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title: Segundo Período Intermediário: A Era dos Hicsos
author: Joshua J. Mark
translator: Filipa Oliveira
source: https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15058/segundo-periodo-intermediario/
format: machine-readable-alternate
license: Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike (https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/)
updated: 2026-06-26
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# Segundo Período Intermediário: A Era dos Hicsos

_Escrito por [Joshua J. Mark](https://www.worldhistory.org/user/JPryst/)_
_Traduzido por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira)_

O Segundo Período Intermediário (cerca de 1782 a cerca de 1570 a.C.) é a era subsequente ao [Império](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-99/imperio/) Médio do Egito (2040-1782 a.C.) e precedente ao Império Novo (cerca de 1570-1069 a.C.). Tal como sucede com todas as designações históricas das eras da história egípcia, o nome foi cunhado pelos egiptólogos do século XIX para demarcar períodos cronológicos na história do Egito; o termo não era utilizado pelos antigos egípcios.

Esta era é marcada por um Egito dividido, com a população conhecida como Hicsos a deter o poder no Norte, o domínio egípcio sediado em Tebas no centro do país, e os Núbios a governar no Sul. À semelhança do que acontece com o [Primeiro Período Intermediário do Egito](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15056/primeiro-periodo-intermediario-do-egito/), esta época é tradicionalmente caraterizada como caótica, desprovida de progressos culturais e sem lei; contudo, tal como sucedera com esse período anterior, esta tese foi desmistificada. O Segundo Período Intermediário do Egito foi um tempo de desunião, e os registos da época encontram-se confusos ou omissos, mas não constituiu uma era tão sombria quanto os escribas egípcios de períodos posteriores alegaram.

Este período inicia-se quando os soberanos egípcios da XIII Dinastia transferiram a capital da cidade de Itj-tawi (no Baixo Egito, perto de Lisht, a sul de Mênfis) de regresso a Tebas, a antiga capital dos finais da XI Dinastia no Alto Egito, afrouxando o seu controlo sobre o Norte. No início da XII Dinastia, o rei Amenemhat I (1991-1962 a.C.) fundara a pequena localidade de Hutwaret (mais conhecida pelo nome grego de Ávaris) no extremo norte, a qual se transformou num centro comercial com fácil acesso ao mar e ligada por rotas terrestres ao Sinai e à região de [Canaã](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-162/canaa/).

No decorrer da XIII Dinastia, a prosperidade comercial e a imigração atraíram um afluxo de populações de língua semítica ocidental para Ávaris, as quais acabaram por acumular riqueza e poder suficientes para exercer influência política no país. Estas gentes eram conhecidas pelos egípcios como *Heqau-khasut* («Chefes dos Países Estrangeiros»), mas foram designadas por Hicsos pelos autores gregos, nome pelo qual ficaram conhecidas na história. Os escritores egípcios de períodos posteriores retratam os Hicsos como conquistadores brutais que devastaram o Egito, saquearam os templos e oprimiram o país até este ser libertado e unificado sob o reinado de Amósis de Tebas (cerca de 1570-1544 a.C.). Contudo, os vestígios arqueológicos e os registos da época sugerem fortemente uma realidade muito diferente.

Os Hicsos, longe de serem os conquistadores cruéis das narrativas posteriores, admiravam profundamente a cultura egípcia, adotando-a como sua. Coexistiram cordialmente com o governo egípcio de Tebas até ao momento em que uma afronta, assim percecionada, impeliu os reis tebanos a declarar-lhes guerra, culminando na sua expulsão. A vitória de Amósis I sobre os Hicsos assinalou o fim do Segundo Período Intermediário e o advento do Império Novo.

### A Chegada dos Hicsos ao Egito

O período é primordialmente caraterizado pelo domínio dos Hicsos no Norte do Egito e, num grau menor mas ainda assim significativo, pelo poder dos Núbios no Sul. A única razão pela qual os Núbios não pesam tanto na definição desta época prende-se com o facto de os registos egípcios demonstrarem uma continuidade nas relações com as terras meridionais, ao passo que os Hicsos constituíam um fenómeno sem precedentes, constando que introduziram novos conceitos e modos de vida.

