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title: Ciclope (Peça Satírica)
author: Donald L. Wasson
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17824/ciclope-peca-satirica/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-09
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# Ciclope (Peça Satírica)

_Escrito por [Donald L. Wasson](https://www.worldhistory.org/user/DWasson/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

A peça satírica *O Ciclope* foi [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-71/escrita/) por Eurípides, um dos grandes trágicos gregos, em 412 ou 408 a.C. À semelhança de muitos dos escritores trágicos, Eurípides centra a peça numa história bem conhecida da [mitologia grega](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11221/mitologia-grega/), ja que *O Ciclope* tem por base a personagem principal da *[Odisseia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-14584/odisseia/)*, do poeta épico [Homero](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-225/homero/): [Odisseu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-786/odisseu/) (Ulisses).

Uma peça satírica, embora semelhante em estilo e frequentemente muito mais curta, não é, por definição, uma tragédia e, na maioria das vezes, tem um final feliz. Estes tipos de peças centram-se num coro de criaturas que são metade humanas e metade bestas (algumas fontes referem cabra, outras cavalo), os devotos seguidores de Dioniso. Tal como na *Odisseia*, Odisseu e a sua tripulação foram desviados da rota durante a viagem de regresso da [Guerra de Troia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10357/guerra-de-troia/) para a ilha natal, Ítaca, acabando por chegar à Sicília. Em busca de comida, são acolhidos por um sátiro idoso chamado Sileno que, juntamente com outros sátiros, é mantido como escravo na ilha pelo ciclope Polifemo. Diferindo ligeiramente da história de Homero, Odisseu tem de impedir que ele e os seus homens sejam devorados por Polifemo. Eventualmente, consegue cegar o ciclope e escapar. *O Ciclope* é a única peça satírica grega que chegou aos nossos dias na íntegra.

### A Vida de Eurípides

Sabe-se muito pouco sobre o início da vida de Eurípides. Nasceu na década de 480 a.C. na ilha de Salamina, perto de [Atenas](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-292/atenas/), numa família de sacerdotes hereditários. Como autor de mais de 90 peças (das quais 19 sobreviveram), foi o mais jovem dos grandes trágicos; os outros dois foram Ésquilo e [Sófocles](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10183/sofocles/). Embora preferisse uma vida de solidão, na companhia dos seus livros, foi casado, supostamente de forma infeliz, e teve três filhos, um dos quais se tornou um dramaturgo notável. Ao contrário dos escritoress trágicos, Eurípides desempenhou pouco ou nenhum papel nos assuntos políticos atenienses; a única exceção foi uma breve missão diplomática a Siracusa, na Sicília. O poeta fez a sua estreia no concurso das Dionísias em 455 a.C., mas só alcançou a sua primeira vitória em 441 a.C. Infelizmente, a sua participação nestas competições não se revelou muito bem-sucedida, tendo conquistado apenas quatro vitórias; uma quinta vitória surgiu após a sua morte.

O filósofo grego [Aristóteles](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-355/aristoteles/) (384-322 a.C.) chamou a Eurípides o mais trágico dos poetas gregos. A classicista Edith Hamilton, no seu livro *O Caminho Grego* (tít. original: *The Greek Way)*, concordou com esta avaliação ao escrever que ele era o mais triste, um poeta do sofrimento do mundo. «Ele sente, como nenhum outro escritor sentiu, a natureza lastimável da vida humana, como a de crianças que sofrem impotentes o que não conhecem e nunca poderão compreender» (pág. 205). Acrescentou que só ele conhecia as «profundezas sombrias da dor». Possivelmente amargurado, e com a [Guerra do Peloponeso](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-342/guerra-do-peloponeso/) a decorrer entre [Esparta](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-197/esparta/) e Atenas, deixou Atenas em 408 a.C., a convite do Rei Arquelau, para viver o resto da vida na [Macedónia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-386/macedonia/), onde faleceu em 406 a.C. No seu livro *Greek Drama* (*Teatro Grego*), Moses Hadas afirmou que o público passou a apreciar o seu estilo e visão, vendo as suas peças como mais empáticas do que as dos seus contemporâneos. Embora frequentemente incompreendido durante a sua vida e nunca tendo recebido a aclamação que merecia, tornou-se um dos poetas mais admirados muito depois da sua morte, influenciando não só os dramaturgos gregos, mas também os romanos.

