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title: A Lenda de Cuta: Como Relacionar-se Corretamente com o Próprio Deus
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1869/a-lenda-de-cuta/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-11-05
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# A Lenda de Cuta: Como Relacionar-se Corretamente com o Próprio Deus

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

A Lenda de Cuta (*incipit*: *ṭupšenna pitē-ma narâ šitassi*; também conhecida como A Lenda Cuta de Naram-Sin, a Lenda de Cutha e a Lenda de Kutha) é uma obra de ficção datada do século XVII a.C., pertencente ao género literário mesopotâmico conhecido como naru. A narrativa centra-se no rei acádio Naram-Sin (que reinou entre 2254 e 2218 a.C.) numa história que ilustra a relação adequada entre um monarca e os deuses, bem como a importância dos registos escritos.

A lenda é um relato ficcional de uma invasão das terras acádias por um exército sobre-humano que — pela sua descrição, e não pelo nome — é associado aos gúteos, considerados responsáveis pela queda do [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Acádio por volta de 2154 a.C.. Nesta narrativa, este exército foi criado e nutrido pelos deuses para os seus próprios propósitos, sendo expressamente ordenado a Naram-Sin que não pegue em armas contra ele. No entanto, o monarca desafia os deuses e sofre perdas avultadas; perante isto, acaba por se humilhar, pede perdão e reconcilia-se com a vontade divina.

[ ![Stele of the Akkadian king Naram-Sin](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2550.jpg?v=1773050974) Estela do Rei Acádio Naram-Sin Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/2550/stele-of-the-akkadian-king-naram-sin/ "Stele of the Akkadian king Naram-Sin")O título do poema deriva da cidade de Cuta/Kutha (a atual Tell Ibrahim, no Iraque), onde o narrador do poema, Naram-Sin, afirma ter deixado num templo uma caixa contendo a obra, para que fosse lida por futuros reis. A obra é também conhecida pelos títulos Naram-Sin e as Hordas Inimigas e pelo seu *incipit* (primeira linha), «Abre a caixa de tabuletas». Foram encontradas cópias do texto em manuscritos assírios, neoassírios, paleobabilónicos e neobabilónicos, entre outros, o que atesta a sua popularidade.

Além da sua mensagem de obediência aos deuses e de resistência à tentação de confiar na própria capacidade de entendimento, o poema enfatiza a importância de deixar um relato da própria vida do qual outros possam aprender, especialmente quando se trata de um monarca. A narrativa dos acontecimentos é enquadrada pelo lamento de Naram-Sin pelo facto de um rei anterior não ter deixado qualquer registo desse tipo, e pela sua esperança de que as gerações vindouras leiam e aprendam com o seu. A estrutura desta peça valeu-lhe a reputação de ser um dos melhores — senão o melhor — exemplos da [literatura mesopotâmica](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21465/literatura-mesopotamica/) naru, um género criado para entreter, instruir e preservar o nome do seu protagonista.

### A [Literatura](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-562/literatura/) Mesopotâmica Naru

A literatura mesopotâmica naru é também conhecida pelos académicos modernos como "autobiografia fictícia", "autobiografia de ficção" e "pseudoautobiografia", uma vez que apresenta uma figura histórica famosa numa narrativa ficcional, alterando com frequência e de forma significativa o caráter dessa pessoa para efeito dramático. Hoje em dia, a literatura mesopotâmica naru seria entendida como "ficção histórica". A palavra naru refere-se a uma estela na qual um rei inscrevia os seus grandes feitos, e o género seguia a mesma fórmula destas inscrições oficiais:

- uma introdução em primeira pessoa (quem está a contar a história)
- uma narração em primeira pessoa (o que aconteceu)
- uma bênção ou maldição sobre o leitor – a bênção era oferecida a qualquer pessoa que lesse, apreciasse e compreendesse a inscrição; a maldição destinava-se àqueles que não o fizessem e desrespeitassem a mensagem

As estelas reais eram erguidas para memorializar um acontecimento significativo — uma vitória militar, uma coroação, um grande festival, um casamento, um nascimento real, etc. —, enquanto a literatura naru adotava essa forma para transmitir um valor moral ou cultural a um público. A literatura naru não pretendia contar a verdade sobre um determinado acontecimento, mas sim extrair dele um significado — ou até criar um incidente totalmente fictício — para transmitir alguma mensagem importante, habitualmente relacionada com a forma correta de nos relacionarmos com os deuses.

