No segundo ano da Guerra do Peloponeso, em 430 a.C., eclodiu um surto de peste em Atenas. A doença persistiria por várias regiões dispersas da Grécia e do Mediterrâneo oriental até desaparecer definitivamente em 426 a.C. A origem da epidemia deu-se na África Subsariana, logo a sul da Etiópia. A doença alastrou-se para norte e para oeste através do Egito e da Líbia, cruzando o Mar Mediterrâneo em direção à Pérsia e à Grécia.

A peste entrou em Atenas através do Pireu, o porto da cidade. O historiador grego Tucídides registou o surto na sua obra monumental sobre a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) travada entre Atenas e Esparta. Segundo vários especialistas, até ao seu término, a epidemia vitimou cerca de um terço da população — uma população estimada entre 250.000 e 300.000 habitantes no século V a.C. De acordo com a generalidade dos relatos, a peste que atingiu Atenas foi o episódio de doença mais letal da história da Grécia Clássica.

Tucídides, na História da Guerra do Peloponeso (tít. original: Ξυγγραφή; transliterado: Xyngraphé), suspendeu a narrativa da guerra para fornecer uma descrição extremamente detalhada dos sintomas daqueles que observou estarem afligidos — sintomas que partilhou, uma vez que ele próprio foi atingido pela doença. Apesar da sua falta de formação médica, Tucídides forneceu um relato vívido de uma variedade de males que afligiam os doentes:

Calores violentos na cabeça; vermelhidão e inflamação dos olhos; garganta e língua rapidamente invadidas por sangue; o hálito tornou-se antinatural e fétido; espirros e rouquidão; tosse violenta, vómitos; ânsias de vómito; convulsões violentas; o corpo externamente não tão quente ao tato, nem tampouco pálido; uma cor lívida a tender para o vermelho; e o eclodir de pústulas e úlceras.

(2.49-2.50)

Tucídides descreveu ainda pacientes cuja febre era tão intensa que preferiam estar nus a usar qualquer roupa que lhes tocasse na pele; alguns chegavam mesmo a preferir submergir-se em água fria. Tucídides observou que os doentes eram "atormentados por uma sede incessante" que não se saciava, independentemente da quantidade de líquidos consumidos. Muitos dos infetados tinham dificuldades em dormir, manifestando, em contrapartida, uma agitação constante. Vários dos sofredores morriam no espaço de 7 a 9 dias após o aparecimento dos sintomas.

Caso os doentes tivessem a sorte de sobreviver ao período inicial da infeção, Tucídides observou que sofriam de "ulceração violenta" e de diarreia grave, que normalmente resultavam na sua morte. Aqueles que sobreviviam a todo o curso da doença ficavam frequentemente com deformações nos genitais, nos dedos das mãos e dos pés (que por vezes perdiam), cegueira e perda de memória (tanto em relação aos outros como a si próprios). Tucídides notou que, em alguns casos, os pássaros e outros animais que habitualmente se alimentavam de carne humana rejeitavam os corpos infetados ou morriam eles próprios após consumirem a carne doente e em decomposição.

Durante quase 2500 anos, os historiadores e os estudiosos tentaram identificar exatamente qual foi a doença que assolou Atenas, causando tantas mortes. Tucídides, sem formação médica, não especificou uma enfermidade exata, limitando-se a descrever os vários sintomas, as reações das pessoas à doença e o desfecho da evolução clínica. Observou que os médicos tentaram inúmeras curas e remédios que falharam. Os médicos foram também algumas das primeiras vítimas, devido ao contacto repetido com os que tinham adoecido, sugerindo assim que, seja qual fosse a doença, esta era contagiosa. No calor da guerra, chegou a sugerir-se que a água retirada dos poços locais havia sido envenenada, fazendo com que até mesmo homens no vigor da saúde fossem subitamente acometidos.

J. F. D. Shrewsbury — Sarampo

Apenas nos últimos 60 anos, a peste que atingiu Atenas foi identificada como uma entre uma dúzia de doenças infecciosas. J. F. D. Shrewsbury, em The Plague of Athens (A Peste de Atenas), identificou a doença como sendo "nova" em Atenas. Tucídides sugeriu que os médicos gregos não reconheceram a enfermidade que abateu a população. A razão pela qual Tucídides descreveu os sintomas foi para permitir que gerações futuras reconhecessem a doença, caso esta voltasse a eclodir. Shrewsbury apresenta uma lista de opiniões da década de 1940 que tentavam identificar a doença. O tifo, a febre tifoide, a varíola, a peste bubónica e uma combinação das hipóteses anteriores foram todas apontadas como as culpadas.