### O Resumo da Peça

Após a vitória em [Troia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-372/troia/), *Odisseu* e os seus homens regressam a casa, a Ítaca, quando, infelizmente, são desviados da rota e desembarcam na Sicília, perto do Monte Etna. A ilha é habitada por um ciclope chamado Polifemo, filho de Posídon, o [deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) grego do mar. Em busca de alimento, são acolhidos por um sátiro idoso chamado Sileno que, juntamente com os seus filhos, é escravo do gigante ciclope. Sabendo que os sátiros são seguidores de Dioniso, o deus do vinho, Odisseu oferece-se para trocar vinho por comida. Sileno avisa o grego de que o ciclope regressará em breve e que os devorará a todos. Quando Polifemo regressa, Sileno trai Odisseu, acusando-o de roubar a comida. Odisseu e a tripulação são conduzidos para uma gruta onde o ciclope começa a devorá-los.

[ ![Actor with Mask of Silenus](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/4427.jpg?v=1716583083) Ator com a Máscara de Sileno Mark Cartwright (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/4427/actor-with-mask-of-silenus/ "Actor with Mask of Silenus")Com a ajuda dos sátiros, Odisseu elabora um plano para cegar o ciclope e escapar. Depois de embebedar Polifemo, Odisseu cega-o com sucesso usando um atiçador gigante — os sátiros, na verdade, revelam ser de pouca ajuda — e consegue fugir. A fuga é uma ligeira variação da versão da história de Homero. Odisseu e a restante tripulação conseguem embarcar e zarpar. Ao abandonar a ilha, Odisseu identifica-se por erro. O ciclope diz-lhe que um antigo oráculo se cumpriu e que ele irá vaguear pelos mares durante anos.

### O Elenco de Personagens

O elenco, bastante reduzido, inclui:

- Sileno, um sátiro idoso;
- Odisseu, o herói grego;
- Polifemo, o ciclope:
- Um coro de sátiros.

### A Peça

A peça abre no exterior de uma gruta no sopé do Monte Etna, na ilha da Sicília. Enquanto os filhos estão fora a guardar um rebanho de ovelhas, Sileno — um velho sátiro — diz: «Estou encarregado de ficar, encher os cochos, limpar estas dependências e fazer de cozinheiro para o jantar sem Deus deste ímpio Ciclope.» (pág. 184). Quando os filhos regressam, Sileno vê o navio grego de Odisseu chegar à costa próxima. Vendo que trazem jarros e percebendo que talvez estejam à procura de mantimentos, diz aos filhos: «Eles não podem saber como é este Polifemo, vindo a esta terra inóspita e — que má sorte — às mandíbulas devoradoras de homens do Ciclope.» (pág. 186). Odisseu dirige-se ao velho sátiro, identifica-se e pergunta onde poderá encontrar água. «Viemos de Troia e da guerra que lá decorreu.» (pág. 187). Infelizmente, foram empurrados pelo vento e por uma tempestade para as costas da ilha. Sileno conta como o mesmo lhe aconteceu a ele — quando perseguia piratas que tinham capturado Dioniso. Quando questionado, identifica o local como sendo o Etna — o pico mais alto da Sicília.

