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title: Entrevista: O Budismo na Coreia
author: James Blake Wiener
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1134/entrevista-o-budismo-na-coreia/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-03
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# Entrevista: O Budismo na Coreia

_Escrito por [James Blake Wiener](https://www.worldhistory.org/user/jbw288/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Nesta entrevista, James Blake Wiener, cofundador e diretor de comunicação da **[Ancient History Encyclopedia (AHE)](http://www.ancient.eu)**, conversa com [**o professor emérito James H. Grayson**](https://www.sheffield.ac.uk/seas/staff/korean/grayson), professor de Estudos Coreanos na Universidade de Sheffield, sobre o impacto histórico e cultural do [budismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11144/budismo/) na Coreia, numa perspetiva antropológica.

Os interesses de investigação do Dr. Grayson centram-se em duas áreas principais: a difusão da religião através das fronteiras culturais e a análise do quadro conceptual religioso e intelectual dos povos coreanos e do Leste Asiático. A sua investigação tem uma abordagem amplamente antropológica, com interesse tanto nos períodos antigos como nos recentes da história coreana. Realizou trabalho de campo na Coreia, no Japão e em Okinawa. \[Licenciatura (Rutgers), Mestrado (Columbia), Mestrado em Teologia (Duke), Doutoramento (Edimburgo)\]

[ ![Buddha Statue, Seokguram Grotto](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/5830.jpg?v=1781190673-1781190673) Estátua do Buda, Gruta de Seokguram Jinho Jung (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/5830/buddha-statue-seokguram-grotto/ "Buddha Statue, Seokguram Grotto")**JBW: O que foi que o atraiu inicialmente para a história coreana e para o budismo coreano? Sempre se interessou pela cultura coreana, Professor Grayson?**

**JHG:** Mesmo quando era criança (no início da década de 1950), sentia-me fascinado pela cultura e pela história do Leste Asiático — o que, essencialmente, significava a China. O interesse pelas culturas não ocidentais levou-me a estudar antropologia e sociologia na licenciatura (Universidade de Rutgers) e, mais tarde, na pós-graduação (Universidade de Columbia).

No verão de 1965, antes do meu último ano de licenciatura, passei um verão no Leste Asiático no âmbito de dois campos de trabalho patrocinados pelo Comité de Serviço dos Amigos Americanos (Quakers) — um numa aldeia de montanha na prefeitura de Fukushima, no Japão, e outro numa aldeia piscatória no condado de Ch'angwŏn, na costa sul da Coreia. Isto confirmou o meu interesse pelo Leste Asiático e proporcionou-me uma experiência de vida em dois países da região: o Japão e a Coreia do Sul. Naquela época, havia uma enorme diferença económica entre o Japão e a Coreia, mas foi a Coreia do Sul que me despertou mais interesse.

Em 1967, através de um programa patrocinado pela Fulbright na Universidade de Columbia, tive a oportunidade (juntamente com um grupo de outros estudantes de antropologia) de passar um verão em Taiwan. Esta experiência proporcionou-me mais uma perspetiva sobre o Leste Asiático. Ao regressar aos EUA, fiz uma paragem de algumas semanas na Coreia para reatar o contacto com amigos e com o país. Após a formação teológica (na Universidade de Duke), fui destacado para trabalhar com a Igreja Metodista Coreana, onde passei a minha vida profissional até me juntar ao corpo docente da Escola de Estudos do Leste Asiático da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, em 1987.

[ ![Central Gate & Pagoda, Horyuji Temple](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/6505.jpg?v=1779375810) Portão Principal & Pagode, Templo Horyuji Horyuji Chumon Warizuka (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/6505/central-gate--pagoda-horyuji-temple/ "Central Gate & Pagoda, Horyuji Temple")Não posso dizer que sempre tive interesse pela Coreia, pela cultura ou pelo budismo coreano. O meu interesse pelo Leste Asiático surgiu de um interesse infantil pela história e pela cultura e foi consolidado por duas experiências extensas num período de formação intelectual da minha vida. Foram essas experiências que despertaram o meu desejo de viver e trabalhar na Coreia. Como antropólogo e como cristão, senti um profundo interesse pelas ideias, crenças, práticas e expressões culturais da cultura coreana. Isto implicava compreender o pensamento e a prática confucionistas, as crenças e expressões culturais budistas, a religião popular da Coreia (geralmente, e erroneamente, designada por «xamanismo coreano») e o [cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/) coreano, tanto católico como protestante — em particular, as adaptações sociais e culturais cristãs a uma sociedade preeminentemente confucionista.