A identidade dos Hicsos permanece desconhecida. Muitas teorias têm sido propostas, incluindo a de que seriam refugiados que fugiam da invasão ariana na Ásia. A própria Teoria da Invasão Ariana foi desmistificada, o mesmo sucedendo com esta tese. Eram designados pelos egípcios como «Asiáticos», mas este constituía um termo genérico aplicado a qualquer pessoa oriunda de além das fronteiras do Egito, desde o [Levante](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-178/levante/) até à [Mesopotâmia](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-34/mesopotamia/) e outras regiões.

O nome Hicsos traduz-se por «Chefes dos Países Estrangeiros», e não por "povos dos países estrangeiros", razão pela qual alguns investigadores avançaram com a hipótese de que seriam antigos nobres, expulsos das suas terras, que encontraram refúgio em Ávaris, aí estabelecendo um sólido polo de poder e, gradualmente, assumindo o controlo da região em direção ao sul, até Abidos.

Esta tese baseia-se quase na totalidade nos escritos do historiador egípcio do século III a.C., Manetón. A obra de Manetón perdeu-se, mas o autor foi extensamente citado por historiadores posteriores, incluindo o escritor judaico-romano [Flávio Josefo](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-20121/flavio-josefo/). A versão de Manetón sobre a chegada dos Hicsos carateriza-os como invasores destrutivos que devastaram o país:

> Por força maior, apoderaram-se facilmente \[do país\] sem desferir um único golpe e, tendo subjugado os governantes da terra, incendiaram cruelmente as nossas cidades, arrasando até ao solo os templos dos deuses... Por fim, nomearam como rei um de entre eles cujo nome era Salitis. Este estabeleceu a sua sede em Mênfis, cobrando tributos ao Alto e ao Baixo Egito e deixando sempre guarnições militares nas posições mais vantajosas.
> (Shaw, pág. 183)

O relato de Manetón, conforme transmitido por Josefo, foi aceite como um facto histórico tanto por investigadores como pelo público em geral durante séculos, até que as evidências arqueológicas comprovaram a sua inexatidão. As escavações em Ávaris revelaram uma cidade portuária outrora próspera, cujo planeamento urbano não é egípcio e se assemelha estreitamente à arquitetura e ao traçado das regiões de Canaã e da Síria. Não foi detetado qualquer bastião dos Hicsos em Mênfis, nem existe qualquer registo de uma destruição generalizada do país durante o período de dominação dos Hicsos.

[ ![Map of the Middle Kingdom of Egypt, c. 2000 BCE](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/19956.png?v=1781156167-1757653553) Médio Império do Egito, cerca de 2000 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND) ](https://www.worldhistory.org/image/19956/map-of-the-middle-kingdom-of-egypt-c-2000-bce/ "Map of the Middle Kingdom of Egypt, c. 2000 BCE")A teoria mais amplamente aceite pelos investigadores e egiptólogos contemporâneos propõe que os Hicsos chegaram a Ávaris através de rotas comerciais terrestres vindas de Canaã, prosperaram naquela cidade no decorrer da XII e inícios da XIII Dinastias, e estabeleceram uma sede de poder assim que dispuseram de riqueza e capacidade para o fazer. Não existe qualquer evidência de que os Hicsos tenham suprimido a religião e a cultura egípcias; pelo contrário, admiraram e adotaram ambas.

### O Declínio do Império Médio e a Ascensão dos Hicsos

A XII Dinastia do Egito, durante o Império Médio, é considerada uma idade de ouro na história do país. A literatura e as artes egípcias floresceram, o comércio e as conquistas militares enriqueceram o Egito, as fronteiras fortificadas garantiram a segurança, e os reis da época mantiveram a estabilidade, estimulando a criatividade e a diversidade. Foi no início deste período que Ávaris foi fundada, e aqueles que ali chegavam para comerciar ter-se-ão mostrado devidamente impressionados com a sociedade egípcia de então. Independentemente da forma como os Hicsos chegaram originalmente ao Egito, e fosse qual fosse o seu número, teriam achado o país fortemente atrativo.