A varíola emergiu como a hipótese mais provável, seguida pelo tifo e pela peste bubónica. Shrewsbury descartou a varíola, uma vez que as pessoas acometidas por essa doença não seriam capazes de se levantar fisicamente das camas, quanto mais de se atirarem para a água fria, como Tucídides referiu que alguns faziam. Além disso, Tucídides não descreve quaisquer dores nas costas, um sintoma específico das fases iniciais da varíola.

Descartou-se o tifo, pois não parecia haver uma quantidade crítica de ratos pretos portadores dos piolhos, nem foi apresentada qualquer evidência de que Atenas ou os seus cidadãos vivessem na imundície e na miséria, ou de que lhes faltasse a higiene pessoal básica (como banhos ou roupa limpa) para sustentar a proliferação de piolhos. A surdez, em vez da cegueira que afligiu os sofredores em Atenas, é outro sintoma revelador do tifo.

A peste bubónica foi igualmente descartada com facilidade devido à falta de provas que atestassem a presença de ratos pretos portadores das pulgas que continham o micróbio Yersinia pestis. A peste pneumónica também foi posta de parte como origem da doença, uma vez que Tucídides não mencionou tosse ou expetoração de sangue, sintomas habitualmente associados a essa infeção mortal. A febre tifoide, uma doença de veiculação hídrica, foi igualmente excluída pelo facto de Tucídides não ter descrito cursos de água poluídos ou quaisquer doentes a sofrer de hemorragias retais. Por fim, Shrewsbury concluiu que o sarampo era a doença principal. A virulência da doença sugeria a sua "novidade" em Atenas, juntamente com a descrição feita por Tucídides de sintomas comuns do sarampo, tais como cegueira, diarreia, gangrena, espirros, febre e sede.

D. L. Page — Sarampo

O artigo de D. L. Page, Thucydides' Description of the Great Plague at Athens (A Descrição da Grande Peste de Atenas por Tucídides), chegou à conclusão de que uma forma virulenta de sarampo varreu Atenas. O diagnóstico de sarampo baseou-se em dois conjuntos de descrições retiradas do relato de Tucídides. O primeiro conjunto de descritores incluía pacientes que se mantinham móveis no início da doença; não houve menção de disenteria ou incapacidades mentais, tais como delírio ou coma, embora alguns pacientes parecessem deprimidos. Com base na tradução dos termos gregos e do vocabulário utilizado por Tucídides, o segundo conjunto de descritores indicava a ausência de um período de incubação, com a doença a manifestar-se de imediato e a atingir o pico no espaço de 7 a 9 dias. Caso o paciente sobrevivesse, surgiam lesões nos intestinos, acompanhadas de fraqueza e diarreia. A perda de memória, a cegueira e a gangrena não tardavam em manifestar-se. Tucídides observou que a doença parecia ser nova em Atenas. Sendo assim, o sarampo parecia ser o culpado mais provável, com base numa comparação direta entre as descrições modernas de um surto de sarampo e o registo de Tucídides. A varíola, o tifo, a peste bubónica e a febre tifoide foram excluídas da consideração devido, em grande parte, à inconsistência da sintomatologia e ao rápido início da peste de Atenas.

W. P. McArthur — Tifo

W. P. McArthur discordou. No artigo The Athenian Plague: A Medical Note (A Peste Ateniense: Uma Nota Médica), identificou o tifo como a doença provável. Cientistas anteriores argumentavam que, antes de se poder chegar a um diagnóstico de tifo, os atenienses precisavam de estar em contacto regular com ratos pretos. McArthur ripostou que o tifo não era propagado por ratos, mas sim por piolhos. Outros sintomas adicionais, descritos por Tucídides, que apontavam o tifo como o culpado incluíam algum grau de perturbação mental, sede incrível, delírio, níveis aumentados de força e resistência, alucinações, hemorragias, tom azulado na pele, convulsões, diarreia, cegueira e a perda de dedos das mãos e dos pés.

