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title: Guerra Anglo-Saxônica
author: Michael McComb
translator: Raimundo Raffaelli-Filho
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23816/guerra-anglo-saxonica/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-09-03
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# Guerra Anglo-Saxônica

_Escrito por [Michael McComb](https://www.worldhistory.org/user/michaelmccomb/)_
_Traduzido por [Raimundo Raffaelli-Filho](https://www.worldhistory.org/user/raffaelli-filho)_

A guerra anglo-saxônica foi caracterizada por conflitos frequentes e violentos entre pequenos reis, o que levou à ascensão de reinos maiores, como o Reino da Mércia, o [Reino da Nortúmbria](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17624/reino-da-nortumbria/) e o [Reino de Wessex](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17575/reino-de-wessex/). Na antiga Inglaterra anglo-saxónica, esperava-se sucesso militar de um rei: conquistar terras e recolher tributos era a forma como um senhor da guerra real recompensava os seus seguidores e assegurava a sua lealdade.

### Fontes

Dispomos de várias fontes primárias sobre a guerra anglo-saxônica. Para descrições de campanhas militares, temos a *História Eclesiástica do Povo Inglês*, [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/) pelo monge nortúmbrio [Beda](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15989/beda/), no século VIII, e a *Crônica Anglo-Saxônica*, um registro histórico elaborado na corte real da dinastia dos Saxões Ocidentais. Poemas como *[Beowulf](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15952/beowulf/)*, *A [Batalha de Brunanburh](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2657/batalha-de-brunanburh/)* e *A Batalha de Maldon* oferecem uma visão da cultura militar; *Beowulf*, por exemplo, descreve o rei dinamarquês Scyld Scefing (em nórdico antigo, *Skjold*) como um bom governante justamente por ter subjugado tribos vizinhas e delas recebido tributos.

Achados arqueológicos e a [Tapeçaria de Bayeux](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16892/tapecaria-de-bayeux/) fornecem representações visuais de guerreiros e seu armamento; por fim, códigos de leis, cartas de concessão de terras e o *[Domesday Book](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17586/domesday-book/)* ajudam a esclarecer costumes militares, incluindo as obrigações militares dos proprietários de terras e o contingente de soldados que cada região deveria mobilizar.

### Armas e Equipamentos

Um guerreiro abastado na Inglaterra anglo-saxônica estaria tipicamente equipado com uma lança, um escudo redondo, uma cota de malha e um elmo cônico. À cintura, trazia um cinturão que sustentava uma espada e um *seax* — uma lâmina curta, semelhante a uma faca. Itens de alto valor, como espadas e elmos, eram símbolos de riqueza e status. As espadas eram frequentemente heranças de família; [Alfredo, o Grande](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16848/alfredo-o-grande/) (r. 871-899), por exemplo, legou uma espada ao seu genro em seu testamento. Entre as descobertas arqueológicas mais famosas da época está o elmo de Sutton Hoo, que se acredita ter pertencido a um rei da Ânglia Oriental. Composto por ferro e bronze, o design intrincado do elmo revela uma obra de grande maestria artesanal, exemplificando o prestígio e o status real de seu proprietário.

Embora os cavalos ocupassem um lugar de destaque na cultura dos primeiros colonos anglo-saxões — seus dois fundadores lendários tinham nomes relacionados a cavalos: *Hengist* (Garanhão) e *Horsa* (Cavalo) —, há poucas evidências de seu uso em combate. Existem duas referências principais ao uso de cavalos na guerra, embora nenhuma delas indique uma prática comum. A primeira referência aparece no poema sobre a Batalha de Brunanburh, que narra o grande confronto de 937. Após derrotarem a aliança rival de escoceses e vikings, os guerreiros ingleses perseguiram os inimigos em retirada e os abateram enquanto estavam montados. A segunda referência consta em um registro de 1055 da *Crônica Anglo-Saxônica*, descrevendo Ralph, o Tímido — sobrinho normando de Eduardo, o Confessor (r. 1042-1066) —, liderando uma unidade de cavalaria em batalha contra os galeses. No entanto, o exército de Ralph recuou antes mesmo de o combate começar, devido à falta de familiaridade com o combate a cavalo. Assim, o combate permaneceu essencialmente atividade da infantaria; embora o poema de Brunanburh sugira que cavalos podiam ser usados ​​em ataques após a batalha, sua função na guerra era principalmente o transporte, permitindo que os exércitos se deslocassem com maior mobilidade.

