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title: Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-09-27
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# Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

*O Mito de Etana* é a história do rei sumério antediluviano de [Quis](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-266/quis/) (Kish), que ascende ao céu montado numa águia para pedir aos deuses a Planta do Nascimento, para que possa ter um filho. Etana é referido como o primeiro rei de Quis na [Lista dos Reis Sumérios](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25851/lista-dos-reis-sumerios/), que afirma que reinou no início do terceiro milénio a.C. O texto foi identificado pela primeira vez em 1894, a partir de fragmentos encontrados nas ruínas da [Biblioteca de Assurbanípal](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21476/biblioteca-de-assurbanipal/).

De acordo com a Lista dos Reis Sumérios, Etana era conhecido como «aquele que estabilizou as terras» depois de os deuses terem criado ordem a partir do caos e estabelecido os conceitos de realeza e governo entre a humanidade. Etana era, portanto, uma figura bem conhecida e altamente respeitada e terá sido escolhido como personagem central precisamente por esta razão.

Uma mensagem central do mito é que se deve confiar nos deuses e Etana, um grande rei, teria sido escolhido pelo autor desconhecido como o melhor exemplo para transmitir essa mensagem.

### A Mensagem Central

O facto de o mito ser muito antigo é atestado por selos cilíndricos que retratam Etana nas costas de uma águia, datados do reinado de [Sargão de Acádia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-625/sargao-de-acadia/) (reinou 2334-2279 a.C.). O Museu [Britânico](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21913/britanico/) possui, entre os seus acervos, um fragmento do *Mito de Etana* proveniente da biblioteca do rei [Assurbanípal](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-506/assurbanipal/) em [Nínive](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-294/ninive/), datado do século VII, mas, como salienta G.S. Kirk:

> A versão neo-[assíria](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-149/assiria/) da biblioteca de Assurbanipal é, por acaso, o texto que melhor se conservou, mas nos pontos em que se sobrepõe a uma versão da Antiga [Babilónia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-53/babilonia/), de mil anos anterior, corresponde-lhe de forma muito próxima, por vezes palavra por palavra. Um breve fragmento do assírio médio mantém a mesma precisão.
> (pág. 25)

A história contém muitos motivos presentes nos mitos de todas as culturas: uma grande cidade criada pelos deuses, a busca por um governante digno, animais falantes, juramentos quebrados, intervenção divina e uma missão que leva o herói à terra dos deuses. O mito pode ter tido como objetivo transmitir uma mensagem política relativa à realeza, bem como à relação entre os deuses e o rei, conforme observado pelo estudioso A. Leo Oppenheim:

> Os deuses dotam o rei de força, inteligência superior, boa saúde e sucesso; assim, o rei atribui rendimentos e oferendas aos santuários; pastagens às cidades e poder executivo aos administradores do seu reino; e, da mesma forma, o cidadão comum dispõe dos seus bens a favor dos seus filhos e herdeiros.
> (pág. 202)

O dever do rei não se limitava, contudo, ao seu povo, mas estendia-se aos deuses que lhe tinham dado a vida e o tinham colocado na sua posição. De acordo com a crença [suméria](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-114/sumeria/) (e a crença mesopotâmica em geral), os deuses tinham criado a humanidade como colaboradores para manter a ordem e controlar as forças do caos. O rei era responsável, tanto perante os deuses como perante os seus súbditos, por garantir que a vontade dos deuses fosse compreendida e posta em prática.

Ele não poderia desempenhar esta tarefa se não tivesse ele próprio fé nos deuses e, por isso, o mito, para além dos seus muitos outros temas, teria enfatizado a fé de Etana nos deuses, mesmo quando parecia que as suas orações não tinham sido atendidas.