P. Salway e W. Dell — Toxina do Ergot

Devido à falta de consenso e às conclusões contraditórias de vários especialistas, o artigo de P. Salway e W. Dell, Plague at Athens (A Peste de Atenas), deu continuidade ao debate sobre a natureza da doença que atingiu Atenas. Reconhecendo Tucídides como a única fonte de informação a descrever a epidemia na cidade, os autores chamaram a atenção dos leitores para os sintomas específicos apontados pelo historiador. A multiplicidade de sintomas dificultava a obtenção de uma conclusão firme. As febres, as perturbações mentais, as hemorragias intestinais e a gangrena apontavam para inúmeras possibilidades quanto à origem da condição. Um aspeto de particular interesse era o facto de os pássaros e os animais serem afetados pelo contacto com os cadáveres mortos e doentes. Todas as doenças infecciosas foram descartadas, uma vez que os sintomas não correspondiam a nenhuma doença conhecida.

Salway e Dell voltaram a sua atenção para a comida e a água como as possíveis origens da doença. A água foi descartada, uma vez que os soldados que combatiam na guerra, que se encontravam longe de Atenas, foram afetados pela epidemia. Isto deixava o cereal contaminado como o provável culpado. Especificamente, a toxina do ergot (ergotina), ingerida em pequenas ou grandes doses, podia afetar muitas pessoas em simultâneo. Os primeiros sintomas de envenenamento por ergot incluíam depressão, suores e dores abdominais com cólicas, juntamente com um tom de pele pálido, extremidades frias e dores no pescoço. À medida que a doença progredia, a insónia, sensações de ardor interno e cãibras nas pernas afetavam o sofredor. No seu ponto mais grave, o ergot produzia delírio, espasmos e convulsões, gangrena, diarreia grave e bolhas nas mãos e nos pés, acompanhadas por grandes descolorações arroxeadas. Estudiosos anteriores tinham sugerido o ergot, mas os seus diagnósticos tinham sido relegados para notas de rodapé. A interrupção e destruição de colheitas e campos sugeriam que o cereal e a farinha afetados podiam ter provindo da Trácia ou da Ática.

C. H. Eby e H. D. Evjen — Mormo

Em The Plague at Athens: A New Oar in Muddied Waters (A Peste de Atenas: Uma Nova Acha para a Fogueira), Clifford H. Eby e Harold D. Evjen reconheceram que a descrição feita por Tucídides dos sintomas do surto — que se assemelhavam a várias doenças infecciosas conhecidas — permitiria ao leitor tirar a sua própria conclusão quanto à doença exata que afetou Atenas em 430 a.C. A natureza mutável da doença (tanto a doença em si como os seus sintomas podem mudar ao longo do tempo) e a falta de conhecimentos sobre a medicina grega tornavam um diagnóstico exato problemático. Eby e Evjen adotaram uma abordagem inovadora para resolver o mistério: procuraram uma doença que já não estivesse presente nas populações europeias ou americanas, mas cujos sintomas correspondessem aos identificados por Tucídides.

Os autores concentraram-se particularmente na afirmação de Tucídides sobre a ausência de aves e animais que normalmente se alimentavam de cadáveres humanos. A única exceção ausente do relato de Tucídides era o cão. Em consulta com veterinários, sugeriu-se que o mormo seria a causa provável da epidemia, uma vez que era comum tanto a humanos como a canídeos. O mormo produzia sintomas de erupção cutânea, febre, lesões, tosse, corrimento nasal e ocular, conduzindo a septicemia e, pouco depois, à morte. Segundo Aristóteles, a doença já existia no século IV a.C., mas acabou por ser erradicada da Europa e da América do Norte no início do século XX.

O mormo ocorre principalmente em cavalos e mulas, mas pode ser transmitido aos humanos através do contacto com a secreção nasal infetada do animal ou caso os humanos partilhem uma fonte de água contaminada. Uma vez contraída por um ser humano, a doença propaga-se rapidamente a outras pessoas quando o indivíduo afetado tosse ou espirra. Como a epidemia eclodiu no meio da guerra, havia sem dúvida cavalos e mulas aquartelados em Atenas e nos seus arredores para apoiar os exércitos. Apenas alguns animais infetados, em contacto próximo com os humanos e/ou com o abastecimento de água, poderiam ter despoletado o episódio epidémico. O mormo nem sempre é fatal; Tucídides relatou que alguns indivíduos recuperaram da doença, o que conferia um certo grau de imunidade aos sobreviventes no caso de um novo surto.

