René Descartes (1596-1650) foi um matemático, cientista natural e filósofo francês, conhecido principalmente pela frase Cogito ergo sum (“Penso, logo existo”). Publicou obras sobre ótica, geometria analítica, fisiologia e cosmologia, porém é lembrado sobretudo como o “pai da filosofia moderna”. Viveu num período que antecedeu o Iluminismo — movimento que floresceu na Europa no final do século XVII e ao longo do XVIII — marcado por ideias revolucionárias sobre governo, liberdade individual e crenças religiosas. Embora não tenha participado diretamente do Iluminismo, seu legado estaria em influenciar aqueles que protagonizaram as mudanças científicas, políticas e sociais desse século da razão.
Primeiros Anos de Vida
René Descartes nasceu a 31 de março de 1596 em La Haye, França. Seu pai era proprietário de terras e conselheiro do Parlamento da Bretanha. A partir dos dez anos de idade, Descartes recebeu sua educação com os jesuítas no Collège de La Flèche, na província francesa de Anjou — escola fundada por Henrique IV da França (reinou 1589-1610) e considerada uma das melhores instituições de ensino da Europa. Ali estudou línguas, lógica, ética, matemática, física e metafísica. Posteriormente formou-se em Direito pela Universidade de Poitiers, graduando-se em 1616. Apesar do que os seus contemporâneos considerariam uma excelente formação — com exceção da matemática, que ele considerava simples, óbvia e lógica — Descartes passou a questionar seriamente os ensinamentos recebidos. Em seu Discurso sobre o Método, escreveu sobre a sua recusa aos ensinamentos iniciais dos seus mestres:
Eu acreditava que, através dos meios deles, seria possível obter um conhecimento claro e certo de tudo aquilo que é útil na vida… porém, tão logo concluí o curso de estudos — ao final do qual alguém geralmente é admitido entre os eruditos — eu havia mudado inteiramente de opinião.
(Trad. da citação em Hutchins, 42)
Mesmo tendo estudado numa das escolas mais renomadas da Europa, ele se viu tomado pela dúvida. Tentou instruir-se sozinho, mas logo descobriu aquilo que considerava ser sua própria ignorância. Influenciado pelas ideias de Galileu (1564-1642) e Copérnico (1473-1543) — e a sua visão heliocêntrica do universo, na qual o Sol, e não a Terra, era o centro — Descartes iniciaria um caminho que mudaria a natureza da filosofia por gerações.
Conceito de Dúvida e Racionalismo
No início do século XVII, a Europa passava por mudanças cruciais tanto na ciência quanto na filosofia. Antes da formulação cartesiana do conceito de dúvida e da transição para o racionalismo, o pensamento europeu estava profundamente enraizado no aristotelismo e no escolasticismo. Contudo, a ciência iniciou uma ruptura com essa tradição, defendendo um novo modelo baseado no poder da razão individual. Nesse novo modo de pensar, iniciado por Descartes, o antigo conceito de empirismo — segundo o qual o conhecimento era adquirido pelos sentidos ou pela experiência — revelou-se insuficiente e, muitas vezes, pouco confiável. A ciência passou então a enfatizar a observação, a experimentação e a razão. Foi o último desses três elementos que levou Descartes a questionar tudo aquilo que havia sido ensinado e motivou sua busca pela verdade. Utilizando apenas o poder da razão, ele tentaria provar sua própria existência.
Descartes iniciou essa busca ao se voluntariar para servir nos exércitos dos Países Baixos e da Alemanha, viajando pela Europa. Enquanto estava na província alemã da Baviera, viveu uma experiência que mudaria completamente a sua vida. A 10 de novembro de 1619, para escapar do frio intenso, abrigou-se num pequeno quarto aquecido apenas por um forno de cerâmica. Sem distrações, passou o dia meditando. Naquela noite, teve três sonhos vívidos e, ao despertar, interpretou-os como visões. Enxergou o mundo natural como um sistema único, tendo a matemática como chave explicativa. Perguntou-se se a certeza matemática poderia ser aplicada a outras formas de conhecimento. Em seu Discurso, ele escreveu sobre essa experiência:
…já que não encontrei nenhuma sociedade que pudesse me distrair… permaneci o dia inteiro fechado sozinho em um quarto aquecido, onde tive total liberdade para ocupar-me com meus próprios pensamentos. (44)
Ao deixar o exército, e temendo perseguição pela Igreja Católica, Descartes passaria a maior parte da sua vida nos Países Baixos, país que oferecia maior liberdade de expressão que qualquer outro na Europa. Com as visões que recebera na Baviera ocupando sua mente, ele começou a buscar um novo sistema de pensamento. O centro desse novo sistema seria a procura pela verdade. Para Descartes, a verdade só poderia ser alcançada através do conceito de dúvida.