[ ![The Sutton Hoo Helmet](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/4841.jpg?v=1728373579-1728373616) O Elmo de Sutton Hoo Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/4841/the-sutton-hoo-helmet/ "The Sutton Hoo Helmet")Os navios desempenharam papel limitado na guerra anglo-saxônica inicial, apesar das origens marítimas dos primeiros líderes anglo-saxões. O primeiro indício de um reino projetando poder naval remonta à Nortúmbria do século VII, que conquistou a Ilha de Man (em manês, *Mannin* ou *Ellan Vannin*; localizada no Mar da Irlanda, entre a Grã-Bretanha e a Irlanda) e Anglesey (em galês, *Ynys Môn*; localizada na costa noroeste do País de Gales) e realizou incursões na Irlanda. No entanto, a primeira batalha naval anglo-saxônica registrada ocorreu apenas em 851, quando o rei Etelstano de Kent (em inglês antigo [Æthelstan](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24653/aethelstan/); também grafado Etestano; r. 839-851) combateu uma frota viking ao largo da costa da cidade de Sandwich (localizada às margens do Rio Stour, no condado de Kent, no sudeste da Inglaterra). O irmão mais novo de Etelstano, Alfredo, o Grande, desenvolveu ainda mais o poder naval, enfrentando [os vikings](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16741/os-vikings/) no mar diversas vezes e projetando sua própria frota. Contudo, suas operações navais limitavam-se a interceptar pequenos grupos de invasores, em vez de combater grandes frotas vikings. Ainda assim, para os herdeiros de Alfredo, o poder naval era um recurso fundamental; o filho de Alfredo, [Eduardo, o Velho](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16989/eduardo-o-velho/) (r. 899-924), possuía uma frota de 100 navios, e seus sucessores utilizaram embarcações para atacar a Escócia, a Normandia e a Ilha de Man. Também se atribui ao neto de Eduardo, Edgar, o Pacífico (r. 959-975), a criação de um sistema administrativo para o recrutamento de tripulações, conhecido como sistema *ship-soke*, pelo qual cada região do reino era obrigada a fornecer um número determinado de marinheiros para servir na marinha do rei.

### Táticas e Batalha

As campanhas militares na Inglaterra anglo-saxônica eram frequentemente breves e, tipicamente, baseavam-se em uma única batalha decisiva. Ambos os lados costumavam realizar negociações antes do combate. Por exemplo, antes da [Batalha de Hastings](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17034/batalha-de-hastings/), em 1066, o rei inglês [Haroldo Godwinson](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17582/haroldo-godwinson/) (r. 1066) enviou um emissário a [Guilherme, o Conquistador](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16891/guilherme-o-conquistador/), exigindo que ele deixasse a Inglaterra. Segundo Guilherme de Poitiers, um sacerdote normando contemporâneo, Guilherme respondeu oferecendo um julgamento legal para determinar quem tinha o direito legítimo à coroa inglesa ou, alternativamente, um duelo em combate singular. Haroldo recusou ambas as ofertas.

Os líderes militares também buscavam frequentemente apoio divino antes da batalha. Por exemplo, antes da [Batalha de Ashdown](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2829/batalha-de-ashdown/), em 871, o rei [Etelredo I de Wessex](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-26063/etelredo-i-de-wessex/) (Aethelred I; r. 865-871) assistiu à missa em sua tenda. Nos momentos que antecediam o combate, o comandante reunia e encorajava suas tropas, como ilustra o poema sobre a Batalha de Maldon, que descreve um confronto com invasores vikings, em 991:

> Então Brihtnoth \[Ealdorman de Essex\] começou a organizar seus homens; ele cavalgava, dava conselhos e instruía seus guerreiros sobre como deveriam se posicionar e manter sua posição, ordenando-lhes que segurassem os escudos corretamente, com firmeza nas mãos, e que não temessem nada.
> (*Whitelock*, 317)

