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title: Dinastia Merovíngia
author: Harrison W. Mark
translator: Raimundo Raffaelli-Filho
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17548/dinastia-merovingia/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-14
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# Dinastia Merovíngia

_Escrito por [Harrison W. Mark](https://www.worldhistory.org/user/harrisonwmark/)_
_Traduzido por [Raimundo Raffaelli-Filho](https://www.worldhistory.org/user/raffaelli-filho)_

A Dinastia Merovíngia foi a família governante dos [francos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13497/francos/) desde aproximadamente 481 d.C., quando Clóvis I ascendeu ao trono dos francos sálios, até 751, quando Childerico III (também grafado Quilderico) foi deposto e os merovíngios foram substituídos pela [Dinastia Carolíngia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17553/dinastia-carolingia/) como reis da Frância. Os merovíngios estabeleceram o maior e mais poderoso reino da [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-35/europa/) Ocidental, consolidando a hegemonia franca.

O nome da dinastia deriva de um de seus antepassados, Meroveu, um líder franco sálio semimitológico que, segundo a tradição, lutou ao lado dos romanos na [Batalha dos Campos Cataláunicos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-995/batalha-dos-campos-catalaunicos/) (451). O neto de Meroveu, Clóvis I (reinou 481 a 511), foi responsável por expandir o poder merovíngio pela maior parte da Gália e por partes do norte da Alemanha, bem como por unificar todas as tribos francas sob um único governo. Após a morte de Clóvis, seu reino foi dividido em partes iguais entre seus quatro filhos. Embora o reino merovíngio fosse visto como uma entidade política única, tornou-se prática comum na sucessão cada filho receber uma parcela do território para governar em seu próprio nome. Isso gerou desunião na Dinastia Merovíngia e fomentou guerras civis.

Os merovíngios, frequentemente chamados de "reis de cabelos longos", distinguiam-se dos demais francos por manterem os cabelos compridos; tal característica logo se tornou um símbolo de seu direito de governar. Uma forma comum dos merovíngios eliminarem rivais era submetê-los à tonsura e enviá-los a um mosteiro, visto que um merovíngio de cabelos curtos era considerado inapto para governar. Outro método utilizado para manter a legitimidade era a cerimônia em que novos reis eram erguidos sobre um escudo por um grupo de soldados; o ato simbolizava a concessão, pelos francos, de seu consentimento para que o novo rei governasse. Tais esforços de legitimação foram extremamente eficazes: os merovíngios mantiveram o trono por mais de um século após o início do declínio de seu poder, em parte porque os francos não aceitavam nenhuma outra família como governante. Com o tempo, no entanto, os merovíngios foram eclipsados ​​pelo poder da aristocracia e pela personalidade dinâmica de certos prefeitos do palácio, como Carlos Martel (cerca de 688–741). Em 751, os merovíngios já haviam perdido tanta relevância que o filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve (reinou 751–768), pôde tomar o trono para si e tornar-se o primeiro rei carolíngio dos francos.

### Origens

A Dinastia Merovíngia originou-se como apenas uma das famílias governantes espalhadas pela confederação de tribos francas não coesas. Os merovíngios pertenciam aos francos sálios (tribos francas que viviam nas margens do antigo rio Isala, atual Issel, nos Países Baixos), uma tribo estabelecida na Gália Bélgica pelo [Império Romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-100/imperio-romano/) do Ocidente, em 358, na condição de *foederati* (aliados). Tal acordo estipulava que os sálios deviam prestar serviço militar aos romanos em troca do uso de terras. Consequentemente, os sálios ajudaram a defender as fronteiras do [império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) contra incursões bárbaras e, mais notavelmente, participaram da Batalha dos Campos Cataláunicos contra os hunos, em 451.