O meu interesse pelo budismo é tanto histórico (ou seja, como é que o budismo se espalhou e se desenvolveu na Coreia?) como contemporâneo (qual é a condição e o estado do budismo na sociedade coreana moderna?). Em termos gerais, o meu interesse pelo budismo coreano não se situa ao nível da doutrina ou da prática (por mais importante que seja compreender estas questões), mas sim nos processos sociais e culturais do crescimento e desenvolvimento desta tradição religiosa.

**JBW: Poderia contextualizar as variáveis sociais e políticas que estiveram em jogo quando o budismo chegou pela primeira vez à Coreia vindo da China? A receção e aceitação do budismo na [Coreia antiga](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11087/coreia-antiga/) foram marcadas por um certo grau de conveniência política?**

**JHG:** A difusão do budismo na Coreia teve início numa fase bastante precoce da história dos «Três Reinos» — Koguryŏ (Goguryeo), Paekche (Baekje) e Silla — por volta do século IV. Nos primeiros séculos do I milénio, a «Coreia» era constituída por vários reinos e outras entidades políticas na Manchúria central e meridional e na península coreana. Tratava-se de entidades políticas de nível estatal que apresentavam um nível bastante sofisticado de desenvolvimento político e económico e situavam-se na periferia do [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Han da China. Com o fim da [dinastia Han](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11960/dinastia-han/) no século III e a sua divisão numa multiplicidade de estados maiores ou menores, mais ou menos efémeros, a cultura «chinesa» começou a espalhar-se significativamente para além das fronteiras do antigo império. A difusão da cultura «chinesa» nas áreas dos reinos de Koguryŏ (Goguryeo), Paekche (Baekje) e Silla, bem como nos estados menores de Kaya (Gaya), pode ser vista como um processo de «modernização» (para utilizar um termo anacrónico), elevando os padrões culturais e políticos destes estados ao nível da cultura mais sofisticada que lhes era conhecida. Este processo pode ser visto como um pacote composto por um sistema de governação, uma [filosofia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-340/filosofia/) política ([confucionismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10636/confucionismo/)), um sistema de [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-71/escrita/) (caracteres «chineses») e religião (budismo), bem como pela arte e outras características culturais que lhes estão associadas.

É importante notar que este processo de difusão cultural ocorreu durante o período de desunião (desde o colapso do Império Han no início do século III até ao surgimento da [Dinastia Sui](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15273/dinastia-sui/) no final do século VI). Muitas destas entidades políticas não eram maiores do que Koguryŏ (Goguryeo) e eram governadas por elites «bárbaras» (na perspetiva chinesa). Por outras palavras, este processo de difusão cultural ocorreu numa altura em que não existia um Estado «chinês» centralizado e em que havia uma ampla paridade geográfica, política e étnica entre os Estados da Península Coreana e da Manchúria e os Estados no território do antigo Império Han.

Um aspeto interessante desta difusão da cultura «chinesa» foi o facto de ter sido realizada, em parte, para desenvolver laços diplomáticos entre os estados no território «chinês» e aqueles no território «coreano». Registos antigos afirmam que os primeiros missionários budistas que chegaram a Koguryŏ (Goguryeo) provinham de um estado situado naquilo que fora a parte norte do Império Han, enquanto os missionários que chegaram a Paekche (Baekje) provinham de uma entidade situada naquilo que fora a parte sul do Império Han. Afirma-se também que o budismo chegou pela primeira vez a Silla por intermédio de um monge proveniente de Koguryŏ (Goguryeo). Os estados «coreanos», por sua vez, adotaram esta política na difusão do budismo para o Japão, para onde foram enviados monges budistas — na qualidade de representantes da classe dominante dos seus países — com o objetivo de estabelecer laços diplomáticos e políticos através da difusão da cultura.

