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title: Mito de Adapa
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-216/mito-de-adapa/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-07-12
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# Mito de Adapa

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

O *Mito de Adapa* (incipit: *uznu rēštītu*; também conhecido como *Adapa e o Alimento da Vida*) é a história mesopotâmica da Queda do Homem, na medida em que explica a razão pela qual os seres humanos são mortais. O [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) da sabedoria, Ea, cria o primeiro homem, Adapa, e dota-o de grande inteligência e sabedoria, mas não de imortalidade; e, quando a imortalidade é oferecida a Adapa pelo grande deus [Anu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15601/anu/), Ea engana Adapa para que este recuse o presente.

[ ![Myth of Adapa](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/6283.jpg?v=1711109703) Mito de Adapa The Trustees of the British Museum (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/6283/myth-of-adapa/ "Myth of Adapa")Embora não seja expresso diretamente no mito, o raciocínio de Ea parece semelhante ao de Javé na história do Génesis, na [Bíblia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-191/biblia/), onde, depois de Adão e Eva serem amaldiçoados por comerem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, Javé expulsa-os antes que possam também comer da Árvore da Vida:

> O Senhor Deus disse: «Aqui está o homem que, pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da vida, comendo do qual, viva eternamente». O Senhor Deus explusou-o do jardim do Éden (...) (Génesis 3:22-23 – Villapadierna, Carlos de (†) et al.. *Bíblia Sagrada*. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 21)

Se Adão e Eva fossem imortais, estariam ao mesmo nível de Javé e haveria uma perda de estatuto por parte da divindade; e este é o mesmo raciocínio de Ea no mito de Adapa. No mito do Génesis, o homem apodera-se do conhecimento ao comer da árvore; no mito mesopotâmico, o deus Ea concede o conhecimento ao homem no processo da criação. Sabendo que Adapa é já sábio, Ea (tal como Javé na história posterior do Génesis) precisa de manter o homem no seu devido lugar.

### O Resumo

Adapa era o rei da cidade de [Eridu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-129/eridu/) e, segundo o mito, saiu um dia para pescar no Golfo Pérsico quando o vento sul, subitamente, virou o seu barco e atirou-o para o mar. Furioso com o sucedido, Adapa partiu a asa do vento sul e, durante sete dias, o vento não pôde soprar. O deus do céu, Anu, irrita-se com este acontecimento e manda chamar Adapa para se justificar. Adapa recebe conselhos de Ea sobre como se deve comportar na corte dos deuses. Sendo Ea o deus-pai e criador de Adapa, este confia que ele lhe dirá a verdade. Contudo, Ea teme que Anu esteja disposto a oferecer a Adapa o alimento e a bebida da vida eterna, e Ea está determinado a garantir que Adapa não aceite a oferta.

Primeiro, Ea diz-lhe que deve adular os guardiões dos portões, Tammuz e Gishida (duas divindades que morrem e ressuscitam), fazendo-os saber que se lembra deles, que sabe quem são. Se Adapa o fizer, os guardiões deixá-lo-ão passar sem dificuldade e falarão favoravelmente dele a Anu. Uma vez na presença de Anu, Ea diz-lhe ainda que deve recusar qualquer alimento ou bebida que lhe seja oferecido, porque se tratará do alimento e da bebida da morte, oferecidos como punição por Adapa ter partido a asa do vento sul. Contudo, diz Ea, Adapa pode aceitar óleo para se ungir e aceitar qualquer vestimenta que lhe seja oferecida.

Adapa faz exatamente como Ea sugere, honrando respeitosamente Tammuz e Gishida e recusando o alimento e a bebida oferecidos por Anu (embora se unja e aceite uma túnica). Anu, intrigado pelo facto de o homem recusar o alimento e a bebida da vida e o dom da imortalidade, envia Adapa de volta para a terra, onde terá de viver o resto da sua vida como mortal. O conto pareceria terminar com Anu a punir Ea por ter enganado Adapa, mas, como a terceira tábua está fragmentada, é difícil afirmar com certeza.

Uma interpretação alternativa do mito sustenta que Ea age sinceramente no melhor interesse de Adapa quando o avisa para não aceitar comida ou bebida de Anu, pois Ea acredita seriamente que Anu punirá Adapa com a morte por ter partido a asa do vento sul. Esta interpretação defende que a punição de Ea no final do poema não é por ter enganado Adapa, mas por o ter avisado contra os planos de Anu. Em parte alguma do poema, contudo, se afirma que Anu planeava matar Adapa; apenas que estava aborrecido pelo facto de o vento sul não soprar (ou seja, de a vida na terra não estar a funcionar como deveria) e que queria que Adapa se explicasse.