À medida que o seu poder se expandia em Ávaris, os reis da XIII Dinastia enfraqueciam. Após o primeiro monarca da XIII Dinastia, Sobekhotep I (cerca de 1802-1800 a.C.), a cronologia desta dinastia torna-se confusa e desordenada, sendo erguidos menos monumentos e efetuadas menos inscrições. A causa exata da dissolução da XIII Dinastia não é clara. Poderá ter-se prendido simplesmente com a personalidade de cada um dos reis, que não demonstraram a mesma eficácia que os da XII Dinastia, ou com qualquer outro motivo. Embora vários autores tenham avançado com diversas teorias, a escassez de registos da época que apontem para uma causa específica torna qualquer tese puramente especulativa.

[ ![Statue of Sobekhotep](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/3448.jpg?v=1776153870) Estátua de Sobekhotep Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/3448/statue-of-sobekhotep/ "Statue of Sobekhotep")Por qualquer razão, a capital egípcia em Itj-tawi fraquejou, tendo o governo abandonado essa cidade e regressado a Tebas. Esta mudança deixou, efetivamente, o Norte — o Baixo Egito — mercê de quaisquer forças políticas que tivessem capacidade para aí se desenvolverem. Quando a capital estivera sediada em Tebas, rumo ao final da XI Dinastia, o país fora governado por um rei poderoso que impunha respeito; tal não correspondia à situação verificada cerca de 1782-1760 a.C., altura em que a XIII Dinastia perdia progressivamente o poder.

Quando Manetón afirma que os Hicsos tomaram o país «sem desferir um único golpe», poderá tratar-se da única parte do seu relato em que decerto teve razão. Os Hicsos não teriam tido necessidade de invadir a terra ou de incendiar cidades para assumirem o poder. O Norte do Egito fora-lhes, de certa forma, entregue para que fizessem dele o que bem entendessem.

### O Reino Núbio do Sul

O rei Senusret III (cerca de 1878-1860 a.C.), o mais poderoso soberano egípcio do Império Médio, liderou numerosas expedições a sul, em direção à Núbia, assegurando o território e fortificando as fronteiras entre os dois países. Guarneceu estas fortalezas com soldados egípcios, selando assim a fronteira e regulando a imigração. A relação entre a Núbia e o Egito nesta época parece ter sido mutuamente benéfica, de acordo com os documentos comerciais remanescentes provenientes destas fortificações. Os Núbios admiravam a cultura egípcia e adotaram muitos dos seus deuses e aspetos culturais.

[ ![Head of Senusret III](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/3412.jpg?v=1777583547) Busto de Sesóstris III Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/3412/head-of-senusret-iii/ "Head of Senusret III")Durante a fase final da XIII Dinastia, os reis egípcios deixaram de abastecer as fortificações da fronteira e nenhumas tropas novas ali foram estacionadas. Os soldados que já se encontravam destacados nos fortes nunca foram chamados de regresso ao Egito, e as antigas guarnições tornaram-se os seus lares. Estes soldados mantiveram o contacto com a capital egípcia em Tebas e com o Reino Núbio de Cuxe, atuando como intermediários no comércio. O investigador Marc van de Mieroop observa:

> Mantiveram contratos comerciais com o Egito. Em certas fortalezas foram encontrados milhares de selos — fragmentos de argila impressos por um escaravelho — que registavam os nomes de reis da XIII Dinastia, e mesmo de períodos posteriores, incluindo alguns Hicsos. Esses selos encontravam-se originalmente fixados a sacos e jarras com mercadorias importadas do Egito, e o comércio parece ter sido intenso, pelo menos no início do Segundo Período Intermediário.
> (pág. 136)

À medida que a XIII Dinastia negligenciava os assuntos a sul, precisamente como fazia a norte, o [Reino de Cuxe](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16819/reino-de-cuxe/) desenvolvia-se como um poder centralizado, com a sua capital em Kerma. A origem do nome deste reino permanece desconhecida, mas é claro que a população se autodesignava por «cuxitas», ao passo que os registos egípcios os chamavam de «núbios», a partir do termo egípcio *nub* (ouro), uma vez que associavam a região ao ouro. Os primeiros templos e cidades dos cuxitas revelam uma forte influência egípcia, a qual diminui gradualmente para ser substituída por uma combinação de estilos núbio (cuxita) e egípcio.

