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title: Comércio e Guerra na Rus de Kiev
author: James Hancock
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-06-06
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# Comércio e Guerra na Rus de Kiev

_Escrito por [James Hancock](https://www.worldhistory.org/user/geneticsofberries/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Os escandinavos da ilha de Gotland começaram a espalhar-se por toda a região do Báltico, ao longo dos rios russos, durante os anos de 700. Embora [os vikings](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16741/os-vikings/) da Noruega e da Dinamarca, entre os séculos VIII e XI, sejam amplamente reconhecidos como temíveis saqueadores e colonos, os mercadores de Gotland eram tanto guerreiros como homens de negócios, avançando para novas áreas através de entrepostos fortificados.

[ ![Guests from Overseas](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/15589.jpg?v=1717544469) Convidados de Além-Mar Nicholas Roerich (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/15589/guests-from-overseas/ "Guests from Overseas")Assim que as populações locais eram pacificadas, recrutavam-se novos colonos para fundar vilas e cidades comerciais, um processo que se repetiu sucessivamente à medida que os gotlandeses avançavam para leste, até que a sua esfera de influência alcançou os mundos bizantino e islâmico.

Os gotlandeses passaram a ser chamados varangues, um nome provavelmente derivado da palavra do nórdico antigo *var*, que significa «união por promessa». Os mercadores de Gotland mantinham-se unidos através de juramentos mútuos de defesa e de partilha de lucros. Os varangues tornaram-se abastados ao comercializarem escravos, peles (de castor e de raposa-preta) e espadas, tendo os dirhams árabes passado a ser o seu meio de troca predileto.

### **O Comércio com os Muçulmanos e os Bizantinos**

Os mercadores de Gotland que se estabeleceram na área eslava oriental da atual Rússia setentrional eram chamados *al-Rus* pelos árabes. *Rhos* (Rus) derivava da palavra do nórdico antigo *ruotsi*, que significava «expedição de barcos a remos». Com o tempo, estes Rus assimilaram-se com os eslavos nativos ao longo dos rios e perderam a sua identidade distinta de Gotland.

Na segunda metade dos anos 700, os mercadores Rus começaram a deslocar-se para sul, descendo pelas vias navegáveis do norte da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/) Central, e estabeleceram duas grandes rotas comerciais:

1. pelo Volga abaixo e através do Mar Cáspio até às terras sob domínio muçulmano, chegando mesmo a Bagdade;
2. e através do Mar Negro até ao [Império Bizantino](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-953/imperio-bizantino/) cristão.

Ambas as rotas passavam pelo Reino Judeu dos Cazares, onde lhes era cobrado um dízimo.

A cidade de Bagdade deve ter sido uma visão deslumbrante para os Rus. Entre os anos de 903 e 913, o escritor árabe Ibn Rustah escreveu um relato de testemunha ocular onde registou que os Rus não tinham «nenhuma aldeia, nenhuns campos cultivados» e que a sua «única ocupação é o comércio de peles de zibelina, de esquilo e de outros tipos, que vendem a quem as queira comprar» (Gabriel, pág. 3). Bagdade era, por esta altura, a joia da coroa dos [califados islâmicos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18629/califados-islamicos/), uma cidade sumptuosamente adornada com extensos parques verdes e jardins, palácios de mármore, passeios e mesquitas de construção refinada.

[ ![Varangian Trade Routes](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/15546.png?v=1773732432) Rotas Comerciais Varangues Briangotts (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/15546/varangian-trade-routes/ "Varangian Trade Routes")Os Rus percorriam as suas rotas comerciais à procura de moedas de prata árabes e de seda, especiarias, vinho, joalharia, vidro e livros do [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Bizantino. Em troca, comercializavam eslavos capturados na Estepe Eurasiática e ofereciam peles, mel, cera e madeira. O comércio da seda pode ser rastreado desde [Constantinopla](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-700/constantinopla/), ou Rayy no Irão, até Kiev e Novogrado, seguindo depois para o Báltico e a Escandinávia e, finalmente, para Inglaterra. Gotland foi identificada como a origem desta rede comercial da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15614/europa/) de Leste devido à extraordinária quantidade de moedas de prata islâmicas que ali foram descobertas. A prata utilizada para cunhar estas moedas provinha de minas situadas nas províncias controladas pelos muçulmanos na Ásia Central.