R. J. Littman e M. L. Littman — Varíola

O estudo de Robert J. Littman e M. L. Littman, The Athenian Plague: Smallpox (A Praga de Atenas: Varíola), regressou à discussão sobre a linguagem e a tradução, uma vez que a precisão no vocabulário e no significado afeta qualquer diagnóstico. Além disso, os autores argumentaram que Tucídides identificou sintomas, tais como a erupção cutânea, que eram incompletos e provavelmente irrelevantes, bem como a sede excessiva, que é comum a muitas doenças infecciosas. Os Littman eliminaram qualquer doença que não fosse contagiosa e que não produzisse a imunidade descrita por Tucídides. Adicionalmente, os sintomas, especialmente os mais leves, mudam de um surto para o seguinte, nem todas as pessoas manifestam todos os sintomas. Infeções secundárias, como a pneumonia, poderiam confundir um leigo, alguém como Tucídides, em relação aos sintomas primários.

Na sua tentativa de reavaliar a descrição do surto feita por Tucídides — tanto os sintomas como a evolução clínica —, estes autores concluíram que a varíola era a provável culpada. As várias formas de peste (bubónica e pneumónica), a febre tifoide e o ergotismo foram eliminadas como suspeitas, uma vez que o ergotismo não é infecioso e Tucídides não faz qualquer menção ao sintoma revelador da peste bubónica: os abcessos (bubões) nas axilas ou na virilha. O tifo e o sarampo foram excluídos da consideração, pois a erupção cutânea associada a ambos não correspondia à descrição feita por Tucídides das erupções sob a forma de vesículas e feridas. Além disso, as pústulas da varíola afetam as extremidades, o que nem o tifo nem o sarampo fazem. Tucídides descreveu a cegueira como uma consequência da doença de Atenas, algo comum na varíola, mas não no tifo ou no sarampo. A descrição de Tucídides sobre a perda de memória complica o diagnóstico, mas a encefalite resulta da varíola e pode provocar amnésia. A perda do uso dos dedos das mãos e dos pés, identificada por Tucídides, foi provavelmente causada por gangrena, que é uma complicação de um surto de varíola. A ausência de qualquer descrição por parte de Tucídides sobre cicatrizes, mais frequentemente associadas como uma consequência duradoura da varíola, resultou do facto de Tucídides ter seguido a Escola Hipocrática de teoria das doenças, que dava primazia ao prognóstico e não ao diagnóstico.

A. J. Holladay e J. C. F. Poole — Múltiplas Doenças

No artigo Thucydides and the Plague of Athens (Tucídides e a Peste de Atenas), A. J. Holladay e J. C. F. Poole argumentaram que a descrição feita por Tucídides do surto em Atenas simplesmente não correspondia a nenhuma doença moderna. Todos os sintomas fornecidos por Tucídides podiam encaixar-se em quase qualquer doença, desde que um investigador estivesse disposto a ignorar alguns dos sintomas. Além disso, tanto os parasitas como os hospedeiros evoluem ao longo do tempo devido a exposições repetidas, adaptando-se ambos para conseguir sobreviver.

Os autores discutiram os vários diagnósticos e os problemas que surgem com cada um. A varíola era a origem mais sugerida da epidemia. A varíola é contagiosa e é acompanhada por febre e erupção cutânea, resultando numa alta taxa de mortalidade; no entanto, os sobreviventes adquirem um certo grau de imunidade após a exposição. O facto de Tucídides não mencionar marcas de varíola é problemático, mas não exclui necessariamente a doença. A sua descrição de gangrena nas extremidades é extremamente rara em surtos de varíola. O único hospedeiro conhecido da varíola são os seres humanos, mas Tucídides descreve aves e animais, especialmente cães, a sucumbir à doença em Atenas. É a baixa taxa de mortalidade que praticamente exclui a varíola, uma vez que Tucídides sugere uma taxa de 25% entre os soldados, mas não menciona a taxa entre as crianças, especialmente as com menos de 5 anos, que são as mais propensas a morrer.

