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title: Margery Kempe
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18154/margery-kempe/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-09-25
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# Margery Kempe

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

Margery Kempe (cerca de 1373 – cerca de 1438) foi uma mística medieval e autora da primeira autobiografia em inglês, *The Book of Margery Kempe* (*O Livro de Margery Kempe*), que narra a sua jornada espiritual desde o seu papel de esposa e mãe em Bishop's Lynn, Inglaterra, até se tornar uma visionária cristã casta e uma oradora popular — embora controversa. Kempe era analfabeta e ditou a história da sua vida primeiro ao seu filho e depois a um padre, tal como ela própria relata no seu livro, que continua a ser uma fonte importante sobre a espiritualidade cristã e a vida na Idade Média.

A versão final do livro foi concluída em julho de 1436 e deve ter gozado de algum nível de popularidade, pois excertos foram impressos em 1501 por Wynkyn de Worde († 1534), que trabalhava na Inglaterra com o impressor William Caxton (cerca de 1422 - cerca de 1491), editor das obras de [Geoffrey Chaucer](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18092/geoffrey-chaucer/) (1343-1400) e de Sir [Thomas Malory](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18093/thomas-malory/) (1415-1471). O livro propriamente dito esteve perdido durante séculos, até que o manuscrito foi encontrado num armário da casa do Tenente-Coronel William Erdeswick Ignatius Butler-Bowden (1880-1956), em Southgate House, Chesterfield, Inglaterra, e autenticado pela estudiosa norte-americana Hope Emily Allen (1883-1960).

Atualmente, é considerado um clássico da [literatura medieval](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17990/literatura-medieval/), mas também é considerado significativo na descrição da vida de uma mulher na Idade Média, do lucrativo negócio das peregrinações e das viagens, e do papel poderoso que a religião desempenhava na vida das pessoas. O livro é, no entanto, mais memorável pela honestidade da voz da autora, ao relatar a história da sua relação com [Deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) e as suas aventuras e situações em que esteve à beira da morte, no meio daqueles que professavam acreditar nesse mesmo Deus, mas não acreditavam nela.

### A Infância e a Conversão

Quase tudo o que se sabe sobre Margery Kempe provém do seu livro. Os registos municipais de Bishop's Lynn (atualmente conhecida como King's Lynn, Norfolk, Inglaterra) referem o seu pai, John Brunham, como presidente da câmara da cidade por cinco vezes entre 1370 e 1391, bem como membro do parlamento, juiz de paz e chambelão. Kempe refere-se ao pai com orgulho, muitas vezes em detrimento do marido, John Kempe, com quem se casou aos 20 anos, por volta de 1393.

Segundo ela própria relata, orgulhava-se da sua família da classe alta e gostava de roupas elegantes e da alta costura, vestindo-se de forma a impressionar os vizinhos. Ao longo do livro, Kempe refere-se a si própria na terceira pessoa como «a criatura» ou «esta criatura» para enfatizar a sua humildade. No Capítulo Dois, escreve:

> Sentia uma enorme inveja dos seus vizinhos se estes estivessem tão bem vestidos como ela. O seu único desejo era ser respeitada pelas pessoas. Não aprendia com nenhuma experiência humilhante nem se contentava com os bens materiais que Deus lhe tinha concedido — ao contrário do seu marido —, mas ansiava sempre por mais e mais.

Após o nascimento do seu primeiro filho, no final de 1393, Kempe sofreu uma crise psicológica que, hoje em dia, seria muito provavelmente reconhecida como depressão pós-parto. Tinha alucinações vívidas e visões do inferno, mordendo-se e arranhando-se até ser finalmente imobilizada pelo marido e pelos criados, amarrada à cama.

Estas visões atormentavam-na continuamente até que, um dia, ao acordar sozinha no quarto, encontrou Jesus Cristo sentado ao seu lado. Ele perguntou: «Filha, porque me abandonaste, quando eu nunca te abandonei?», e depois ascendeu lentamente e desapareceu (Capítulo Um). Instantaneamente, a mente de Kempe ficou clara e ela recuperou os sentidos, pediu para ser libertada e retomou a sua vida anterior.