O uso de arqueiros não era comum entre os ingleses, mas trocas de projéteis geralmente ocorriam no início da batalha, com ambos os lados lançando dardos uns contra os outros. A principal tática de campo de batalha utilizada pelos anglo-saxões era a parede de escudos — como retratado na Tapeçaria de Bayeux —, na qual os soldados formavam uma linha reta, ombro a ombro, segurando seus escudos à frente para criar uma barreira protetora. Embora fosse frequentemente tática defensiva, essa formação também podia servir como estratégia ofensiva, permitindo que os exércitos, com os escudos travados, avançassem contra o oponente como unidade única. Após a troca de projéteis, cada lado marchava em direção ao outro e as paredes de escudos colidiam. O confronto muitas vezes se transformava em disputa de empurrões e estocadas, com cada lado tentando forçar o recuo do adversário. Se uma parede de escudos fosse mais extensa que a outra, ela poderia tentar sobrepor-se ou cercar a menor, buscando atacá-la por múltiplos ângulos. Uma vez estabelecido o contato, as lanças eram armas fundamentais na formação de parede de escudos, podendo ser desferidas por cima da cabeça ou na altura da cintura para matar ou ferir os inimigos da linha de frente. Eliminar o adversário direto podia abrir brecha na parede de escudos inimiga; uma vez rompida a formação, o confronto frequentemente descambava para um combate corpo a corpo caótico.

[ ![Death of Harold, Bayeux Tapestry](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/9471.jpg?v=1748395625) Morte de Haroldo, Tapeçaria de Bayeux Myrabella (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/9471/death-of-harold-bayeux-tapestry/ "Death of Harold, Bayeux Tapestry")Momentos decisivos da batalha muitas vezes ocorriam com a captura do estandarte inimigo ou a morte do líder, eventos que destruíam o moral de seus seguidores. Em Hastings, a morte de Haroldo levou seu exército à fuga ou à rendição, tal como aconteceu com a maior parte das tropas de Brihtnoth, em Maldon. No entanto, esperava-se que os poucos guerreiros a serviço pessoal de um líder militar permanecessem e lutassem por seu senhor mesmo após a morte dele, buscando vingá-lo ou morrendo na tentativa. Como explica o poeta de Maldon, após testemunharem a morte de Brihtnoth, seus companheiros continuaram a lutar "para perder a vida ou vingar aquele a quem amavam" (*Whitelock*, 319).

### Hierarquia Social e Organização Militar

O rei ocupava o topo da hierarquia social na Inglaterra anglo-saxônica. Suas atribuições incluíam liderar o exército do reino, defender as fronteiras, presidir conselhos reais e promulgar leis justas. Abaixo dele estavam os *ealdormen*, grandes senhores geralmente responsáveis ​​pela supervisão de uma província ou condado (*shire*) do reino. Logo abaixo vinham os *thegns*, uma classe aristocrática de guerreiros e oficiais proprietários de terras. Em seguida, havia os *ceorls*, ou homens livres, que constituíam a maior parte da população. Eles geralmente trabalhavam a terra como agricultores, embora o termo *ceorl* englobasse indivíduos cujo *status* econômico e grau de liberdade variavam consideravelmente. Na base da escala social estavam os escravos, cuja condição muitas vezes resultava de captura em guerra ou de punição por crimes. O *status* de um homem nessa hierarquia social era medido pelo seu *wergild*, ou "preço do homem": a quantia paga à sua família, pelo assassino, no caso de seu homicídio. Por exemplo, um código de leis da Nortúmbria, *A Lei do Povo do Norte*, estabelecia que o *wergild* de um *ealdorman* era de 8.000 *thrymas* (moedas de ouro), enquanto o de um *thegn* correspondia a apenas um quarto desse valor, ou seja, 2.000 *thrymas*.