Não creio que se deva utilizar o termo «conveniência política» no que diz respeito à difusão da cultura «chinesa» e do budismo para os estados «coreanos», se com isso se pretender dizer que a aceitação da nova cultura foi imposta às elites governantes desses estados. Pelo contrário, penso que tal deve ser encarado como parte do processo de construção de um estado, uma nação e uma cultura mais sofisticados e «modernos». O budismo constituía o elemento religioso do pacote cultural «chinês».

**JBW: Embora o budismo tenha chegado à Coreia através da China, é importante salientar o papel dos monges coreanos na sua difusão. Poderia falar-nos mais sobre esses monges coreanos que viajaram para a China e para a Índia com o objetivo de adquirir novos conhecimentos, textos e descobrir novos ramos da religião? De que forma as suas atividades moldaram o budismo na Coreia e atraíram novos adeptos?**

**JHG:** Desde muito cedo, certamente em meados ou no final do século VI, monges de Koguryŏ (Goguryeo) e Paekche (Baekje) dirigiram-se a mosteiros importantes no território da «China» para estudar e fizeram peregrinações a locais budistas famosos para viver uma experiência religiosa. Isto era natural, uma vez que os monges «coreanos» viam a «China» como a fonte da sua religião e lá se deslocavam para aprofundar os seus conhecimentos e a sua experiência. Quando regressavam, traziam consigo não só os seus conhecimentos e a sua experiência, mas também textos (escrituras e comentários) e obras de arte (estátuas, pinturas, etc.).

Mas temos de evitar encarar este movimento de monges de uma parte da Ásia Oriental (a Coreia moderna) para outra parte da Ásia Oriental (a China moderna) como se fosse um movimento entre Estados-nação modernos. Em vez disso, este movimento assemelha-se mais aos movimentos e viagens dos monges e eruditos da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/) medieval, que se deslocavam de um lugar para outro no continente. Não se deve falar, nesta fase, de religiões nacionais na Ásia Oriental, tais como o budismo chinês ou o budismo coreano. Trata-se do budismo do Leste Asiático e dos budistas do Leste Asiático. Estava a desenvolver-se um mundo cultural comum, no qual a filosofia sociopolítica era o confucionismo e a religião, o budismo. Era um único mundo cultural, com muitas entidades políticas. Foi o intercâmbio entre as partes desse mundo cultural comum que difundiu e aprofundou a prática do budismo, a expansão das suas tradições artísticas e arquitetónicas, bem como as tradições intelectuais destinadas a explicar as crenças e ideias budistas.

[ ![Korean Ambassadors to the Tang Court](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/6094.jpg?v=1773994700) Embaixadores Coreanos na Corte Tang Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/6094/korean-ambassadors-to-the-tang-court/ "Korean Ambassadors to the Tang Court")Por volta do século VI, verificou-se outro movimento importante de monges – as viagens de monges «coreanos» à Índia. A partir do século V, monges «chineses» tinham empreendido a árdua viagem através da Ásia Central e, atravessando as grandes cadeias montanhosas, até às planícies do norte da Índia. Eles dirigiam-se em peregrinação aos locais sagrados do budismo e iam estudar nos grandes centros de ensino budista na Índia. Foi no século seguinte que vimos monges «coreanos» a fazer o mesmo; dirigiam-se à origem da sua religião. Estas viagens do Leste Asiático atingiram o seu auge no século VII. Durante este período, um registo «chinês» sobre monges do Leste Asiático na Índia, na altura da sua compilação, indicava que 16 por cento desses monges provinham apenas de Silla.

