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title: Naufrágio de Uluburun
author: Mark Cartwright
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15899/naufragio-de-uluburun/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-08-16
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# Naufrágio de Uluburun

_Escrito por [Mark Cartwright](https://www.worldhistory.org/user/markzcartwright/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

O naufrágio de *Uluburun* é uma embarcação da Idade do Bronze descoberta ao largo da costa de Kas, na Turquia. O navio, provavelmente originário da [Fenícia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-183/fenicia/)/[Canaã](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-162/canaa/), data de entre 1330 e 1300 a.C. e transportava uma carga completa de mercadorias comerciais, talvez a partir de um porto no sul da antiga Lícia e com destino provável ao continente grego. Os arqueólogos subaquáticos escavaram o local ao longo de onze temporadas, com início em 1984, acumulando mais de 17 toneladas de artefactos — um verdadeiro tesouro de bens e de informação sobre o comércio e a interação cultural no Mediterrâneo da Idade do Bronze Antiga.

### A Cronologia

As técnicas de datação por radiocarbono e a presença de tipos de cerâmica identificáveis situam a data do naufrágio em algum momento do final do século XIV a.C., provavelmente entre 1330 e 1300 a.C. Infelizmente, grande parte do navio propriamente dito não sobreviveu, mas fragmentos da quilha e do tabuado do casco, bem como a quantidade total de bens encontrados no seu interior, permitiram reconstruir as dimensões da embarcação. Estima-se que o navio de *Uluburun* tivesse outrora cerca de 15 metros de comprimento, 5 metros de largura e capacidade para transportar até 20 toneladas de carga. O casco e a quilha foram construídos em madeira de cedro libanês, com elementos de fixação e uniões em carvalho.

Graças à profundidade a que se encontrava o naufrágio (entre 44 e 61 metros), este não tinha sido saqueado antes da sua escavação arqueológica pelo *Institute of Nautical Archaeology* (Instituto de [Arqueologia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-421/arqueologia/) Náutica) da Universidade A&M do Texas. Contudo, uma consequência dessa profundidade foi a limitação do tempo que os mergulhadores podiam passar nos destroços, o que resultou em mais de 22 400 mergulhos para trazer à superfície mais de 17 toneladas de artefactos. Uma dificuldade adicional foi a desintegração do navio ao longo de uma encosta íngreme, o que dispersou a carga por uma área de cerca de 250 metros².

[ ![Cargo Reconstruction, Uluburun Shipwreck](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/7263.jpg?v=1737191891) Reconstrução da Carga, Naufrágio de Uluburun Panegyrics of Granovetter (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/7263/cargo-reconstruction-uluburun-shipwreck/ "Cargo Reconstruction, Uluburun Shipwreck")O carregamento principal do navio consistia em matérias-primas. O item mais volumoso eram os lingotes de cobre — 348 no total, perfazendo 10 toneladas de peso. Estes lingotes tinham a forma de "pele de boi" e de bolachas circulares, formatos comuns no Mediterrâneo da Idade do Bronze. A análise de isótopos de chumbo revelou que os lingotes eram de cobre puro e originários de Chipre. Encontravam-se dispostos em quatro filas ao longo do porão do navio, num arranjo em espinha de peixe com o objetivo de minimizar o seu movimento durante a navegação.

O lote seguinte em termos de dimensão consistia em 120 lingotes de estanho puro (também com formato de "pele de boi" ou de bolacha), pesando mais de uma tonelada no total. A análise demonstrou que estes lingotes provinham originalmente das minas dos montes Tauro, na Turquia, e de uma fonte no Afeganistão ou região vizinha; contudo, o facto de muitos deles terem sido cortados em quatro pedaços sugere que não vinham diretamente das minas, mas que já tinham sido comercializados noutros locais. Havia ainda cerca de 150 ânforas cananeias contendo resina de terebinto, o maior achado do género alguma vez registado. A análise do pólen presente na resina indica que esta provinha de Israel.

Em nove *pithoi* (pitos - jarros de armazenamento de grandes dimensões) cipriotas encontravam-se cuidadosamente guardados artigos de cerâmica cipriota, azeite ou romãs. Havia uma quantidade de lingotes de vidro em forma de disco — talvez mais de 175, com um peso total de 350 quilos, embora a maioria estivesse erodida. O vidro apresentava-se em quatro cores: azul-escuro, turquesa, púrpura e amarelo, indubitavelmente destinados a ser cortados em contas ou a ser utilizados como incrustação em joalharia, funcionando como uma imitação mais barata dos materiais mais preciosos lápis-lazúli, turquesa, ametista e âmbar, respetivamente. A bordo encontravam-se também cerca de 70 000 contas em vidro e faiança. Por fim, no que respeita a materiais pesados, o navio transportava cerca de uma tonelada de calhaus para lastro.