Richard Abels descreve o sistema militar da Inglaterra anglo-saxônica primitiva como sendo composto pela comitiva do rei e pelos seguidores de seus nobres proprietários de terras (32). Jovens de nascimento nobre, chamados de *geoguth* ("jovens") na poesia em inglês antigo, iniciavam sua vida adulta servindo na casa do rei ou de um grande senhor. Eles formavam a comitiva pessoal de seu senhor, protegendo-o em batalha, acompanhando-o em suas viagens pelo reino e vivendo sob o mesmo teto. Aqueles que demonstravam coragem em batalha e lealdade ao rei eram recompensados ​​com terras próprias, marcando assim sua ascensão de *geoguth* a *duguth* ("homem provado"). A partir de então, passavam a chefiar sua própria casa e a comandar seus próprios jovens guerreiros, grupo formado por filhos de nobres e, talvez, por membros de famílias de *ceorls* mais abastadas que residiam em suas novas terras. No entanto, um *ceorl* também poderia ser designado para funções não combativas, como o transporte de suprimentos alimentares e armas extras. O recebimento de terras doadas pelo rei vinculava o beneficiário a um juramento de lealdade a ele. Esperava-se agora que o novo proprietário de terras levantasse tropas para apoiar o rei em batalha e participasse de seus conselhos. Essa terra, contudo, era uma "terra concedida em usufruto": retornava à Coroa com a morte do *duguth*.

Durante o século VIII, as concessões reais de terras tornaram-se cada vez mais hereditárias, resultando em hierarquia mais rígida, uma vez que os nobres podiam transmitir suas riquezas aos filhos. Nos reinados dos reis da Mércia, Etelbaldo (Aethelbald; r. 716-757) e Offa (r. 757-796), foram instituídas obrigações reais específicas — conhecidas como os "três encargos comuns" — como condição para a posse de terras. Essas obrigações incluíam o serviço militar e a manutenção de pontes e fortalezas locais. Embora o proprietário da terra — fosse ele um *ealdorman* ou um *thegn* — liderasse suas tropas em batalha, esperava-se geralmente que seus subordinados realizassem os trabalhos de construção e manutenção de pontes e fortalezas. Com o tempo, essas práticas foram estendidas aos reinos vizinhos da Mércia: Kent e Wessex.

A obrigação militar do proprietário de terras para com seu rei decorria tanto dos juramentos de lealdade quanto da própria posse da terra. No entanto, a extensão do serviço era proporcional ao tamanho ou valor das propriedades. Segundo o *Domesday Book*, convocava-se tipicamente um soldado para o serviço militar a cada cinco *hides* de terra — sendo o *hide* uma unidade de medida agrária equivalente à área necessária para sustentar uma família. Cinco *hides* constituíam a extensão de terra padrão exigida para que o proprietário adquirisse o *status* de *thegn*; assim, eles representavam uma parcela significativa do exército. Contudo, esperava-se que os *thegns* que possuíssem mais de cinco *hides* mobilizassem guerreiros adicionais; por exemplo, um *thegn* proprietário de 50 *hides* era obrigado a mobilizar dez guerreiros. Os *thegns* organizavam e lideravam seus grupos de guerreiros até pontos de concentração regionais, onde o exército de um condado ou província se reunia para, então, ser conduzido pelo *ealdorman* da região em apoio ao rei.

### As Reformas de Alfredo, o Grande

Esse sistema militar anglo-saxão do início do século IX foi concebido para conflitos entre os reinos ingleses ou contra os galeses. No entanto, mostrou-se inadequado para enfrentar as incursões vikings na Grã-Bretanha; a mobilidade dos invasores, graças a navios e cavalos, permitia-lhes saquear ou capturar cidades, muitas vezes antes de encontrarem resistência significativa. Uma vez capturada e fortificada uma cidade, eles podiam atacar assentamentos vizinhos a partir dessas fortalezas ou derrotar líderes ingleses que tentassem, sem sucesso, sitiá-los. O fracasso das defesas anglo-saxãs teve consequências devastadoras e, entre 867 e 874, três reinos — Ânglia Oriental, Mércia e Nortúmbria — caíram total ou parcialmente sob domínio viking.