Esse acordo com os romanos permitiu que certos francos, assim como outros *foederati*, acumulassem poder dentro da estrutura romana existente. Alguns "bárbaros" ascenderam nas fileiras do [exército romano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11830/exercito-romano/), alcançando altos cargos, como [cônsul](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-375/consul/) ou *magister militum* (mestre dos soldados). Outros simplesmente consolidaram seu poder sobre as terras onde haviam sido assentados, aproveitando-se do declínio da autoridade romana. Clódio, um líder dos francos sálios do início do século V, seguiu este último caminho; a partir de sua capital em Tournai (na atual Bélgica, região da Valônia), ele expandiu sua influência sobre grande parte da Bélgica. Clódio conseguiu consolidar sua autoridade oferecendo proteção e emprego aos cidadãos galo-romanos — coisas que os romanos já não podiam garantir.

Clódio morreu algum tempo antes de 451; nessa época, os sálios eram liderados por um certo Meroveu que, segundo o historiador do século VI Gregório de Tours, era filho de Clódio. No entanto, a *Crônica de Fredegário* (século VII) apresenta relato diferente e fantástico sobre a ascendência de Meroveu: na lenda, Meroveu seria filho de uma besta marinha conhecida como Quinotauro (criatura com cinco chifres, metade touro, metade peixe), que se impôs a mãe dele enquanto ela nadava e a engravidou. A história do Quinotauro — que pode ter sido tentativa de associar os francos à [mitologia grega](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11221/mitologia-grega/) — também serve para conferir origens míticas aos merovíngios, embora não haja evidências de que a história tenha sido contada por eles ou que tenha sido amplamente aceita. Além desses mitos, pouco se sabe sobre Meroveu, exceto que ele liderou os francos contra os hunos, em 451, e que foi pai de Childerico I, que o sucedeu como rei dos francos sálios por volta de 458.

[ ![Victory of Merovech at the Battle of Catalaunian Fields](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/6182.png?v=1638557103) Vitória de Meroveu na Batalha dos Campos Cataláunicos Fordmadoxfraud (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/6182/victory-of-merovech-at-the-battle-of-catalaunian-f/ "Victory of Merovech at the Battle of Catalaunian Fields")Há evidências que sugerem que o rei Childerico I (reinou 458-481) manteve laços estreitos com os romanos durante seu reinado. Em 463, ele supostamente travou uma batalha em Orleans, possivelmente como aliado romano. Suas campanhas militares ao longo do Loire também são frequentemente associadas aos romanos; um broche foi descoberto posteriormente em seu túmulo, o qual era concedido apenas a altos funcionários imperiais. Se Childerico foi de fato um aliado ou cliente de Roma, ele soube tirar proveito dessa relação, fortalecendo consideravelmente o poder dos sálios no nordeste da Gália. Quando ele morreu, em 481 ou 482, já havia preparado o terreno para que seu filho e sucessor, Clóvis I, conquistasse a Gália e unificasse os francos.

### Reinado de Clóvis

O reinado de Clóvis I foi significativo por dois motivos principais: a unificação dos francos e sua conversão ao [cristianismo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-665/cristianismo/). O primeiro projeto teve início em 486, quando ele atacou e derrotou Siágrio (*Afranius Syagrius*; cerca de 430-486/487) — a última autoridade romana a exercer poder na Gália — e conquistou a cidade de Soissons. A partir dessa nova base de poder, Clóvis conduziu campanhas militares contra os alamanos, derrotando-os na Batalha de Tolbiac, em 496 d.C., e contra [os visigodos](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-709/os-visigodos/), vencidos na Batalha de Vouillé, em 507. Em Vouillé, Clóvis conteve o poder dos visigodos — vistos como uma grande ameaça à expansão franca — e estendeu sua influência até a Aquitânia.

Após casar-se com Clotilde, filha de um rei burgúndio, Clóvis empreendeu campanhas na Borgonha, expandindo ainda mais sua influência pela Gália. Após sua conversão, Clóvis foi reconhecido como aliado pelo imperador bizantino Anastácio I (reinou 491-518), que lhe concedeu o título de cônsul. Na fase final de seu reinado, Clóvis assumiu o controle dos reinos francos vizinhos, valendo-se de uma combinação implacável de conquista, astúcia e assassinato. Por ocasião de sua morte, em 511, Clóvis havia adotado o título de "Rei de Todos os Francos" e dominava a maior parte da Gália, com exceção apenas da Borgonha, da Provença e da Septimânia (referente as sete cidades principais da costa do Mediterrâneo: Narbona, Carcassonne, Nîmes, Béziers, Lodève, Agde e Elne, que permaneceram sob reduto do Reino Visigodo). Estava assim estabelecido o Reino Merovíngio.