Entre os diversos bens que o navio transportava — que eram em grande número —, encontravam-se 24 toros de ébano, marfim sob a forma de uma única presa de elefante e 14 dentes de hipopótamo, além de artefactos de marfim manufacturados. Há numerosas peças de joalharia feitas de ouro, prata, bronze, estanho, faiança e vidro. Nesses mesmos materiais, encontram-se também estatuetas, recipientes e armas. Os artigos de madeira não se conservaram bem, mas existem vestígios de caixas de alta qualidade. Entre os artigos mais exóticos a bordo contam-se âmbar báltico, uma espada italiana, três vasos de casca de ovo de avestruz e selos cilíndricos da [Mesopotâmia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-34/mesopotamia/). Os bens perecíveis transportados no navio, para além dos já mencionados, incluíam especiarias (cominho, sumagre), ervas (coentros, sálvia), condimentos (cártamo), azeitonas, amêndoas, uvas, figos, cereais, conchas de murex e oorpimento, um mineral amarelo utilizado como corante.

[ ![Cargo, Uluburun Shipwreck](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/7264.jpg?v=1774922225) Carga, Naufrágio de Uluburun Panegyrics of Granovetter (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/7264/cargo-uluburun-shipwreck/ "Cargo, Uluburun Shipwreck")Considerada no seu todo, a carga do *Uluburun* era claramente de altíssimo valor e destinava-se a ser utilizada pela elite da sociedade onde quer que viesse a aportar. De facto, o tipo de bens a bordo assemelha-se muito a outros inventários de presentes conhecidos trocados entre governantes no Egito e na Ásia Ocidental.

É igualmente importante recordar que alguns dos artefactos do naufrágio, por exemplo os marfins manufacturados e as peças de joalharia, poderão muito bem ter pertencido à tripulação do *Uluburun* e não se destinavam ao comércio. Além disso, não surpreende que muitos dos artefactos escavados estejam relacionados com o funcionamento prático do navio, tais como utensílios de cozinha, candeeiros, artefatos de pesca e retalhos de ouro e prata em joalharia destinados a pagamentos. A descoberta de quatro balanças e dos respetivos pesos sugere que havia quatro comerciantes fenícios/cananeus a bordo. A existência de um conjunto superior de pesos em forma de animais e de uma única espada fenícia com o cabo incrustado de marfim e ébano indicam que um deles seria sénior, talvez até o capitão. Bens micénicos — nomeadamente selos e machados duplos —, bem como pares de efeitos pessoais provenientes do continente grego sugerem que pelo menos outras duas pessoas a bordo eram micénicas.

### A Rota de Navegação

As técnicas de construção utilizadas no navio, a análise da cerâmica provavelmente usada pela tripulação e a presença de 24 âncoras de pedra de tipo sírio-palestiniano ou cipriota indicam fortemente que o porto de origem da embarcação se situava no [Levante](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-178/levante/), possivelmente em Tell Abu Hawam (a atual Haifa, em Israel). Este porto era particularmente ativo no comércio durante o período em questão, e os achados nesse local são invulgarmente semelhantes aos do naufrágio de *Uluburun*.

Os estudiosos concordam, de um modo geral, que o navio viajava para oeste antes de afundar, pelo que teria partido recentemente de um porto na Lícia (atual Turquia). O facto de a cerâmica ser maioritariamente de fabrico cipriota e de existirem apenas poucas peças de origem egeia é interpretado como forte evidência de que o *Uluburun* estava a deixar a Lícia quando naufragou, e não a chegar. A hipótese de o navio ter partido de um porto meridional que servia Ugarit é sugerida pela análise química da argila utilizada em grande parte da cerâmica de carga a bordo e pela semelhança desta com os artigos encontrados nos armazéns de Minet el-Beida.

