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title: Chaucer: O Livro da Duquesa  Texto Completo e Sumário
author: Joshua J. Mark
translator: Jose Monteiro Queiroz-Neto
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1374/chaucer-o-livro-da-duquesa--texto-completo-e-sumar/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-02-04
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# Chaucer: O Livro da Duquesa  Texto Completo e Sumário

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Jose Monteiro Queiroz-Neto](https://www.worldhistory.org/user/josemonteiroque)_

O poeta inglês Geoffrey Chaucer (cerca de 1343-1400), mais conhecido por sua obra prima os *Contos de Cantuária* (*The Canterbury Tales)*, composto nos últimos doze anos de sua vida e deixado incompleto, tem n'**O** **Livro da Duquesa** (*The Book of the Duchess*) sua primeira grande obra. Apesar disso, *Os Contos de Cantuária*, publicada pela primeira vez ccerca de 1476 por William Caxton, recebeu imensa popularidade, tanto que as primeiras obras ficaram ofuscadas e só conseguiram maior atenção crítica a partir do século XIX.

Entre essas obras de descoberta tardia encontra-se **O Livro da Duquesa,** composto em cerca de 1370 em honra de Branca, Duquesa de Lancaster (1342-1368), esposa de João de Gante (1340-1399), Duque de Lancaster e melhor amigo de Chaucer. Branca morreu, provavelmente pela Peste, em 1688, com a idade de 26 anos. O Duque permaneceu enlutado pelo resto de sua vida, apesar de ter se casado novamente. **O Livro da Duquesa**, ao que parece, foi composto no segundo aniversário de sua morte, por encomenda de João de Gante, lido na cerimônia religiosa do segundo aniversário de sua morte e visivelmente apreciado pelo Duque, o que o levou a premiar Chaucer com dez libras vitaliciamente.

[ ![Chaucer Reading His Poetry to the English Court](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/10446.jpg?v=1765476849) Chaucer Lendo Sua Poesia Para a Corte Inglesa Corpus Christi College (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/10446/chaucer-reading-his-poetry-to-the-english-court/ "Chaucer Reading His Poetry to the English Court")Escrito em Inglês Medieval, o poema pertence ao gênero literário conhecido como Visão Onírica da Alta Idade Média, iniciando-se, caracteristicamente, por um narrador contando alguma situação de que tem conhecimento, caindo, em seguida, em sono profundo, o que sugere, ou claramente exibe, uma solução para o problema, sentindo-se em paz ou resignando-se à situação ao despertar. A obra de Chaucer desvia-se dessa fórmula, pois o narrador nunca tem a pretensão de ter resolvido o problema por meio de um sonho. O poema termina simplesmente com ele contando e registrando o sonho, ao acordar.

Dado isso, o poema, como um todo, deve ser compreendido como ter sido escrito após o narrador acordar de um sonho, sendo que e o problema do amor não correspondido – descrito por ele como uma “doença” que sofreu durante oito anos – continua mesmo após o sonho. Chaucer pode ter, astutamente, escrito o poema dessa maneira, para colocar em evidência a dificuldade de se ir em frente a partir de uma perda. O poema não oferece nenhuma solução ao problema a não ser um ouvinte piedoso e solidário na pessoa do narrador. Através de uma série de questões e histórias relacionadas, o narrador ajuda o cavaleiro a reviver as alegrias de seu relacionamento e expressar sua dor a respeito da perda de sua esposa, muito embora nada possa ser feito para aliviá-la.

### **Sumário**

A abertura do poema se dá com o narrador queixando-se de que não pode dormir, vivendo em uma espécie de apatia, não sentindo nem alegria e nem tristeza, não conseguindo se importar a respeito de coisa alguma, temendo que possa vir a morrer devido à sua insônia (linhas 1-29). Nas linhas 30-42 ele diz que não sabe realmente por que está passando por tudo isso, mas que pode haver apenas um médico que possa curá-lo, mas não irá consultá-lo. O poema se apoia em uma audiência familiarizada com a visão romântica do [amor cortês](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18065/amor-cortes/), um gênero poético de [literatura medieval](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17990/literatura-medieval/) desenvolvido no Sul da França no século XII, que na maioria das vezes apresenta um cavaleiro devotado a uma dama e a amando desesperadamente. A dama, na maioria das vezes nesses poemas, é mostrada como um médico que pode proporcionar uma cura tanto emocional, como espiritual ou física, ao cavaleiro, e assim, o “médico” referido pelo narrador (linha 39) é uma dama que ele ama, que tanto pode o ter abandonado ou não voltará para seu amor.

Como ele não pode dormir, o narrador lê um livro (*Metamorfose* de [Ovídio](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-561/ovidio/), mas o título nunca é mostrado) contendo a história dos amantes Seys (normalmente citado Ceice) e Alcione. Seys parte em uma viagem pelo mar e, quando não retorna no dia marcado, Alcione começa a se preocupar. Ela implora à deusa Juno por um sinal de que Seys ainda vive e suas preces são respondidas na forma de Morfeu, [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) do sono, surgindo como Seys para dizer-lhe que ele está morto. Alcione morre de tristeza após três dias (linhas 62-214). O narrador então se admira com a história e como Alcione recebeu resposta à sua oração e ele, não; por isso reza a Juno, adormece quase imediatamente e começa a sonhar (linhas 215-291).

[ ![John of Gaunt](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/10447.jpg?v=1773479291-1731943614) João de Gante N.PortuguÃªs (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/10447/john-of-gaunt/ "John of Gaunt")Ele se encontra na cama em uma manhã de maio, com pássaros cantando e rapidamente se veste para se unir a uma caçada que se encontrava em andamento. Ele se vê separado dos outros e caminha sozinho pelas florestas até que se depara com um homem vestido de negro sentado sozinho (linhas 292-445). O homem, descrito como um belo e nobre cavaleiro, está escrevendo um poema e completamente inconsciente da presença do narrador. O poema é um lamento pelo amor perdido, que o cavaleiro recita à medida que escreve, onde ele diz como o amor de sua vida havia morrido e nunca mais sentirá alegria. O narrador é tocado pelo poema e ainda mais pela óbvia tristeza do cavaleiro e passa a confortá-lo, porém o cavaleiro está tão profundamente desesperado que, inicialmente, não se dá conta do narrador (linhas 445-514).

O narrador se desculpa por perturbar o cavaleiro, diz como ele, obviamente, se encontra deprimido e pergunta o que pode fazer para ajudá-lo. O cavaleiro responde que não exista nada que possa ser feito e relata quão miserável tornou-se sua vida, como ele amaldiçoa a sorte que o tirou da felicidade e como viver é sem sentido agora, enquanto uma vez que estava animado e alegre (linhas 515-709). O narrador então tenta consolá-lo fazendo-o se lembrar da sabedoria de [Sócrates](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-339/socrates/) ao confrontar o destino e quantos amantes famosos haviam sofrido por toda a história, como Medeia com Jasão, Dido com Eneias, Sansão com Dalila (linhas 710-740).

O cavaleiro lhe diz que não conhece o que ele está se referindo, porque o cavaleiro havia perdido mais que quaisquer das pessoas citadas e lhe diz para sentar-se e que ele iria esclarecer o problema. O cavaleiro diz ao narrador como encontrou essa linda mulher, apaixonou-se e casou-se com ela (linhas 741-1041). O narrador o interrompe para dizer como sua esposa parece muito linda, mas ela não parece ter sido tão perfeita como o cavaleiro a descreve. O cavaleiro responde dizendo como todos a viam da mesma maneira e nunca houve ninguém tão bela ou amável ou gentil como ela (linhas 1042-1111). O narrador ainda não compreendeu o problema do cavaleiro e lhe pergunta para contar suas primeiras palavras um com o outro e como ela veio a saber que ela a amava e questiona, então, simplesmente o que havia de errado com o relacionamento (linhas 1112-1144).

Após agradecer, o cavaleiro fala ao narrador a respeito da primeira música que compôs para ela, de seu relacionamento e quanto ela significava para ele (linhas 1145-1297). “**Onde ela está agora?**”, pergunta o narrador, e o cavaleiro responde, “**Ela está morta**”, ao que o narrador exclama, “*Be God, hyt is routhe*!” (literalmente, “**Por Deus, isto é uma pena**”, melhor traduzido como, “**Eu sinto muito!**”) e instantaneamente ouvem o grupo de caçadores retornando. Então, ele acorda do sonho e encontra em sua cama o livro de *Says e Alcione*, impressionado pelo sonho que teve e diz como soube que precisava registrar, imediatamente, tudo isso por escrito (linhas 1298-1334). O poema se encerra com o narrador dizendo como ele fez isso e seu sonho desapareceu.