[ ![Map of the Rise and Expansion of the Merovingians, c. 639](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/16909.png?v=1766914902-1766914997) Mapa da Ascensão e Expansão dos Merovíngios, cerca de 639 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/image/16909/map-of-the-rise-and-expansion-of-the-merovingians/ "Map of the Rise and Expansion of the Merovingians, c. 639")Seu segundo grande feito, a conversão ao catolicismo, teria ocorrido — segundo a tradição — em 496, ano da Batalha de Tolbiac. Antes da batalha, Clóvis era pagão e ignorava todos os apelos de sua esposa católica, Clotilde, para que se convertesse. Em Tolbiac, quando ficou evidente que as forças francas estavam sendo derrotadas, Clóvis, desesperado, orou a [Deus](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10299/deus/) e [prometeu](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11877/prometeu/) batizar-se caso alcançasse a vitória. Imediatamente, o rumo da batalha mudou e os francos saíram vitoriosos. Fiel à sua palavra, Clóvis converteu-se ao catolicismo e foi batizado juntamente com suas irmãs e 3.000 de seus guerreiros. Essa história, conforme narrada por Gregório de Tours, retrata Clóvis como um verdadeiro convertido, embora muitos estudiosos modernos acreditem que havia motivações políticas subjacentes. Clóvis certamente sabia que muitos de seus novos súditos galo-romanos eram católicos e talvez desejasse consolidar seu domínio por meio da conversão. Sua opção pelo catolicismo em detrimento do cristianismo [ariano](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11520/ariano/) pode ter visado justificar a invasão dos visigodos — que eram arianos — ao apresentar-se como defensor do catolicismo. Com essa escolha, ele também obteve o apoio de aliados católicos poderosos, incluindo o [Império Bizantino](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-953/imperio-bizantino/). Quaisquer que tenham sido suas motivações, a conversão de Clóvis contribuiu para o avanço do catolicismo sobre o arianismo na [Europa](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15614/europa/) Ocidental.

### Filhos de Clóvis

Após a morte de Clóvis, em 511, seu reino foi dividido igualmente entre seus quatro filhos, estabelecendo precedente para as futuras sucessões merovíngias. Embora essa divisão seja frequentemente explicada como adesão aos costumes germânicos de herança, o historiador Ian Wood sugere que a rainha Clotilde pode ter desempenhado papel na partilha para garantir que seus próprios filhos não fossem excluídos da sucessão. De qualquer forma, a partilha estabeleceu um precedente perigoso para sucessões futuras, tornando-se uma das principais fontes de rivalidade e desunião entre os reis merovíngios.

Inicialmente, os filhos de Clóvis trabalharam juntos para concluir as conquistas iniciadas por seu pai. Eles conquistaram o Reino da Borgonha, em 534, e receberam o controle da Provença, cedido pelos ostrogodos alguns anos depois. Os merovíngios também se expandiram em direção à Alemanha, conquistando a Turíngia, em 531, e ampliando sua influência até a Baviera. [Os saxões](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13480/os-saxoes/) lutaram contra os merovíngios em 555, mas foram derrotados e forçados a pagar aos francos um tributo anual de 500 vacas. Essas conquistas fizeram dos merovíngios o maior e mais poderoso reino do Ocidente após a morte do rei ostrogodo [Teodorico, o Grande](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-725/teodorico-o-grande/), em 526.