Havia apenas um punhado de monges de Koguryŏ (Goguryeo) e nenhum do Japão. Isto é surpreendente quando se considera que a China dos Tang (agora unificada) era, em escala geográfica, muito maior do que Silla, que mal tinha o tamanho de uma província dos Tang. Este facto é uma indicação da intensidade com que os «coreanos» se dedicavam a aprender sobre a sua religião e a realizar peregrinações sagradas aos locais-chave da sua história. Em meados do século VIII, o último «coreano» conhecido a realizar a viagem à Índia, Hyech’o, deixou um relato detalhado da sua viagem, um importante testemunho do Leste Asiático sobre a Índia desta época, o *Wang och’ŏnch’uk-kuk chŏn* (*Relato de uma Viagem aos Cinco Reinos da Índia*).

Os monges da Península Coreana também desempenharam um papel importante na transmissão do budismo para o Japão. Nos séculos VI e VII, os monarcas de Koguryŏ (Goguryeo) e Paekche (Baekje) enviaram monges, monjas, pintores e artesãos budistas para a corte japonesa. O famoso templo Horyuji, em Nara, construído por ordem do príncipe Shotoku — figura-chave —, foi projetado e construído por arquitetos e artesãos de Baekje. Um dos monges budistas que ensinou o príncipe foi o monge de Koguryŏ (Goguryeo) Hyeja (*Keiji* em japonês). Assim, num momento crucial da introdução e do desenvolvimento do budismo no Japão, budistas leigos e clérigos da península exerceram uma importante influência política e cultural. A influência peninsular foi perpetuada por Silla no final do século VII e no século VIII, após este reino ter alcançado o domínio político na «Coreia».

**JBW: Muitas pessoas no Ocidente acreditam, erradamente, que o budismo Zen tem as suas origens no Japão, mas este teve origem na China e desenvolveu raízes fortes também na Coreia. (Na Coreia, é conhecido como «Sŏn».) Poderia falar-nos sobre a transmissão da escola budista Sŏn (Seon) para a Coreia, bem como sobre as suas características distintivas?**

**JHG:** Tem toda a razão ao afirmar que a tradição Chan (conhecida no Ocidente pela pronúncia japonesa do caractere 禪 como «Zen») não é japonesa. As raízes da tradição são indianas, com uma tradição histórico-lendária que afirma que foi levada para a «China» no início do século VI por um monge indiano ou serindiano conhecido como Bodhidharma (cerca de 470-543). O primeiro monge de Silla de quem se sabe ter viajado para a China dos Tang para aprender a tradição Chan foi Pŏmnang, em meados do século VII.

[ ![Prince Shotoku Statue](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/6409.jpg?v=1701051243) Estátua do Príncipe Shotoku PHGCOM (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/6409/prince-shotoku-statue/ "Prince Shotoku Statue")Ao longo dos séculos VIII e IX., vários monges fizeram a viagem até à China dos Tang para aprender esta tradição, muitos dos quais estudaram com os discípulos do mestre Ma-zu. No final do período Silla, no início do século X, tinham sido fundadas nove escolas (denominadas *ku-san* ou «nove montanhas»). Nenhuma delas era significativamente diferente das outras; o termo «escola» referia-se simplesmente às tradições de prática estabelecidas pelos seus fundadores e perpetuadas pelos seus «descendentes». O ponto importante sobre a tradição Sŏn (Seon) é que, no final do reino de Silla, a prática budista meditativa na tradição Chan se tinha tornado a forma predominante de prática monástica na península. Existiam outras escolas budistas, mas o budismo monástico na Coreia, desde essa altura, tem sido predominantemente da tradição Sŏn (Seon). Da mesma forma, a prática budista popular tem sido predominantemente a Escola da Terra Pura ou *Ch'ŏnt'ae-jong* («Tian-tai» em chinês), tal como acontece na China. No período Koryŏ (Goryeo) (918-1392), as escolas Sŏn (Seon) tinham desenvolvido uma tradição mista de estudo e meditação, que constitui a prática atual. Trata-se, no entanto, de um desenvolvimento posterior — e isso já é outra história!