### **O Texto**

Como todos as obras de Chaucer, **O Livro da Duquesa** foi escrito em inglês medieval (*Middle English*), bem antes da padronização da língua pelo poeta, escritor e lexicógrafo Samuel Johnson (1709-1784), que escreveu o primeiro dicionário da língua inglesa. As palavras são escritas como soavam e o poema foi escrito para ser lido em voz alta. Lido silenciosamente, o significado de uma palavra nem sempre é claro, ao contrário da leitura em voz alta, e dentro do contexto da frase, é melhor compreendido. A primeira linha, p.ex., “*I have gret wonder, be this lygh*t”, é claramente “*I have great wonder, by this light*” (fico admirado por essa luz) quando pronunciada em voz alta.

A letra “Y” representa “I”, mas os assentos silábicos (fortes ou fracos) seguem a rima do poema, e, por isso, o “Y” algumas vezes como “ee” (i) e outras vezes como “ee-uh” (i-a). A palavra “*quod*” ou “*quoth*” significam “falar” e “*a sweven*” é “um sonho. Outras palavras, que à primeira vista podem parecer estranhas, tornam‑se inteligíveis dentro do contexto da frase, onde a grafia de uma palavra anterior, mais próxima do inglês moderno, esclarece o significado. O texto em inglês foi baixado do site Libarius.com, (citado na bibliografia ao final do artigo) que fornece hyperlinks e um glossário para o Inglês Medieval, sendo a versão padrão encontrada no **Riverside Chaucer** editado pelo estudioso ***Larry D. Benson*** (1929-2015).

> (N.T.: Foram utilizados:
> - o *Middle-english Glosary*, citado em ***The Book of the Duchess on Librarius.com (middle-english hypertext with glossary)*** disponível em **http://www.librarius.com/duchessfs.htm**, acessado dias 7-8-9 dezembro/2025;
> - **Winge, Carolina “O Livro da Duquesa”**: **trazendo uma elegia medieval para o público jovem brasileiro. 2022, Disponível em ** Acessado dias 7-8-9 de dezembro/2025);
> - e, o **Copilot** \[Assistente de IA\], Microsoft .