[ ![Sons of Clovis](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17069.jpg?v=1676320721-1676623058) Filhos de Clóvis Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17069/sons-of-clovis/ "Sons of Clovis")No entanto, apesar de cooperarem nessas conquistas, os filhos de Clóvis buscavam constantemente maneiras de minar uns aos outros e ampliar seu próprio poder. Em 531, Teodorico I (reinou 511-534) tentou matar seu meio-irmão [Clotário I](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21585/clotario-i/) (reinou 511-561). Quando Teodorico morreu, Clotário tentou tomar seu reino à força; a guerra civil só foi evitada graças a uma tempestade milagrosa que dificultou o movimento dos exércitos. Em 532, Clotário e seu irmão Childeberto I (reinou 511-558) assassinaram dois de seus sobrinhos para assegurar seu próprio poder. Em 555, Childeberto I incitou Chramn, filho de Clotário, à rebelião enquanto Clotário estava em campanha contra os saxões. A revolta de Chramn terminou em 560, quando foi derrotado em batalha pelo pai e, posteriormente, queimado vivo — juntamente com a esposa e as filhas — por ordem do próprio Clotário. Esse tipo de luta interna se tornaria característica da dinastia merovíngia, agravando-se ainda mais na geração seguinte.

Por volta de 558, Clotário I havia sobrevivido aos irmãos e herdado os reinos deles, o que lhe permitiu reivindicar o antigo título de Clóvis: "Rei de Todos os Francos". No entanto, ele governou o reino merovíngio reunificado por menos de três anos; com sua morte, em 561, o reino foi novamente dividido entre seus quatro filhos.

### Rainhas Rivais

Por volta de 567, os reinos merovíngios eram governados por três dos filhos sobreviventes de Clotário:

- Sigeberto I (reinou 561-575) governava o reino mais a leste, que logo passaria a ser conhecido como Austrásia.
- Gontrão I de Orleães (reinou 561-592) governava o território da Borgonha.
- Chilperico I (reinou 561-584) governava o território da Nêustria, a partir de Soissons.

Tanto Sigeberto quanto Chilperico eram casados ​​com princesas visigodas: Sigeberto havia se casado com Brunilda e Chilperico desposou a irmã mais velha dela, Galswinta. No entanto, Chilperico e Galswinta não formavam um casal feliz, e não demorou muito para que Chilperico mandasse assassiná-la a fim de se casar com sua amante, uma serva chamada Fredegunda. O assassinato de Galswinta gerou atrito entre Sigeberto e Chilperico, conflito que culminaria em guerra civil, em 572.

[ ![King Chilperic Murders his Wife Galswinth](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17081.jpg?v=1676564141-1676965934) O Rei Chilperico Assassina sua Esposa Galswinta Unknown Artist (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17081/king-chilperic-murders-his-wife-galswinth/ "King Chilperic Murders his Wife Galswinth")A guerra durou até 575, quando Sigeberto, prestes a alcançar a vitória, foi assassinado por dois homens, provavelmente contratados pela rainha Fredegunda. Chilperico tentou assumir o reino de Sigeberto, mas foi impedido por Gontrão, que garantiu a independência do filho de Sigeberto, então com cinco anos de idade, Childeberto II (reinou 575-596). Quando o próprio Chilperico foi assassinado, em 584, Gontrão ofereceu proteção semelhante ao filho de Chilperico, Clotário II (reinou 584-629), que tinha apenas quatro meses de idade. Por algum tempo, Gontrão foi o único rei merovíngio adulto e governou toda a Frância como tutor de seus dois sobrinhos. Quando Gontrão morreu, em 592, essa paz precária foi rompida, e Childeberto II invadiu o reino de seu primo.

Essa nova série de guerras civis foi alimentada pelas mães dos jovens reis. A rivalidade entre a rainha Brunilda da Austrásia e a rainha Fredegunda da Nêustria, que remontava ao assassinato de Galswinta, apenas se aprofundou ao longo dos anos. A guerra entre Childeberto II e Clotário II, em 592, pode ser vista como um conflito por procuração entre as duas rainhas. Quando Fredegunda morreu, em 597, Clotário II deu continuidade à luta contra a rival de sua mãe. Em 596, Childeberto II morreu em circunstâncias misteriosas. Seus dois filhos (netos de Brunilda) retomaram a guerra contra Clotário II, chegando a reduzir o território deste a apenas 12 condados situados entre os rios Sena e Oise e o mar. No entanto, antes que pudessem acabar com Clotário, os irmãos começaram a brigar entre si. Após uma sangrenta guerra civil, em 612, ambos os netos de Brunilda estavam mortos, deixando o reino unificado da Austrásia e Borgonha nas mãos do rei-criança Sigeberto II e da idosa Brunilda, que governava como regente.