**JBW: Em que medida o budismo na Coreia antiga e medieval diferia, na prática, do budismo na China e no Japão durante a mesma época?**

JHG: Até ao início da última dinastia coreana, a Chosŏn (Joseon) (1392-1910), o panorama budista na Coreia e na China era muito semelhante. Havia as mesmas escolas budistas, as mesmas práticas monásticas e populares, e um movimento constante de monges eruditos entre a «China» e a península coreana — em ambas as direções. De facto, pode dizer-se que, desde meados do século VII até ao final do século XIV, existia um mundo cultural budista-confucionista (que incluía o Vietname, mas no qual o Japão se encontrava à margem). Neste mundo cultural, o confucionismo era a principal fonte de ideias para a filosofia e a prática do bom governo e para a manutenção de uma «boa» sociedade. O budismo constituía o aspeto «religioso» deste mundo cultural, que se ocupava da metafísica e da vida após a morte.

No Japão, o budismo surgiu mais tarde do que no continente e só floresceu muito mais tarde. Além disso, as escolas budistas no Japão desenvolveram-se, tanto intelectualmente como na prática, de forma diferente das mesmas escolas no continente, sendo o «nacionalismo» um elemento importante. Além disso, o confucionismo nunca se enraizou no sistema político e social do Japão da mesma forma que na China ou na Coreia. A filosofia confucionista, em diferentes períodos, transformou as estruturas políticas feudais da China e da Coreia num sistema de governo altamente organizado, baseado na governação por uma burocracia meritocrática e, ao nível popular, centrado no sistema familiar como espinha dorsal moral da sociedade. Isto nunca aconteceu no Japão. No entanto, no final do século XIV, a relação de complementaridade entre o budismo e o confucionismo começou a desmoronar-se na Coreia. Isto tornou então a situação do budismo na Coreia bastante diferente da situação tanto na China como no Japão.

**JBW: Por que razão os governantes da dinastia Chosŏn (Joseon) (1392-1910) favoreceram o confucionismo em detrimento do budismo no início da era moderna? Terá sido principalmente porque as instituições budistas se tornaram corruptas durante a segunda metade da dinastia Koryŏ (Goryeo) (918-1392), enquanto a Coreia se encontrava sob ocupação mongol (1270-1356)?**

**JHG: A** revolução neoconfucionista que teve lugar na Coreia desde o início da dinastia Chosŏn (Joseon) alterou drasticamente a relação entre o budismo e o confucionismo, bem como entre o budismo e o Estado. Quando o reino de Koryŏ (Goryeo) foi substituído pela nova dinastia, os líderes do movimento para derrubar o sistema político existente eram defensores do «neoconfucionismo». O que tornou o «Neoconfucionismo» «novo» foi o desenvolvimento de um sistema metafísico. O confucionismo clássico é uma filosofia política que procura criar um sistema de boa governação. É essencialmente uma filosofia política, mas exerce uma forte influência na ética social e pessoal, bem como na prática ritual, particularmente no que diz respeito à linhagem e aos antepassados do clã. Não especulava sobre as origens do universo, por exemplo. Não possuía um sistema de metafísica. Por volta do século XII, na China, os estudiosos confucionistas começaram a especular sobre as «origens» e a adaptar ideias do taoísmo filosófico. Isto significou que a filosofia confucionista avançou para o território que tradicionalmente tinha sido «budista». A tradição neoconfucionista menosprezava o budismo como superstição, o que se tornou a fonte da história de conflitos intelectuais e políticos entre ambas as tradições na Coreia e na China.

[ ![Muryangsujeon, Buseoksa, Korea](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/5614.jpg?v=1708645203) Muryangsujeon, Buseoksa, Coreia ko:Excretion (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/5614/muryangsujeon-buseoksa-korea/ "Muryangsujeon, Buseoksa, Korea")Durante o domínio mongol da Coreia no final da era Koryŏ (Goryeo), o budismo tornou-se estreitamente aliado ao regime mongol. Assim, os revolucionários que acabaram por derrubar o sistema Koryŏ (Goryeo) tinham duas razões para desprezar o budismo: uma política e nacionalista e outra intelectual e moral. Quando os «revolucionários» neoconfucionistas chegaram ao poder, tentaram criar uma sociedade confucionista modelo, bem como um governo confucionista modelo. Este foi um acontecimento inédito na história coreana. O governo promoveu ativamente a confucionização da sociedade, bem como do próprio governo, com o objetivo de controlar rigorosamente o budismo ou de o erradicar por completo da península coreana. No início da dinastia, a maioria dos templos foi encerrada e muitos monges foram laicizados.

