")Portanto, a conclusão é que precisamos discutir as definições de personificação. O que é personificação? Significa a representação antropomórfica de coisas inanimadas? Quais estágios de personificação podem ser definidos? Segundo Stafford, a saúde é um dos estados fisiológicos personificados no mundo antigo, talvez mais próximo do Sono ("Hipnos" / "Somnus"), que também tinha fortes associações com cultos de cura e que podia até ser representado adormecido aos pés de Higéia. Além disso, qual a relação entre conceitos gregos como *prosōpopoiia* e *ēthopoiia*, e essa relação coincide com o latim p*ersonificare*?

Em segundo lugar, precisamos nos perguntar o que são divindades. Os deuses gregos são imortais e vivem no Monte Olimpo? Bebem néctar e comem ambrosia, enquanto representam homens, sendo invisíveis, mas ainda assim onipresentes? É importante fazer distinção entre divindades olímpicas e deuses gregos, porque a [mitologia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-427/mitologia/) é fundamentalmente algo diferente da religião.

Em terceiro lugar, há a discussão sobre mitologia. Embora sua mitologia seja limitada, ela está ligada a diversas divindades, como Apolo, [Atena](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-488/atena/) e Asclépio, e também à deusa egípcia "Isis Medica", cujas funções são semelhantes às de Asclépio e Higéia. Há também ligação com a deusa romana "Bona Dea" . Sua função permite identificá-la com Higéia. Além disso, a identificação pode ser feita com base no fato de que Bona Dea era cultuada como "Bonae Daea Hygiae", e uma conexão é estabelecida com [Minerva](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12417/minerva/), a contraparte romana de Atena. Minerva também era cultuada como divindade da cura com o nome de "Minerva Medica". Não há dúvidas sobre a natureza de Atena, Apolo, [Ísis](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-770/isis/) e Bona Dea. Essas figuras são cultuadas como divindades. O próprio Asclépio é figura complexa. Ele começou como mortal, depois semideus, em seguida divindade menor, até se tornar a mais importante divindade médica do mundo grego. Se analisarmos a mitologia comparada, isso torna Higéia mais importante?

Por fim, discutiremos o contexto histórico. Higéia já possuía seu próprio culto nos séculos VII e VI a.C., reconhecido pelo Oráculo de Delfos; posteriormente, esse culto se desenvolveu em dimensão supralocal na Grécia e em Roma, sendo incorporado às tradições religiosas de Asclépio, o [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) da Medicina. Quando uma peste assolou Atenas em 429 e 427 a.C., Higéia e Asclépio foram levados para lá. O ano de sua introdução foi 420 a.C.

[ ![Hygieia, Palazzo Altemps](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/4435.jpg?v=1599385503) Higéia, Palazzo Altemps Mark Cartwright (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/4435/hygieia-palazzo-altemps/ "Hygieia, Palazzo Altemps")Stafford postula que o ano de 420 a.C. marca a primeira aparição de Higéia como deusa autônoma, quando ela chega a Atenas juntamente com Asclépio. Antes desse evento, sua história estaria situada em dois locais distintos: Atenas e Peloponeso. Esses locais convergem novamente no chamado Monumento de Telêmaco, do início do século IV a.C., que oferece descrição bastante detalhada da origem do culto a Asclépio. No monumento, vemos Asclépio em pé, à sua direita uma figura feminina sentada sobre uma mesa (Higéia) e, abaixo dela, um cão. À esquerda, uma figura menor ergue as mãos como em oração. Provavelmente, trata-se de Telêmaco. Jayne afirma que, embora Higéia e Asclépio tenham vindo de Epidauro para Atenas, Higéia teve seu próprio desenvolvimento, independente de Asclépio, com quem reaparecem no século V d.C., em Atenas.

Segundo Parker, o século V a.C. foi um século de renovação religiosa. Este século é caracterizado pela introdução de novos cultos, com a chegada de "novos deuses" a Atenas. Três mudanças podem ser observadas no século V a.C.: primeiro, a importância dos cultos menores; segundo, a adição de novos epítetos às divindades antigas; e terceiro, a introdução de "divindades estrangeiras". Um exemplo da expansão de cultos menores é o culto de “Atena [Nice](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10301/nice/)” (Atena Vitoriosa ou Atena, deusa da Vitória), cujo altar adornava a [Acrópole](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-478/acropole/) desde meados do século VI a.C. Esse culto, no entanto, só se intensifica por volta de 450 a.C., em comemoração à vitória de Atena sobre a Pérsia, da Aliança Marítima Délio-Ática. Outros exemplos de renovação religiosa são a construção de templos dedicados a [Poseidon](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-950/poseidon/) (Posídon), no Cabo Sounion, e a Nêmesis, em Ramnunte, entre aproximadamente 450 e 430 a.C.