Nesse momento, os nobres da Austrásia e da Borgonha, já fartos da influência dominadora de Brunilda, convidaram Clotário II para invadir a região, o que ele fez em 613. Encontrando pouca resistência, Clotário II mandou executar Sigeberto II. Ele ordenou que Brunilda fosse torturada por três dias antes de ser amarrada aos membros de cavalos e despedaçada. A execução macabra de Brunilda marcou o fim do conflito iniciado em 567 e permitiu a Clotário II reunificar os reinos merovíngios sob seu próprio domínio.

[ ![Execution of Brunhilda](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17171.jpg?v=1748538190-1678445486) Execução de Brunilda Alphonse de Neuville (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17171/execution-of-brunhilda/ "Execution of Brunhilda")### A Ascensão da Aristocracia

Os reinados de Clotário II e de seu filho Dagoberto I (reinou 623-639) são considerados por alguns historiadores como o apogeu do poder merovíngio e um período de paz e prosperidade para os reinos francos. No entanto, esse sucesso foi alcançado graças a enormes concessões feitas à aristocracia, as quais acabariam por enfraquecer a autoridade da coroa merovíngia ao longo do tempo. Em 614, Clotário II promulgou o Édito de Paris, que descentralizou o poder em seu reino e conferiu maior autoridade às elites regionais. Posteriormente, em 617, mais poderes foram concedidos aos prefeitos do palácio. Esse cargo, que originalmente consistia na chefia da casa real, havia ascendido até se tornar a segunda posição mais poderosa do reino. Havia três prefeitos no reino de Clotário, um para cada um dos reinos merovíngios (Nêustria, Austrásia e Borgonha). As concessões feitas em 617 permitiam que cada prefeito legislasse sobre seu próprio reino conforme julgasse adequado e proibiam o rei de remover legalmente um prefeito do poder. Essa medida, juntamente com o Édito de Paris, serviu para consolidar o poder do próprio Clotário II ao conquistar o apoio da aristocracia, mas também levou à diminuição, a longo prazo, do poder merovíngio, ao ampliar a autoridade dos aristocratas. Tratava-se, nas palavras da pesquisadora Susan Wise Bauer, de um "pacto com o diabo" (251).

[ ![Chlothar II with His Son Dagobert I](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17125.jpg?v=1748538184-1677747141) Clotário II com seu filho Dagoberto I Bibliothèque nationale de France (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17125/chlothar-ii-with-his-son-dagobert-i/ "Chlothar II with His Son Dagobert I")Em 623, os aristocratas da Austrásia começaram a reclamar que o rei passava todo o seu tempo na Nêustria, argumentando que a presença real conferia à Nêustria uma vantagem injusta. Visto que a aristocracia austrasiana havia se tornado poderosa demais para ser ignorada, Clotário decidiu apaziguá-la transformando a Austrásia em um sub-reino semiautônomo, governado por seu filho mais velho, Dagoberto I. Como rei da Austrásia, Dagoberto desfrutava de pouca independência, uma vez que estava constantemente sujeito aos caprichos dos poderosos magnatas austrasianos. Quando Clotário II morreu, em 629, Dagoberto tornou-se Rei de Todos os Francos e transferiu sua capital de Metz para Paris, na esperança de reduzir o poder dos austrasianos. Isso apenas irritou ainda mais os austrasianos, que se revoltaram contra o governo de Dagoberto. Em 634, Dagoberto foi forçado a transformar novamente a Austrásia em um sub-reino próprio e nomeou seu filho de três anos, Sigeberto III (r. 634-656), como seu rei.