### O Resumo

A história começa com a fundação e a construção da grande cidade de Quis, onde os deuses rodeiam a cidade com muralhas altas e, em seguida, iniciam uma busca cuidadosa por um rei para governar a cidade. Etana é finalmente escolhido por [Ishtar](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-271/ishtar/)/[Inanna](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10035/inanna/) para governar e constrói um santuário dedicado ao [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) Adad. Perto deste santuário cresce um choupo, nos cujos ramos uma águia construiu um ninho e nas raízes uma serpente fez o seu lar.

[ ![Legend of the Hero Etana Inscription](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/3127.jpg?v=1779124760) Lenda da Inscrição do Herói Etana Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/3127/legend-of-the-hero-etana-inscription/ "Legend of the Hero Etana Inscription")A águia e a serpente fazem um juramento de lealdade, tendo Utu-Shamash, deus do sol e da justiça divina, como testemunha, de que serão amigas e cuidarão dos filhos uma da outra. A águia cuidará dos filhos da serpente quando esta sair em busca de alimento, e a serpente fará o mesmo pela águia. Este acordo funciona bem até que, um dia, quando os filhos da águia já estão crescidos, a águia decide comer os filhos da serpente, sem dar ouvidos aos gritos de aviso dos seus próprios filhos, que lhe imploram para não o fazer.

Quando a serpente regressa a casa com a comida do dia, descobre que os seus filhos desapareceram, que o seu ninho foi destruído e que as marcas das garras da águia estão na terra à volta do que outrora foi o seu lar. Ela clama a Shamash por ajuda para punir a águia e é instruída a esconder-se dentro da carcaça de um boi selvagem e, quando a águia vier comer a carne, a agarrá-la, cortar-lhe as asas e as penas da cauda, depená-la e atirá-la para um fosso.

A serpente faz o que lhe foi ordenado e a águia, indefesa na fossa, clama agora ao próprio Shamash, pedindo ajuda. Shamash diz à águia que o que esta fez aos filhos da serpente foi um ato horrível, mas que o deus enviará Etana para a ajudar.

Entretanto, Etana também está a implorar ajuda a Shamash, porque a sua mulher é estéril e ele desespera por não ter um filho e herdeiro do seu trono. Shamash encaminha Etana para a fossa onde a águia está a sofrer e Etana cuida da ave até esta recuperar a saúde. A águia e Etana tornam-se amigos íntimos e a águia chega mesmo a interpretar-lhe os sonhos.

Num desses sonhos, Etana ascende ao céu montado na águia e recebe a Planta do Nascimento das mãos de Ishtar. A águia acredita que este sonho é uma mensagem dos deuses para que ambos empreendam esta aventura e diz a Etana para se agarrar às suas asas, encostando o peito ao peito da ave.

Agarrado à barriga da grande águia, Etana é levado até aos céus. Está tão alto que, quando olha para baixo, não consegue ver a terra e fica com medo.

Ele grita para a águia: «Olhei, mas não consegui ver a terra! Nem os meus olhos foram suficientes para encontrar o vasto mar! Meu amigo, não vou subir ao céu. Põe-me no chão, deixa-me ir para a minha cidade» e, em seguida, solta-se da águia e mergulha em direção à terra. A águia desce em picada atrás de Etana e resgata-o.

Os dois regressam à cidade de Quis, onde Etana e a sua mulher têm ambos sonhos, e a águia interpreta o sonho de Etana como uma ordem para fazer uma segunda tentativa de chegar aos céus. A segunda tentativa é bem-sucedida, na medida em que alcançam as alturas do céu e chegam à morada dos deuses para se curvarem juntos, mas o resto da história perdeu-se.

Como Etana teve um filho, Balikh, que o sucedeu como rei (e diz-se que reinou durante 1500 anos), entende-se que o sonho que Etana teve, em que Ishtar lhe concedia a Planta do Nascimento, se tornou realidade.