O único rei que sobreviveu tempo suficiente para corrigir as falhas das defesas inglesas foi o governante de Wessex, Alfredo, o Grande. Após vencer a [Batalha de Edington](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2691/batalha-de-edington/), em 878, ele ganhou o fôlego necessário para implementar reformas militares abrangentes. A inovação mais significativa de Alfredo foi a criação do sistema de *burghs* — fortalezas ou cidades fortificadas — por todo o território de Wessex. Esses *burghs* eram protegidos por paliçadas de madeira, fossos defensivos e guarnição de soldados fornecida pelos proprietários de terras locais. Eram interligados por uma rede de estradas, permitindo que uma guarnição socorresse um *burgh* vizinho sob ataque; além disso, cada um deles estava situado a uma distância máxima de 32 km, cerca de um dia de marcha de todos os súditos de Alfredo, possibilitando que buscassem refúgio durante as invasões vikings.

[ ![Great Viking Army in England, 865-878 CE](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/9135.png?v=1777484711) O Grande Exército Viking na Inglaterra, 865-878 Hel-hama (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/9135/great-viking-army-in-england-865-878-ce/ "Great Viking Army in England, 865-878 CE")Alfredo também reformou seu exército. O principal problema era a velocidade — ou a falta dela. Exceto por seus guerreiros da guarda pessoal, Alfredo não dispunha de um exército permanente. Quando atacado, ele precisava ordenar aos nobres que convocassem suas tropas, as quais se reuniam localmente antes de marchar em seu auxílio. Esse processo consumia muito tempo e a manutenção de grandes exércitos era difícil, pois os guerreiros relutavam em passar longos períodos longe de suas propriedades. Para resolver isso, Alfredo dividiu suas forças em dois contingentes que se revezavam: uma metade constituía um exército permanente, pronto para ser mobilizado a qualquer momento, enquanto a outra permanecia em casa, cuidando das propriedades locais e atuando como força policial regional. As tropas permanentes também contavam com cavalos, garantindo resposta rápida aos ataques vikings. Essas reformas foram amplamente bem-sucedidas e levaram a várias vitórias sobre líderes vikings, enaltecendo a reputação de Alfredo entre seus nobres e outros governantes, além de fortalecer seu reino. Tais práticas militares foram estendidas à Mércia, governada pelo genro de Alfredo, Etelredo, Senhor dos Mércios (Æthelred; r. 883-911), e utilizadas pelos filhos de Alfredo — [Etelfleda](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16851/etelfleda-senhora-dos-mercios/) (Æthelflæd), Senhora dos Mércios, e Eduardo, o Velho — e por seus netos para conquistar as East Midlands, a Ânglia Oriental e a Nortúmbria. Assim, por volta de 927, o filho mais velho de Eduardo, o rei Etelstano (Æthelstan; r. 924-939), tornou-se o primeiro governante de um reino inglês unificado.

Na década de 960, a ameaça viking havia diminuído, inaugurando uma era de ouro de paz e prosperidade. Os encargos sobre os proprietários de terras foram aliviados, e muitos dos *burhs* de Alfredo transformaram-se de fortalezas militares em centros comerciais, com suas defesas perdendo a função original. No entanto, uma segunda Era Viking teve início durante o reinado de Etelredo (Æthelred), o Despreparado (r. 978-1016), período para o qual a Inglaterra estava totalmente despreparada. Favorecidos por disputas internas, liderança ineficaz e pela falha em revitalizar o sistema militar, os vikings retornaram ao poder na Inglaterra em 1013, quando Sueno Barba-Bifurcada (em nórdico antigo, *Sveinn Tjúguskegg*), da Dinamarca, depôs Etelredo. Contudo, foi o filho de Sueno, o rei [Canuto, o Grande](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-25813/canuto-o-grande/) (r. 1016-1035), quem completou a conquista dinamarquesa da Inglaterra, governando com competência por duas décadas antes que a dinastia de Wessex fosse restaurada, em 1042, sob o reinado de Eduardo, o Confessor (r. 1042-1066).

### Promoção da Paz

A paz na Inglaterra anglo-saxônica não consistia apenas na cessação das hostilidades, mas em algo ativamente negociado. Frequentemente, ela transformava as relações entre governantes, convertendo a rivalidade em amizade, laços estes consolidados por meio de casamentos dinásticos, pagamento de tributos ou juramentos de amizade. Embora a paz pudesse ser estabelecida em pé de igualdade, na maioria das vezes ela resultava do reconhecimento, por parte de um líder, da supremacia de outro.