### Últimos Merovíngios

Quando Dagoberto morreu em 639, Sigeberto III continuou a governar a Austrásia, enquanto a coroa do reino unificado de Nêustria e Borgonha passou para o filho mais novo de Dagoberto, Clóvis II (reinou 639 a 657). Como Sigeberto e Clóvis eram menores de idade, os nobres de seus respectivos reinos passaram a governar em seus nomes. Graças ao poder concedido à aristocracia durante os reinados de Clotário II e Dagoberto, os magnatas conseguiram consolidar ainda mais sua posição, de modo que, mesmo após os jovens reis atingirem a maioridade, os prefeitos do palácio continuaram a deter o controle efetivo. Por isso, Sigeberto III e Clóvis II são por vezes considerados os primeiros dos *rois fainéants* — ou "reis ociosos" (ou "reis que nada faziam") —, assim chamados devido à ausência de qualquer autoridade real efetiva. O último século do domínio merovíngio (639–751) testemunhou a erosão gradual do poder da dinastia, até que os reis não passassem de figuras meramente cerimoniais.

[ ![The Last of the Merovingians](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/17170.jpg?v=1748538187-1678445218) O Último dos Merovíngios Évariste Vital Luminais (Public Domain) ](https://www.worldhistory.org/image/17170/the-last-of-the-merovingians/ "The Last of the Merovingians")No entanto, mesmo depois da dinastia deixar de exercer poder real, o nome merovíngio ainda significava muito para seus súditos francos. Quando Sigeberto III morreu em 656, Grimoaldo, prefeito do palácio da Austrásia, tentou colocar o próprio filho no trono. Ele mandou tonsurar o filho de Sigeberto, Dagoberto II, e exilá-lo em um mosteiro irlandês antes de coroar seu próprio filho — conhecido na história como Childeberto, o Adotado — como rei da Austrásia. Tal atitude irritou os magnatas austrasianos, que se recusavam a aceitar um rei que não fosse merovíngio. Em 657, Grimoaldo e Childeberto foram capturados pelos nobres austrasianos e enviados à corte de Clóvis II, que ordenou a execução de ambos. Clóvis então colocou seu próprio filho, Childerico II, no trono da Austrásia.

Com o passar das décadas, o poder merovíngio continuou a declinar à medida que a autoridade dos prefeitos do palácio aumentava. Um clã aristocrático em particular, os Pipinidas, ascendeu a uma posição de destaque como prefeitos do palácio. Carlos Martel, descendente dos Pipinidas e fundador da dinastia carolíngia, assumiu o poder como prefeito do palácio da Austrásia em 715. Famoso por liderar os francos à vitória contra o Califado Omíada na Batalha de Tours (732), Carlos Martel tornou-se o governante *de facto* da Frância; na fase final de seu reinado, ele sequer se deu ao trabalho de nomear um rei merovíngio fantoche, e o trono permaneceu vago até a morte de Carlos, em 741. O reinado dinâmico de Carlos Martel dissipou a ilusão de que os merovíngios ainda detinham qualquer poder. Em 751, o último rei merovíngio, Childerico III, foi deposto pelo filho de Carlos, Pepino, o Breve. Pepino tomou o trono para si e tornou-se o primeiro rei carolíngio dos francos.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Ammianus Marcellinus & Walter Hamilton & Andrew Wallace-Hadrill. *The Later Roman Empire .* Penguin Classics, 1986.](https://www.worldhistory.org/books/0140444068/)
- [Bachrach, Bernard S. *Merovingian military organization, 481-751.* University of Minnesota Press, 1972.](https://www.worldhistory.org/books/0816606218/)
- [Bauer, Susan Wise. *The History of the Medieval World.* W. W. Norton & Company, 2010.](https://www.worldhistory.org/books/0393059758/)
- [Geary, Patrick J. *Before France and Germany.* Oxford University Press, 1988.](https://www.worldhistory.org/books/0195044584/)
- [Gregory of Tours & Thorpe, Lewis & Thorpe, Lewis & Radice, Betty. *The History of the Franks .* Penguin Classics, 1976.](https://www.worldhistory.org/books/0140442952/)
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- [Nigel Rodgers & Dr. Hazel Dodge FSA. *The Illustrated Encyclopedia of the Roman Empire.* Hermes House, 2023.](https://www.worldhistory.org/books/1782143394/)
- [Wood, Ian. *The Merovingian Kingdoms 450 - 751.* Routledge, 1993.](https://www.worldhistory.org/books/0582493722/)