Van de Mieroop observa que «os líderes desta comunidade procuravam retratar-se como verdadeiros reis, rainhas e nobres, e olhavam para o Egito em busca de inspiração» (pág. 139). Adotaram o vestuário e os costumes egípcios, e prestavam culto aos deuses egípcios. A dado momento, algumas das antigas fortificações egípcias ao longo da fronteira foram destruídas, possivelmente num ataque, embora tal seja incerto. O que é claro é que, à medida que o governo egípcio em Tebas ignorava o poder de Cuxe a sul, esse poder expandia-se e a fronteira tornava-se mais fluida. Os soldados que haviam sido deixados para trás deixaram de considerar que fosse sua responsabilidade guardar a fronteira contra incursões e, por esta altura, encontravam-se mais habituados ao papel de mercadores do que ao de militares.

### As Relações entre Egípcios, Hicsos e Núbios

A situação política do Egito nesta época (cerca de 1700-1600 a.C.) correspondia à de uma nação dividida em três poderes centrais, mas, ao contrário da visão dos investigadores do século XIX e inícios do século XX, não constituiu um tempo de caos ou de agitação social. Como foi observado, o comércio continuou entre o Reino de Cuxe e Tebas, entre Cuxe e os Hicsos, e entre Tebas e os Hicsos. Os Hicsos navegavam para lá de Tebas no seu trajeto em direção a Cuxe, e os tebanos viajavam pelo Nilo para comerciar com os Hicsos. Parece ter existido uma espécie de trégua entre Tebas e Ávaris, o que indica que ambas as partes, não mantendo propriamente relações de amizade, se encontravam longe de manifestar hostilidade mútua.

Os Hicsos consideravam-se cidadãos legítimos do Egito, dignos de exercer o poder e de orientar o destino do seu povo. Os reis registados no que respeita à fase final da XIII Dinastia e à XVI Dinastia são de origem não egípcia ou, pelo menos, não possuem nomes egípcios, sendo considerados governantes hicsos. A sua cronologia encontra-se confusa, sendo alguns nomes conhecidos apenas através de objetos cerimoniais e outros unicamente a partir de fragmentos de listas reais, o que torna a sua datação complexa.

O que é evidente é que, independentemente daquilo que os «verdadeiros egípcios» em Tebas e os «reis estrangeiros» em Ávaris sentissem uns em relação aos outros, ambas as cidades mantinham relações pacíficas, existindo uma interação comercial duradoura. Além disso, nenhuma das cidades interrompeu a relação da outra com os cuxitas no Sul, nem existe qualquer evidência de que tenham interferido com o comércio ou os negócios recíprocos noutras regiões. Tudo isto se alterou pouco antes ou por volta da altura em que a XVII Dinastia assumiu o poder em Tebas.

### Tebas contra Ávaris

O rei egípcio Seqenenre Taá (também conhecido como Taá II, cerca de 1580 a.C.), da XVII Dinastia, liderou uma expedição contra os Hicsos por volta de 1560 a.C., de acordo com autores de períodos posteriores. A sua múmia, descoberta na necrópole situada nas proximidades do Vale dos Reis, em Tebas, revela que foi muito provavelmente morto em combate. Ele «morreu de forma violenta com uma idade compreendida entre os 30 e os 40 anos. Recebeu golpes na cabeça desferidos por vários machados e o seu rosto foi cortado e esmagado» (van de Mieroop, pág. 142). Este conflito parece ter surgido em resposta a uma afronta, ou uma afronta assim percecionada, feita a Taá pelo rei hicso Apepi.

Os detalhes de todo este episódio não são claros, mas parece que Apepi de Ávaris enviou um mensageiro a Taá de Tebas transmitindo uma exigência que foi interpretada como um desafio: «Acaba com o lago dos hipopótamos que fica a leste da cidade, pois eles não me deixam dormir, nem de dia nem de noite». Em vez de condescender com o pedido, Taá marchou com um exército em direção a Ávaris e atacou.