### **O Livro da Duquesa Tradução Literal**

> Tenho grande espanto, por esta luz,
> de como eu vivo, pois, dia nem noite
> eu não posso dormir quase nada,
> tenho tantos pensamentos ociosos
> puramente por falta de sono
> que, pela minha fé, não dou atenção
> a nada, como vem ou vai,
> nem nada me é caro nem odioso.
> Tudo me é igualmente bom —
> alegria ou tristeza, onde quer que esteja —
> pois não tenho sentimento em nada,
> senão, como se fosse, uma coisa aturdida,
> sempre a ponto de cair abaixo;
> pois a imaginação dolorosa
> está sempre inteira na minha mente.
> E bem sabeis, contra a natureza
> seria viver deste modo;
> pois a natureza não consentiria
> a nenhuma criatura terrena
> por longo tempo suportar
> sem sono, e estar em tristeza;
> e eu não posso, nem de noite nem de manhã,
> dormir; e assim melancolia
> e temor eu tenho de morrer,
> falta de sono e pesadume
> matou meu espírito de vivacidade,
> de modo que perdi toda a alegria.
> Tais fantasias há na minha cabeça
> de modo que eu não sei o que é melhor fazer.
> Mas os homens poderiam perguntar-me, por que assim
> Eu não posso dormir, e o que me é?
> Mas, no entanto, quem pergunta isto
> Perde sua pergunta verdadeiramente.
> Eu mesmo não posso dizer por que
> A verdade; mas verdadeiramente, como eu suponho,
> Eu considero que seja uma doença
> Que eu tenho sofrido estes oito anos,
> E ainda minha cura nunca está mais perto;
> Pois há apenas um médico,
> Que pode me curar; mas isso está feito.
> Passemos adiante até depois;
> O que não pode ser, precisa ser deixado;
> Nossa primeira matéria é boa de manter.
> Então quando vi que não podia dormir,
> Até agora tarde, nesta outra noite,
> Sobre minha cama eu sentei ereto
> E mandei alguém trazer-me um livro,
> Um romance, e ele me trouxe
> Para ler e afastar a noite;
> Pois me pareceu melhor passatempo
> Do que jogar xadrez ou dados.
> E neste livro estavam escritas fábulas
> Que clérigos tinham, em tempos antigos,
> E outros poetas, postos em rima
> Para ler, e para estar em mente
> Enquanto os homens amavam a lei da natureza.
> Este livro não falava senão de tais coisas,
> Das vidas de rainhas, e de reis,
> E muitas outras coisas pequenas.
> Entre tudo isso encontrei uma história
> Que me pareceu uma coisa maravilhosa.
> Esta era a história: Havia um rei
> Chamado Seys, e tinha uma esposa,
> A melhor que poderia ter vida;
> E esta rainha chamava-se Alcyone.
> E aconteceu, logo depois,
> Que este rei quis ir além-mar.
> Para contar brevemente, quando ele
> Estava no mar, assim desta maneira,
> Tal tempestade começou a surgir
> Que quebrou seu mastro, e o fez cair,
> E rachou seu navio, e afogou todos eles,
> Que nunca foram encontrados, como se conta,
> Nem tábua nem homem, nem nada mais.
> Assim exatamente este rei Seys perdeu sua vida.
> Agora para falar de sua esposa: —
> Esta senhora, que ficou em casa,
> Estranhava que o rei não viesse
> Para casa, pois era um longo tempo.
> Logo seu coração começou a doer;
> E porque lhe parecia sempre
> Que não estava bem que ele demorasse assim,
> Ela ansiava tanto pelo rei
> Que, certamente, seria uma coisa piedosa
> Contar sua vida de dor sincera
> Que tinha, ai de mim! esta nobre esposa;
> Pois a ele ela amava acima de todos.
> Logo ela enviou tanto a leste como a oeste
> Para procurá-lo, mas nada encontraram.
> “Alas!” disse ela, “que eu fui feita!
> E onde meu senhor, meu amor, está morto?
> Certamente, eu nunca comerei pão,
> Eu faço um voto ao meu deus aqui,
> A menos que eu possa ouvir de meu senhor!”
> Tal tristeza esta senhora tomou para si
> Que verdadeiramente eu, que fiz este livro,
> Tive tal piedade e tal compaixão
> Ao ler sua dor, que, por minha fé,
> Eu fiquei pior todo o dia seguinte
> Depois, ao pensar em sua dor.
> Então, quando ela não podia ouvir palavra
> Que nenhum homem pudesse encontrar seu senhor,
> Muito frequentemente ela desmaiava, e dizia “Alas!”
> Por tristeza quase louca ela estava,
> Nem podia ter conselho senão um;
> Mas de joelhos ela se pôs logo,
> E chorou, que era piedoso de ouvir.
> “Ah! misericórdia! Doce senhora querida!”
> Disse ela a Juno, sua deusa;
> “Ajuda-me fora desta aflição,
> E dá-me graça de ver meu senhor
> Logo, ou saber onde quer que ele esteja,
> Ou como ele está, ou de que maneira,
> E eu farei a ti sacrifício,
> E inteiramente tua me tornarei
> Com boa vontade, corpo, coração, e tudo;
> E a menos que tu queiras isto, doce senhora,
> Envia-me graça de dormir, e sonhar
> Em meu sono algum certo sonho,
> Por meio do qual eu possa saber exatamente
> Se meu senhor está vivo ou morto.”
> Com essa palavra ela baixou a cabeça,
> E caiu desmaiada como pedra fria;
> Suas mulheres a levantaram logo,
> E a trouxeram para a cama toda nua,
> E ela, muito chorada e muito acordada,
> Estava cansada, e assim o sono real
> Caiu sobre ela, antes que percebesse,
> Por Juno, que tinha ouvido sua súplica,
> Que a fez dormir logo;
> Pois como ela rezou, assim foi feito,
> De fato; pois Juno, imediatamente,
> Chamou assim seu mensageiro
> Para fazer sua missão, e ele veio perto.
> Quando ele veio, ela lhe disse assim:
> “Vai depressa,” disse Juno, “a Morfeu,
> Tu o conheces bem, o deus do sono;
> Agora entende bem, e toma cuidado.
> Dize assim em meu nome, que ele
> Vá rápido ao grande mar,
> E ordena-lhe que, acima de tudo,
> Ele [levante](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-178/levante/) o corpo de Seys o rei,
> Que jaz muito pálido e nada rosado.
> Ordena-lhe que entre no corpo,
> E o faça ir até Alcyone
> A rainha, onde ela jaz sozinha,
> E mostre-lhe logo, sem dúvida,
> Como foi afogado no outro dia;
> E faça o corpo falar assim
> Exatamente como costumava fazer,
> Enquanto estava vivo.
> Vai agora rápido, e apressa-te logo!”
> Este mensageiro tomou licença e foi
> Em seu caminho, e nunca parou
> Até que chegou ao vale escuro
> Que está entre duas rochas,
> Onde nunca ainda cresceu trigo nem grama,
> Nem árvore, nem nada que fosse,
> Animal, nem homem, nem nada mais,
> Exceto que havia alguns poços
> Que corriam das falésias abaixo,
> Que faziam um som mortal de sono,
> E corriam direto por uma caverna
> Que estava sob uma rocha escavada
> No meio do vale, maravilhosamente profundo.
> Ali estes deuses jaziam e dormiam,
> Morfeu, e Eclympasteyre,
> Que era o herdeiro do deus dos sonos,
> Que dormia e não fazia outro trabalho.
> Esta caverna era também tão escura
> Como o poço do inferno por toda parte;
> Eles tinham bom lazer para roncar
> Competindo, quem poderia dormir melhor;
> Alguns penduravam o queixo sobre o peito
> E dormiam eretos, a cabeça coberta,
> E alguns jaziam nus em sua cama,
> E dormiam enquanto duravam os dias.
> Este mensageiro veio voando rápido,
> E gritou, “Oh! Acordai logo!”
> Foi em vão; nenhum o ouviu.
> “Acordai!” disse ele, “quem está deitado aí?”
> E soprou sua trompa bem em seu ouvido,
> E gritou “acordai!” muito alto.
> Este deus do sono, com um olho
> Levantado, perguntou, “quem chama aí?”
> “Sou eu,” disse este mensageiro;
> “Juno mandou que tu fosses” —
> E contou-lhe o que devia fazer
> Como eu vos disse antes;
> Não há necessidade de repetir mais;
> E foi embora, quando tinha dito.
> Logo este deus do sono despertou
> De seu sono, e começou a ir,
> E fez como lhe tinham ordenado;
> Levantou logo o corpo afogado,
> E o levou até Alcyone,
> Sua esposa a rainha, onde ela estava deitada,
> Exatamente um quarto antes do dia,
> E ficou bem aos pés de sua cama.
> E chamou-a, exatamente como ela se chamava,
> Pelo nome, e disse: “Minha doce esposa,
> Acorda! Deixa tua vida dolorosa!
> Pois em tua dor não há conselho;
> Pois certamente, doce, eu não sou senão morto;
> Tu nunca me verás vivo.
> Mas, doce coração, olha que tu
> Sepultes meu corpo, que em certo tempo
> Tu poderás encontrá-lo junto ao mar;
> E adeus, doce, minha felicidade terrena!
> Eu peço a Deus que alivie tua dor;
> Muito pouco tempo nossa alegria durou!”
> Com isso seus olhos ela levantou,
> E nada viu; “Ah!” disse ela, “por dor!”
> E morreu dentro do terceiro dia.
> Mas o que ela disse mais naquele desmaio
> Eu não posso contar-vos agora,
> Seria muito longo de permanecer;
> Minha primeira matéria eu vos direi,
> Por que eu contei esta coisa
> De Alcione e do rei Seys.
> Pois assim muito ouso dizer bem,
> Eu teria sido enterrado completamente,
> E morto, justamente por falta de sono,
> Se eu não tivesse lido e tomado cuidado
> Desta história logo antes:
> E eu vos direi por quê:
> Pois eu não podia, por remédio nem por dor,
> Dormir, até que tivesse lido esta história
> Deste afogado rei Seys,
> E dos deuses do sono.
> Quando eu tinha lido esta história bem
> E revisado-a completamente,
> Pareceu-me maravilhoso se fosse assim;
> Pois eu nunca tinha ouvido falar, até então,
> De nenhum deus que pudesse fazer
> Os homens dormir, nem acordar;
> Pois eu nunca conheci deus senão um.
> E em meu divertimento eu disse logo —
> E ainda me parecia muito ruim brincar —
> “Antes que eu devesse morrer
> Por falta de sono assim,
> Eu daria àquele Morfeu,
> Ou à sua deusa, senhora Juno,
> Ou a algum outro, não me importava quem —
> Para me fazer dormir e ter algum descanso —
> Eu lhe daria o melhor
> Presente que jamais ele recebeu em sua vida,
> E aqui no mundo, agora mesmo, rapidamente;
> Se ele me fizer dormir um pouco,
> De penugem de pombas brancas puras
> Eu lhe darei uma cama de penas,
> Listada com ouro, e muito bem coberta
> Em fino cetim negro de ultramar,
> E muitos travesseiros, e cada coberta
> De tecido de Reims, para dormir suave;
> Ele não teria necessidade de se virar frequentemente.
> E eu lhe darei tudo o que pertence
> A um quarto; e todas as suas salas
> Eu mandarei pintar com ouro puro,
> E tapetá-las muitas vezes
> De uma só cor; isto ele terá,
> Se eu soubesse onde era sua caverna,
> Se ele pode me fazer dormir logo,
> Como fez a deusa Alcione.
> E assim este mesmo deus, Morfeu,
> Pode ganhar de mim mais recompensas assim
> Do que jamais ganhou; e para Juno,
> Que é sua deusa, eu farei assim,
> Creio que ela ficará satisfeita.”
> Eu mal tinha essa palavra dito
> Exatamente assim como vos contei,