Incapaz de compreender o que Jesus queria dizer com «abandoná-lo», Kempe não só continuou a dedicar-se aos prazeres mundanos, como intensificou essa dedicação ao abrir uma cervejaria «por pura cobiça» (Capítulo Um). No entanto, o negócio fracassou, porque Kempe não fazia ideia de como gerir uma cervejaria e os seus criados, que pareciam ser bons cervejeiros, não conseguiram fazer o negócio funcionar. Quando a cervejaria faliu, abriu então um moinho, mas os cavalos recusavam-se a trabalhar, e este negócio também fracassou. Estes fracassos foram interpretados pelos seus vizinhos como um castigo de Deus e ninguém [quis](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-266/quis/) continuar a trabalhar para ela. Só nessa altura é que Kempe compreendeu que tinha de mudar e dedicar a sua vida a algo para além de si própria e dos seus próprios interesses egoístas.

Fez penitência pelos seus pecados, assistindo às missas e indo à confissão duas ou três vezes por dia. Ela relata que, uma noite, ouviu uma música doce a tocar, mais bela do que qualquer outra que já tivesse ouvido, e soube que vinha do paraíso. A melodia era tão encantadora que começou a chorar e, depois disso, sempre que ouvia música, fosse por compaixão pelos outros ou por se sentir comovida pela sua devoção a Deus, caía em acessos de soluços altos e incontroláveis.

O choro de Kempe viria a defini-la mais tarde e, juntamente com a sua recém-descoberta piedade e tendência para falar aos amigos e vizinhos sobre as alegrias do céu e o amor de Deus, irritava aqueles à sua volta que estavam habituados à antiga Margery Kempe, à sua vaidade e aos seus valores mundanos. Ela também entrou em conflito com o marido depois de lhe ter dito que já não queria ter relações sexuais com ele, uma vez que agora se dedicava a Deus. Compreendia, no entanto, que era seu dever, como esposa, dormir com ele, mas estipulou que ele poderia ter o seu corpo, mas que a sua alma tinha sido entregue a Jesus.

### A Pós-conversão e as Primeiras Viagens

Quando Kempe tinha 40 anos, casada há 20 anos e tendo dado à luz 14 filhos, fez um acordo com o marido para que lhe permitisse levar uma vida casta. Kempe concordou em saldar as dívidas do marido e em abandonar os jejuns de sexta-feira, passando a comer e beber com ele como costumava fazer; em troca, ele concordou em renunciar a qualquer pretensão sobre o seu corpo e permitir-lhe viajar para onde quer que Deus a guiasse.

Um dos primeiros locais para onde se dirigiu, acompanhada pelo marido, foi à Cantuária, onde esteve prestes a ser queimada na fogueira por ser lolarda. Os lolardos eram uma seita pré-protestante, fundada e inspirada pelo erudito John Wycliffe (cerca de 1320-1384), que defendia a reforma da Igreja — especialmente a reforma do clero — e a tradução da [Bíblia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-191/biblia/) para a língua vernácula. Quando Kempe chegou a Canterbury, o termo lolarda era sinónimo de «herege». Kempe respondeu aos seus acusadores citando as Escrituras, mas continuou em perigo até ser resgatada por dois homens bonitos que, segundo ela, eram anjos e que a guiaram de volta à sua pousada ilesa (Capítulo Treze).

Embora fosse analfabeta, tinha uma excelente memória e retinha tudo o que lhe era ensinado. No Capítulo Catorze, ela conta como aprendeu a Bíblia e outras obras religiosas «conversando sobre as Escrituras, que aprendia nos sermões e ao falar com clérigos». Conhecia a Bíblia, bem como as obras dos místicos ingleses Walter Hilton (cerca de 1340-1396), cuja obra *Scale of Perfection* (*Escala da Perfeição*) se tinha tornado leitura quase obrigatória para as ordens religiosas ([escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/) especialmente para anacoretas), e Richard Rolle (cerca de 1300-1349) e a sua altamente influente *Fire of Love* (*Fogo do Amor*), um relato das suas experiências místicas.