Desconhece-se se as suas forças foram bem-sucedidas, mas terá sido nesta altura que o monarca foi, provavelmente, morto em combate; o facto de os Hicsos terem permanecido em Ávaris após este acontecimento sugere que os tebanos foram derrotados. Contudo, as hostilidades entre ambas as cidades e as respetivas populações estavam apenas no início.

### Camósis de Tebas

Após a morte de Taá, o seu filho Camósis (cerca de 1575 a.C.) governou em Tebas. Deu continuidade à guerra contra os Hicsos, invocando como justificação o facto de ser um verdadeiro egípcio que não deveria ter de partilhar o seu país com potências estrangeiras. Uma inscrição de Camósis reza o seguinte:

> «Para que fim conheço eu a minha própria força? Um chefe está em Ávaris, outro em Cuxe, e eu sento-me aqui associado a um Asiático e a um Núbio! Cada homem tem a sua fatia neste Egito e assim a terra está partilhada comigo! Vede, ele detém inclusivamente Hermópolis! Ninguém pode estar descansado quando é espoliado pelos impostos dos Asiáticos. Hei de confrontar-me com ele para lhe esmagar o ventre, pois o meu desejo é salvar o Egito, que os Asiáticos destruíram.»
> (van de Mieroop, pág. 143)

Os conselheiros de Camósis manifestaram-se contra uma ação militar de grande escala contra os Hicsos, mas foram ignorados. Camósis marchou sobre Ávaris, transportando o seu exército em barcos pelo Nilo e, em seguida, lançando-os sobre a cidade, devastando-a. Camósis escreve:

> «Avistei as suas mulheres sobre o telhado, olhando pelas janelas em direção à margem do rio, com os corpos gelados à minha vista. Olhavam com os narizes encostados às muralhas, como ratinhos nas suas tocas, gritando: "É um ataque!"»
> (Watterson, pág. 59)

Camósis alega ainda que o seu ataque foi tão fulminante e implacável que as mulheres sobreviventes se tornaram inférteis. Afirma igualmente ter arrasado Ávaris até ao solo, navegando depois de regresso a Tebas com o seu saque. De acordo com Camósis, os Hicsos de Ávaris tinham sido destruídos, mas os registos históricos e as evidências arqueológicas contam uma história diferente.

[ ![Stela of Kamose](https://www.worldhistory.org/img/r/p/500x600/5840.jpg?v=1660246322) Estela de Kamósis RÃ¼diger Stehn (CC BY-SA) ](https://www.worldhistory.org/image/5840/stela-of-kamose/ "Stela of Kamose")Os Hicsos continuaram a reter o Norte do Egito acima de Mênfis após o ataque de Camósis, tendo este governado por mais aproximadamente três anos, período durante o qual deu continuidade à sua guerra contra os reis estrangeiros e parece ter-lhes capturado Mênfis. Quando faleceu, foi sucedido pelo seu irmão Amósis, fundador da XVIII Dinastia, que iniciou o período do [Império Novo do Egito](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15059/imperio-novo-do-egito/).

### Amósis I e a Unificação do Egito

A Amósis I é atribuído o mérito de ter expulso os Hicsos do Egito e de ter reunificado o país sob o governo centralizado de Tebas. A investigadora Margaret Bunson, baseando-se no relato da estela em Carnac, escreve que Amósis I «escorraçou os Asiáticos do Egito, perseguindo-os até Sharuhen e, posteriormente, em direção à Síria» (pág. 80). Esta ação não parece ter sido consumada com a facilidade que algumas inscrições e muitos historiadores fazem crer.

A inscrição proveniente do túmulo de Amósis menciona uma segunda e uma terceira batalhas em Ávaris, o que indica que a jactância de Camósis de ter destruído a cidade por completo constituiu um exagero, ou que os Hicsos reconstruíram Ávaris. As evidências arqueológicas apontam para a primeira hipótese, e que terá sido Amósis I o verdadeiro responsável pela destruição de Ávaris.