Embora esta política de encerramento de mosteiros e de limitação do número de monges e monjas tenha variado ao longo dos séculos, o controlo rigoroso do budismo era, ainda assim, considerado uma característica necessária de um bom governo moral. Em duas ocasiões no século XVI, o governo tentou erradicar o budismo, fechando todos os mosteiros e proibindo qualquer pessoa de se tornar monge. Estas políticas foram revertidas, mas isso significou que a situação do budismo na Coreia de Chosŏn (Joseon) era o oposto daquela que se vivia na Coreia de Koryŏ (Goryeo) e muito diferente da situação contemporânea tanto na China como no Japão. Uma lei aprovada a meio da dinastia indica até que ponto o budismo tinha caído em desgraça. Os clérigos budistas eram legalmente classificados como membros do grupo dos «párias», que incluía talhantes, prostitutas e escravos. Na era Koryŏ (Goryeo), membros de famílias nobres — incluindo até um potencial rei — faziam parte de ordens monásticas budistas.

**JBW: Como caracterizaria o legado do budismo antigo e medieval na Coreia moderna?**

**JHG:** Como mencionámos acima, houve uma mudança radical na situação do budismo na Coreia a partir do final do século XIV. Enquanto na dinastia anterior o budismo ocupava um lugar de honra na cultura e na sociedade, durante o meio milénio que se seguiu, o budismo foi severamente reprimido. Estudos académicos coreanos recentes sobre o estado do budismo no período Chosŏn (Joseon) têm salientado como e de que forma o budismo sobreviveu e se manteve. Isto constitui uma boa correção à atitude geral de que nada digno de menção tinha acontecido. No entanto, a situação do budismo na Coreia antes do século XX era desoladora. O estado de desonra do budismo no período Chosŏn (Joseon) era marcadamente diferente da sua situação na China, no Japão ou no Vietname.

Esta situação perigosa começou a mudar no final do século XIX, à medida que o poder do Estado de Chosŏn (Joseon) começou a desmoronar-se e muitos jovens «progressistas» confucionistas passaram a questionar os fundamentos intelectuais e morais do Estado e da sociedade. Ocorreram três acontecimentos: em primeiro lugar, surgiu, a partir do final do século XIX, um movimento para reformar e purificar a prática monástica budista; em segundo lugar, o cristianismo protestante entrou na Coreia a partir de meados da década de 1880, e o seu rápido crescimento, bem como as suas práticas sociais, proporcionaram tanto um modelo como um estímulo competitivo para o desenvolvimento do budismo no século XX; em terceiro lugar, na sequência da anexação da Coreia ao Império Japonês em 1910, o governo colonial apoiou o budismo como contrapeso ao cristianismo protestante, devido às suas ligações com o movimento de independência.

O movimento iniciado por monges como Kyŏnghŏ (Gyeongheo) a partir da década de 1880 para a purificação da prática monástica conduziu diretamente à restauração e à expansão da vida monástica budista. O resultado disso pode ser observado nas atuais e vibrantes comunidades monásticas nos templos por toda a Coreia do Sul. Os grandes e famosos templos do Japão de hoje apresentam, muitas vezes, comunidades monásticas reduzidas, em contraste com a vida monástica na Coreia.