> Que de repente, não sei como,
> Tal desejo logo me tomou
> De dormir, que exatamente sobre meu livro
> Eu caí adormecido, e com isso mesmo
> Me veio tão doce um sonho,
> Tão maravilhoso, que nunca ainda
> Creio que nenhum homem teve o saber
> De interpretar bem meu sonho;
> Nem mesmo José, sem dúvida,
> Do Egito, aquele que interpretou
> O sonho do rei [Faraó](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-288/farao/),
> Nem mais do que poderia o menor de nós;
> Nem sequer Macróbio,
> (Aquele que escreveu toda a visão
> Que ele sonhou, o rei Cipião,
> O nobre homem, o Africano —
> Tais maravilhas aconteceram então)
> Creio que poderia interpretar meus sonhos exatamente.
> Eis, assim foi, este foi meu sonho.
> Pareceu-me assim: — que era maio,
> E no amanhecer ali eu estava deitado,
> Me veio assim, em minha cama todo nu: —
> Olhei para fora, pois eu estava acordado
> Com pequenos pássaros em grande quantidade,
> Que me assustaram fora do sono
> Por barulho e doçura de seu canto;
> E, como me pareceu, eles se sentaram juntos,
> Sobre o telhado de meu quarto do lado de fora,
> Sobre as telhas, por todo lado,
> E cantaram, cada um em seu modo,
> O mais solene serviço
> Por nota, que jamais homem, creio,
> Ouviu; pois alguns deles cantaram baixo,
> Alguns alto, e todos em um acorde.
> Para dizer brevemente, em uma palavra,
> Nunca foi ouvido tão doce som,
> Exceto se fosse uma coisa do céu; —
> Tão alegre um som, tão doces entonações,
> Que certamente, pela cidade de Tunes,
> Eu não deixaria de ouvi-los cantar,
> Pois todo meu quarto começou a ressoar
> Pelo canto de sua harmonia.
> Pois instrumento nem melodia
> Nunca foi ouvido ainda metade tão doce,
> Nem em acorde metade tão adequado;
> Pois não havia nenhum deles que fingisse
> Cantar, pois cada um se esforçava
> Para encontrar notas alegres e engenhosas;
> Eles não pouparam suas gargantas.
> E, para dizer a verdade, meu quarto estava
> Muito bem pintado, e com vidro
> Todas as janelas bem envidraçadas,
> Muito claras, e não uma rachada,
> Que ao ver era grande alegria.
> Pois totalmente toda a história de [Troia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-372/troia/)
> Estava no vitral assim trabalhada,
> De Heitor e do rei Príamo,
> De [Aquiles](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10354/aquiles/) e do rei Laomedonte,
> De Medeia e de Jasão,
> De Páris, Helena, e Lavínia.
> E todas as paredes com cores finas
> Estavam pintadas, tanto texto como glosa,
> De todo o Romance da Rosa.
> Minhas janelas estavam fechadas todas,
> E através do vidro o sol brilhava
> Sobre minha cama com raios brilhantes,
> Com muitos alegres feixes dourados;
> E também o céu estava tão belo,
> Azul, brilhante, claro estava o ar,
> E muito temperado de fato estava;
> Pois nem frio nem quente estava,
> Nem em todo o céu havia uma nuvem.
> E enquanto eu estava assim, maravilhosamente alto
> Pareceu-me ouvir um caçador soprar
> Para testar sua trompa, e para saber
> Se estava clara ou rouca de som.
> Eu ouvi indo, para cima e para baixo,
> Homens, cavalos, cães, e outras coisas;
> E todos os homens falavam de caça,
> Como eles queriam matar o cervo com força,
> E como o cervo tinha, em comprimento,
> Tão muito emboscado, não sei o quê.
> Logo, quando ouvi isso,
> Como eles queriam ir caçar,
> Eu fiquei muito alegre, e levantei logo;
> Peguei meu cavalo, e fui adiante
> Fora de meu quarto; nunca parei
> Até que cheguei ao campo fora.
> Ali alcancei uma grande multidão
> De caçadores e também de guardas florestais,
> Com muitos cães de caça e coleiras,
> E apressaram-se para a floresta rapidamente,
> E eu com eles; — assim, ao fim
> Perguntei a um, que conduzia um cão de caça:
> “Dize, companheiro, quem vai caçar aqui?”
> Disse eu, e ele respondeu de novo,
> “Senhor, o imperador Otaviano,”
> Disse ele, “e está aqui bem perto.”
> “Por Deus, em boa hora,” disse eu,
> “Vamos rápido!” e comecei a cavalgar.
> Quando chegamos à beira da floresta,
> Cada homem fez, logo,
> Como à caça cabia fazer.
> O mestre-caçador logo, a pé,
> Com uma grande trompa soprou três chamadas
> No desencadeamento de seus cães.
> Dentro de pouco tempo o cervo foi encontrado,
> Saudado, e perseguido rapidamente
> Por longo tempo; e assim, ao fim,
> Este cervo se levantou e escapou
> De todos os cães por um caminho secreto.
> Os cães tinham ultrapassado todos,
> E estavam em uma falta caídos;
> Com isso o caçador muito rápido
> Soprou um chamado de retorno ao fim.
> Eu tinha me afastado de minha árvore,
> E enquanto eu ia, ali veio a mim
> Um filhote, que me acariciou enquanto eu estava parado,
> Que tinha seguido, e não sabia nada.
> Ele veio e rastejou até mim tão baixo,
> Exatamente como se me conhecesse,
> Baixou sua cabeça e juntou suas orelhas,
> E deitou suavemente todos os seus pelos.
> Eu quis pegá-lo, e logo
> Ele fugiu, e estava de mim ido;
> E eu o segui, e ele adiante foi
> Por um caminho verde florido
> Muito espesso de grama, muito suave e doce.
> Com muitas flores, belas sob os pés,
> E pouco usadas, parecia assim;
> Pois tanto Flora como Zéfiro,
> Esses dois que fazem flores crescer,
> Tinham feito sua morada ali, creio eu;
> Pois era, ao se olhar,
> Como se a terra quisesse competir
> Para ser mais bela que o céu,
> Para ter mais flores, tantas quanto
> Há estrelas no firmamento.
> Ela havia esquecido a pobreza
> Que o inverno, através de suas manhãs frias,
> A fizera sofrer, e suas dores;
> Tudo estava esquecido, e isso se via.
> Pois toda a floresta estava tornada verde,
> A doçura do orvalho a fizera crescer.
> Não há necessidade também de perguntar
> Se havia muitos bosques verdes,
> Ou espessura de árvores, tão cheias de folhas;
> E cada árvore estava separada
> Das outras por dez ou doze pés.
> Tão grandes árvores, tão fortes,
> De quarenta ou cinquenta braças de comprimento,
> Limpas sem galho ou ramo,
> Com copas largas, e também tão espessas —
> Não estavam nem uma polegada separadas —
> Que havia sombra por todo lado embaixo;
> E muitos cervos e muitas corças
> Estavam tanto diante de mim como atrás.
> De veados, javalis, bodes, cabras
> Estava cheia a floresta, e muitos corços,
> E muitos esquilos que se sentavam
> Bem alto sobre as árvores, e comiam,
> E à sua maneira faziam festas.
> Em resumo, estava tão cheia de animais,
> Que mesmo Argos, o nobre contador,
> Sentado para calcular em seu ábaco,
> E calcular com seus dez algarismos —
> Pois por esses algarismos todos podem saber,
> Se forem hábeis, contar e numerar,
> E dizer de cada coisa o número —
> Ainda assim falharia em contar exatamente
> As maravilhas que me apareceram em meu sonho.
> Mas adiante eles vagaram muito rápido
> Pela floresta; e assim, ao fim,
> Notei um homem de preto,
> Que estava sentado e tinha voltado suas costas
> A um carvalho, uma enorme árvore.
> “Senhor,” pensei eu, “quem pode ser?”
> “O que o aflige para sentar-se aqui?”
> Logo fui mais perto;
> Então encontrei sentado bem ereto
> Um cavaleiro maravilhosamente bem-apessoado
> Pela aparência me pareceu assim —
> De boa estatura, e jovem também,
> De idade de vinte e quatro anos.
> Na barba apenas pouco cabelo,
> E ele estava vestido todo de preto.
> Aproximei-me até suas costas,
> E ali fiquei tão quieto quanto possível,
> Que, para dizer a verdade, ele não me viu,
> Pois tinha a cabeça pendida para baixo.
> E com um som mortal e doloroso
> Ele fez em rima dez ou doze versos
> De uma lamentação para si mesmo,
> A mais piedosa, a mais compassiva,
> Que jamais ouvi; pois, por minha fé,
> Era grande maravilha que a natureza
> Pudesse permitir a qualquer criatura
> Ter tal dor, e não estar morto.
> Muito lamentoso, pálido, e nada vermelho,
> Ele disse um canto, uma espécie de canção,
> Sem nota, sem melodia,
> E era isto; pois bem posso
> Repeti-lo; exatamente assim começou: —
> “Eu tenho de dor tão grande quantidade,
> Que alegria nunca obtenho nenhuma,
> Agora que vejo minha senhora brilhante,
> A quem amei com toda minha força,
> Está de mim morta, e se foi.
> E assim em dor me deixou sozinho.
> “Alas, ó morte! O que te aflige,
> Que não quiseste ter levado a mim,
> Quando tomaste minha doce senhora?
> Que era tão bela, tão fresca, tão livre,
> Tão boa, que os homens podem bem ver
> De toda bondade ela não tinha igual!”
> Quando ele tinha feito assim sua lamentação,
> Seu coração doloroso começou logo a desfalecer,
> E seus espíritos tornaram-se mortos;
> O sangue fugiu, por puro medo,
> Para baixo ao coração, para aquecê-lo —
> Pois bem se sentia que o coração tinha dano —
> Para saber também por que estava assustado,
> Por natureza, e para fazê-lo alegre;
> Pois é membro principal
> Do corpo; e isso fez todo
> Seu aspecto mudar e tornar-se verde
> E pálido, pois não se via sangue
> Em nenhum membro de seu corpo.
> Logo com isso, quando vi isto,
> Ele estava tão mal ali sentado,
> Eu fui e fiquei bem a seus pés,
> E cumprimentei-o, mas ele não falou,
> Mas discutia com seu próprio pensamento,
> E em sua mente disputava intensamente
> Por que e como sua vida poderia durar;
> Parecia-lhe que suas dores eram tão fortes
> E jaziam tão frias sobre seu coração;
> Assim, através de sua dor e pensamento pesado,
> Fez com que ele não me ouvisse;
> Pois ele tinha quase perdido sua mente,
> Embora Pã, que os homens chamam deus da natureza,
> Fosse por suas dores nunca tão irado.
> Mas ao fim, para dizer a verdade,
> Ele percebeu-me, como eu estava
> Diante dele, e tirei meu capuz,
> E cumprimentei-o, como melhor pude.
> Gentilmente, e nada alto,
> Ele disse: “Eu te peço, não fiques irado,
> Eu não te ouvi, para dizer a verdade,
> Nem te vi, senhor, verdadeiramente.”
> “Ah! bom senhor, não importa,” disse eu,
> “Estou muito triste se de alguma forma
> Vos perturbei fora de vosso pensamento;
> Perdoai-me se errei.”
> “Sim, a reparação é fácil de fazer,”
> Disse ele, “pois não há nada para isso;
> Não há nada maldito nem feito.”
> Vede! quão bondosamente falou este cavaleiro,
> Como se fosse outro homem;
> Ele não fez nem áspero nem estranho
> E eu vi isso, e comecei a me familiarizar
> Com ele, e achei-o tão tratável,
> Realmente maravilhosamente hábil e razoável,