Numa inscrição tumular, um outro Amósis (filho de Ebana), que foi soldado sob o comando de Amósis I, menciona combates corpo a corpo em Ávaris numa batalha inicial e, posteriormente, noutras duas, igualmente ferozes, antes de os Hicsos sobreviventes se porem em fuga em direção a Sharuhen, na região de Canaã. Sharuhen, de acordo com a inscrição, teve de ser submetida a um cerco de seis anos antes de cair, tendo os sobreviventes fugido depois para a Síria, com Amósis I no seu encalço. O que lhes sucedeu assim que alcançaram a Síria não se encontra registado. Muito provavelmente, tendo derrotado o seu inimigo e escorraçado os sobreviventes do campo de batalha, Amósis I deu meia-volta e regressou ao Egito.

Inscrições da época e de períodos subsequentes demonstram que toda a influência política dos Hicsos no Egito foi extinta sob o reinado de Amósis I. O monarca voltou então a sua atenção para o Sul e realizou campanhas na Núbia, a sul da Segunda Catarata do Nilo, reivindicando os territórios que haviam sido perdidos. Restaurou as cidades do Egito, reconstruindo e renovando templos, e consolidou o seu poder em Tebas, seguindo o exemplo de grandes reis do passado que depositavam a maior quota de poder nos seus familiares mais próximos e de maior confiança.

### O Legado do Segundo Período Intermediário

À semelhança dos outros períodos intermediários do Egito, o segundo é caraterizado como um tempo de discórdia. Os investigadores Brier e Hoyt espelham a visão popular desta era quando escrevem que, na sequência do Império Médio, «o Egito entrou na sua segunda Idade das Trevas» (pág. 25). É verdade que se verificaram algumas perdas culturais, tais como a capacidade de redigir em [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-71/escrita/) hieroglífica. Durante o Segundo Período Intermediário, os escribas deixaram de ser instruídos na [escrita](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-72/escrita/) hieroglífica, tendo-se desenvolvido a escrita hierática (cursiva).

[ ![Hieratic Book of the Dead of Padimin](https://www.worldhistory.org/img/r/p/750x750/4845.jpg?v=1777770255) Livro dos Mortos hierático de Padimin Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright) ](https://www.worldhistory.org/image/4845/hieratic-book-of-the-dead-of-padimin/ "Hieratic Book of the Dead of Padimin")A qualidade das artes também parece ter sofrido. Apesar disso, a cultura resistiu, desenvolveu-se e avançou. Continuou a produzir-se literatura e os ritos religiosos mantiveram-se observados. O Segundo Período Intermediário, embora não se encontre tão bem documentado como o Império Médio ou o Império Novo, esteve longe de ser uma idade das trevas.

Esta alegação por parte de reputados investigadores de que o período constituiu uma degeneração cultural caótica é, contudo, compreensível, na medida em que os historiadores e escribas egípcios posteriores, do Império Novo, o retrataram dessa forma. Para estes escritores egípcios, o Segundo Período Intermediário fora uma era de fraqueza e caos, na qual o princípio basilar da vida no Egito, a harmonia ([ma'at](https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15014/maat/)), fora rejeitado por invasores estrangeiros que perturbaram o equilíbrio da terra e mergulharam tudo em sobressalto. A egiptóloga Barbara Watterson comenta este aspeto:

> O domínio dos Hicsos no Egito durou pouco mais de 100 anos; não foi o desastre absoluto proclamado pelos historiadores nativos de períodos posteriores, mas sim o catalisador que impeliu o Egito em direção à sua era imperial, dotando-o do incentivo para a expansão e, mais importante ainda, dos meios para a alcançar.
> O choque da invasão dos Hicsos exercera um efeito salutar sobre os egípcios, que olhavam para as outras nações com desdém. O termo egípcio para "humanidade" (*remetch*) aplicava-se apenas aos egípcios; estes referiam-se a outros grupos étnicos em termos depreciativos: "os vis cuxitas", "los miseráveis Asiáticos". Os Hicsos haviam destruído o seu secular sentimento de segurança, demonstrando-lhes, pela primeira vez, que não eram invioláveis.
> (pág. 60)