A segunda inovação caracteriza-se pela adição de novos epítetos aos deuses já existentes, pois os atenienses consideravam bastante comum que as divindades fossem unidas a abstrações. Exemplos incluem divindades como Ártemis Aristóbulo, Ártemis Eucléia e [Zeus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-538/zeus/) Eleutério. Por fim, foram introduzidas as "divindades estrangeiras", que os gregos chamavam de *xenikoi theoi.* Este termo não pode ser simplesmente traduzido como "divindades estrangeiras", com a compreensão moderna do termo "estrangeiro", pois para o ateniense, um homem de Epidauro também era *xenikos*. A divisão crucial não é entre divindades não gregas e gregas, mas entre as divindades tradicionalmente veneradas em cultos públicos e as demais. Segundo [Heródoto](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-234/herodoto/), os deuses são os mesmos em todos os lugares, apenas com nomes diferentes. Exemplos dessas divindades são Dionísio, Bendis, Pã e ​​Asclépio. Além do culto a Higéia, ainda existe o culto a Atena Higéia. [Plutarco](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-820/plutarco/) conta a seguinte história em seu *[Péricles](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-341/pericles/)* sobre estranho acidente ocorrido durante a construção de um palácio, que demonstrou que a deusa não se opunha à obra, mas a auxiliava e cooperava para levá-la à perfeição.

> Um dos artesãos, o mais rápido e habilidoso entre todos, escorregou e caiu de grande altura, ficando em estado deplorável, sem que os médicos tivessem esperança de sua recuperação. Quando Péricles estava aflito com isso, a deusa apareceu-lhe em sonho à noite e ordenou um tratamento, que ele aplicou, curando o homem em pouco tempo e com grande facilidade. Foi nessa ocasião que ele ergueu uma estátua de bronze de Atena Higéia na cidadela, perto do altar que, segundo dizem, já ali existia antes. Mas foi [Fídias](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13409/fidias/) quem esculpiu a imagem da deusa em ouro, e seu nome está inscrito no pedestal como o autor da obra. (Plutarco, *Péricles* 13.8.)

O santuário de Atena Higéia, no lado oeste da Acrópole, é muito importante na celebração das Panateneias, assim como o altar que os atenienses estabeleceram inicialmente. Garland argumenta que o santuário de cura mais importante pertencia a Atena Higéia, até o surgimento de Asclépio, em Atenas. Na mitologia, Higéia é filha, irmã ou esposa de Asclépio. Uma explicação adicional é que os deuses homéricos já não eram suficientes e incapazes de satisfazer a população, sendo necessário o surgimento de novas divindades salvadoras. Higéia é ocasionalmente associada a Anfiarau, especificamente em Oropos (na Ática Oriental), seu principal local de culto. Ela aparece diversas vezes sozinha ou junto com esse herói. Pausânias afirma que a quarta parte do grande altar do Anfiário (Anfiarao) era compartilhada com [Afrodite](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-494/afrodite/), Panaceia, Iaso, Higéia e Atena Higéia. Stafford alega que o compartilhamento do altar por Higéia influenciou o culto ateniense a Anfiarao após a transferência de Oropos para Atenas, depois da Batalha de Queroneia, e que Higéia teria um lugar no Anfiário ateniense, em 330 a.C., e posteriormente. De fato, as divindades podiam se substituir mutuamente. Outro exemplo é Apolo substituindo Gaia como divindade oracular.