### O Texto

A tradução infra é da tradução inglesa é da autoria de Benjamin R. Foster, extraída da sua obra *From Distant Days: Myths, Tales and Poetry from Ancient Mesopotamia* (*De Dias Distantes: Mitos, Contos e Poesia da Antiga [Mesopotâmia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-34/mesopotamia/)*), utilizada sob Licença Creative Commons do sítio web Gateways to Babylon e complementada pela tradução de Stephanie Dalley, parafraseada pelo autor deste artigo por palavras próprias, próximo da conclusão.

> **TABLETA I** 
> Eles planearam uma cidade \[ \] 
> Os deuses lançaram as suas fundações 
> Eles planearam a cidade \[Quis?\] 
> Os Igigi-gos ergueram a sua alvenaria \[ \] 
> «Que \[ \] seja o seu (do povo) pastor, 
> «Que Etana seja o seu arquiteto...» 
> Os Grandes deuses Anunnaki, determinadores dos destinos, 
> Sentaram-se a deliberar sobre a terra, 
> Os criadores das quatro regiões do mundo, os fundadores de todas as formas físicas, 
> Por ordem de todos eles, os deuses Igigi 
> determinaram um festival para o povo 
> Não estabeleceram nenhum rei sobre os povos em abundância, 
> Naquela altura, ainda não se tinha confecionado nenhum cocar, nem coroa, 
> nem sequer se tinha feito um cetro com lápis-lazúli. 
> Não se tinha construído qualquer tipo de estrado de trono, 
> Fecharam as portas ao mundo habitado... 
> Os deuses Igigi cercaram a cidade com muralhas 
> Ishtar desceu do céu para procurar um pastor, 
> E procurou um rei por todo o lado. 
> Inninna desceu do céu para procurar um pastor, 
> e procurou um rei por todo o lado. 
> [Enlil](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13054/enlil/) examinou o estrado de Etana, 
> O homem a quem Ishtar, com determinação... Ela tem procurado incessantemente... 
> «Que a realeza se estabeleça na terra, 
> Que o coração de Quis se regozije» 
> A realeza, a coroa radiante, o trono \[ \] 
> Ele (?) trouxe e \[ \] 
> Os deuses das terras... 
> (grande lacuna) 
> **TABLETA II** 
> \[ \] a que ele chamou \[ \].... 
> a Grande Cheia 
> \[ \] ele tinha construído uma torre (?) \[ \] 
> \[ \] santuário dedicado a Adad, o deus \[ \], 
> À sombra desse santuário crescia um choupo \[ \], 
> Na sua copa, uma águia pousou, 
> Uma serpente instalou-se na sua raiz. 
> Diariamente, observavam as bestas do vento. 
> A águia preparou-se para falar, dizendo à serpente: 
> «Vem, vamos fazer amizade, 
> sejamos companheiros, tu e eu». 
> A serpente preparou-se para falar, dizendo à águia: 
> «Se, de facto... se trata de amizade e \[ \] 
> Então vamos fazer um juramento poderoso em nome de Shamash. 
> Uma abominação para os deuses \[ \] 
> «Vem, então, partamos e subamos à montanha alta para caçar. 
> «Façamos um juramento pelo submundo». 
> Perante Shamash, o guerreiro, prestaram o juramento: 
> «Quem quer que transgreda os limites de Shamash 
> «Que Shamash o entregue, como infrator, nas mãos do carrasco, 
> «Quem quer que transgrida os limites de Shamash, 
> «Que as montanhas afastem os seus louvores dele, 
> «Que a arma que se aproxima se dirija diretamente a ele, 
> «Que a armadilha e a maldição de Shamash o derrubem e o persigam!» 
> Depois de terem prestado juramento pelo submundo, 
> Partiram, subindo as altas montanhas, 
> a cada dia, por turnos, vigiando os animais selvagens, 
> A águia caçava bois selvagens e gazelas, 
> a serpente comia, afastava-se e, depois, os seus filhotes comiam; 
> A águia caçava carneiros selvagens e auroques, 
> A serpente comia, afastava-se, e depois os seus filhos comiam. 
> A serpente caçava os animais do campo, as criaturas da terra, 
> A águia comia, afastava-se e, depois, os seus filhotes comiam a comida, 
> Os filhotes da águia cresceram e prosperaram. 