Os exemplos mais famosos deste género, além d'*A Lenda de Cuta*, são *[A Lenda de Sargão de Acádia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-746/a-lenda-de-sargao-de-acadia/)* (que relata a ascensão do primeiro rei acádio, Sargão, o Grande, que reinou entre 2334 e 2279 a.C.), *A Grande Revolta* e *[A Maldição de Ágade](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-748/a-maldicao-de-agade/)*, sendo que estes dois últimos também protagonizam Naram-Sin. Sargão e Naram-Sin foram os dois reis acádios mais poderosos e apareceram frequentemente em lendas posteriores, seja como heróis ou anti-heróis, em histórias que habitualmente não tinham qualquer fundamento em acontecimentos históricos. O melhor exemplo disso, embora se afaste ligeiramente da fórmula da literatura naru, é *A Epopeia de [Gilgamesh](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-781/gilgamesh/)* ([escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/) por volta de 2150–1400 a.C.), que utiliza Gilgamesh, rei histórico de [Uruque](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-43/uruque/), numa narrativa ficcional que explora o sentido da existência.

### A História e a Estrutura

Ao contrário d'*A Grande Revolta*, que se baseia numa rebelião real ocorrida durante o reinado de Naram-Sin, *A Lenda de Cuta* não tem fundamento histórico, mas ecoa um acontecimento famoso que teria ressoado junto do público sumério da Antiguidade: a invasão Guti da Acádia. Os Guti eram um povo nómada da Ásia Ocidental que habitava na região da Cordilheira de Zagros e realizava uma série de incursões relâmpago contra as comunidades acádias, culminando por fim numa invasão em grande escala que, segundo os antigos escribas sumérios, derrubou o império em 2154 a.C..

O exército sobre-humano n' *A Lenda de Cuta* nunca é identificado expressamente como sendo gúteo e, de facto, a própria terra natal dos gúteos, Gúcio, figura entre as regiões por ele destruídas; contudo, a descrição do exército como "não humano" coincide com textos sumérios que os descreviam como "um povo desenfreado, com inteligência humana, mas com os instintos de cães e a aparência de macacos" (Kriwaczek, pág. 129). Os Guti alegavam ser os legítimos sucessores da dinastia sargónida e assumiram o controlo da [Suméria](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-114/sumeria/), governando-a na totalidade ou em parte de cerca de 2141 a cerca de 2050 a.C., até serem desafiados pelo rei de Uruque, Utu-Hegal (reinou de cerca de 2119 a cerca de 2112 a.C.), e mais tarde expulsos por Xulgi de [Ur](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-128/ur/) (reinou de cerca de 2094 a cerca de 2046 a.C.).

[ ![Akkadian Soldier on Naram-Sin Victory Stele from Wasit](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/10765.jpg?v=1790735302) Soldado Acadiano na Estela da Vitória de Naram-Sin, de Wasit Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/10765/akkadian-soldier-on-naram-sin-victory-stele-from-w/ "Akkadian Soldier on Naram-Sin Victory Stele from Wasit")*A Lenda de Cuta* segue esta enredo histórico, mas enquadra a ação dentro de uma estrutura que enfatiza a importância de confiar na vontade dos deuses — mesmo quando essa vontade é incerta ou parece não fazer sentido — em vez de resolver o assunto pelas próprias mãos. A obra está estruturada segundo as fórmulas tradicionais da literatura naru, mas, em vez de começar com a identidade do narrador, inicia-se com uma exortação a abrir a caixa da estela e a ler o relato de Naram-Sin.

Esta introdução, bem como a bênção final, deixa claro o duplo propósito da narrativa: instruir sobre a relação correta com os deuses e sublinhar a importância dos registos escritos. A peça começa com Naram-Sin a lamentar a forma como um rei anterior, Enmerkar, foi punido pelo [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) Xamache e "desapareceu", sem deixar qualquer registo para as gerações vindouras sobre como tinha ofendido os deuses para que pudessem aprender com o seu erro.