Quando Watterson menciona «os meios para a alcançar», referindo-se à expansão do Império Novo, reporta-se não apenas ao renovado sentimento de nacionalismo, que emergiu com a vitória de Amósis I sobre os Hicsos, mas, mais importante ainda, às inovações e invenções que os Hicsos haviam introduzido no Egito. No domínio exclusivamente militar, os Hicsos haviam dotado os egípcios do carro de guerra puxado a cavalos — uma vantagem de que nunca haviam usufruído anteriormente —, bem como do arco composto, o qual possuía maior potência e alcance do que o arco longo egípcio, além do punhal de bronze e da espada curta.

Ademais, deram a conhecer os egípcios aos seus vizinhos de uma forma nunca antes experienciada. Antes da ascensão dos Hicsos, as populações oriundas do Levante, da Núbia ou de Punt eram consideradas pelos egípcios como parceiros comerciais aceitáveis, mas certamente não iguais aos egípcios em aspeto algum, e dificilmente tidas em conta como uma ameaça séria à vida no Egito.

### Conclusão

Os Hicsos demonstraram que outra nação era capaz de exercer o mesmo poder, e da mesma forma que o Egito, e que os egípcios deveriam rever as suas opiniões pretéritas sobre esses povos. Watterson escreve:

> Da invasão dos Hicsos adveio a tomada de consciência de que, se se pretendia evitar uma segunda invasão, deveria ser criado um Estado-tampão na Ásia Ocidental; e, em cumprimento desta política, os primeiros soberanos da Décima Oitava Dinastia adotaram as medidas que permitiram ao Egito embarcar na sua era imperial.
> (pág. 60)

O legado do Segundo Período Intermediário é a glória em que se transfiguraria o Império Novo do Egito, um tempo de riqueza e prosperidade sem precedentes. O impulso no sentido de salvaguardar o país contra uma nova invasão — alargando as fronteiras do Egito e canalizando mais riqueza material para a terra por meio da conquista — conduziu ao período da história egípcia que é o mais conhecido e admirado. A XVIII Dinastia do Egito, fundada por Amósis I, criaria alguns dos monumentos mais célebres e memoráveis desde as pirâmides do Império Antigo, expandindo as fronteiras do Egito até à escala de um império.

#### Editorial Review

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## Bibliografia

- [Bunson, M. *The Encyclopedia of Ancient Egypt.* Gramercy Books, 2000.](https://www.worldhistory.org/books/0816082162/)
- [Lewis, J.E. *The Mammoth Book of Eyewitness Ancient Egypt.* Running Press, 2015.](https://www.worldhistory.org/books/B01FKTALB8/)
- [Shaw, I. *The Oxford History of Ancient Egypt.* Oxford University Press, 2016.](https://www.worldhistory.org/books/B000OKSGJ8/)
- [Van De Mieroop, M. *A History of Ancient Egypt.* Wiley-Blackwell, 2010.](https://www.worldhistory.org/books/1405160713/)
- [Watterson, B. *The Egyptians.* Wiley-Blackwell, 2016.](https://www.worldhistory.org/books/B01A65KP26/)
- [Wilkinson, T. *The Rise and Fall of Ancient Egypt.* Random House Trade Paperbacks, 2013.](https://www.worldhistory.org/books/0553384902/)

## Sobre o Autor

Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.
- [Linkedin Profile](https://www.linkedin.com/pub/joshua-j-mark/38/614/339)