> Depois de os filhos da águia terem crescido e prosperado, 
> o coração da águia, de facto, tramou o mal, 
> O seu coração tramou, de facto, o mal! 
> Decidiu devorar os filhotes do seu amigo! 
> A águia preparou-se para falar, dizendo aos seus filhotes: 
> «Vou comer os filhotes da serpente, a serpente \[ \], 
> «Subirei e habitarei no céu, 
> «Se eu descer da copa da árvore, ... o rei.» 
> O filhote mais novo, extremamente sábio, disse estas palavras à águia, seu pai: 
> «Não comas, meu pai! 
> A rede de Shamash irá caçá-lo, 
> A malha e o juramento de Shamash derrubar-te-ão e perseguir-te-ão. 
> Quem transgredir os limites de Shamash, 
> Shamash entregá-lo-á como criminoso nas mãos do carrasco!» 
> Ele não lhes deu ouvidos, nem escutou as palavras dos seus filhos, 
> Desceu e devorou os filhotes das serpentes, 
> Ao anoitecer do mesmo dia, 
> a serpente chegou, carregando o seu fardo, 
> À entrada do seu ninho, atirou a carne para baixo, 
> Olhou à sua volta, o seu ninho tinha desaparecido 
> Olhou para baixo, os seus filhotes não estavam \[ \]! 
> A águia tinha escavado o chão com a sua garra, 
> A nuvem de poeira que subia do chão escureceu o céu. 
> A serpente... a chorar perante Shamash, 
> Perante Shamash, o guerreiro, as suas lágrimas escorriam, 
> «Confiei em ti, ó guerreiro Shamash, 
> Fui eu quem deu provisões à águia, 
> Agora o meu ninho \[ \]! 
> O meu ninho desapareceu, enquanto o ninho dele está a salvo, 
> Os meus filhotes foram destruídos, enquanto os dele estão a salvo, 
> Ele desceu e devorou os meus filhos! 
> Tu sabes, ó Shamash, o mal que ele me fez, 
> Na verdade, ó Shamash, a tua rede é a vasta terra, 
> A tua armadilha é o céu distante, 
> A águia não deve escapar da tua rede, 
> aquele Anzu maligno que nutria maldade contra os seus amigos!» 
> Depois de ouvir o lamento da serpente, 
> Shamash preparou-se para falar e disse-lhe: 
> «Segue o teu caminho e atravessa a montanha, 
> capturei para ti um boi selvagem. 
> Abre-lhe as entranhas, rasga-lhe a barriga, 
> prepara uma emboscada no seu ventre, 
> todo o tipo de aves do céu descerá para comer a carne. 
> A águia descerá com elas para comer a carne, 
> pois não saberá do mal que lhe está reservado, 
> Ela procurará a carne mais suculenta \[ \], andará por fora, 
> E abrirá caminho até à membrana que envolve os intestinos, 
> «Quando ela entrar, agarrai-a pelas asas, 
> Cortem-lhe as asas, as penas das asas e as da cauda, 
> Depenai-o e atirai-o para um abismo sem fundo, 
> Deixai-o morrer ali de fome e sede». 
> Tal como Shamash, o guerreiro, ordenou, 
> a serpente partiu e atravessou a montanha. 
> Então, a serpente alcançou o boi selvagem, 
> abriu-lhe as entranhas, rasgou-lhe o ventre. 
> Arranjou uma emboscada no seu ventre. 
> Todo o tipo de aves do céu desceu para comer a carne. 
> Será que a águia sabia do mal que lhe estava reservado? 
> Ela não quis comer a carne com as outras aves! 
> A águia preparou-se para falar, dizendo aos seus filhotes: 
> «Vinde, desçamos e comamos também nós a carne do boi selvagem.» 
> O pequeno filhote, extremamente sábio, disse estas palavras à águia, seu pai: 
> «Não desças, pai, sem dúvida que a serpente está à espreita dentro do boi selvagem». 
> A águia disse para si mesma: 
> «Será que as aves têm medo? Como é que conseguem comer a carne em paz?» 
> Ele não lhes deu ouvidos, não deu ouvidos às palavras dos seus filhos, 
> Desceu e pousou no boi selvagem. 
> A águia olhou para a carne, examinando-a à frente e atrás. 
> Pela segunda vez, olhou para a carne, examinando-a por diante e por trás, 
> Contornou-a por fora, abriu caminho até à membrana dos intestinos, 
> Quando entrou, a serpente agarrou-o pelas asas, 
> «Intrometeste-te... intrometeste-te...! 