[ ![Head of Polyphemus](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/2218.jpg?v=1728898807-1728898834) Cabeça de Polifemo Carole Raddato (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/2218/head-of-polyphemus/ "Head of Polyphemus")Curiosamente, Odisseu perguntou quem vivia ali, num lugar sem muralhas ou casas. Sileno responde: «Os Ciclopes. Vivem em grutas, não em casas.» (pág. 188). Não havia governo, pois os gigantes de um só olho, os ciclopes, são selvagens e alimentam-se de leite, queijo e ovelhas, mas, «Os estranhos, dizem eles, fazem a refeição mais saborosa» (pág. 188). Numa tentativa de ser rápido e escapar antes que o Ciclope regresse, Odisseu oferece-se para comprar pão e carne. O vinho, contudo, tocou o coração do velho Sileno, um devoto seguidor de Dioniso. Sileno entra na gruta, regressando com queijo e cordeiros. No entanto, ao longe, vê o Ciclope a regressar. Sileno diz a Odisseu e aos seus homens que precisam de se esconder na gruta, mas Odisseu recusa com orgulho. «Se temos de morrer, que morramos com honra. Mas se vivermos, viveremos com a nossa antiga glória.» (pág. 193).

Ao regressar, o Ciclope vê os gregos parados fora da gruta. Sileno trai Odisseu, dizendo que os gregos o espancaram e roubaram a comida. «Tentei avisá-los. Mas continuaram a roubar. Tentei impedi-los de levar os teus cordeiros e de comer os teus queijos.» (pág. 194). Odisseu defende-se. «Este indivíduo aqui vendeu-nos alguns cordeiros em troca de vinho — tudo de forma voluntária, sem coação.» (pág. 195). O Ciclope, contudo, acredita em Sileno, e não em Odisseu. Odisseu faz um apelo pelos seus homens: «Não profanes a tua boca comendo-nos.» (pág. 196). Mas Sileno aconselha-o a comê-los a todos. O Ciclope fala diretamente a Odisseu: «Continuarei a mimar-me — comendo-te.» (pág. 198). Por respeito, contudo, deixá-lo-á para o fim. Quando o Ciclope pergunta o nome a Odisseu, o orgulhoso grego responde que «Ninguém» era o seu nome.

O Ciclope arrasta os gregos para a gruta, seguido por Sileno. Odisseu observa enquanto dois dos seus homens são devorados. «Zeus, como posso dizer o que vi naquela gruta? Horrores inacreditáveis, o tipo de coisas de que os homens ouvem falar nos mitos, não na vida real!» (pág. 199). Ele vira-se para o líder do coro: «Ele agarrou dois dos meus homens, os mais saudáveis e robustos. Pesou-os nas mãos.» (pág. 199). Odisseu oferece ao Ciclope uma prova do seu vinho — «as uvas da Grécia». Ao embebedar o Ciclope com vinho, Odisseu consegue libertar-se da gruta. Falando novamente com o líder, conta-lhe o plano que concebeu: continuará a dar vinho ao Ciclope e «...assim que o vinho o fizer adormecer, pegarei na minha espada e afiarei um ramo de oliveira que vi dentro da gruta. Colocá-lo-ei nas brasas e, quando estiver a arder, espetá-lo-ei bem fundo, diretamente no olho do Ciclope.» (pág. 202). Para ter sucesso, porém, precisará da ajuda do líder do coro. O líder do coro está mais do que disposto a ajudar, pois também deseja escapar do Ciclope.