## Histórico

- **c. 1782 BCE - c. 1570 BCE**: [Second Intermediate Period](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Second_Intermediate_Period/) in [Egypt](https://www.worldhistory.org/egypt/).
- **c. 1700 BCE - c. 1600 BCE**: [Egypt](https://www.worldhistory.org/egypt/) divided between three powers: [Hyksos](https://www.worldhistory.org/Hyksos/) at Avaris, Egyptians at [Thebes](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Thebes/), Nubians to the south.
- **c. 1580 BCE**: Seqenera Taa (Ta'O) of [Thebes](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Thebes/) leads army against [Hyksos](https://www.worldhistory.org/Hyksos/) of Avaris.
- **c. 1575 BCE**: Kamose of [Thebes](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Thebes/) sacks Avaris in attempt to unify [Egypt](https://www.worldhistory.org/egypt/) and drive out foreign kings.
- **c. 1570 BCE**: Ahmose I of [Thebes](https://www.worldhistory.org/disambiguation/Thebes/) drives the [Hyksos](https://www.worldhistory.org/Hyksos/) from [Egypt](https://www.worldhistory.org/egypt/) and unifies the nation under Theban rule, ushering in the [New Kingdom of Egypt](https://www.worldhistory.org/New_Kingdom_of_Egypt/) and attributing his victory to [Amun](https://www.worldhistory.org/amun/).
- **c. 1570 BCE - c. 1544 BCE**: Reign of Ahmose I in [Egypt](https://www.worldhistory.org/egypt/).

## Perguntas & Respostas

### O que foi o Segundo Período Intermediário no Antigo Egito?
O Segundo Período Intermediário no Antigo Egito foi a era compreendida entre o período do Império Médio e o do Império Novo, caraterizada principalmente pelo povo conhecido como Hicsos, que assumiu o controlo do Baixo Egito.

### Foi o Segundo Período Intermediário do Antigo Egito verdadeiramente uma idade das trevas?
Não. O Segundo Período Intermediário do Antigo Egito foi um tempo de desunião, sem um governo central forte, mas o comércio floresceu e as tradições religiosas e culturais continuaram a ser observadas.

### Porque é que o Segundo Período Intermediário no Antigo Egito é considerado uma idade das trevas?
O Segundo Período Intermediário do Antigo Egito é considerado uma idade das trevas porque os escribas egípcios do Império Novo o caraterizaram dessa forma. Eles consideravam os Hicsos como bárbaros invasores que haviam destruído as cidades egípcias e perturbado as tradições culturais, mas esta alegação não é sustentada pelos registos históricos da época nem pelas evidências arqueológicas.

### Qual foi o legado do Segundo Período Intermediário do Antigo Egito?
O legado do Segundo Período Intermediário do Antigo Egito foi la transfiguração do país num império. O temor de uma nova invasão — conforme os egípcios percecionaram a chegada dos Hicsos — estimulou-os a estabelecer Estados-tampão em redor do país, expandindo o seu território e conduzindo o Egito ao seu apogeu económico, militar e cultural durante o Império Novo.


## Links Externos

- [List of Rulers of Ancient Egypt and Nubia | Lists of Rulers | Heilbrunn Timeline of Art History | The Metropolitan Museum of Art](https://www.metmuseum.org/toah/hd/phar/hd_phar.htm)
- [Facts and Details/Second  Intermediate Period of Ancient Egypt](https://africame.factsanddetails.com/article/entry-1046.html)
- [Ancient Egypt Online/Second Intermediate Period](https://ancientegyptonline.co.uk/secondintermed/)
- [Facts for Kids/Second Intermediate Period of Egypt](https://kids.kiddle.co/Second_Intermediate_Period_of_Egypt)

## Cite Este Artigo

### APA
Mark, J. J. (2026, June 26). Segundo Período Intermediário: A Era dos Hicsos. (F. Oliveira, Tradutor). *World History Encyclopedia*. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15058/segundo-periodo-intermediario/>
### Chicago
Mark, Joshua J.. "Segundo Período Intermediário: A Era dos Hicsos." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, June 26, 2026. <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15058/segundo-periodo-intermediario/>.
### MLA
Mark, Joshua J.. "Segundo Período Intermediário: A Era dos Hicsos." Traduzido por Filipa Oliveira. *World History Encyclopedia*, 26 Jun 2026, <https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15058/segundo-periodo-intermediario/>.

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Enviado por [Filipa Oliveira](https://www.worldhistory.org/user/filipaoliveira/ "User Page: Filipa Oliveira"), publicado em 26 June 2026. Consulte a(s) fonte(s) original(ais) para informações sobre direitos de autor. Note que os conteúdos com ligação a partir desta página podem ter termos de licenciamento diferentes.