> A águia preparou-se para falar, dizendo à serpente: 
> «Tem piedade de mim! Vou dar-te um presente tão valioso quanto o resgate de um rei!» 
> A serpente preparou-se para falar, dizendo à águia: 
> «Se te libertar, como responderei a Shamash lá em cima? 
> A tua punição recairia sobre mim, 
> sobre mim, que fui quem te infligiu a punição!» 
> Cortou-lhe as asas, as penas das asas e as da cauda, 
> arrancou-lhe as penas e atirou-o para um poço, 
> Para que morresse ali de fome e de sede. 
> Quanto a ele, a águia,.....\[ \] 
> Continuou a implorar a Shamash dia após dia: 
> «Será que vou morrer numa cova? 
> Quem saberia como é que a tua punição me foi imposta? 
> Salva a minha vida, a águia! 
> Deixa-me fazer com que o teu nome seja ouvido para sempre». 
> Shamash preparou-se para falar e disse à águia: 
> «És perverso e cometeste um ato repugnante. 
> Cometeste uma abominação aos deuses, um ato proibido. 
> Não estavas sob juramento? Não me aproximarei de ti. 
> Calma, calma! Vou enviar-te um homem que te ajudará.» 
> Etana continuou a implorar a Shamash dia após dia: 
> «Ó Shamash, alimentaste-te das minhas ovelhas mais gordas! 
> Ó Submundo, bebeste do sangue dos meus cordeiros sacrificados! 
> Honrei os deuses e reverenciei os espíritos, 
> Os intérpretes de sonhos esgotaram o meu incenso, 
> Os deuses esgotaram os meus cordeiros no sacrifício. 
> Ó Senhor, dá a ordem! 
> Concede-me a planta do nascimento! 
> Revela-me a planta da descendência! 
> Alivia-me do meu fardo, concede-me um herdeiro!» 
> Shamash preparou-se para falar e disse a Etana: 
> «Encontra uma cova, olha para dentro, 
> Há uma águia lançada lá dentro. 
> Ela revelar-te-á a planta do nascimento». 
> Etana seguiu o seu caminho. 
> Encontrou o poço, espreitou para dentro 
> A águia estava lá dentro 
> Ali estava ela, à espera que ele a tirasse de lá! 
> **TABLETA III** 
> A águia olhou para ele... 
> Ele disse \[ \] a Etana: 
> «Tu és Etana, rei dos animais selvagens, 
> Tu és Etana, \[ \] entre (?) as aves. 
> Tira-me desta cova 
> Dá-me \[ \] a tua mão, 
> «..... \[ \], 
> cantarei os teus louvores para sempre». 
> Etana disse estas palavras à águia: 
> «Se eu te salvar a vida, \[ \] 
> se te tirar da cova, 
> a partir desse momento teremos de ser .........." 
> «\[ \] para mim \[ \] 
> «Desde o nascer do sol até \[ \] 
> «..... \[ \] 
> «Conceder-te-ei a planta da vida». 
> Quando Etana ouviu isto, 
> encheu a parte da frente do poço com \[ \] 
> Em seguida, atirou para dentro... \[ \] 
> Continuou a atirar \[ \] à sua frente, 
> A águia... do poço 
> Quanto a ele, bateu as asas, 
> Uma primeira vez e uma segunda vez... a águia na cova, 
> Quanto a ele, bateu as asas... 
> Uma terceira vez e uma quarta vez... \[a águia... no? O fosso 
> Quanto a ele, bateu as asas 
> Uma quinta e uma sexta vez... 
> (versos fragmentados, seguidos de uma lacuna) 
> (de outra versão) 
> Ele pegou-lhe na mão no seu sétimo mês na cova, 
> No oitavo mês, levou-o para fora do poço, 
> A águia devorou a comida como um leão voraz, 
> Ele ganhou forças. 
> A águia preparou-se para falar e disse a Etana: 
> «Meu amigo! Sejamos amigos, tu e eu! 
> Pede-me o que desejares e eu dar-to-ei». 
> Etana preparou-se para falar e disse à águia: 
> «Os meus olhos... revelem o que está oculto. 
> (lacuna) 
> Etana e a águia tornam-se amigos. Etana tem sonhos, que conta à águia. 
> \[ \] acima 
> \[ \] aos meus pés 
> A águia fez com que Etana compreendesse o sonho, 
> \[ \] sentada diante dele, 
> «\[ \] o teu sonho é auspicioso, 
> «\[ \] o fardo é trazido, 
> «Eles darão \[ \] 
> «Fizeste \[ \] ao povo 
> " Vais agarrar... na tua mão, 
> " O laço sagrado \[ \] acima 
> " \[ \] aos teus pés." 
> Etana disse-lhe, à águia. 