A partir daqui, a história prossegue para o relato em que Naram-Sin enfurece os deuses ao recusar ouvi-los e ao atacar os invasores, o que resulta na morte de mais de 200 000 dos seus homens, e mostra como ele aprende a lição de seguida. Depois de se humilhar e de prometer obedecer aos deuses, ele captura 12 dos inimigos sobre-humanos e, em vez de os matar como desejava, entrega-os ao templo do deus [Enlil](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13054/enlil/) para enfrentarem a justiça divina. O poema termina com o apelo de Naram-Sin aos futuros monarcas para que deixem um relato do seu reinado, concluindo com uma bênção a todos os que acolham e compreendam a sua história.

### O Texto d'*A Lenda de Cuta*

A tradução infra é do texto extraído *Old Akkadian Period Texts* (*Textos do Período Paleoacádio*; pags. 36-40) traduzido para inglês pelos académicos Benjamin Studevent-Hickman e Christopher Morgan, reimpressa em *The Ancient Near East: Historical Sources in Translation* (*O Antigo Oriente Próximo: Fontes Históricas em Tradução*), sob a edição de Mark W. Chavalas. De acordo com Studevent-Hickman e Morgan, trata-se de um texto compósito que se baseia em sete manuscritos neoassírios e num fragmento neobabilónico. Algumas linhas repetitivas foram omitidas e as reticências indicam linhas ou palavras em falta. Os números de linha estão indicados à esquerda.