No caso da peste bubónica, esta continua a ser uma boa candidata, uma vez que afeta tanto humanos como animais. A ausência de qualquer descrição por parte de Tucídides de abcessos (bubões) e a necessidade de pulgas para transmitir a doença — em vez de uma transmissão direta de humano para humano — diminuem as hipóteses de a peste de Atenas ter sido esta doença. A escarlatina foi descartada como origem, pois afeta apenas humanos, e não animais conforme mencionado por Tucídides, apresentando geralmente uma taxa de mortalidade muito baixa (pelo menos no século XX, embora pudesse ter sido mais alta em épocas anteriores). O sarampo foi eliminado pelas mesmas exatas razões e, além disso, costuma atingir apenas cidades com populações muito densas superiores a 300 000 habitantes, das quais poucas existiam no mundo antigo. O tifo, em ambas as variedades, foi descartado porque Tucídides descreveu a erupção cutânea das vítimas como pequenas vesículas e feridas, enquanto o tifo manifesta manchas vermelhas e não vesículas, e não indicou os sintomas mentais frequentemente exibidos pelos sofredores de tifo. Atenas não dependia de uma fonte central, mas sim de vários poços, pelo que um surto de febre tifoide foi rejeitado como causa da epidemia. O ergotismo foi excluído por não ser contagioso, não causar imunidade nos sobreviventes e não ser provocado pela propagação de micróbios.

A possibilidade de a peste de Atenas ter sido uma combinação de doenças era um diagnóstico promissor, especialmente se todas as outras doenças, por si só, tivessem sido descartadas como potenciais fontes da epidemia. Múltiplas doenças podem coexistir e coexistem simultaneamente em qualquer sociedade, e sobreviver a uma doença não garante que uma pessoa sobreviva a outras doenças presentes. A teoria da combinação é questionável, no entanto, devido à sugestão de Thucydides de que os sobreviventes adquiriam imunidade à doença. Os estudiosos modernos assumiram, erroneamente, que a peste que afligiu Atenas também teria de ser uma doença moderna conhecida. Existe a forte possibilidade de a doença que flagelou Atenas estar extinta ou de, após 24 séculos, o micróbio responsável ter mudado o suficiente, juntamente com vários sintomas, para simplesmente deixar de ser reconhecível hoje em dia. A questão do que varreu Atenas em 430 a.C. poderá ser insolúvel se os investigadores tentarem fazer corresponder a doença antiga a versões de uma enfermidade moderna.

J. Longrigg — Múltiplas Doenças

Em resposta aos vários estudos que identificaram a peste de Atenas como sendo possivelmente uma de pelo menos uma dúzia de doenças conhecidas, James Longrigg assinalou, em The Great Plague of Athens (A Grande Praga de Atenas), que nas fases iniciais de muitas doenças é difícil identificar um diagnóstico exato, uma vez que os sintomas precoces são frequentemente comuns a muitas infeções diferentes. O diagnóstico torna-se ainda mais complicado quando a fonte de informação é um relato literário em segunda mão e quando o autor do referido relato, neste caso Tucídides, foi ele próprio uma vítima da doença.

As doenças que atingem uma população de solo virgem (um grupo de pessoas sem exposição prévia a uma determinada doença) são frequentemente mais virulentas, o que sugere que Tucídides poderá estar a descrever uma nova doença. A maioria dos termos utilizados por Tucídides no seu relato eram termos médicos habituais e comuns utilizados nos séculos IV e V a.C. A descrição de Tucídides não aponta para uma doença específica, mas poderia aplicar-se a inúmeras patologias. Além disso, uma vez que uma doença pode tornar uma determinada população suscetível a outras enfermidades, Longrigg concluiu que era insensato por parte da medicina moderna tentar identificar com precisão uma única doença exata como a causa da epidemia ateniense.

J. A. H. Wylie e H. W. Stubbs — Infeção Bacteriana

No artigo The Plague of Athens: 430-428 B.C. Epidemic and Epizoötic (A Peste de Atenas: Epidemia e Epizootia entre 430-428 a.C.), J. A. H. Wylie e H. W. Stubbs reabriram a possibilidade de a peste de Atenas ter tido origens animais (sendo uma epizootia). Os autores apontam para o facto de os cães e as aves evitarem os cadáveres humanos e adoírem após o contacto com os mortos. O gado presente e mantido na cidade parecia prolongar tanto a duração da doença como a sua potência. Os autores sugerem que a leptospirose, uma infeção bacteriana propagada por cães e gado, prospera em condições prevalentes na antiga Atenas: elevada concentração populacional, precárias condições de vida e abastecimento alimentar deficiente.