Reis que detinham a supremacia, como Penda (r. 626 655) e Offa da Mércia, podiam esperar tributos e apoio militar de governantes subordinados em troca de proteção, paz e amizade. Tanto Penda quanto Offa também casavam suas parentes com reis de menor poder para fortalecer essas relações. Contudo, quando os governantes em conflito estavam em condições de relativa igualdade, [a Igreja medieval](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18341/a-igreja-medieval/) — mediadora de confiança para ambos os lados — frequentemente atuava como pacificadora. Foi o que ocorreu durante as guerras do século VII entre a Mércia e a Nortúmbria. Apesar dos esforços da Nortúmbria para alcançar a paz por meio de casamentos e tributos, foi somente a intervenção do Arcebispo Teodoro de Canterbury, em 679, que pôs fim ao longo conflito.

Os vikings pagãos não estavam vinculados aos costumes cristãos e anglo-saxões, e Alfredo, o Grande, não conseguiu negociar a paz com eles mediante tributos e trocas de reféns. Somente após demonstrar sua supremacia militar, com vitória decisiva na Batalha de Edington, em 878, ele pôde impor a paz aos vikings. Alfredo também insistiu na conversão do líder viking Guthrum, acreditando que apenas um rei também cristão seria digno de confiança para manter a paz. O tratado de paz entre eles estabeleceu uma fronteira definida e regulamentações comerciais para seus reinos; a nova amizade foi simbolizada pelo fato de Alfredo ter se tornado padrinho de Guthrum, além de ter havido doze dias de banquetes e troca de presentes.

Esse modelo de paz com líderes vikings — baseado no batismo e na amizade — foi mantido pelos sucessores de Alfredo. Em 926, seu neto, Etelstano (Aethelstan), selou a paz com seu principal rival, o rei Sihtric de York (r. 921-927), que concordou em ser batizado e em casar-se com a irmã de Aethelstan, transformando a relação de ambos: de rivais, passaram a ser irmãos na fé cristã. Outro neto, Edmundo I (r. 939 a 946), foi padrinho no batismo do rei Olaf II de York (941–944 e 949–952) em 943, como parte do tratado de paz entre eles. No entanto, esses tratados dependiam da longevidade e do oportunismo de seus signatários. Etelstano, por exemplo, conquistou York após a morte de Sihtric, em 927, e Edmundo forçou o exílio de seu afilhado, Olaf, em 944.

[ ![Aethelstan](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/8251.jpg?v=1752149606) Etelstano (Aethelstan) Corpus Christi College, Cambridge (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/8251/aethelstan/ "Aethelstan")Uma paz duradoura só foi alcançada quando os reis conseguiram unificar a Inglaterra e manter seguidores leais e vastos recursos para defendê-la. Isso ocorreu, de forma notável, durante o reinado de um monarca do século X cujo epíteto era muito apropriado: Edgar, o Pacífico. Ele subjugou os reis celtas vizinhos, permitiu que o recém-anexado Reino de York mantivesse suas antigas leis e ficou conhecido por aplicar punições severas àqueles que perturbavam a paz.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

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## Sobre o Autor

Michael McComb licenciou-se pela Universidade Metropolitana de Manchester e obteve o seu mestrado em História em 2022. Tem escrito para publicações como a 'The Historians Magazine', a 'The Collector', a 'Medieval Living' e a 'Lessons from History'.
- [X/Twitter Profile](https://twitter.com/michael195919)

## Cite Este Artigo

### APA
McComb, M. (2026, September 03). Guerra Anglo-Saxônica. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23816/guerra-anglo-saxonica/>
### Chicago
McComb, Michael. "Guerra Anglo-Saxônica." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, September 03, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23816/guerra-anglo-saxonica/>.
### MLA
McComb, Michael. "Guerra Anglo-Saxônica." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, 03 Sep 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23816/guerra-anglo-saxonica/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Raimundo Raffaelli-Filho](https://www.worldhistory.org/user/raffaelli-filho/ "User Page: Raimundo Raffaelli-Filho"), publicado em 03 September 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