> Como me pareceu, apesar de sua dor.
> Logo comecei a encontrar uma conversa
> Com ele, para ver se eu poderia
> Ter mais conhecimento de seu pensamento.
> “Senhor,” disse eu, “esta caça está acabada;
> Creio que este cervo se foi;
> Estes caçadores não podem vê-lo em lugar algum.”
> “Não me importa disso,” disse ele,
> “Meu pensamento não está nisso nem um pouco.”
> “Por nosso Senhor,” disse eu, “creio em vós,
> Assim me parece por vossa expressão.
> Mas, senhor, uma coisa quereis ouvir?
> Parece-me, em grande dor vos vejo;
> Mas certamente, bom senhor, se vós
> Quiserdes revelar-me vossa dor,
> Eu, como Deus me ajude,
> A emendarei, se eu puder ou for capaz;
> Vós podeis provar isso por tentativa.
> Pois, por minha fé, para vos curar,
> Eu farei todo meu poder inteiro;
> E contai-me de vossas dores agudas,
> Porventura isso possa aliviar vosso coração,
> Que parece muito doente sob vosso lado.”
> Com isso ele olhou para mim de lado,
> Como quem diz, “Não, isso não será.”
> “Muito obrigado, bom amigo,” disse ele,
> “Agradeço-te que quiseste assim,
> Mas isso nunca poderá ser feito,
> Nenhum homem pode alegrar minha dor,
> Que faz meu aspecto cair e desbotar,
> E perdeu meu entendimento,
> Que me é dor que eu tenha nascido!
> Não pode fazer minhas dores passar,
> Nem os remédios de Ovídio;
> Nem [Orfeu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11694/orfeu/), deus da melodia,
> Nem Dédalo, com jogos engenhosos;
> Nem pode curar-me médico,
> Nem [Hipócrates](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10391/hipocrates/), nem [Galeno](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10393/galeno/);
> É-me dor que eu viva doze horas;
> Mas quem quiser tentar a si mesmo
> Se seu coração pode ter piedade
> De alguma dor, que me veja.
> Eu, miserável, que a morte tornou todo nu
> De toda alegria que jamais foi feita,
> Tornei-me o pior de todos os homens,
> Que odeio meus dias e minhas noites;
> Minha vida, meus prazeres me são odiosos,
> Pois todo bem-estar e eu estamos em guerra.
> A própria morte é tanto minha inimiga
> Que embora eu queira morrer, não quer assim;
> Pois quando eu a sigo, ela foge;
> Eu quero tê-la, ela não me quer.
> Esta é minha dor sem conselho,
> Sempre morrendo e não estando morto,
> Que [Sísifo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13620/sisifo/), que jaz no inferno,
> Não pode de maior dor contar.
> E quem soubesse tudo, por minha fé,
> Minha dor, mas se tivesse compaixão
> E piedade de minhas dores agudas,
> Esse homem teria um coração demoníaco.
> Pois quem me vê primeiro pela manhã
> Pode dizer, encontrou-se com a dor;
> Pois eu sou dor e dor sou eu.
> “Alas! e eu vos direi por quê;
> Minha canção está tornada em lamentação,
> E todo meu riso em choro,
> Meus pensamentos alegres em tristeza,
> Em trabalho está minha ociosidade
> E também meu descanso; meu bem é dor,
> Meu bom é dano, e sempre
> Em ira é transformado meu brincar,
> E meu deleite em sofrimento.
> Minha saúde é transformada em doença,
> Em medo está toda minha segurança.
> Em escuridão é transformada toda minha luz,
> Meu juízo é loucura, meu dia é noite,
> Meu amor é ódio, meu sono vigília,
> Minha alegria e refeições são jejum,
> Minha aparência é tolice,
> E todo confuso onde quer que eu esteja,
> Minha paz, em disputa e em guerra;
> Alas, como poderia eu estar pior?
> Minha ousadia é transformada em vergonha,
> Pois falsa Fortuna jogou um jogo
> De xadrez comigo, alas, nesse tempo!
> A traidora falsa e cheia de engano,
> Que tudo promete e nada cumpre,
> Ela anda ereta e ainda manca,
> Que mendiga feia e olha bela,
> A desprezosa cortês,
> Que escarnece de muitas criaturas!
> Um ídolo de falsa aparência
> É ela, pois logo se vira;
> Ela é a cabeça do monstro coberta,
> Como sujeira espalhada com flores;
> Seu maior louvor e sua flor é
> Mentir, pois isso é sua natureza;
> Sem fé, lei ou medida.
> Ela é falsa; e sempre rindo
> Com um olho, e o outro chorando.
> Aquilo que ela eleva, ela põe abaixo.
> Eu a comparo ao escorpião,
> Que é uma besta falsa e lisonjeira;
> Pois com sua cabeça ele faz festa,
> Mas bem no meio de sua lisonja
> Com sua cauda ele vai picar,
> E envenenar; e assim fará ela.
> Ela é a caridade invejosa
> Que é sempre falsa, e parece boa,
> Assim ela gira sua falsa roda
> Ao redor, pois não é nada estável,
> Ora junto ao fogo, ora à mesa;
> Muito de muitos ela enganou assim;
> Ela é jogo de encantamento,
> Que parece uma coisa e não é,
> A falsa ladra! O que ela fez,
> Crês tu? Por nosso Senhor, eu te direi.
> No xadrez comigo ela começou a jogar;
> Com seus falsos lances diversos
> Ela me atacou, e tomou minha dama.
> E quando vi minha dama perdida,
> Alas! Eu não podia mais jogar,
> Mas disse: “Adeus, doce, em verdade,
> E adeus a tudo que jamais houve!”
> Com isso Fortuna disse: “Xeque!”
> E “Mate!” no meio do tabuleiro
> Com um peão errante, alas!
> Muito mais hábil para jogar ela era
> Do que Athalus, que fez o jogo
> Primeiro do xadrez: assim era seu nome.
> Mas Deus queira que eu tivesse uma ou duas vezes
> Sabido e conhecido os perigos
> Que sabia o grego Pitágoras!
> Eu teria jogado melhor no xadrez,
> E guardado minha dama melhor assim;
> E ainda, para quê? Pois verdadeiramente,
> Eu considero esse desejo sem valor!
> Nunca teria sido melhor para mim.
> Pois Fortuna conhece tantas astúcias,
> Há poucos que podem enganá-la,
> E também ela é a menos a culpar;
> Eu mesmo teria feito o mesmo,
> Perante Deus, se eu fosse como ela;
> Ela deve ser mais desculpada.
> Pois isto eu digo ainda mais além,
> Se eu fosse Deus e pudesse fazer
> Minha vontade, quando ela tomou minha dama,
> Eu teria feito o mesmo lance.
> Pois, assim como Deus me dê descanso,
> Eu ouso jurar que ela tomou o melhor!
> Mas através desse lance eu perdi
> Minha felicidade; alas! que eu nasci!
> Pois sempre, eu creio verdadeiramente,
> Todo meu desejo, minha vontade inteira
> Está transformada; mas ainda o que fazer?
> Por nosso Senhor, é morrer logo;
> Pois nada eu acredito senão isto,
> Mas viver e morrer exatamente neste pensamento.
> Não há planeta no firmamento,
> Nem no ar, nem na terra, nenhum elemento,
> Que não me dê cada um
> Um dom de choro, quando estou sozinho.
> Pois quando eu considero bem,
> E penso completamente,
> Como ali jaz em conta,
> Em minha dor por nada;
> E como não resta alegria
> Que possa alegrar-me em minha aflição,
> E como perdi suficiência,
> E além disso não tenho prazer,
> Então posso dizer, não tenho nada.
> E quando tudo isto cai em meu pensamento,
> Alas! então sou vencido!
> Pois o que está feito não pode voltar!
> Tenho mais dor do que Tântalo.”
> E quando eu o ouvi contar esta história
> Assim piedosamente, como vos digo,
> Mal podia eu permanecer mais,
> Fez tanto mal a meu coração.
> “Ah! bom senhor!” disse eu, “não diga assim!
> Tende alguma piedade de vossa natureza
> Que vos formou como criatura,
> Lembrai-vos de Sócrates;
> Pois ele não contava três palhas
> De nada que Fortuna pudesse fazer.”
> “Não,” disse ele, “eu não posso assim.”
> “Por que não, bom senhor! Por Deus!” disse eu;
> “Não digais assim, pois verdadeiramente,
> Ainda que tivésseis perdido as damas doze,
> E vós por dor matásseis a vós mesmo,
> Seríeis condenado neste caso
> Com tanto direito quanto Medeia foi,
> Que matou seus filhos por Jasão;
> E também Phyllis por Demofonte
> Enforcou-se, ai de mim!
> Pois ele tinha quebrado seu prazo
> De vir a ela. Outra loucura
> Teve Dido, rainha também de [Cartago](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-205/cartago/),
> Que matou-se porque Eneias
> Foi falso; que tola ela foi!
> E Eco morreu por [Narciso](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15724/narciso/).
> Não quis amá-la; e exatamente assim
> Muitos outros fizeram loucura.
> E por Dalila morreu Sansão,
> Que matou-se com uma coluna.
> Mas não há ninguém vivo aqui
> Que por uma dama fizesse tal dor!”
> “Por que assim?” disse ele; “não é assim,
> Tu sabes muito pouco o que queres dizer;
> Eu perdi mais do que tu pensas.”
> “Vede, senhor, como pode ser?” disse eu;
> “Bom senhor, dizei-me completamente
> De que modo, como, por quê, e por qual razão
> Que vós assim perdestes vossa felicidade,”
> “De bom grado,” disse ele, “vem sentar-te,
> Eu te direi sob condição
> Que tu completamente, com todo teu entendimento,
> Faças tua intenção de ouvir isto.”
> “Sim, senhor.” “Jura tua fé nisso.”
> “De bom grado.” “Então mantém nisso!”
> “Eu ouvirei muito alegremente, assim Deus me salve,
> Completamente, com todo o entendimento que tenho,
> A vós, o melhor que posso.”
> “Por Deus!” disse ele, e começou: —
> “Senhor,” disse ele, “desde que primeiro eu pude
> Ter qualquer tipo de entendimento desde a juventude,
> Ou naturalmente compreensão
> Para compreender, em qualquer coisa,
> O que era amor, em meu próprio entendimento,
> Sem dúvida, eu sempre ainda
> Fui tributário, e dei tributo
> Ao amor completamente com boa intenção,
> E através de prazer tornei-me seu [servo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17609/servo/),
> Com boa vontade, corpo, coração, e tudo.
> Tudo isto eu pus em sua servidão,
> Como a meu senhor, e fiz homenagem;
> E muito devotamente roguei-lhe
> Que ele dispusesse meu coração assim,
> Que fosse prazer para ele,
> E honra para minha senhora querida.
> E isto foi longo, e muitos anos
> Antes que meu coração fosse posto em outro lugar,
> Que eu fiz assim, e não sabia por quê;
> Creio que veio a mim naturalmente.
> Porventura eu era para isso mais apto
> Como uma parede branca ou uma tábua;
> Pois está pronta para receber e tomar
> Tudo que os homens quiserem nela fazer,
> Onde quer que os homens queiram retratar ou pintar,
> Sejam as obras nunca tão engenhosas.
> E naquele tempo eu estava assim
> Eu era capaz de ter aprendido então,
> E de ter sabido tão bem ou melhor,
> Porventura, outra arte ou letra.
> Mas porque o amor veio primeiro em meu pensamento,
> Por isso eu não o esqueci.
> Eu escolhi o amor como meu primeiro ofício,
> Por isso ele ficou comigo.
> Pois porque eu o tomei de tão jovem idade,
> Que malícia não tinha meu coração