A tularemia, outra doença bacteriana partilhada entre animais e humanos, podia ser facilmente propagada por roedores e infetar os seres humanos através de uma picada de pulga ou carraça, do contacto com animais infetados ou de fontes de água contaminadas. A maior parte da descrição dos sintomas feita por Tucídides podia aplicar-se a estas doenças epizoóticas, descontando aqueles sintomas que são frequentemente comuns a uma multitude de infeções. Embora estas doenças sejam muito menos graves atualmente, em grande parte devido ao uso de antibióticos, as condições na antiga Atenas em 430 a.C. teriam dado origem a um surto muito mais severo. Em última análise, a passagem do tempo — que causa a mutação da bactéria ou do vírus que atingiu Atenas — complica um diagnóstico moderno.

D. M. Morens e R. J. Littman — Uma Doença Respiratória

Recorrendo a uma abordagem epidemiológica e a modelos matemáticos para comparar a peste de Atenas com outras epidemias antigas descritas anteriormente, a investigação de David M. Morens e Robert J. Littman, no artigo Epidemiology of the Plague of Athens (Epidemiologia da Peste de Atenas), limitou os meios possíveis de transmissão, descartando assim certas causas e diagnósticos. Segundo os autores, existem três tipos de transmissão: fonte comum (com origem no abastecimento de água ou alimentos), de pessoa para pessoa e por reservatório (epidemia originada num animal, inseto ou no ambiente). Para que a doença se propagasse de forma tão rápida e vasta, causando uma destruição generalizada de vidas humanas, a epidemia teria de ser, muito provavelmente, de natureza respiratória, tornando um reservatório animal ou de insetos a provável origem. Neste caso, a epidemia em Atenas ter-se-á tratado muito provavelmente de um incidente de tifo ou de varíola, ambos os quais correspondem à descrição registada por Tucídides.

J. M. H. Hopper — Febre de Lassa

Tendo a sua origem na Etiópia e viajando ao longo do Nilo, o artigo de J. M. H. Hopper, An arenavirus and the plague of Athens (Um Arenavírus e a Peste de Atenas), descartou um vetor de insetos. Como a epidemia permaneceu largamente confinada a Atenas, sem se espalhar pelo resto da Grécia, Hopper examinou ratos, ratinhos, pulgas, piolhos e baratas como potenciais portadores. Um pequeno rato doméstico, que contaminava os alimentos e o pó com a sua urina, ajudando assim a criar as condições para a propagação da doença de pessoa para pessoa, era o suspeito mais provável na transmissão da febre de Lassa. Reconhecida pela primeira vez na Nigéria em 1969, a febre de Lassa apresenta a maioria dos sintomas correspondentes à descrição de Tucídides: febre, calafetos, dores de cabeça, náuseas e vómitos, protuberâncias na pele, ulcerações orais, erupções cutâneas e tonturas. Se não for tratada, a febre de Lassa pode matar o paciente no espaço de 7 a 26 dias.

J. Bellemore, I. M. Plant e M. Cunningham — Aleúquia Tóxica Alimentar

No artigo Plague of Athens—Fungal Poison? (APraga de Atenas — Envenenamento por Fungos?), Jane Bellemore, Ian M. Plant e Lynne M. Cunningham voltaram a ponderar a possibilidade de a epidemia em Atenas ter resultado de algum tipo de envenenamento por fungos. Uma sugestão anterior de ergotismo fora descartada, uma vez que esse fungo específico ocorre principalmente no centeio, que a maioria dos atenienses não consumia. Em vez disso, propôs-se a Aleúquia Tóxica Alimentar (ATA) como uma alternativa de envenenamento fúngico, pois resultava de trigo contaminado. Os autores basearam a sua conclusão sobre a natureza da epidemia numa comparação das taxas de mortalidade da ATA ocorridas na Rússia nas décadas de 1930 e 1940, onde quase 60% das pessoas que contraíram a doença morreram após o consumo de trigo armazenado durante o inverno.

A ATA não é visível a olho nu e pode manter-se ativa em grãos armazenados até sete anos. Os sintomas da ATA manifestam-se em cerca de 2 a 3 semanas, ocorrendo a morte no espaço de 6 a 8 semanas. Os sintomas do envenenamento por ATA coincidem fortemente com os descritos por Tucídides: sensação de ardor, língua inchada, vómitos, diarreia, dores de estômago, cefaleias, tonturas, fadiga, excesso de saliva, dores nas costas e articulações, hemorragias cutâneas, pústulas, erupções cutâneas, hemorragias pelo nariz, boca e pulmões, delírio, convulsões, depressão e desorientação. É possível uma recuperação completa de um envenenamento por ATA, desde que o paciente não volte a ser exposto ao grão tóxico.