> Abre a caixa de tabuletas e lê a estela
> Que eu, Naram-Sin, descendente de Sargão,
> Inscrevi e deixei para a posteridade.
> O Rei de Uruque desapareceu.
> (5) Enmerkar desapareceu.
> Enmerkar, Rei de Uruque, soberano da terra.
> Passou \[um certo período de tempo\].
> Decorreu \[um certo período de tempo\].
> Istar mudou de ideias. (
> 10)... e ele cavalgou.
> \[Enmerkar consultou os grandes deuses:
> Istar, Ilaba, Sabada, Anunitum,
> Xulate, Hanixe, o herói Xamache.
> Convocou os adivinhos e deu ordens.
> 15\) Sacrificaram os borregos, sete borregos,
> sete borregos para sete adivinhos.
> Montou os altares sagrados de caniço.
> Os adivinhos falaram assim:
> ...
> ... rosto.
> (20) e como...
> Sobre a terra... que o teu cadáver jaza estendido.
> Os grandes deuses ainda não tinham terminado
> de falar!
> Enmerkar... Xamache proferiu um julgamento severo.
> O seu julgamento, a decisão que tomou, foi que o seu espírito, os espíritos...
> (25) Os espíritos da sua família, os espíritos dos seus descendentes,
> Os espíritos dos descendentes dos seus descendentes
> —
> Isto foi decretado por Xamache, o herói,
> O senhor do alto e do baixo, o senhor dos Anunáquis, o senhor dos espíritos —
> Que eles bebessem água contaminada e não
> bebessem água pura.
> Aquele cuja sabedoria e cujas armas ataram, derrotaram e mataram aquelas tropas
> Não escreveu numa estela, não deixou nenhuma para trás por minha causa e
> (30) não granjeou um nome para si próprio, nem eu orei por ele.
> Um povo com corpos de perdiz, humanos com rostos de corvo,
> Os grandes deuses criaram-nos.
> Na terra que os deuses criaram situava-se a sua cidade.
> Tiamate amamentou-os.
> (35) A sua deusa materna, Belet-ili, embelezou-os.
> No meio das montanhas cresceram, atingiram a idade adulta,
> Adquiriram o seu porte devido. Sete reis, irmãos, afamados pela beleza,
> As suas tropas somavam 360 000 homens. Anubanini, o rei, era o seu pai; a sua mãe era a rainha Metili.
> (40) O irmão mais velho era o seu líder — Memanduh era o seu nome.
> O segundo irmão — Medudu era o seu nome.
> O terceiro irmão — Tapixe era o seu nome.
> O quarto irmão — Tartadada era o seu nome.
> O quinto irmão — Baladada era o seu nome. (45) O sexto irmão — Ahundanadi era o seu nome.
> O sétimo irmão — Hurraquidu era o seu nome.
> Cavalgavam nas montanhas resplandecentes e
> O soldado apanhou-os, mas eles bateram nas suas coxas.
> No início da sua investida, avançaram contra Purushanda.
> (50) Purushanda foi totalmente dispersa.
> Phulu foi totalmente dispersa.
> Puranshu foi totalmente dispersa.
> Decerto...
> Os poderes de Umman-manda são abatidos,
> os acampamentos de Shubat-Enlil,
> (55) E, no meio de Subartu, todos vaguearam por aí.
> Dispersaram aqueles que estavam nos mares e aproximaram-se de Guti.
> Dispersaram Guti e aproximaram-se da terra de [Elão](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-275/elao/).
> Dispersaram Elão e chegaram às planícies.
> Mataram os que se encontravam na travessia
> e atiraram-nos para
> (60) Dilmun, Makkan, Meluhla, no meio do mar, tantos quantos eram, mataram-nos.
> Dezessete reis, com 90 000 dos seus soldados, tinham vindo em seu auxílio.
> Convoquei um soldado e dei-lhe ordens.
> Entreguei-lhe um punhal e um alfinete.
> (65) "Ataca com o punhal, espeta com o alfinete.
> Se sair sangue, são humanos como nós.
> Se não sair sangue, são espíritos, demónios do submundo,
> Criaturas, fantasmas à espreita, a obra de Enlil."
> O soldado apresentou o seu relatório:
> (70) "Ataquei com o punhal, espeti com o alfinete e saiu sangue."
> Convoquei os adivinhos e dei ordens.
> Sacrifiquei sete borregos aos sete adivinhos.
> Montei os altares sagrados de caniço.
> (75) Inquiri os grandes deuses —
> Istar, Ilaba, Zababa, Anunitum, Shullat, Hanixe, o herói Xamache.
> A chave dos grandes deuses não me permitiu avançar,
> Nem tampouco uma comunicação divina em sonho.
> Assim disse a mim próprio, assim de facto falei:
> (80) "Que leão praticou a adivinhação?
> Que lobo consultou um intérprete de sonhos?
> Deixai-me ir como um bandido, seguindo o conselho do meu próprio coração.
> Deixai-me desconsiderar o conselho do deus;
> deixai-me assumir a responsabilidade por mim mesmo."
> À chegada do primeiro ano,
> (85) enviei 120 000 soldados e nem um só deles regressou com vida.
> À chegada do segundo ano, enviei 90 000 soldados e nem um
> deles regressou com vida.
> À chegada do terceiro ano, enviei 60 700 soldados, e nem um deles regressou com vida.
> Fiquei transtornado, perplexo, ansioso, angustiado e abatido.
> Assim disse a mim próprio, assim de facto falei:
> (90) "O que deixei para trás como legado do meu reinado?
> Sou um rei que não cuidou da sua terra,
> E um pastor que não cuidou do seu povo.
> Como posso continuar a avançar?
> Como posso salvar o meu país?
> O pavor dos leões, a morte, o fado, a fome,
> (95) a consternação, os calafrios, as perdas, a carência,
> A inanição, a insónia — toda a sorte de calamidade desceu sobre eles.
> No alto, na assembleia, o dilúvio foi concebido.
> Embaixo, sobre a terra, o dilúvio abateu-se.
> Ea, Senhor das profundezas, abriu a sua boca e disse,
> (100) falando aos deuses, seus irmãos:
> "Ó grandes deuses, o que fizestes?
> Falastes e eu desencadeei um dilúvio
> E para realizar aquilo que vós..."
> À chegada da festa do Ano Novo no quarto ano,
> (105) com uma prece fervorosa para que Ea,
> entre os grandes deuses, \[ouvisse\],
> Ofereci os sacrifícios sagrados do Ano Novo.
> Procurei os augúrios sagrados.
> Convoquei os adivinhos e dei ordens.
> Sacrifiquei sete borregos aos sete adivinhos.
> (110) Montei os altares sagrados de caniço.
> Inquiri os grandes deuses...
> (120) Doze soldados dentre eles fugiram de mim.
> Persegui-os, apressei-me, fui mais depressa.
> Quanto a esses soldados, alcancei-os.
> Quanto a esses soldados, trouxe-os de volta. A
> ssim disse a mim próprio, assim de facto falei:
> (125) "Sem adivinhação, não infligirei castigos.
> " Sacrifiquei um cordeiro a respeito deles.
> A chave dos grandes deuses disse: "Poupai-os."
> A brilhante Vénus aproximou-se assim de mim a partir do céu:
> "A Naram-Sin, descendente de Sargão:
> (130) cessa! Não destruirás o povo maldito!
> No futuro, Enlil há de levantá-los para o mal.
> Eles aguardam o coração furioso de Enlil.
> A cidade desses soldados será demolida.
> Queimarão e sitiadores cercarão as habitações.
> (135) A cidade derramará o seu sangue.
> A terra reduzirá a sua reserva, a tamareira o seu rendimento.
> A cidade desses soldados perecerá.
> Cidade lutará contra cidade, lar contra lar,
> Pai contra filho, irmão contra irmão, (
> 140\) Jovem contra jovem, amigo contra companheiro.
> Não falarão com verdade uns com os outros.
> Às pessoas será ensinada a falsidade e...
> Matarão essa cidade inimiga.
> Quanto a essa cidade, um inimigo tomá-la-á.
> (145) Por uma mina de prata, uma pessoa receberá uma espiga de cevada."
> Não havia rei poderoso na terra.
> Trouxe-os aos grandes deuses como tributo.
> Não os trouxe para que a minha mão os matasse.
> Quem quer que sejais, governador, príncipe ou outro,
> (150) a quem os deuses chamarem para exercer o cargo de realeza:
> Fiz-te uma caixa de tabuletas, inscrevi para ti uma estela.
> Em Cuta, no templo Emeslam,
> No santuário de [Nergal](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15602/nergal/), deixei-a para ti.
> Lê esta estela,
> (155) e atende à mensagem desta estela!
> Não te perturbes; não fiques perplexo.
> Não temas; não tremeu \[tremas\].
> Que os teus alicerces sejam firmes!
> Quanto a ti, faz o teu trabalho no abraço da tua esposa.
> (160) Fortifica as tuas muralhas.
> Enche os teus fossos com água.
> Os teus cofres, o teu grão, a tua prata,
> as tuas posses, os teus bens,
> Reúne-os na tua cidade frutífera.
> Une as tuas armas e encosta-as aos cantos.
> (165) Refreia a tua audácia,
> acautela-te!
> Caso ele vagueie pela tua terra, não saias ao seu encontro.
> Caso solte o gado, não te aproximes dele.
> Caso consuma a carne dos teus soldados,
> Caso os mate e regresse...
> (170) Mantém o autocontrolo,
> controla-te a ti mesmo.
> Responde-lhes assim:"Meu Senhor.
> Pela maldade deles, retribui com o bem.
> Pelo bem deles, retribui com presentes e mais ainda."
> Não te aproximes deles.
> 175\) Que escribas sábios
> Leiam a tua estela.
> Tu que deste leitura à minha estela,
> Tu que salvaste o teu país, Tu que me abençoaste, que um rei futuro
> (180) te abençoe.