> Naquele tempo voltado para nada
> Por demasiado conhecimento.
> Pois naquele tempo a juventude, minha mestra,
> Governava-me em ociosidade;
> Pois era em minha primeira juventude,
> E então muito pouco bem eu sabia,
> Pois todas minhas obras eram instáveis,
> E todos meus pensamentos variáveis;
> Tudo era para mim igualmente bom,
> Que eu sabia então; mas assim estava.
> Aconteceu que eu vim um dia
> A um lugar, onde eu vi,
> Verdadeiramente, a mais bela companhia
> De damas que jamais homem com olhos
> Tinha visto juntas em um só lugar.
> Devo chamar isso acaso ou graça
> Que me trouxe ali? Não, mas Fortuna,
> Que é mentir muito comum,
> A falsa traidora, perversa,
> Deus queira que eu pudesse chamá-la pior!
> Pois agora ela me causa grande dor,
> E eu direi logo por quê.
> Entre essas damas todas,
> Para dizer a verdade, eu vi ali uma
> Que não era como nenhuma de todo o grupo;
> Pois ouso jurar, sem dúvida,
> Que assim como o sol de verão brilhante
> É mais belo, claro, e tem mais luz
> Do que qualquer planeta que está no céu,
> A lua, ou as sete estrelas,
> Assim para todo o mundo ela tinha
> Superado todas em beleza,
> Em maneiras e em graça,
> Em estatura e bem posta alegria,
> Em bondade tão bem mostrada —
> Brevemente, que mais devo dizer?
> Por Deus, e por seus doze santos,
> Era minha doce, exatamente ela mesma!
> Ela tinha semblante tão firme,
> Tão nobre porte e manutenção.
> E Amor, que tinha ouvido minha súplica,
> Tinha me espiado assim logo,
> Que ela bem cedo, em meu pensamento,
> Assim Deus me ajude, foi capturada
> Tão de repente, que eu não tomei
> Nenhum conselho senão em seu olhar
> E em meu coração; pois seus olhos
> Tão alegremente, creio, meu coração viram,
> Que puramente então meu próprio pensamento
> Disse que era melhor servi-la em vão
> Do que com outra estar bem.
> E era verdade, pois, em tudo,
> Eu direi logo a ti por quê.
> Eu a vi dançar tão graciosamente,
> Cantar e dançar tão docemente,
> Rir e brincar tão feminilmente,
> E olhar tão bondosamente,
> Tão bem falar e tão amigavelmente,
> Que certamente, creio, que sempre
> Nunca foi visto tão feliz tesouro.
> Pois cada cabelo sobre sua cabeça,
> Para dizer a verdade, não era vermelho,
> Nem amarelo, nem castanho era;
> Pareceu-me, mais parecido com ouro era.
> E que olhos minha senhora tinha!
> Bondosos, bons, alegres, e sérios,
> Simples, de boa medida, não muito largos;
> Além disso seu olhar não era de lado,
> Nem atravessado, mas posto tão bem,
> Que atraía e tomava, completamente,
> Todos que nela olhavam.
> Seus olhos pareciam logo que ela queria
> Ter misericórdia; tolos pensavam assim;
> Mas nunca era feito por isso.
> Não era coisa fingida,
> Era seu próprio puro olhar,
> Que a deusa, senhora Natureza,
> Tinha feito abertos por medida,
> E fechados; pois, fosse ela nunca tão alegre,
> Seu olhar não era espalhado em tolice,
> Nem selvagem, embora ela brincasse;
> Mas sempre, pareceu-me, seus olhos diziam,
> “Por Deus, minha ira está toda perdoada!”
> Com isso ela quis tão bem viver,
> Que a tristeza dela tinha medo.
> Ela não era demasiado séria nem demasiado alegre;
> Em todas as coisas mais medida
> Nunca, creio eu, criatura teve.
> Mas muitos com seu olhar ela feriu,
> E isso pouco lhe importava,
> Pois ela nada sabia de seu pensamento;
> Mas se sabia, ou não sabia,
> De qualquer modo ela não se importava nada!
> Para ganhar seu amor não estava mais perto
> Aquele que morava em casa, do que o da Índia;
> O primeiro estava sempre atrás.
> Mas boas pessoas, acima de todos,
> Ela amava como homem pode amar seu irmão;
> De tal amor ela era maravilhosamente generosa,
> Em lugares justos que tinham dever.
> Que rosto ela tinha com isso!
> Alas! meu coração está maravilhosamente triste
> Que eu não posso descrevê-lo!
> Falta-me tanto inglês como engenho
> Para desfazer isso completamente;
> E também meus espíritos estão tão fracos
> Para inventar tão grande coisa.
> Não tenho engenho que possa bastar
> Para compreender sua beleza;
> Mas tanto ouso dizer, que ela
> Era rosada, fresca, e de cor viva;
> E cada dia sua beleza se renovava.
> E perto de seu rosto era o melhor;
> Pois certamente, Natureza tinha tal desejo
> De fazer aquilo belo, que verdadeiramente ela
> Era sua principal obra de beleza,
> E principal exemplo de todo seu trabalho,
> E mostra; pois, fosse nunca tão escuro,
> Parece-me que a vejo sempre.
> E ainda além, embora todos aqueles
> Que jamais viveram não estivessem vivos,
> Eles não poderiam ter encontrado para descrever
> Em todo seu rosto um sinal mau;
> Pois era sério, simples, e benigno.
> E que fala boa e suave
> Tinha aquela doce, minha cura de vida!
> Tão amigável, e tão bem fundamentada,
> Sobre toda razão tão bem fundada,
> E tão tratável para todo bem,
> Que ouso jurar pela cruz,
> De eloquência nunca foi encontrado
> Tão doce som de fala,
> Nem mais verdadeira de língua, nem menos zombadora,
> Nem melhor sabia curar; que, pela missa,
> Ousaria jurar, mesmo que o papa o cantasse,
> Que nunca houve ainda por sua língua
> Homem nem mulher grandemente prejudicado;
> Quanto a ela, todo mal estava escondido;
> Nem menos lisonja em sua palavra,
> Que puramente, seu simples testemunho
> Foi encontrado tão verdadeiro como qualquer contrato,
> Ou fé de qualquer mão de homem.
> Nem ralhar ela podia de modo algum,
> Isso todo o mundo sabe bem.
> Mas tal beleza de pescoço
> Tinha aquela doce que osso nem falha
> Não se via ali, que faltasse.
> Era branco, liso, reto, e plano,
> Sem buraco; e clavícula,
> Pelo parecer, não tinha nenhuma.
> Sua garganta, como tenho memória agora,
> Parecia uma torre redonda de marfim,
> De boa grandeza, e não demasiado grande.
> E boa bela White ela se chamava,
> Esse era o nome de minha senhora.
> Ela era tanto bela como brilhante,
> Ela não tinha seu nome errado.
> Belos ombros, e corpo longo
> Ela tinha, e braços; cada membro
> Cheio, carnudo, não grande demais;
> Belas mãos brancas, e unhas vermelhas,
> Seios redondos; e de boa largura
> Seus quadris eram, costas retas e planas.
> Eu não conheci nela outro defeito
> Que todos seus membros não fossem perfeitos,
> Na medida em que eu tinha conhecimento.
> Além disso ela sabia tão bem brincar,
> Quando lhe agradava, que ouso dizer,
> Que ela era como tocha brilhante,
> Que cada homem pode tomar luz
> Bastante, e ela nunca tem menos.
> De maneiras e de graça
> Assim se portava minha senhora querida;
> Pois cada pessoa de sua maneira
> Podia tomar bastante, se quisesse,
> Se tivesse olhos para contemplá-la.
> Pois ouso jurar, se ela
> Estivesse entre dez mil,
> Ela teria sido, ao menos,
> Um principal espelho de toda a festa,
> Ainda que estivessem em fila,
> Aos olhos dos homens poderia ser conhecida.
> Pois onde quer que os homens tivessem jogado ou velado,
> Pareceu-me a companhia tão vazia
> Sem ela, que vi uma vez,
> Como uma coroa sem pedras.
> Verdadeiramente ela era, a meus olhos,
> A única fênix da Arábia,
> Pois ali vive apenas uma;
> Nem tal como ela conheço nenhuma.
> Para falar de bondade; verdadeiramente ela
> Tinha tanta bondade
> Como jamais teve Ester na [Bíblia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-191/biblia/)
> E mais, se mais fosse possível.
> E, para dizer a verdade, além disso
> Ela tinha um engenho tão geral,
> Tão totalmente inclinado a todo bem,
> Que todo seu engenho estava posto, pela cruz,
> Sem malícia, sobre alegria;
> Além disso nunca vi ainda menos
> Dano, do que ela tinha em fazer.
> Não digo que ela não tivesse conhecimento
> Do que era mal; ou senão ela
> Não poderia saber o que era bom, assim me parece.
> E verdadeiramente, para falar de verdade,
> Mas se ela tivesse tido, teria sido piedade.
> Disso ela tinha tanto sua parte —
> E ouso dizer e jurar bem —
> Que a própria Verdade, sobre tudo,
> Tinha escolhido seu modo principal
> Nela, que era seu lugar de descanso.
> Além disso ela tinha a maior graça,
> De ter firme perseverança,
> E fácil, temperado governo,
> Que jamais eu soube ou conheci ainda;
> Tão pura paciente era sua mente.
> E razão de bom grado ela entendia,
> Seguia bem que ela sabia o bem.
> Ela costumava de bom grado fazer o bem;
> Estes eram seus modos em tudo.
> Além disso ela amava tão bem o direito,
> Ela não faria mal a ninguém;
> Ninguém podia lhe fazer vergonha,
> Ela amava tão bem seu próprio nome.
> Seu desejo não era manter ninguém em engano;
> Nem, fica certo, ela não queria tentar
> Manter ninguém em dúvida,
> Por meia palavra nem por semblante,
> A menos que os homens mentissem sobre ela;
> Nem enviar homens à Valáquia,
> À Prússia, e à Tartária,
> A Alexandria, nem à Turquia,
> E ordenar-lhe logo, imediatamente, que
> Vá sem capuz ao mar seco,
> E volte para casa pelo Carenário;
> E dizer: “Senhor, esteja agora bem atento
> Que eu possa ouvir de vós
> Honra, antes que volte novamente!”
> Ela não usava tais truques pequenos.
> Mas por que eu conto minha história?
> Exatamente sobre isto, como eu disse,
> Estava totalmente todo meu amor posto;
> Pois certamente, ela era, aquela doce esposa,
> Minha suficiência, meu desejo, minha vida,
> Minha sorte, minha saúde, e toda minha felicidade,
> Meu bem-estar no mundo, e minha alegria,
> E eu dela totalmente, em tudo.
> “Por nosso Senhor,” disse eu, “creio em vós bem!
> Certamente, vosso amor estava bem posto,
> Não sei como poderíeis ter feito melhor.”
> “Melhor? ninguém tão bem!” disse ele.
> “Creio nisso, senhor,” disse eu, “por Deus!”
> “Não, acredita bem!” “Senhor, assim faço;
> Creio em vós bem, que verdadeiramente
> Vos parecia que ela era a melhor,
> E a mais bela de se ver,
> Quem a tivesse olhado com vossos olhos.”
> “Com meus? Não, todos que a viram
> Disseram e juraram que era assim.
> E ainda que não tivessem, eu teria então
> Amado melhor minha senhora livre,
> Ainda que eu tivesse toda a beleza
> Que jamais teve Alcibíades,
> E toda a força de [Hércules](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10115/hercules/),
> E além disso tivesse o valor
> De Alexandre, e toda a riqueza
> Que jamais houve em [Babilônia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-53/babilonia/),