Contudo, provavelmente, a sua maior influência tenha sido a obra e o exemplo da mística Santa Brígida da Suécia (1303-1373), cuja obra *Himmelska uppenbarelser* (em sueco antigo, amplamente difundida pela tradução em latim: *Revelationes Sanctae Birgittae*; em português: *Revelações Celestiais*) lhe foi lida a seu pedido e que depois interiorizou. Bridget era simultaneamente mística e profeta, tendo começado a receber visões de Deus aos dez anos de idade e, após ficar viúva, dedicou a sua vida ao serviço dos outros, em particular às mães solteiras e aos seus filhos. Ela encorajava a devoção total a Deus e à Igreja como a realidade última e apoiava plenamente os ensinamentos da Igreja medieval, apesar de esses mesmos ensinamentos proibirem as mulheres de falar ou ensinar na presença de homens.

As visões de Kempe são semelhantes às de Brígida na forma como retratam Cristo como marido, amante, amigo íntimo e confidente, bem como Senhor e Salvador transcendente. Brígida, uma viúva aristocrática com vastos recursos, pôde escrever e falar das suas visões sem repreensão da Igreja e agir como bem entendesse sem condenação dos outros; Kempe não se encontrava nessa posição, sendo casada com um comerciante de recursos modestos. Quando Brígida falava, as pessoas ouviam; quando Kempe falava, as pessoas troçavam.

As visões de Kempe continuaram e Cristo ordenou que, doravante, ela vestisse apenas branco como sinal da sua pureza e renascimento. No entanto, o uso de roupa branca pelas mulheres estava reservado às freiras de uma ordem religiosa e, quando mais tarde começou a vestir-se de branco, este facto trouxe-lhe ainda mais disabores. Ela já tinha problemas mais do que suficientes nessa altura, pois muitas pessoas, especialmente os clérigos, repreendiam-na, lembrando-lhe a proibição de São Paulo de que as mulheres falassem em público ou tentassem ensinar os homens. Mesmo assim, como ela escreve, a sua fama tinha-se espalhado e, a caminho de Londres, vinda de Cantuária, «muitos homens dignos queriam ouvi-la conversar, pois a sua conversa tinha muito a ver com o amor de Deus» e parece que, nesta altura, ela se tinha tornado uma oradora popular (Capítulo Dezasseis).

[ ![Statue of Julian of Norwich](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/10491.jpg?v=1618777804) Estátua de Juliana de Norwich Matt Brown (CC BY) ](https://www.worldhistory.org/image/10491/statue-of-julian-of-norwich/ "Statue of Julian of Norwich")Ainda assim, começou a duvidar de si própria e das suas visões e, por isso, foi visitar a anacoreta mística Juliana de Norwich (1342-1416), que a confortou e lhe assegurou que as suas visões e o seu pranto pelos pecados do mundo provinham de Deus, e não da sua própria mente ou do Diabo, e que ela deveria continuar como até então. O estudioso Barry Windeatt comenta especificamente este encontro e o que ele revela sobre a memória de Kempe e as suas memórias em geral:

> A exatidão da memória de Margery, nos pontos em que é possível cruzá-la com acontecimentos registados, é impressionantemente elevada, ao passo que a sua recordação do que lhe foi dito no seu encontro com a Dama Juliana de Norwich é igualmente impressionante, embora num tipo diferente de precisão: aquilo que Margery regista como tendo sido dito por Juliana soa a autêntico no conteúdo, e até no estilo, quando confrontado com a própria obra [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-71/escrita/) desta última. Uma vez que parece improvável que Margery tivesse qualquer conhecimento dos escritos de Juliana, a sua memória desta conversa constitui, simultaneamente, um testemunho precioso da integridade de visão, vida e conselho da Dama Juliana e uma prova da qualidade da capacidade da própria Margery para recordar o que lhe era dito, quer nessa quer, por inferência, noutras ocasiões.
> (pág. 26)

Tendo recebido a garantia de Juliana, Kempe prosseguiu o seu caminho e, depois de saldar as dívidas do marido, tal como prometido, partiu em peregrinação para [Jerusalém](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-194/jerusalem/) em 1413, cumprindo assim uma ordem anterior de Deus.