[ ![Victory Stele of Naram-Sin](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/356.jpg?v=1792620426) Estela da Vitória de Naram-Sin Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/356/victory-stele-of-naram-sin/ "Victory Stele of Naram-Sin")### Conclusão

A literatura mesopotâmica naru, tal como foi referido, afastava-se radicalmente da inscrição oficial de um rei ao retratar frequentemente um monarca célebre sob uma luz desfavorável. Esta fórmula é evidente tanto n'*A Lenda de Cuta* como, de forma ainda mais acentuada, n'*A Maldição de Ágade*, embora ambas servissem o mesmo propósito: preservar o nome do monarca para as gerações futuras de uma forma mais pessoal do que uma inscrição oficial numa estela. A académica Gerdien Jonker explica:

> O que importava na literatura naru era a preservação da memória, condensada no nome duradouro do "remetente" \[o narrador\]... Os nomes tinham de ressoar porque as pessoas desejavam que fossem invocados após a morte.
> (pág. 96)

Pouco importava que o Naram-Sin histórico nunca tivesse combatido um exército sobre-humano nem sido derrotado; o que importava era o reconhecimento do nome e o significado associado a esse nome famoso. Ao utilizar Naram-Sin como personagem central, a mensagem tornava-se mais clara: se um grande rei podia cometer um erro de julgamento tão terrível, qualquer um o podia fazer, e o público devia aprender com o seu erro. Naram-Sin perdurou, portanto, não apenas como um famoso rei guerreiro, mas também como um exemplo das relações corretas com os deuses e da administração responsável ao deixar por escrito um relato da sua experiência.