Segundo Diodoro Sículo, cerca de 10 000 das 420 000 pessoas acampadas dentro das muralhas pereceram na população em geral, o que representa uma taxa de mortalidade de 2% a 5%. Entre a classe rica, 25% a 30% morreram. A menor taxa de morte na população em geral pode ser correlacionada com o facto de as classes mais baixas consumirem principalmente cevada, enquanto os ricos e os melhor remunerados — como a cavalaria e os hoplitas — podiam pagar grãos mais caros, como o trigo. O desfasamento temporal entre o consumo do grão envenenado e o aparecimento da doença não foi reconhecido por Tucídides e, por conseguinte, o envenenamento fúngico não foi considerado (o envenenamento por fungos só viria a ser reconhecido medicamente nos séculos XVI e XVII). Embora o veneno já tivesse sido considerado anteriormente como uma causa possível para a epidemia em Atenas, os estudiosos mais antigos examinaram a água da cidade e não os seus mantimentos alimentares.

M. J. Papagrigorakis et al. — Febre Tifoide

Uma investigação recente conduzida por Manolis J. Papagrigorakis e colaboradores, no estudo DNA examination of ancient dental pulp incriminates typhoid fever as a probable cause of the Plague of Athens (O Exame de ADN da Polpa Dentária Antiga Incrimina a Febre Yifoide como uma Causa Provável da Peste de Atenas), sobre a causa da epidemia em Atenas contou com o apoio da análise de ADN (igualmente usado DNA). Em 1995, foram recuperados cerca de 150 corpos de um antigo cemitério chamado Cerâmico, em Atenas — um local associado à peste ateniense durante a Guerra do Peloponeso. A vala comum continha ossos e dentes em quantidade suficiente para permitir a extração de ADN — especialmente a partir da polpa dentária —, viabilizando uma análise biomédica mais precisa do que aconteceu em 430 a.C. As várias etapas de testes revelaram que a peste bubónica, o tifo, o antraz, a tuberculose, a varíoca bovina e a doença da arranhadura do gato não foram a causa da doença em massa. No entanto, um sétimo teste revelou vestígios de febre tifoide nos dentes de três vítimas. Muitos dos sintomas descritos por Tucídides — tais como febre, erupção cutânea e diarreia — coincidem com os sintomas atuais da febre tifoide, embora outras características descritas por Tucídides não coincidam. Isso pode ser facilmente explicado pela possível evolução da doença ao longo do tempo.

O surto em Atenas em 430 a.C. continua a ser um mistério. Entre as muitas sugestões de diagnóstico encontram-se o Ébola, a febre tifoide, a varíola, o sarampo, a peste bubónica, o cólera, a gripe, o ergotismo e uma série de doenças animais. Nenhuma delas foi aceite pela comunidade científica e académica como sendo a doença fatal. Além disso, a descrição oferecida por Tucídides tem sido questionada quanto ao verdadeiro significado de algumas características da doença na tradução. Para além disso, o próprio Tucídides tem sido alvo de escrutínio, tanto pelo motivo que o levou a incluir o episódio da doença no seu livro como pelo facto de não ser um profissional de saúde de qualquer espécie, tornando questionável a sua fiabilidade no diagnóstico dos sintomas.

A recente descoberta de valas comuns datadas do período antigo ofereceu uma nova esperança de que um diagnóstico definitivo estivesse ao alcance, uma vez que as técnicas modernas de análise de ADN colocariam finalmente fim à controvérsia com quase 2.500 anos. A amostra de ADN extraída dos dentes sugeriu a febre tifoide como a principal culpada, mas, pouco tempo depois de os resultados terem sido anunciados, este diagnóstico foi contestado por outros cientistas, que argumentaram que a metodologia utilizada continha falhas. A recolha de amostras de ADN é limitada, especialmente na deteção de vírus, que exigem um teste de ARN (Ácido Ribonucleico); contudo, os vírus degradam-se rapidamente com o tempo, tornando a probabilidade de alguma vez descobrirmos o que aconteceu em Atenas extremamente improvável.