O poema faz mais sentido quando interpretado como Ea a enganar Adapa para negar a imortalidade aos seres humanos, e Anu a punir Ea por tal engano. Anu, ao ouvir a explicação de Adapa para o seu ato, pergunta: "Por que revelou Ea à humanidade impura / O coração do céu e da terra?". Esta resposta parece indicar que Anu respeita a explicação de Adapa e está impressionado com ela, mas interroga-se sobre a razão pela qual Ea teria tornado Adapa tão inteligente, ao mesmo tempo que lhe negava a vida eterna. É precisamente após Anu colocar esta questão e perguntar "Que podemos fazer com ele?" que ordena que o alimento e a água da vida eterna sejam trazidos para Adapa. Anu deseja corrigir o erro de Ea e conceder a imortalidade a Adapa, mostrando-se genuinamente intrigado quando este recusa a sua hospitalidade. Anu tenta antecipar a questão fundamental que os seres humanos colocam através dos tempos — "Por que nasço para morrer e, sabendo que morrerei, qual é o sentido da vida?" — concedendo a imortalidade; mas o destino dita que não será assim.

[ ![O Antigo Próximo Oriente, cerca de 1500-1300 a.C.](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/14807-pt.png?v=1782577736-1782577769) Antigo Próximo Oriente Cerca de 1500-1300 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/trans/pt/3-14807/o-antigo-proximo-oriente-cerca-de-1500-1300-ac/ "O Antigo Próximo Oriente, cerca de 1500-1300 a.C.")O mito provém do período cassita babilónico do século XIV a.C. (quando a tribo cassita governava a [Babilónia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-53/babilonia/)). O escritor Berosso, do século III a.C., chamou a Adapa "Oannes" e descreveu-o como um homem-peixe que vivia no Golfo Pérsico e ensinava sabedoria e [civilização](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10175/civilizacao/) aos seres humanos. Berosso seguia a tradição de Adapa como um dos Abgal (ou Apkallu), os sete semideuses sábios que entregaram a civilização aos seres humanos nos tempos antigos, antes do Grande Dilúvio. Em o *Mito de Adapa*, contudo, a personagem central é retratada como um rei sábio que é enganado por um deus, e não como um semideus propriamente dito.

### O Texto

A tradução do mito que se segue é da autoria de Robert W. Rogers, da sua obra de 1912, *Cuneiform Parallels to the Old Testament* (*Paralelos Cuneiformes ao Antigo Testamento*):

**A PRIMEIRA TÁBUA:**

> Ele \[Adapa\] era inteligente...
> Comandava, como Anu comandava...
> Ele \[o deus Ea\] concedeu-lhe um ouvido atento para revelar o destino da terra,
> Concedeu-lhe sabedoria, mas não lhe concedeu a vida eterna.
> Naqueles dias, naqueles anos, o sábio de Eridu,
> Ea tinha-o criado como chefe entre os homens,
> Um homem sábio cujo comando ninguém deveria opor,
> O prudente, o mais sábio entre os Anunnaki era ele,
> Imaculado, de mãos limpas, ungido, observador dos estatutos divinos,
> Com os padeiros fazia pão,
> Com os padeiros de Eridu, fazia pão,
> O alimento e a água para Eridu ele preparava diariamente,
> Com as suas mãos limpas ele preparava a mesa,
> E sem ele a mesa não era limpa.
> O barco ele conduzia; pescar e caçar para Eridu, ele fazia.
> Então, Adapa de Eridu,
> Enquanto Ea... na câmara, sobre o leito.
> Diariamente, ocupava-se do fecho de Eridu.
> Sobre a represa pura (a represa da lua nova), ele embarcou no navio,
> O vento soprou e o seu navio partiu,
> Com o remo, ele conduziu o seu navio
> Sobre o mar vasto...