## Sobre o Autor

Harrison Mark é pesquisador e escritor para a World History Encyclopedia. Ele é graduado pela SUNY Oswego, onde estudou História e Ciência Política.
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## Histórico

- **450 CE - 751 CE**: [Merovingian Dynasty](https://www.worldhistory.org/Merovingian_Dynasty/) in Francia.
- **451 CE**: [Hun](https://www.worldhistory.org/Huns/) invasion of [Gaul](https://www.worldhistory.org/gaul/); [Battle](https://www.worldhistory.org/disambiguation/battle/) of the Cataluanian Plains (Battle of Chalons).
- **c. 458 CE - 481 CE**: Reign of [Childeric I](https://www.worldhistory.org/Childeric_I/) establishes Frank presence; region known as Francia.
- **486 CE**: [Clovis I](https://www.worldhistory.org/Clovis_I/) of the [Franks](https://www.worldhistory.org/Franks/) defeats the Romans in [Gaul](https://www.worldhistory.org/gaul/). Founding of the Frankish kingdom.
- **503 CE**: [Clovis I](https://www.worldhistory.org/Clovis_I/) converts to [Christianity](https://www.worldhistory.org/christianity/).
- **561 CE - 584 CE**: Reign of King [Chilperic I](https://www.worldhistory.org/Chilperic_I/), ruler of the Frankish kingdom of Neustria.
- **561 CE - 592 CE**: Reign of King [Guntram I of Orléans](https://www.worldhistory.org/Guntram_I_of_Orleans/).
- **584 CE - 629 CE**: Life and reign of King [Chlothar II](https://www.worldhistory.org/Chlothar_II/).
- **623 CE - 639 CE**: Reign of King [Dagobert I](https://www.worldhistory.org/Dagobert_I/), the last Merovingian king to hold any real power.

## Perguntas & Respostas

### O que foi a Dinastia Merovíngia?
A Dinastia Merovíngia (cerca de 481–751) foi uma família governante dos francos, cujos membros são, por vezes, considerados os primeiros reis da França. O reino merovíngio tornou-se o mais poderoso dos estados sucessores "bárbaros" surgidos após a queda do Império Romano do Ocidente.

### Por que a Dinastia Merovíngia entrou em colapso?
O colapso da Dinastia Merovíngia pode ser atribuído a constantes disputas internas e rivalidades entre seus membros, bem como à ascensão da aristocracia e dos prefeitos do palácio. Os prefeitos acabaram conseguindo reduzir o poder dos reis merovíngios antes de, finalmente, depô-los, em 751.

### Pelo que a Dinastia Merovíngia era conhecida?
Os membros da Dinastia Merovíngia eram conhecidos por seus cabelos longos — que simbolizavam seu direito de governar — e também por sua crueldade e pelas disputas internas. A dinastia ficou conhecida pela prática de elevar novos reis sobre um escudo e pelo uso recorrente de certos nomes, como Quilperico, Childeberto e Clóvis, para promover uma sensação de hereditariedade e continuidade política.

### Quem foram alguns dos reis merovíngios?
Alguns dos reis mais notáveis da Dinastia Merovíngia incluem Clóvis I (reinou de 481 a 511), que unificou os francos e converteu-se ao cristianismo; São Gontrão I (reinou de 561 a 592), que guiou a dinastia por um período precário; e Dagoberto I (reinou de 623 a 639), que governou no auge do poder merovíngio.

### Carlos Magno era um merovíngio?
Carlos Magno não era um merovíngio, mas sim membro da Dinastia Carolíngia. Os carolíngios formaram a dinastia que substituiu os merovíngios como governantes da Frância.


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Mark, H. W. (2026, August 14). Dinastia Merovíngia. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17548/dinastia-merovingia/>
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Mark, Harrison W.. "Dinastia Merovíngia." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, August 14, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17548/dinastia-merovingia/>.
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Mark, Harrison W.. "Dinastia Merovíngia." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. *World History Encyclopedia*, 14 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17548/dinastia-merovingia/>.

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Enviado por [Raimundo Raffaelli-Filho](https://www.worldhistory.org/user/raffaelli-filho/ "User Page: Raimundo Raffaelli-Filho"), publicado em 14 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