### A Peregrinação e o Livro

A descrição que Kempe faz das suas viagens está longe de se assemelhar a qualquer texto de viagem reconhecível de qualquer época. Como observa Windeatt, «Margery provavelmente não teria acreditado que a experiência humana valesse a pena ser registada por si só» (pág. 22). Embora tenha viajado para Jerusalém, Roma, Assis, Noruega, Alemanha e tenha feito uma peregrinação pela Espanha até Santiago de Compostela, ela pouco menciona os detalhes do dia-a-dia e, em vez disso, concentra-se nas suas visões e na forma como as outras pessoas a tratavam.

Em Roma, por exemplo, relata como não conseguia parar de chorar pelo sofrimento dos outros e como Deus lhe enviou avisos sobre tempestades iminentes para mantê-la em segurança, mas pouco sobre o próprio local (Capítulo Trinta e Nove). Numa viagem posterior, ela começa a descrever uma tempestade no mar e como não tinha dinheiro, mas volta a desviar o foco para o poder da oração e para a forma como Deus rapidamente lhes enviou bom tempo para chegarem ao seu destino e providenciou o seu sustento financeiro (Capítulo Quarenta e Três). Quando um homem de Norwich concorda em mandar confecionar roupas brancas para ela, ela começa a falar da sua peregrinação a Santiago em 1417, mas depois passa a referir-se às críticas e à crueldade que sofreu por parte dos outros por usar branco, por chorar e por falar de Deus (Capítulo Quarenta e Quatro). Ao mesmo tempo, Kempe fornece detalhes sobre o negócio das peregrinações na Idade Média e as várias agências nos portos e ao longo das rotas que acumularam fortunas consideráveis com isso.

Ao longo das suas viagens, Kempe foi repetidamente acusada de heresia e, em 1417, foi detida em Leicester quando regressava de Espanha e levada a julgamento. Foi novamente absolvida da acusação de heresia e, como de costume, libertada com uma advertência para que deixasse de se comportar daquela forma; uma advertência que ignorou sistematicamente. Regressou a casa para cuidar do seu marido doente, que faleceu por volta de 1431. Parece ter sido por volta desta mesma altura que o seu filho, também conhecido como John Kempe, regressou de onde vivia na Alemanha e tomou notas enquanto Kempe lhe contava as suas experiências, criando assim o primeiro rascunho do seu livro.

John, o mais novo, também faleceu nesse mesmo ano, e Kempe e a sua nora viajaram para a Noruega e depois regressaram à Alemanha. Quando Kempe regressou a casa por volta de 1436, considerou o trabalho que o seu filho tinha feito no livro incompreensível e pediu a um padre, muito provavelmente o seu confessor e confidente de longa data, que o revisse e completasse. *The Book of Margery Kempe*, como viria a ser chamado mais tarde, foi totalmente revisto em 1438, o mesmo ano em que se presume que Kempe tenha falecido, uma vez que não há mais qualquer menção a ela nos registos da cidade após a sua admissão na Guilda da Trindade, naquele mês de abril.