**A SEGUNDA TÁBUA:**

> O vento sul... quando
> Ele me conduziu à casa do meu senhor, eu disse:
> "Ó Vento Sul, no caminho eu farei a ti... tudo que,
> A tua asa, eu quebrarei." Enquanto ele falava com a sua boca,
> A asa do Vento Sul foi quebrada, sete dias
> O Vento Sul não soprou sobre a terra. Anu
> Chamou o seu mensageiro Ilabrat:
> "Por que o Vento Sul não soprou sobre a terra durante sete dias?"
> O seu mensageiro Ilabrat respondeu-lhe: "Meu senhor,
> Adapa, o filho de Ea, a asa do Vento Sul
> Quebrou."
> Quando Anu ouviu estas palavras,
> Ele gritou: "Socorro!" Ele ascendeu ao seu trono,
> "Que alguém o traga,"
> Igualmente Ea, que conhece o céu. Ele despertou-o
> ... ele fê-lo vestir. Com uma veste de luto
> Ele vestiu-o, e deu-lhe conselho
> Dizendo: "Adapa, perante a face de Anu, o Rei, tu vais
> ... para o céu.
> Quando subires, e quando te aproximares da porta de Anu,
> À porta de Anu, Tammuz e Gishzida estão de pé,
> Eles ver-te-ão, eles perguntar-te-ão: 'Senhor,'
> Por causa de quem apareces assim, Adapa? Por quem
> Estás vestido com uma veste de luto?' 'No nosso país, dois deuses desapareceram, portanto
> Estou assim.' 'Quem são os dois deuses, que na terra
> Desapareceram?' 'Tammuz e Gishzida.' Eles olhar-se-ão um ao outro e
> Ficarão espantados. Boas palavras
> Eles dirão a Anu. Uma boa expressão de Anu
> Eles mostrar-te-ão. Quando estiveres perante Anu
> Alimento de morte eles colocarão perante ti,
> Não comas. Água de morte eles colocarão perante ti,
> Não bebas. Vestes eles colocarão perante ti,
> Põe-nas. Óleo eles colocarão perante ti, unge-te.
> O conselho que te dei, não esqueças. As palavras
> Que falei, guarda-as firmemente." O mensageiro
> De Anu chegou: "Adapa quebrou
> A asa do Vento Sul. Trazei-o perante mim."
> A estrada para o Céu ele fê-lo tomar, e ao Céu ele ascendeu.
> Quando ele veio ao Céu, quando se aproximou da porta de Anu,
> À porta de Anu, Tammuz e Gishzida estão de pé.
> Quando eles o viram, Adapa, eles gritaram: "Socorro,
> Senhor, por causa de quem apareces assim? Adapa,
> Por quem estás vestido com uma veste de luto?"
> "No país, dois deuses desapareceram; portanto estou vestido
> Com vestes de luto." "Quem são os dois deuses, que
> Desapareceram da terra?"
> "Tammuz e Gishzida." Eles olharam um para o outro e
> Ficaram espantados. Quando Adapa, perante Anu, o Rei,
> Se aproximou, e Anu viu-o, ele gritou:
> "Vem aqui, Adapa. Por que quebraste as asas
> Do Vento Sul?" Adapa respondeu a Anu: "Meu senhor,
> Pela casa do meu senhor no meio do mar,
> Eu estava a pescar. O mar estava como um espelho,
> O Vento Sul soprou, e virou-me.
> Para a casa do meu senhor fui conduzido. Na ira do meu coração,
> Eu agi." Tammuz e Gishzida
> Responderam... "tu és." A Anu
> Eles falam. Ele acalmou-se, o seu coração estava...
> "Por que revelou Ea à humanidade impura
> O coração do céu e da terra? Um coração
> ... criou dentro dele, fez dele um nome?
> O que podemos fazer com ele? Alimento de vida
> Trazei-lhe, para que ele possa comer." Alimento de vida
> Trazeram-lhe, mas ele não comeu. Água de vida
> Trazeram-lhe, mas ele não bebeu. Vestes
> Trazeram-lhe. Ele vestiu-se. Óleo
> Trazeram-lhe. Ele ungiu-se.
> Anu olhou para ele; ele maravilhou-se com ele.
> "Vem, Adapa, por que não comeste, não bebeste?
> Agora tu não viverás." ... homens ... Ea, meu senhor
> Disse: "Não comas, não bebas."
> Levai-o e trazei-o de volta para a sua terra.
> ... olhou para ele.

A TERCEIRA TÁBUA

> Quando \[Anu\] ouviu isso,
> Na ira do seu coração,
> O seu mensageiro ele enviou.
> Aquele que conhece o coração dos grandes deuses,
> ...
> Para o Rei Ea vir,
> A ele, fez com que palavras fossem levadas.
> ... a ele, ao Rei Ea.
> Ele enviou um mensageiro
> Com um ouvido atento, conhecendo o coração dos grandes deuses,
> ... dos céus seja fixado.
> Uma veste suja ele fê-lo usar,
> Com uma veste de luto ele vestiu-o,
> Uma palavra ele falou-lhe.
> "Adapa, perante o Rei Anu tu irás,
> Não falhes na ordem, guarda a minha palavra.
> Quando subires ao céu, e te aproximares da porta de Anu,
> Tammuz e Gishzida à porta de Anu estão de pé.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- Anonymous. *The King James Version of The Holy Bible.* 1611
- Robert W. Rogers. *Cuneiform Parallels to the Old Testament.* Eaton and Mains, New York, 1912

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
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Mark, J. J. (2026, July 12). Mito de Adapa. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-216/mito-de-adapa/>
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Mark, Joshua J.. "Mito de Adapa." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, July 12, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-216/mito-de-adapa/>.
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Mark, Joshua J.. "Mito de Adapa." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 12 Jul 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-216/mito-de-adapa/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 12 July 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