> «Meu amigo, tive um segundo sonho, 
> " \[ \] juncos \[ \] na casa, 
> Em toda a \[ \], toda a terra, 
> «Amontoaram montes deles em pilhas, 
> «\[ \] inimigos, eram serpentes perversas, 
> «\[ \] vinham na minha direção, 
> «\[ \] estavam de joelhos perante mim». 
> A águia fez com que Etana compreendesse o sonho 
> \[ \] sentada levou-o 
> "\[ \] o teu sonho é auspicioso" 
> (lacuna) 
> **TABLETE IV** 
> A águia preparou-se para falar, dizendo a Etana: 
> «Meu amigo... aquele deus...» 
> «Atravessámos os portões de [Anu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15601/anu/), Enlil e Ea, 
> Atravessámos os portões de Sin, Shamash, Adad e Ishtar, 
> Prestámos homenagem juntos, tu e eu, 
> vi uma casa com janelas, não tinha selo 
> Eu... e entrei. 
> Uma jovem notável estava sentada lá dentro, 
> Ela era imponente... de traços belos. 
> Havia um trono, o chão estava pisado, 
> debaixo do trono \[ \] havia leões agachados, 
> Assim que entrei, os leões lançaram-se sobre mim. 
> Acordei de sobressalto e estremeci \[ \]». 
> A águia disse-lhe, a Etana: 
> «Meu amigo, o \[ \] é óbvio, 
> Vem, deixa-me levar-te até ao céu, 
> encosta o teu peito ao meu, 
> coloca as tuas mãos contra as penas das minhas asas, 
> coloca os teus braços contra os meus flancos». 
> Ele encostou o peito ao peito dele, 
> colocou as mãos contra as penas das minhas asas, 
> colocou os braços contra os meus flancos, 
> Grande era, de facto, o fardo que sobre ele recaía. 
> Quando o levou para o alto, a uma légua de distância, 
> A águia disse-lhe, a Etana: 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra. 
> Observa o mar, procura os seus limites 
> A terra é composta por colinas... 
> O mar tornou-se um rio». 
> Depois de o ter levado para o alto mais uma segunda légua, 
> a águia disse-lhe, disse a Etana: 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra! 
> A terra é uma colina». 
> Quando o levou mais uma légua para o alto, 
> a águia disse-lhe, disse a Etana: 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra!» 
> O mar tornou-se uma vala de jardineiro». 
> Depois de terem subido ao céu de Anu, 
> atravessaram os portões de Anu, Enlil e Ea, 
> a águia e Etana fizeram uma reverência juntos, 
> No portão de Sin 
> A águia e Etana fizeram uma reverência juntos 
> (lacuna, versos fragmentados) 
> (outra versão deste episódio) 
> «Pelo poder de Ishtar \[ \] 
> «Coloca os teus braços contra os meus flancos, 
> coloca as tuas mãos contra as penas das minhas asas». 
> Ele colocou os braços contra os flancos, 
> colocou as mãos contra as penas das minhas asas. 
> Quando já o tinha elevado uma légua, 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra!» 
> «A circunferência da terra ficou reduzida a um quinto do seu tamanho. 
> «O vasto mar tornou-se como um pequeno prado.» 
> Quando o levou para o alto mais uma segunda légua, 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra!» 
> «A terra tornou-se um canteiro de jardim \[ \], 
> «E o vasto mar tornou-se um bebedouro». 
> Quando o levou para o alto mais uma terceira légua, 
> «Olha, meu amigo, como está agora a terra!» 
> «Olhei, mas não consegui ver a terra! 
> «Nem os meus olhos bastaram para encontrar o vasto mar! 
> «Meu amigo, não vou subir ao céu 
> «Põe-me no chão, deixa-me ir para a minha cidade». 
> Deixou-o cair uma légua (?) 
> Depois, a águia mergulhou e agarrou-o nas suas asas. 
> A uma segunda légua, deixou-o cair (?) 
> Então a águia mergulhou e apanhou-o nas suas asas, 
> Uma terceira légua depois, deixou-o cair (?) 
> Então a águia mergulhou e apanhou-o nas suas asas, 
> A três côvados do solo \[deixou-o cair\], 
> A águia mergulhou e agarrou-o nas suas asas, 
> A águia \[ \] e... enquanto ele, Etana \[ \]