[ ![Odysseus Blinding the Cyclops](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/999.jpg?v=1782466211-1782466236) Odisseu Cega o Ciclope Dan Diffendale (CC BY-NC-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/999/odysseus-blinding-the-cyclops/ "Odysseus Blinding the Cyclops")Ao ver Odisseu parado fora da gruta, o Ciclope exige mais vinho — deverá partilhá-lo com os seus irmãos? Odisseu diz-lhe que não precisa de o partilhar com mais ninguém. O Ciclope continua a beber. Odisseu diz-lhe: «Toma, pega nele e bebe até à última gota, e não dês a vitória como certa até que o vinho tenha acabado.» (pág. 208). O Ciclope arrasta então Sileno para o interior da gruta. Odisseu percebe que é altura de executar o seu plano, mas o líder do coro mostra-se relutante em ajudar porque torceu o tornozelo. Um Odisseu furioso grita: «Que cobardes inúteis. Não há qualquer ajuda vinda de vós.» (pág. 211). Odisseu entra na gruta. De repente, o Ciclope grita: «O meu olho foi reduzido a cinzas.» (pág. 212). Enquanto o Ciclope procura freneticamente e às cegas pelos gregos, Odisseu e os seus homens escapam da gruta. O líder do coro começa a dar indicações falsas ao Ciclope cego: «Ali à tua esquerda.» E: «Ele está à tua frente.» (pág. 215). O Ciclope continua a perguntar: «Onde está o Ninguém?» (pág. 213). O líder responde friamente: «Em lado nenhum.» Antes de partir, Odisseu finalmente identifica-se: «Tiveste de pagar pela tua refeição impia.» (pág. 215). O Ciclope responde: «O antigo oráculo cumpriu-se. Dizia que, depois de vires de Troia, me cegarias. Mas que pagarias por isto, dizia, e vaguearias pelos mares durante muitos anos.» (pág. 215). Odisseu retira-se: «O que está feito, feito está.»

### Conclusão

Fiel à sua natureza, a peça terminou feliz, pelo menos para Odisseu. Escapou da ilha, mas ainda demoraria algum tempo até ver a sua casa. Embora se desconheça a data exata de quando foi [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/), *O Ciclope* permanece como o único exemplo completo de uma peça satírica que sobreviveu intacta. A obra é, naturalmente, largamente ofuscada pela epopeia de Homero e não é considerada uma das melhores ou mais populares obras de Eurípides. O trágico recebeu, por exemplo, críticas consideráveis devido a algumas das alterações que fez à história da *Odisseia*. Apresentou os sátiros como cobardes e alterou a fuga de Odisseu ao eliminar a rocha que cobria a entrada da gruta e que tinha bloqueado a saída dos gregos. A peça foi traduzida pelo poeta inglês Percy Bysshe Shelley em 1819 e ainda é representada ocasionalmente.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Anonymous. *Euripedes.* Encyclopedia Britannica.](https://www.worldhistory.org/books/039335444X/)
- Grene, D. (Ed.). *Euripedes V.* University of Chicago, 2013
- [Hadas, M. *Greek Drama.* Bantam Classics, 1984.](https://www.worldhistory.org/books/0553212214/)
- [Hamilton, E. *The Greek Way.* W. W. Norton & Company, 2017.](https://www.worldhistory.org/books/039335444X/)
- [Hornblower, S. *The Oxford Classical Dictionary.* Oxford University Press, 2012.](https://www.worldhistory.org/books/0199545561/)

## Sobre o Autor

Donald ensina História Antiga, Medieval e dos Estados Unidos no Lincoln College (Normal, Illinois) e sempre foi e sempre será um estudante de História, dedicando-se, desde então, a se aprofundar no conhecimento sobre Alexandre, o Grande. É uma pessoa ávida a transmitir conhecimentos aos seus estudantes.

## Histórico

- **c. 484 BCE - 407 BCE**: Life of [Greek tragedy](https://www.worldhistory.org/Greek_Tragedy/) poet [Euripides](https://www.worldhistory.org/Euripides/).
- **c. 412 BCE**: [Euripides](https://www.worldhistory.org/Euripides/)' [satyr](https://www.worldhistory.org/satyr/) play [Cyclops](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Cyclops/) is first performed.

## Cite Este Artigo

### APA
Wasson, D. L. (2026, August 09). Ciclope (Peça Satírica). (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17824/ciclope-peca-satirica/>
### Chicago
Wasson, Donald L.. "Ciclope (Peça Satírica)." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 09, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17824/ciclope-peca-satirica/>.
### MLA
Wasson, Donald L.. "Ciclope (Peça Satírica)." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 09 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17824/ciclope-peca-satirica/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 09 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