Obras
De 1629 a 1649, ele produziria as suas maiores obras sobre filosofia, incluindo:
- O Mundo (1633) - uma defesa da visão heliocêntrica do sistema solar;
- Discurso sobre o Método (1637) - o prefácio da obra Óptica;
- Meditações (1641) - uma discussão sobre a sua teoria cartesiana e a existência de Deus;
- Princípios da Filosofia (1644) - uma análise da relação entre o corpo e a alma.
Embora conhecido pelas suas obras sobre filosofia, Descartes escreveu extensivamente sobre ciência e matemática. Essas obras incluíram Le Géométrie (Geometria), Les Météores (Meteorologia - Os Meteoros), La Dioptrique (Óptica) e As Paixões da Alma.
Filosofia
Embora o Discurso sobre o Método tenha estabelecido os fundamentos de sua epistemologia e de sua metafísica, suas Meditações revolucionariam o pensamento filosófico e introduziriam uma nova escola: o racionalismo. No racionalismo, o conhecimento do mundo é alcançado pela razão, e não pelos sentidos, considerados enganosos e pouco confiáveis.
Em seu Discurso, Descartes escreveu sobre sua própria busca, afirmando que precisava “rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo sobre o qual eu pudesse imaginar o menor motivo de dúvida” (51). Nessa busca, era necessário submeter todas as crenças a um exame rigoroso, descartando tudo o que falhasse nesse teste. Nas Meditações, Descartes reiterou a necessidade de rejeitar a experiência sensível. Para ele, o verdadeiro conhecimento exige certeza absoluta: não pode haver espaço para dúvida. Nada que venha dos sentidos pode ser confiado, pois eles podem enganar. Um pedaço de madeira parece torto quando parcialmente submerso na água. Refletindo sobre sua experiência, escreveu:
Tudo aquilo que até o momento eu aceitei como verdadeiro e certo eu aprendi pelos sentidos ou através deles; mas já percebi que os sentidos às vezes enganam, e é prudente nunca confiar totalmente em quem já nos enganou. (75)
Nas Meditações, Descartes descreve como chegou ao Cogito — a prova de sua própria existência. Primeiro, ele submeteu todas as crenças à dúvida, colocando cada ideia através desse filtro: se não resistisse, seria descartada. Tal como ocorre em provas matemáticas, a construção do conhecimento exigia etapas sucessivas. Assim, ele desenvolveu regras para essa busca: dividir cada questão em partes menores, avançar dos elementos mais simples aos mais complexos e, por fim, revisar. Nada deve ser aceite como verdadeiro se não puder ser percebido com absoluta clareza, sem deixar espaço para dúvida.
Com isso, surge uma pergunta essencial: se Descartes rejeita tudo, como pode ter certeza de que ele próprio existe? Se os sentidos enganam, não se pode confiar na percepção. Ao rejeitar qualquer confiança nos seus próprios sentidos, ele deve encontrar uma maneira de provar a sua existência. No final, até mesmo a realidade deve ser questionada. Será que alguém pode provar que está acordado? Talvez tudo seja um sonho — alguns sonhos são tão vívidos quanto a realidade. Ou talvez exista um “gênio maligno”, uma força enganadora que manipula seus pensamentos. No fim, a única coisa indiscutível é: ele pensa — e, portanto, existe. É assim que surge a famosa expressão Cogito ergo sum, ou “Penso, logo existo”.
No Discurso, ele expressa a sua dedução:
…assim, porque os sentidos às vezes nos enganam, eu quis supor que nada é exatamente como eles nos fazem imaginar... rejeitei como falsas todas as razões antes aceitas como demonstrações… era absolutamente essencial que o “eu” que pensa existisse de algum modo, e notei que essa verdade “Penso, logo existo” era tão certa e tão segura que nenhuma suposição dos céticos poderia abalá-la. (51)
Em Meditações I, reconhece que há coisas que parecem indiscutíveis — como estar sentado junto ao fogo, vestido com seu roupão, segurando um papel. Mas até essas certezas devem ser testadas:
Por exemplo, há o fato de que estou aqui, sentado junto ao fogo, usando o roupão, tendo este papel nas mãos e outras coisas semelhantes. E como posso negar que estas mãos e este corpo são meus?... Ao mesmo tempo devo lembrar que sou homem e que, portanto, costumo dormir, e nos sonhos represento para mim coisas iguais ou até menos prováveis do que aquelas que vejo na vigília. (75)
Se é possível estar sonhando, a certeza da experiência sensível é abalada. Porém, para Descartes, algumas coisas são inquestionáveis: aritmética, geometria e as ciências.