### Conclusão

Nesta altura, de acordo com a tradução de Stephanie Dalley, existe uma «lacuna de duração incerta» e, em seguida, a sua tradução prossegue a história do regresso de Etana e da águia à cidade de Quis. Em Quis, Etana tem uma série de sonhos que «o encorajam a fazer uma segunda tentativa para chegar ao céu».

O resto da obra narra os sonhos de Etana, a interpretação da águia, o sonho da esposa de Etana (no qual ela parece vislumbrar um longo reinado para Etana) e o segundo voo de Etana e da águia até ao céu, onde «atravessaram o portão de Sin, Shamash, Adad e Ishtar» e se curvaram juntos. Como a última linha do texto diz «Ele empurrou-o para abrir \[e entrou\]», Dalley conclui que esta segunda tentativa de chegar aos céus é bem-sucedida e que Etana recebe a Planta da Vida de Ishtar.

Entre as suas muitas mensagens para um público antigo, o mito de Etana teria assegurado ao povo que os deuses estavam cientes das suas necessidades e ouviam e respondiam às suas orações — mesmo que isso pudesse não lhes parecer assim à primeira vista. O mito enquadra-se perfeitamente no género conhecido como [literatura](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-562/literatura/) naru mesopotâmica — histórias que retratam uma figura bem conhecida (geralmente um rei) num conto ficcional que desenvolve e promove algum valor cultural importante.