### **A Formação da Rus de Kiev**

No final do século IX, o Príncipe Olegue (879-912), da Dinastia Rurique de origem varegue, formou uma federação descentralizada na Europa Oriental e Setentrional que viria a chamar-se Rus de Kiev. Olegue estabeleceu a Rus em 862, começando por Novgorod como sua capital (situada a 160 km a sul de São Petersburgo), e estendeu o seu controlo para sul, ao longo do vale do rio Dniepre, acabando por transferir a capital para a mais estratégica Kiev (Kyiv, na atual Ucrânia).

No seu apogeu, a Rus de Kiev governou uma área que se estendia desde o Mar Branco, a norte, até ao Mar Negro, a sul; e das nascentes do Vístula, a oeste, até à Península de Taman, a leste. As nações modernas da Bielorrússia, Rússia e Ucrânia têm todas a Rus de Kiev como o seu antepassado cultural. A Rus de Kiev governou durante cerca de 700 anos, até ser derrotada pelos Mongóis entre 1237 e 1242.

[ ![11th century CE Kievan Rus Territories](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/7773.jpg?v=1764882246) Territórios da Rússia de Kiev no século 11 SeikoEn (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/7773/11th-century-ce-kievan-rus-territories/ "11th century CE Kievan Rus Territories")Sabe-se muito sobre a Rus de Kiev devido a um manuscrito chamado *Crónica de Nestor: Conto dos Anos Passados* (1.ª Ed.ª de 1994; tít. original em eslavo eclesiástico antigo: *Povest' Vremennykh Let*, 1113), que oferece um relato detalhado da história eslava primitiva de cerca de 850 a 1110. Acredita-se que um monge chamado Nestor o tenha compilado na corte do Grão-Príncipe Sviatopolk II de Kiev, em 1113, utilizando materiais retirados de outras crónicas bizantinas, fontes literárias eslavas, documentos oficiais diversos e sagas orais. O manuscrito original desapareceu há muito, mas ainda existem várias revisões escritas séculos mais tarde; a mais antiga, chamada *Códice Laurentiano* (tít. original em russo: *Lavrent'evskaya letopis*), de 1377, e uma posterior conhecida como *Códice de Ipátiev* (ou *Códice Hipatiano*; tít. original em russo: *Ipat'evskaya letopis*) de 1500.

### **Os Ataques da Rus aos Mundos Islâmico e Bizantino**

Embora a maioria das interações entre a Rus e Bagdade, os cazares e as outras terras muçulmanas tenham sido pacíficas, houve algumas exceções notáveis. Os Rus eram tão destemidos que realizavam ataques periódicos a redutos bizantinos e muçulmanos. Os registos destes confrontos chegaram até nós através da *Crónica de Nestor: Conto dos Anos Passados* e de vários cronistas árabes medievais, incluindo Ibn al-Athir, que escreveu uma história universal abrangente em 11 volumes por volta de 1231.

No primeiro grande confronto em 860, uma frota de cerca de 200 embarcações Rus navegou pelo Bósforo e atacou os subúrbios de Constantinopla. O ataque apanhou os gregos completamente de surpresa, naquilo que São Fócio, o Grande, de Constantinopla, descreveu como um relâmpago caído do céu. A cidade estava praticamente indefesa na altura, uma vez que o imperador bizantino, Miguel III (reinou 842-867), se encontrava ausente a combater o Califado Abássida e a sua marinha confrontava piratas árabes no Mar Mediterrâneo. Após o desembarque, os Rus lançaram-se num massacre, incendiando casas e igrejas, além de afogarem e esfaquearem os residentes. Posteriormente, retiraram-se por uma razão desconhecida, após pilharem os subúrbios.