> Em Cartago, ou na Macedônia,
> Ou em Roma, ou em [Nínive](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-294/ninive/);
> E além disso também fosse tão corajoso
> Como foi Heitor, assim tenho alegria,
> Que Aquiles matou em Troia —
> E por isso foi morto também
> Num templo, pois ambos dois
> Foram mortos, ele e Antilegius,
> E assim diz Dares Frígio,
> Por amor dela, Políxena —
> Ou fosse tão sábio como [Minerva](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12417/minerva/),
> Eu teria sempre, sem dúvida,
> Amado-a, pois eu devia!
> “Dever!” não, eu minto agora,
> Não “dever”, e eu direi como,
> Pois de boa vontade meu coração queria,
> E também amá-la eu estava obrigado
> Como a mais bela e a melhor.
> Ela era tão boa, assim tenho descanso,
> Como jamais foi Penélope da Grécia,
> Ou como a nobre esposa Lucrécia,
> Que foi a melhor — assim conta
> O romano Tito Lívio —
> Ela era tão boa, e nada diferente,
> Embora suas histórias sejam autênticas;
> De qualquer modo ela era tão fiel quanto elas.
> Mas por que eu te conto
> Quando primeiro vi minha senhora?
> Eu era bem jovem, para dizer a verdade,
> E grande necessidade eu tinha de aprender;
> Quando meu coração queria ansiar
> Por amor, era grande empreendimento.
> Mas como meu engenho podia melhor bastar,
> Segundo meu jovem entendimento infantil,
> Sem dúvida, eu o pus
> Para amar a ela da melhor maneira,
> Para lhe dar honra e serviço
> Que eu então podia, por minha fé,
> Sem fingimento nem preguiça;
> Pois muito desejoso eu queria vê-la.
> Tanto isso me melhorava,
> Que, quando eu a via pela manhã,
> Eu era curado de toda minha dor
> Por todo o dia depois, até que fosse noite;
> Pareceu-me que nada podia me afligir,
> Ainda que minhas dores fossem muito fortes.
> E ainda ela está assim em meu coração,
> Que, por minha fé, eu não queria,
> Por todo este mundo, fora de meu pensamento
> Deixar minha senhora; não, verdadeiramente!”
> “Agora, por minha fé, senhor,” disse eu,
> “Parece-me que tendes tal sorte
> Como confissão sem arrependimento.”
> “Arrependimento! Não, vergonha,” disse ele;
> “Deveria eu agora arrepender-me
> De amar? não, certamente, então eu seria
> Pior do que foi Aquitofel,
> Ou Antenor, assim tenho alegria,
> O traidor que traiu Troia,
> Ou o falso Genelon,
> Aquele que comprou a traição
> De Rolando e de Oliver.
> Não, por quê! Eu estou vivo aqui
> Eu não esquecerei dela nunca mais.”
> “Agora, bom senhor,” disse eu logo então,
> “Vós já me contastes aqui antes.
> Não há necessidade de repetir mais
> Como a vistes primeiro, e onde;
> Mas quereis me contar a maneira,
> Qual foi vossa primeira fala a ela —
> Disso eu vos pediria —
> E como ela soube primeiro vosso pensamento,
> Se vós a amáveis ou não,
> E contai-me também o que perdestes;
> Eu vos ouvi contar antes.”
> “Sim,” disse ele, “tu não sabes o que queres dizer;
> Eu perdi mais do que tu pensas.”
> “Que perda é essa, senhor?” disse eu então;
> “Ela não vos ama? É isso?
> Ou fizestes algo errado,
> Que ela vos deixou? É isso?
> Pelo amor de Deus, contai-me tudo.”
> “Perante Deus,” disse ele, “e eu direi.
> Eu digo exatamente como disse,
> Nela estava todo meu amor posto;
> E ainda ela não sabia nada disso
> Por muito tempo, acredita bem.
> Pois fica certo, eu não ousava
> Por todo este mundo contar-lhe meu pensamento,
> Nem eu queria tê-la irritado, verdadeiramente.
> Pois sabes por quê? ela era senhora
> Do corpo; ela tinha o coração,
> E quem tem isso, não pode escapar.
> Mas, para me manter longe da ociosidade,
> Verdadeiramente eu fazia meu esforço
> Para compor canções, como melhor podia,
> E muitas vezes eu as cantava alto;
> E fiz muitas canções,
> Embora eu não pudesse fazer tão bem
> Canções, nem conhecer toda a arte,
> Como podia Tubal, filho de Lameque,
> Que descobriu primeiro a arte da canção;
> Pois, como os martelos de seus irmãos soavam
> Sobre sua bigorna para cima e para baixo,
> Disso ele tomou o primeiro som;
> Mas os gregos dizem, Pitágoras,
> Que ele foi o primeiro descobridor
> Da arte; Aurora conta assim,
> Mas disso não importa, de ambos dois.
> De qualquer modo canções assim eu fiz
> De meu sentimento, para alegrar meu coração;
> E eis! esta foi a primeira,
> Não sei se foi a pior. —
> “Senhor, isso torna meu coração leve,
> Quando penso naquela doce criatura
> Que é tão bela de se ver;
> E desejo a Deus que pudesse ser,
> Que ela me tivesse por seu cavaleiro,
> Minha senhora, que é tão bela e brilhante!” —
> Agora eu te contei, para dizer a verdade,
> Minha primeira canção. Num dia
> Eu pensei em quanta dor
> E tristeza eu sofria então
> Por ela, e ainda ela não sabia,
> Nem ousava eu contar-lhe meu pensamento.
> “Alas!” pensei eu, “não sei conselho;
> E, se não lhe contar, estou morto;
> E se lhe contar, para dizer a verdade,
> Tenho medo que ela se irrite;
> Alas! o que devo então fazer?”
> Neste debate eu estava tão aflito,
> Pareceu-me que meu coração se partia em dois!
> Assim, ao fim, para dizer a verdade,
> Eu pensei que a natureza
> Nunca formou em criatura
> Tanta beleza, verdadeiramente,
> E bondade, sem misericórdia.
> Na esperança disso, minha história eu contei.
> Com tristeza, como se eu nunca devesse;
> Pois por necessidade, e contra minha vontade,
> Eu devia ter contado a ela ou estar morto.
> Não sei bem como comecei,
> Muito mal posso repetir isso;
> E também, assim Deus me ajude,
> Creio que foi em dia funesto,
> Que eram as dez pragas do Egito;
> Pois muitas palavras eu pulei
> Em minha fala, por puro medo
> De que minhas palavras fossem mal ditas.
> Com coração triste, e feridas mortas,
> Suave e tremendo por puro medo
> E vergonha, e interrompendo meu discurso
> Por temor, e minha cor toda pálida,
> Muitas vezes eu ficava tanto pálido como vermelho;
> Curvando-me a ela, baixei a cabeça;
> Não ousava sequer olhar para ela,
> Pois engenho, maneiras, e tudo se foram.
> Eu disse “misericórdia!” e nada mais;
> Não era brincadeira, me doía muito.
> Assim, ao fim, para dizer a verdade,
> Quando meu coração voltou novamente,
> Para contar brevemente toda minha fala,
> Com todo o coração eu comecei a suplicar
> Que ela fosse minha doce senhora;
> E jurei, e comecei a prometer-lhe de coração
> Sempre ser firme e fiel,
> E amá-la sempre de modo novo,
> E nunca ter outra senhora,
> E guardar toda sua honra
> Como melhor pudesse; eu lhe jurei isto —
> “Pois teu é tudo que jamais existe
> Para sempre, meu doce coração!
> E nunca falso a ti, mas eu encontro,
> Eu não serei, assim Deus me ajude!”
> E quando eu tinha feito minha fala,
> Deus sabe, ela não contou um palito
> De toda minha fala, assim me pareceu.
> Para contar brevemente como é,
> Verdadeiramente sua resposta foi esta;
> Não posso agora bem imitar
> Suas palavras, mas isto foi o principal
> De sua resposta: ela disse, “não”
> Totalmente. Alas, naquele dia
> A dor que sofri, e o sofrimento!
> Que verdadeiramente Cassandra, que assim
> Lamentou a destruição
> De Troia e de Ílion,
> Nunca teve tal dor como eu então.
> Não ousava dizer mais por isso
> Por puro medo, mas fugi;
> E assim vivi muitos dias;
> Que verdadeiramente, eu não tinha necessidade
> Mais longe que a cabeceira de minha cama
> Nunca um dia para buscar dor;
> Eu a encontrava pronta toda manhã,
> Pois eu a amava em todo caso.
> Assim aconteceu, outro ano,
> Eu pensei uma vez que tentaria
> Fazer ela saber e entender
> Minha dor; e ela bem entendeu
> Que eu não desejava senão o bem,
> E honra, e guardar seu nome
> Sobre todas as coisas, e temer sua vergonha,
> E estava tão ocupado em servi-la; —
> E piedade seria que eu morresse,
> Já que eu não desejava nenhum mal, em verdade.
> Assim, quando minha senhora soube tudo isso,
> Minha senhora me deu totalmente
> O nobre dom de sua misericórdia,
> Guardando sua honra, de todas as maneiras;
> Sem dúvida, não quero dizer de outra forma.
> E com isso ela me deu um anel;
> Creio que foi a primeira coisa;
> Mas se meu coração ficou
> Alegre, isso não é preciso perguntar!
> Assim Deus me ajude, eu fui logo
> Levantado, como da morte para a vida,
> De todas as sortes a melhor,
> O mais feliz e o mais em paz.
> Pois verdadeiramente, aquela doce criatura,
> Quando eu estava errado e ela certa,
> Ela sempre tão bondosamente
> Perdoava-me tão gentilmente.
> Em toda minha juventude, em toda sorte,
> Ela me tomou em seu governo.
> Com isso ela era sempre tão fiel,
> Nossa alegria era sempre igualmente nova;
> Nossos corações eram tão iguais em par,
> Que nunca estava um contrário
> Ao outro, por nenhuma dor.
> Pois verdadeiramente, igualmente eles sofriam então
> Uma alegria e também uma dor ambos;
> Igualmente eles eram ambos alegres e irados;
> Tudo era para nós um só, sem dúvida.
> E assim vivemos muitos anos
> Tão bem, não posso dizer como.”
> “Senhor,” disse eu, “onde está ela agora?”
> “Agora!” disse ele, e parou logo.
> Com isso ele ficou como morto como pedra,
> E disse, “Alas! que eu nasci,
> Esse foi a perda, que aqui antes
> Eu te disse, que eu tinha perdido.
> Lembra como eu disse aqui antes,
> ‘Tu sabes muito pouco o que queres dizer;
> Eu perdi mais do que tu pensas’ —
> Deus sabe, alas! Exatamente essa era ela!”
> “Alas! senhor, como? O que pode ser?”
> “Ela está morta!” “Não!” “Sim, por minha fé!”
> “É essa tua perda? Por Deus, é piedade!”
> E com essa palavra, logo,
> Eles começaram a avançar; tudo estava feito,
> Por aquele tempo, a caça ao cervo.
> Com isso, pareceu-me, que este rei
> Começou rapidamente a cavalgar para casa
> Até um lugar ali perto,
> Que estava de nós apenas um pouco,
> Um longo castelo com paredes brancas,
> Por São João! sobre uma rica colina,
> Assim me pareceu; mas assim aconteceu.
> Exatamente assim me pareceu, como vos digo,
> Que no castelo havia um sino,
> Como se tivesse batido doze horas. —
> Com isso eu acordei,
> E encontrei-me deitado em minha cama;
> E o livro que eu tinha lido,
> De Alcione e do rei Seys,
> E dos deuses do sono,
> Eu o encontrei em minha mão exatamente.
> Pensei, “isto é tão estranho um sonho,
> Que eu quero, com o passar do tempo,
> Tentar pôr este sonho em rima
> Como melhor eu puder, e logo.”
> Este foi meu sonho; agora está feito