O objetivo central da literatura mesopotâmica naru era instruir enquanto entretinha, proporcionando às pessoas um modelo de comportamento que podiam aplicar às suas próprias vidas. N'*A Lenda de Cuta*, o grande Naram-Sin humilha-se perante os deuses e é redimido após um erro trágico — e dispendioso —, e aqueles que ouviam a história compreendiam que eles próprios também podiam encontrar o perdão, por maior que fosse o seu pecado, e ser acolhidos de novo numa relação harmoniosa com os deuses.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Black, J. , et. al. . *The Literature of Ancient Sumer.* Oxford University Press, 2006.](https://www.worldhistory.org/books/0199296332/)
- [Chavalas, M. W. *Ancient Near East: Historical Sources in Translation.* Wiley-Blackwell, 2006.](https://www.worldhistory.org/books/0631235817/)
- [Jonker, G. *The Topography of Remembrance.* Brill Publishing, 1995.](https://www.worldhistory.org/books/9004101624/)
- [King, L. W. *A History of Sumer and Akkad.* Franklin Classics, 2018.](https://www.worldhistory.org/books/0342825658/)
- [Kriwaczek, P. *Babylon: Mesopotamia and The Birth of Civilization.* St. Martin's Griffin, 2012.](https://www.worldhistory.org/books/1250054168/)
- [Van De Mieroop, M. *A History of the Ancient Near East, ca. 3000-323 BC.* Wiley-Blackwell, 2015.](https://www.worldhistory.org/books/111871816X/)

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
- [Linkedin Profile](https://www.linkedin.com/pub/joshua-j-mark/38/614/339)

## Perguntas & Respostas

### O que é a Lenda de Cuta?
«A Lenda de Cuta» é um poema mesopotâmico datado do século XVII a.C., que narra uma grande batalha entre o rei acádio Naram-Sin e um exército sobrenatural. Hoje em dia, a obra seria considerada ficção histórica. 

### Qual é a mensagem central de «A Lenda de Cuta»?
A mensagem central de «A Lenda de Cuta» é que se deve confiar nos próprios deuses/em Deus, submeter-se à sua vontade; além disso, a obra também salienta a importância de deixar um relato escrito das próprias experiências com isso, para que outros possam aprender com elas. 

### «A Lenda de Cuta» baseia-se em algum acontecimento histórico?
Não. No entanto, «A Lenda de Cuta» inspira-se vagamente na invasão guti da Acádia, por volta de 2193-2154 a.C., que, segundo se diz, derrubou o Império Acádio. O poema afasta-se, contudo, significativamente do acontecimento histórico. 

### Será que «A Lenda de Cuta» foi popular na sua época?
Sim. «A Lenda de Cuta», na sua época, seria considerada hoje um best-seller. Foram encontradas cópias do poema em manuscritos da Antiga Babilónia, da Assíria, da Nova Babilónia e da Nova Assíria, entre outros. 


## Links Externos

- [Sumerian People | Naram-Sin](https://ancientmesopotamia.org/people/naram-sin)
- [Electronic Babylonian Library: The Cuthaean Legend of Naram-Sin](https://www.ebl.lmu.de/corpus/L/1/12)
- [Kutha Facts for Kids](https://kids.kiddle.co/Kutha)
- [Cultures | Gutium](https://ancientmesopotamia.org/cultures/gutium)

## Cite Este Artigo

### APA
Mark, J. J. (2026, November 05). A Lenda de Cuta: Como Relacionar-se Corretamente com o Próprio Deus. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1869/a-lenda-de-cuta/>
### Chicago
Mark, Joshua J.. "A Lenda de Cuta: Como Relacionar-se Corretamente com o Próprio Deus." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, November 05, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1869/a-lenda-de-cuta/>.
### MLA
Mark, Joshua J.. "A Lenda de Cuta: Como Relacionar-se Corretamente com o Próprio Deus." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 05 Nov 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1869/a-lenda-de-cuta/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 05 November 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