[ ![Rus Attack on Constantinople](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/15590.jpg?v=1711921024) Ataque da Rus a Constantinopla Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/15590/rus-attack-on-constantinople/ "Rus Attack on Constantinople")Os Rus lançaram outro ataque contra Constantinopla em 941, desta vez com consequências desastrosas para eles. Enviaram uma frota massiva de 1000 navios para a cidade, mas foram derrotados por uma pequena esquadra de 15 antigos navios de guerra bizantinos, equipados com projetores de [fogo grego](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16532/fogo-grego/) que lançavam químicos em chamas contra os invasores. Um grande número de navios e soldados Rus ardeu e os soldados que saltaram para a água para escapar às chamas acabaram por se afogar, puxados para o fundo pelo peso das armaduras.

Os Rus também lançaram várias incursões através do Mar Cáspio em terras muçulmanas. Na maior delas, em 913, uma frota de 500 navios Rus atacou a região de Gorgan, no território que é hoje o Irão, onde pilharam bens e levaram mulheres e crianças como escravos. Um exército de cazares enfurecidos e alguns cristãos acabaram por atacá-los e derrotá-los, deixando poucos sobreviventes.

Durante outra campanha em 943, uma grande armada Rus atacou a próspera cidade comercial de Barda, na margem sul do Mar Cáspio, cujas populações locais os combateram vigorosamente, atirando pedras e lançando insultos, mas os Rus cercaram-nos e massacraram 5000 deles. Conforme descrito pelo cronista árabe Ibn al-Athīr:

> Depois de isto se prolongar por muito tempo, eles ordenaram que os habitantes da cidade partissem e \[disseram que\] não atacariam os cidadãos por um intervalo de três dias, sendo que cada indivíduo era livre de sair com todos os bens que conseguisse carregar. A maioria dos cidadãos permaneceu \[em Barda\] após o tempo estipulado, e os Rus mataram então muitas pessoas e fizeram cerca de dez mil cativos. Reuniram os que restavam na Mesquita de Sexta-feira e disseram aos restantes cidadãos: «Podem pagar o vosso resgate ou matamos-vos.» Um cristão apresentou-se e acordou o pagamento de vinte dirhams por cada homem. Mas os Rus não cumpriram o acordo, exceto no caso dos mais sensatos, após perceberem que não receberiam nada por alguns dos cidadãos. Massacraram todos aqueles \[pelos quais não conseguiram obter resgate\] e apenas alguns fugiram do massacre. Os Rus levaram então os objetos de valor do povo, escravizando os prisioneiros restantes, e levaram as mulheres para seu usufruto.
> (Watson, pág. 434)

Os Rus utilizaram Barda durante vários meses como base para pilharem as áreas adjacentes mas, por fim, foram forçados a partir quando se viram consideravelmente enfraquecidos por um surto de disenteria provocado por fruta contaminada e ficaram isolados, para defesa, na cidadela de Barda. Abandonaram a fortaleza durante a noite, carregando às costas o que conseguiram dos seus tesouros pilhados, pedras preciosas e adornos.

### **A Guarda Varangue e a Ascensão de Moscovo**

A Rus de Kiev formaria um vínculo estreito com os bizantinos em 988, quando o seu governante, Vladimir, o Grande (reinou 980-1015), decidiu abandonar os seus costumes pagãos e tornar-se um cristão ortodoxo. Ele ponderou cuidadosamente a sua decisão, escolhendo o [cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/) ortodoxo dos bizantinos em detrimento do judaísmo dos cazares, do cristianismo ocidental de Roma e do islão dos árabes, provavelmente por lhe proporcionar a aliança mais poderosa.