Outro contexto é defendido quando se afirma que as pessoas poderiam se manter saudáveis ​​vivendo de forma sensata. Atena também é a deusa da sabedoria e, portanto, uma conexão lógica. Bell acrescenta que Higéia é principalmente a deusa da saúde física, mas que sua função também inclui a saúde mental e que ela também pode ser associada a Atena Higéia. Uma terceira ideia, segundo Warren, é que foi Atena quem ensinou Asclépio a trazer os mortos de volta à vida. Finalmente, Compton oferece uma quarta explicação, ou seja, que as concepções antigas de saúde e doença não distinguiam entre doenças mentais e físicas. Assim, Atena Higéia e Higéia podem ser facilmente associadas. Ideias anteriores contradizem a noção de que a relação entre Atena Higéia e Higéia seja mera coincidência, visto que o culto de Asclépio não foi introduzido no final do século V a.C., e Higéia não aparece anteriormente como figura separada na literatura ou na arte. Wroth indica que Atena usou o epíteto " Hygieia " para reforçar suas habilidades médicas. Essa seria uma suposição correta, considerando a crescente indiferença em relação às divindades. As deusas poderiam existir separadamente uma da outra. Um argumento mais convincente para uma distinção mais clara entre Atena Higéia e Higéia é apresentado por Stafford, quando cita Farnell. Farnell afirmou que, por volta de 330 a.C., sacrifícios ainda eram oferecidos a Atena Higéia. Isso contradiz a alegação de que a Higéia do monumento de Telêmaco seja um desenvolvimento da Atena Higéia ateniense e que, após 420 a.C., não haja mais menção a Atena Higéia, como argumentado anteriormente por Mitchell Boyask. O próprio Farnell não menciona o ano de 330 a.C. Parece que sua posição se baseia na celebração das Panateneias. Ele indica que todas as oferendas a Atena datam de período posterior a 420 a.C., mas não apresenta argumento claro. Stafford qualifica essa afirmação com o fato de que, em 330 a.C., oferendas a Atena Higéia foram feitas durante as Pequenas Panateneias e que essas práticas são registradas pelo imposto cobrado no campo recém-descoberto em Oropos, no século IV a.C.

Pessoalmente, concordo com o argumento de que Higéia tinha o seu próprio culto regional nos séculos VII e VI a.C., mas que Higéia realmente se tornou famosa quando foi levada para Atenas, por volta de 420 a.C. O Monumento a Telêmaco, do início do século IV a.C., confirma essa teoria. Além disso, Higéia tem seu próprio altar no Asclépio, ao lado do altar de Asclépio. Além disso, já existia culto a Atena Higéia em 420 a.C., que teria desaparecido após a chegada de Asclépio e Higéia, mas ainda apresenta um pequeno ressurgimento em 330 a.C., durante as Pequenas Panateneias, quando foram realizados sacrifícios a ela. O culto a Higéia e o culto a Atena Higéia podem ter se sobreposto, de modo que Atena Higéia como figura separada deixou de ser necessária. A introdução e o desenvolvimento do culto a Higéia podem ser interpretados como um período de inovação religiosa no século V a.C., em que antigos deuses receberam novos epítetos e pequenos cultos ganharam maior importância.

### **Conclusão**

Podemos afirmar, após este breve ensaio, que Higéia desempenhou um papel fundamental na proteção da saúde dos antigos gregos, inicialmente em Atenas e posteriormente em todo o mundo greco-romano. A sua ligação com Asclépio reforça a sua posição. O exemplo mais importante é o Juramento de Hipócrates, no qual ela é mencionada após Asclépio. Higéia ocupa lugar na tríade mais importante dos deuses da cura, Apolo e Asclépio. Como Atena Higéia, ela tinha a responsabilidade de proteger os atenienses. Atena Higéia tinha uma contraparte em Minerva Médica e, devido à mitologia comparativa, com Ísis Médica e Bona Dea Higiae, o seu papel como deusa é ainda mais valorizado. Além disso, ela era vista como a principal parceira de Asclépio nos seus cultos por toda a Grécia e [Itália](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-207/italia/). Higéia foi venerada desde o século VII a.C. até o século V d.C. e ainda hoje herdamos o seu nome na palavra higiene. A saúde na Antiguidade era tão importante quanto é hoje.

#### Editorial Review

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## Sobre o Autor

Historiador da Antiguidade especializado em religião greco-romana, medicina antiga, sono nos templos, dinâmica ritual, cristianismo primitivo no mundo romano, culto imperial romano e democracia grega.

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Beumer, M. (2026, February 18). Higéia, a Deusa da Saúde. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-253/higeia-a-deusa-da-saude/>
### Chicago
Beumer, Mark. "Higéia, a Deusa da Saúde." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, February 18, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-253/higeia-a-deusa-da-saude/>.
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Beumer, Mark. "Higéia, a Deusa da Saúde." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, 18 Feb 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-253/higeia-a-deusa-da-saude/>.

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