[ ![Copper 'Oxhide' Ingot, Uluburun Shipwreck](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/7262.jpg?v=1772707328-1706521363) Lingote de Cobre 'Couro de Boi Martin Bahman (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/7262/copper-oxhide-ingot-uluburun-shipwreck/ "Copper 'Oxhide' Ingot, Uluburun Shipwreck")Ainda assim, deve recordar-se que quaisquer afirmações definitivas sobre os portos de escala do navio, antes ou depois de este sofrer o desastre, com base exclusivamente na sua carga, devem ser contrabalançadas pelo facto de que, no Mediterrâneo da Idade do Bronze, os bens provenientes de Chipre, do Egito, da Anatólia e do Levante eram amplamente comercializados de um lado para o outro, incluindo operações de armazenamento e revenda em emporiums cosmopolitas, como os existentes em Chipre. Contudo, o facto de grande parte da cerâmica cipriota a bordo pertencer a diferentes tipos sugeriria que o navio não tinha partido diretamente de Chipre — onde poderia ter recolhido uma carga mais homogénea diretamente a partir do centro produtor —, mas que acabara de deixar um porto onde se acumulavam mercadorias provenientes de várias origens.

O destino final do navio *Uluburun* bem podia ser o continente grego, caso estivessem de facto a bordo dois micénicos de estatuto elevado, uma caraterística típica do comércio antigo em que os indivíduos acompanhavam uma carga para garantir a sua chegada conforme prometido ou atuavam como mensageiros de e para a casa real que enviava a remessa. A carga era de grande importância para a época, tendo enriquecido o destinatário e constituído uma fonte considerável de prestígio, caso a embarcação de *Uluburun* se tratasse de uma embaixada diplomática com presentes de um soberano para outro. Resta apenas especular quais teriam sido as consequências financeiras e políticas de um carregamento tão valioso não ter alcançado o seu destino final.

A causa do naufrágio provavelmente nunca será conhecida, mas, como os destroços jazem perto de um promontório rochoso, parece razoável supor que ventos inesperados possam ter empurrado o navio contra essas rochas, causando o seu afundamento. A presença de armas a bordo lembra que o comércio marítimo era ameaçado pela pirataria, mas parece que este navio teve o seu destino selado pela mão da natureza. Foi uma tragédia para a tripulação do navio e para os ricos comerciantes que tinham pago pela sua carga, mas os arqueólogos e historiadores ficaram assim brindados com uma perspetiva fascinante sobre as interações regionais antigas. O naufrágio de *Uluburun* é uma daquelas ocorrências raríssimas na arqueologia de uma cápsula do tempo intacta do passado, fornecendo, neste caso, uma janela única para o comércio marítimo da Idade do Bronze e para aqueles que o praticavam.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- Bachhube, C. "Aegean Interest on the Uluburun Ship." *American Journal of Archaeology*, Vol. 110, No. 3 (Jul., 2006), pp. 345-363.
- Bagnall, R. *The Encyclopedia of Ancient History.* Wiley-Blackwell, 2012
- [Cline, E.H. *The Oxford Handbook of the Bronze Age Aegean.* Oxford University Press, 2012.](https://www.worldhistory.org/books/0199873607/)
- [Hornblower, S. *The Oxford Classical Dictionary.* Oxford University Press, 2012.](https://www.worldhistory.org/books/0199545561/)
- Katz, H. "The Ship from Uluburun and the Ship from Tyre: An International Trade Network in the Ancient Near East." *Zeitschrift des Deutschen PalÃ¤stina-Vereins*, Bd. 124, H. 2 (2008), pp. 128-142.

## Sobre o Autor

Mark é Diretor Editorial da WHE e mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Pesquisador em tempo integral, é também escritor, historiador e editor. Os seus principais interesses incluem arte, arquitetura e descobrir ideias partilhadas por todas as civilizações.

## Histórico

- **1330 BCE - 1300 BCE**: Sinking of the [Uluburun shipwreck](https://www.worldhistory.org/Uluburun_Shipwreck/) off the coast of [Lycia](https://www.worldhistory.org/lycia/).

## Links Externos

- [Ep. 016 â€“ Old Money: The Uluburun and Gelidonya Wrecks](http://maritimehistorypodcast.com/ep-016-old-money-the-uluburun-and-gelidonya-wrecks/)

## Cite Este Artigo

### APA
Cartwright, M. (2026, August 16). Naufrágio de Uluburun. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15899/naufragio-de-uluburun/>
### Chicago
Cartwright, Mark. "Naufrágio de Uluburun." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, August 16, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15899/naufragio-de-uluburun/>.
### MLA
Cartwright, Mark. "Naufrágio de Uluburun." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 16 Aug 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15899/naufragio-de-uluburun/>.

## Licença & Direitos de Autor

Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 16 August 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