### A Descoberta

O manuscrito deve ter circulado durante algum tempo e chamado alguma atenção, pois excertos do mesmo, atribuídos ao seu nome, foram selecionados por Wynkyn de Worde para inclusão num livro de ditos piedosos em 1501. Esses excertos eram tudo o que se sabia sobre Margery Kempe até 1934, quando o seu manuscrito completo foi encontrado num armário da casa dos Butler-Bowden. A família estava a jogar pingue-pongue na sala de estar na companhia de um amigo que estava de visita e um deles pisou a bola. As bolas e raquetes sobressalentes estavam guardadas num armário da sala de estar e o Tenente-Coronel Butler-Bowden foi buscar uma nova, mas teve dificuldade em encontrá-la devido à desordem de manuscritos antigos que também ali se encontravam.

O amigo que os visitava, Charles Gibbs-Smith, do Museu Victoria and Albert, foi ajudar e reparou no manuscrito. Perguntou se poderia mostrá-lo a um colega, o Sr. Albert Van de Put, e Butler-Bowden concordou. O manuscrito foi autenticado pela investigadora independente Hope Emily Allen («independente» no sentido de não estar afiliada a nenhuma universidade ou instituição) em 1934, tendo ela preparado a primeira versão moderna publicada em 1940.

Não se sabe como o manuscrito chegou à casa dos Butler-Bowden, mas o Tenente-Coronel Butler-Bowden deu a seguinte explicação:

> É de recordar que somos uma família católica e acredito que, quando os mosteiros estavam a ser destruídos, os monges por vezes entregavam livros valiosos, vestimentas litúrgicas, etc., a famílias como a nossa, na esperança de os preservar. Embora não haja nada que o comprove, pode ter sido esse o caso do manuscrito de Margery Kempe, e os cartuxos de Mount Grace podem tê-lo entregue a um dos membros da minha família.
> (Kelliher, pág. 260)

A referência à destruição dos mosteiros diz respeito à Dissolução dos Mosteiros levada a cabo por Henrique VIII entre 1536 e 1541, durante a [Reforma Protestante](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20181/reforma-protestante/) na Inglaterra. A alusão aos cartuxos de Mount Grace refere-se a um priorado em Yorkshire cujo nome estava inscrito no interior da capa de couro do manuscrito e de cujo monge, um tal John Awne († 1472), é mencionado como o copista. Ainda em 1472, portanto, o livro de Kempe era considerado digno de ser copiado e preservado e havia, sem dúvida, várias outras cópias em circulação, o que teria feito com que merecesse a atenção de Wynkyn de Word.

### Conclusão

A obra de Margery Kempe continua a intrigar e a fascinar os leitores nos dias de hoje, tal como deve ter feito pouco depois da sua morte. Os estudiosos têm debatido se o livro pode ser corretamente considerado uma autobiografia, uma vez que foi, na verdade, escrito por outra pessoa, se deveria, em vez disso, ser considerado uma hagiografia (vida de um santo) e outros pormenores da obra, mas ninguém jamais questionou a autenticidade e a sinceridade da voz da narradora.

*The Book of Margery Kempe* continua a gozar de tanta popularidade devido à honestidade da narração. Kempe nunca tenta apresentar-se como algo diferente do que é e, tal como Windeatt observa acima, a sua memória dos acontecimentos reais — na sua maioria — é tão consistente com os factos conhecidos que parece improvável que ela os alterasse em benefício próprio. As suas visões do amor abrangente de Deus ecoam as de outras místicas da Idade Média, como Santa Catarina de Sena (1347-1380) e Juliana de Norwich, e o seu choro constante e soluços incontroláveis são relatados por outras ainda, como Ângela de Foligno (1249-1309) e Doroteia de Montau (1347-1394), conforme assinalado por Windeatt (págs. 20-21).