[ ![Vladimir I Converting to Christianity](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/9659.jpg?v=1779482895) Vladimir I em sua Conversão ao Cristianismo Viktor Mikhailovich Vasnetsov (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/9659/vladimir-i-converting-to-christianity/ "Vladimir I Converting to Christianity")Em reconhecimento do seu destemor, os Rus foram recrutados pelo imperador bizantino Basílio II (reinou 976-1025) para defender Constantinopla. Cerca de 6000 mercenários Rus formaram a elite da Guarda Varangue para proteger a cidade e servir como guarda-costas pessoais do imperador. Estes mercenários combateram em todas as grandes campanhas bizantinas desde então até 1204: aquando do saque de Constantinopla pelos Cruzados.

Quando a Rus de Kiev colapsou como estado após [a invasão mongol da Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1453/a-invasao-mongol-da-europa/) em 1237-1242, Moscovo era apenas um entreposto comercial insignificante. Com o tempo, uma sucessão de príncipes expandiu as suas fronteiras e Moscovo assumiu-se como o centro político e cultural das terras do norte da Rus. A localização remota e florestada de Moscovo protegeu-a da ocupação e dos ataques mongóis, estando situada perto de vários rios que permitiam o acesso aos mares Báltico e Negro e a toda a região do Cáucaso. Moscovo unificou gradualmente os principados russos do nordeste e do noroeste ao longo do século XV, e derrubou o domínio mongol em 1480. Ivan III, o Grande (reinou 1462-1505), tornou-se o primeiro governante de Moscovo a adotar o título de czar e autodenominou-se Soberano de toda a Rus.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Gabriel, J. - Among the Norse tribes: the remarkable account of Ibn Fadlan](https://archive.aramcoworld.com/issue/199906/among.the.norse.tribes-the.remarkable.account.of.ibn.fadlan.htm "Gabriel, J. - Among the Norse tribes: the remarkable account of Ibn Fadlan"), accessed 25 Mar 2022.
- [Gannholm, Tore. *Gotland .* Stavgard, 2022.](https://www.worldhistory.org/books/9187481057/)
- [Hancock PhD, James F. *Spices, Scents and Silk.* CABI, 2021.](https://www.worldhistory.org/books/1789249759/)
- [Hansen, Valerie. *The Year 1000―and Globalization Began.* Scribner, 2020.](https://www.worldhistory.org/books/1501194100/)
- [Noonan, Thomas S. *The Islamic World, Russia and the Vikings, 750–900.* Routledge, 1998.](https://www.worldhistory.org/books/0860786579/)
- Watson, W.E. "Ibn al-Athīr’s accounts of the Rus': a commentary and translation." *Canadian/American Slavic Studies* , 35, 2001, pp. 423–438.

## Sobre o Autor

James F. Hancock é um escritor freelancer e professor emérito da Michigan State University. Possui especial interesse na pesquisa da evolução da cultura agrícola e história do comércio. Seus livros incluem "Spices, Scents and Silk" (CABI) e "Plantation Crops" (Routledge).

## Perguntas & Respostas

### Quem eram os varangues?
Os gotlandeses (escandinavos da ilha de Gotland) passaram a ser chamados varangues, um nome provavelmente derivado da palavra do nórdico antigo var, que significa «união por promessa». Espalharam-se por toda a região do Báltico, ao longo dos rios russos, durante os anos 700 e tornaram-se mercadores abastados.

### Foram os rus os antepassados dos russos?
As nações modernas da Bielorrússia, da Rússia e da Ucrânia têm todas a Rus de Kiev como seu antepassado cultural. 


## Cite Este Artigo

### APA
Hancock, J. (2026, June 06). Comércio e Guerra na Rus de Kiev. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/>
### Chicago
Hancock, James. "Comércio e Guerra na Rus de Kiev." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, June 06, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/>.
### MLA
Hancock, James. "Comércio e Guerra na Rus de Kiev." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 06 Jun 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1980/comercio-e-guerra-na-rus-de-kiev/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 06 June 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