Etana, apesar de ser rei, é retratado como tendo problemas como qualquer outra pessoa e, tal como aqueles que teriam sido o público original da história, os deuses asseguram-lhe que tudo correrá bem desde que confie neles. Embora a sua primeira tentativa de escalar as alturas do céu falhe, ele acredita na veracidade do seu sonho e na bondade dos deuses, tenta novamente e é recompensado pela sua fé.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Bertman, S. *Handbook to Life in Ancient Mesopotamia.* Oxford University Press, 2005.](https://www.worldhistory.org/books/0195183649/)
- [Black, J. , et. al. *The Literature of Ancient Sumer.* Oxford University Press, 2006.](https://www.worldhistory.org/books/0199296332/)
- [Dalley, S. *Myths from Mesopotamia.* Oxford University Press, 2009.](https://www.worldhistory.org/books/0199538360/)
- [Foster, B. R. *From Distant Days: Myths, Tales and Poetry from Ancient Mesopotamia.* Eisenbrauns, 2000.](https://www.worldhistory.org/books/1883053099/)
- [Gateways to Babylon/Etana and the Goddess by Professor Simo Parpola](https://www.gatewaystobabylon.com/myths/texts/retellings/etaina.htm "Gateways to Babylon/Etana and the Goddess by Professor Simo Parpola"), accessed 16 Aug 2026.
- [Jacobsen, T. *The Treasures of Darkness.* Yale University Press, 1978.](https://www.worldhistory.org/books/0300022913/)
- [Kirk, G. S. *Myth: Its Meaning and Function in Ancient and Other Cultures.* University of California Press, 1970.](https://www.worldhistory.org/books/0520016513/)
- [Kramer, S. N. *History Begins at Sumer.* University of Pennsylvania Press, 1988.](https://www.worldhistory.org/books/0812212762/)
- [Leick, G. *The A to Z of Mesopotamia.* Scarecrow Press, 2010.](https://www.worldhistory.org/books/0810875772/)
- [Oppenheim, A. L. *Ancient Mesopotamia: Portrait of a Dead Civilization.* The University of Chicago Press, 2013.](https://www.worldhistory.org/books/B01E71R4SI/)

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
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## Perguntas & Respostas

### O que é o «Mito de Etana»?
O» Mito de Etana» é um antigo poema religioso da Mesopotâmia que narra a história de Etana, rei de Quis, e a sua viagem ao céu montado numa águia para ir buscar a Planta do Nascimento, para que a sua esposa lhe pudesse dar um filho e herdeiro. 

### Quando é que o «Mito de Etana» foi composto pela primeira vez?
Desconhece-se quando o «Mito de Etana» foi composto pela primeira vez, mas as imagens de Etana e da águia datam do reinado de Sargão de Acádia (2334-2279) e os textos datam do Período da Antiga Babilónia (cerca de 1894-1595). 

### Quando é que o «Mito de Etana» foi descoberto pela primeira vez? 
O «Mito de Etana» foi identificado pela primeira vez em 1894, a partir de fragmentos da Biblioteca de Assurbanípal, do século VII a.C., encontrados nas ruínas da cidade de Nínive. 

### Qual é a mensagem central do «Mito de Etana»?
A mensagem central do «Mito de Etana» é a importância da fé nos deuses, mesmo quando parece que estes não estão a responder às nossas orações. 


## Links Externos

- [Gateways to Babylon/Etana and the Goddess](https://www.gatewaystobabylon.com/myths/texts/retellings/etaina.htm)
- [Electronic Babylonian Library/Etana](https://www.ebl.lmu.de/corpus/L/1/9)
- [EBSCO Research/Etana, King of Kish ](https://www.ebsco.com/research-starters/literature-and-writing/etana-king-kish)
- [CSMC: University of Hamburg/Etana and the Creation of Kingship](https://www.csmc.uni-hamburg.de/publications/mesopotamia/2025-08-06.html)

## Cite Este Artigo

### APA
Mark, J. J. (2026, September 27). Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/>
### Chicago
Mark, Joshua J.. "Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, September 27, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/>.
### MLA
Mark, Joshua J.. "Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 27 Sep 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 27 September 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