De facto, tendo em conta a popularidade do culto de Santa Brígida na Inglaterra na época de Kempe, o quão conhecidas e amplamente lidas eram as obras de Santa Catarina pelo clero inglês e o quão bem estabelecido estava o facto de ambas as mulheres escreverem sobre Cristo como seu marido — tal como Kempe afirmava para si própria —, não se pode deixar de questionar por que razão ela foi tão consistentemente posta em dúvida, ridicularizada e forçada a defender-se contra acusações de heresia. A resposta mais provável é que poucas pessoas que professam uma crença desejam realmente encontrar-se com o objeto da sua fé, uma vez que isso provavelmente lhes exigiria uma mudança drástica no seu modo de vida, tal como aconteceu com Margery Kempe.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [The British Library: Margery Kempe](https://www.bl.uk/people/margery-kempe "The British Library: Margery Kempe"), accessed 19 Mar 2020.
- [Womenâ€™s Voices in the Medieval Period by Mary Wellesley](https://www.bl.uk/medieval-literature/articles/womens-voices-in-the-medieval-period "Womenâ€™s Voices in the Medieval Period by Mary Wellesley"), accessed 19 Mar 2020.
- [Coulton, G.G. *Medieval Village, Manor And Monastery.* Kessinger Publishing, LLC, 2010.](https://www.worldhistory.org/books/1163187127/)
- [Deanesly, M. *History of the Medieval Church, 590-1500.* Methuen & Co, 1969.](https://www.worldhistory.org/books/0416181007/)
- [Gies, F. & J. *Women in the Middle Ages.* Harper Perennial, 2018.](https://www.worldhistory.org/books/0060923040/)
- Hilton Kelliher. "The Rediscovery of Margery Kempe: A Footnote." *British Library: Shorter Contributions*, N/A, pp. 259-263.
- John C. Hirsh. "Hope Emily Allen, The Second Volume of The Book of Margery Kempe, and an Adversary." *Georgetown University: Feminist Legacies II*, N/A, pp. 11-17.
- [Julian of Norwich (translated and introduced by Edmund Colledge and James Walsh). *Julian of Norwich: Showings.* Paulist Press, 1977.](https://www.worldhistory.org/books/0809120917/)
- [Julian of Norwich (translated by Grace Warrack). *Revelations of Divine Love.* Penguin Classics, 1998.](https://www.worldhistory.org/books/B0182Q193U/)
- [Margery Kempe (translated by Barry Windeatt). *The Book of Margery Kempe.* Penguin Classics, 2000.](https://www.worldhistory.org/books/0140432515/)

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
- [Linkedin Profile](https://www.linkedin.com/pub/joshua-j-mark/38/614/339)

## Histórico

- **c. 1373 CE - c. 1438 CE**: Life of Christian mystic [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/).
- **c. 1393 CE**: Marriage of Margery Brunham to John Kempe.
- **c. 1393 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) experiences mental breakdown after the birth of her first child.
- **c. 1394 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) recovers and devotes herself to [God](https://www.worldhistory.org/God/) following a vision of [Jesus Christ](https://www.worldhistory.org/Jesus_Christ/).
- **1413 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) travels to Canterbury; almost burned as a heretic for speaking about [God](https://www.worldhistory.org/God/).
- **c. 1413 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) visits [Julian of Norwich](https://www.worldhistory.org/Julian_of_Norwich/) for validation of her visions.
- **1414 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) is in [Rome](https://www.worldhistory.org/Rome/); visits Saint Bridget's room.
- **1417 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) on pilgrimage to Santiago de Compostela.
- **1417 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) tried for heresy at Leicester and released.
- **c. 1431 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) returns home to care for husband who dies the same year.
- **c. 1431 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) dictates the first draft of her book to her son John who dies shortly afterwards.
- **c. 1436 CE**: [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/) dictates her story to a priest who writes it down, correcting earlier version.
- **1438 CE**: Final revision of The Book of [Margery Kempe](https://www.worldhistory.org/Margery_Kempe/); Kempe assumed to have died this same year.

## Cite Este Artigo

### APA
Mark, J. J. (2026, September 25). Margery Kempe. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18154/margery-kempe/>
### Chicago
Mark, Joshua J.. "Margery Kempe." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, September 25, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18154/margery-kempe/>.
### MLA
Mark, Joshua J.. "Margery Kempe." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 25 Sep 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-18154/margery-kempe/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 25 September 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