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Boitani, P. & Mann, J. *The Cambridge Companion to Chaucer.* Cambridge University Press, 2004.](https://www.worldhistory.org/books/0521894670/)
- [French, R. D. *A Chaucer Handbook.* F. S. Crofts & Company, 2019.](https://www.worldhistory.org/books/B0006AR2SM/)
- [Gardner, J. *The Life and Times of Chaucer.* Barnes & Noble, 2019.](https://www.worldhistory.org/books/1435107373/)
- [Geoffrey Chaucer (edited by Larry D. Benson). *The Riverside Chaucer.* Houghton Mifflin, 1987.](https://www.worldhistory.org/books/0395290317/)
- [Kittredge, G. L. *Chaucer and His Poetry.* Harvard University Press, 2019.](https://www.worldhistory.org/books/B001OT2IHE/)
- [The Book of the Duchess on Librarius.com (middle-english hypertext with glossary)](http://www.librarius.com/duchessfs.htm "The Book of the Duchess on Librarius.com (middle-english hypertext with glossary)"), accessed 27 Apr 2019.

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
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Mark, J. J. (2026, February 04). Chaucer: O Livro da Duquesa Texto Completo e Sumário. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1374/chaucer-o-livro-da-duquesa--texto-completo-e-sumar/>
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Mark, Joshua J.. "Chaucer: O Livro da Duquesa Texto Completo e Sumário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. *World History Encyclopedia*, February 04, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1374/chaucer-o-livro-da-duquesa--texto-completo-e-sumar/>.
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Mark, Joshua J.. "Chaucer: O Livro da Duquesa Texto Completo e Sumário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. *World History Encyclopedia*, 04 Feb 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1374/chaucer-o-livro-da-duquesa--texto-completo-e-sumar/>.

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Enviado por [Jose Monteiro Queiroz-Neto](https://www.worldhistory.org/user/josemonteiroque/ "User Page: Jose Monteiro Queiroz-Neto"), publicado em 04 February 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