Porque esteja eu acordado ou dormindo, dois mais três sempre formarão cinco, e o quadrado jamais terá mais do que quatro lados… e essas verdades não parecem poder ser suspeitas de qualquer falsidade. (76)
Crítica e Ateísmo
Descartes levou sua teoria da dúvida a áreas que mais tarde seriam descritas como parte do seu dualismo cartesiano e de sua prova ontológica da existência de Deus. É justamente nesses temas que recebeu a maior parte das críticas. Para Descartes, o ser humano é uma combinação de mente e corpo. Ambos são necessários para a percepção, memória, imaginação e emoção. No entanto, de acordo com sua noção de dualismo, mente e corpo são separados e distintos; a mente é algo que pensa e não é física, enquanto o corpo é físico, ocupa espaço. A mente pode existir sem o corpo, portanto, eles não podem ser a mesma coisa. Em Meditações VI, ele escreveu: “…há uma grande diferença entre mente e corpo, na medida em que o corpo, por natureza, é sempre divisível, e a mente é inteiramente indivisível.” (101) A racionalidade humana, segundo ele, depende dessa distinção entre mente e corpo. A mente deve conter ideias inatas que existiam antes da experiência, pois é a experiência que provoca o “demônio” da dúvida.
Em 1663, quatro anos após sua morte, o Santo Ofício da Igreja Católica condenou quatro dos seus livros e os colocou no Index dos textos proibidos. Anos depois, o teólogo reformado holandês Gisbert Voetius criticou tanto o Discurso sobre o Método quanto a personalidade de Descartes, chamando-o de vaidoso, vingativo, “peripatético” e ambicioso.
Embora muitos questionassem o “como”, Descartes acreditava na existência de Deus e pretendia prová-la. Sua prova ontológica não difere muito das apresentadas por filósofos anteriores, como Anselmo. Descartes reconhecia ser um ser imperfeito, perecível e finito, mas em sua mente existia o conceito de um ser infinito, eterno, imortal e perfeito em todos os sentidos. Esse ser era Deus. Ele acreditava que não poderia ter inventado o conceito de Deus, portanto, Deus existia como um ser sem falhas. Em suas Meditações III, afirmou:
Resta apenas a ideia de Deus, sobre a qual devemos considerar se é algo que não pode ter procedido de mim mesmo. Pelo nome Deus, entendo uma substância infinita, independente, onisciente, onipotente, e pela qual eu mesmo e tudo mais — se é que algo mais existe — fomos criados. (86)
Esse Deus, diferente do “gênio maligno”, não poderia enganá-lo, portanto, ele não seria levado ao erro em relação àquilo que pode perceber de forma clara.
Morte e Legado
Em 1649, a convite da rainha Cristina da Suécia, Descartes mudou-se para Estocolmo para lecionar filosofia. Infelizmente, a rainha era uma madrugadora, o que contrariava os hábitos do filósofo, que preferia dormir até tarde — prática mantida desde seus dias no Collège de La Flèche. Acordar às cinco da manhã para as aulas, três vezes por semana, revelou-se fatal: ele contraiu pneumonia e morreu a 11 de fevereiro de 1650.
Dezesseis anos após sua morte, os restos mortais de Descartes — exceto a cabeça e um dedo — deixaram Estocolmo e foram levados para Paris. Em 1667, ele foi enterrado no cemitério da Igreja de Sainte-Geneviève-du-Mont. Anos depois, seus restos seriam transferidos novamente, ainda sem a cabeça e o dedo, para o mosteiro de Saint-Germain-des-Prés. Embora seus ossos finalmente tenham encontrado repouso — apesar de alguns ainda discutirem sobre a localização de sua cabeça, supostamente num museu em Paris — não há dúvida de que ele seria lembrado por suas contribuições à ciência e à filosofia.
Parte de seu legado é a busca incessante pela verdade, pelo conhecimento. Esse novo conceito de racionalismo (embora tenha raízes nos escritos de Platão) consistia em uma busca pela verdade por meio do poder da razão e não pela experiência sensorial. Tratava-se de uma extensão da lógica matemática, uma rejeição do empirismo aristotélico, que dominara o pensamento ocidental por séculos. Essa ideia inovadora — a de que o indivíduo pode buscar a verdade através de sua própria capacidade racional — permaneceria no centro da filosofia por mais de trezentos anos. Em sua própria época, Descartes influenciou racionalistas como Spinoza e Leibniz. Além da filosofia, seus escritos — especialmente na área da geometria — inspirariam Newton e também Leibniz no seu desenvolvimento do cálculo. Em seu livro Descartes’ Bones, (Os Ossos de Descartes, A história do esqueleto por trás do conflito entre a fé e a razão) Russell Shorto resumiu o impacto de Descartes sobre as gerações futuras:
Assim, a essência do cartesianismo — seu núcleo filosófico, que abrangia mais do que a ciência — não apenas sobreviveu, como se expandiu para praticamente todos os domínios da vida humana, evoluindo, adaptando-se e gerando novas gerações… (79)
Embora algumas ideias de Descartes tenham sido contestadas ao longo do tempo, sua influência tanto na filosofia quanto na ciência é incontestável.