[ ![Korean Buddhist 'Emille' Bell](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/5838.jpg?v=1751840168) O Sino Budista Coreano de Emille Steve46814 (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/5838/korean-buddhist-emille-bell/ "Korean Buddhist 'Emille' Bell")O impacto do protestantismo no budismo tem sido significativo. A influência mais marcante tem sido sobre os leigos. O protestantismo é, por excelência, um movimento leigo, com inúmeros grupos (grupos de jovens, grupos de estudo da [Bíblia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-191/biblia/), coros, etc.) nos quais os leigos desempenham um papel fundamental. Grupos leigos budistas, como o Purim-hoe, grupos de jovens budistas, a utilização de melodias de hinos protestantes para canções budistas modernas, jornais budistas, estações de radiodifusão e assim por diante, indicam até que ponto a prática budista leiga foi influenciada pelos modelos protestantes. Além disso, o protestantismo é altamente evangelizador, procurando atrair outros para o seu seio. O renascimento da ideia de missões e evangelismo budistas (denominado*p'o-gyo*) é um resultado direto das missões protestantes. O protestantismo proporcionou ao budismo tanto um modelo para um movimento leigo moderno como, através do seu rápido crescimento, o estímulo para «ir e fazer o mesmo».

O fator final no crescimento do budismo no início do século XX foi o apoio que lhe foi dado pelo governo colonial japonês. Em termos do efeito a longo prazo, este apoio influenciou o seu desenvolvimento na era moderna. O budismo não foi prejudicado por isso (no sentido de ser alvo da ira nacionalista) e beneficiou financeiramente, por exemplo, com as doações de extensas áreas de terra em torno dos principais templos históricos, todos situados no interior das montanhas.

Em suma, o crescimento do budismo na era moderna deveu-se a um movimento interno de purificação monástica, à ascensão do papel organizado dos leigos na vida budista com base em modelos protestantes e ao apoio recebido do regime colonial. A influência do budismo pré-moderno na sociedade e na cultura coreanas atuais é talvez reduzida. No entanto, o impacto histórico, cultural e artístico na Coreia é grande. Qualquer pessoa que faça caminhadas nas inúmeras montanhas da Coreia irá inevitavelmente visitar um dos grandes (ou menores) templos e admirar a sua arte e arquitetura. Os museus nacionais e provinciais estão repletos de arte religiosa budista (em pedra ou metal). A Coreia possui o compêndio mais completo das escrituras budistas do Leste Asiático — o *Tripitaka Koreanum* —, que foi gravado em mais de 80 000 blocos de impressão de madeira de dupla face e se encontra guardado no grande templo de Haein-sa. Durante um milénio e meio, o budismo influenciou a vida artística, cultural e religiosa na península coreana, e esta influência não foi totalmente apagada durante os 500 anos do reino de Chosŏn (Joseon).

**JBW: Professor Grayson, muito obrigado pelo seu tempo e atenção! Em nome da Ancient History Encyclopedia, desejo-lhe muitas aventuras felizes na investigação.**

**JHG:** Obrigado por me ter convidado a apresentar alguns aspetos do budismo na Coreia. Espero que os seus leitores se sintam motivados a aprofundar a história do budismo naquele país e também a estudar a história do confucionismo e do cristianismo na Coreia.

*Nota Bene: A romanização da língua coreana está repleta de desafios e constitui um verdadeiro pesadelo tanto para linguistas como para académicos. Nesta entrevista, optámos pelo Sistema McCune–Reischauer, com a Romanização Revista do Coreano colocada entre parênteses. Exemplo: Chosŏn (Joseon). A única exceção diz respeito às imagens, que foram carregadas e publicadas antes da publicação desta entrevista.*

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#### Editorial Review

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## Sobre o Autor

James Blake Wiener tem um interesse particular em intercâmbios interculturais e em história mundial. Ele é cofundador da World History Encyclopedia e anteriormente era o Diretor de Comunicações.
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## Cite Este Artigo

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Wiener, J. B. (2026, August 03). Entrevista: O Budismo na Coreia. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1134/entrevista-o-budismo-na-coreia/>
### Chicago
Wiener, James Blake. "Entrevista: O Budismo na Coreia." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 03, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1134/entrevista-o-budismo-na-coreia/>.
### MLA
Wiener, James Blake. "Entrevista: O Budismo na Coreia." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 03 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1134/entrevista-o-budismo-na-coreia/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 03 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

