Os cartagineses, tal como os seus antepassados fenícios, eram comerciantes de grande sucesso que navegavam pelo Mediterrâneo com as suas mercadorias, e tal era o seu sucesso que Cartago se tornou a cidade mais rica do mundo antigo. Metais, produtos alimentares, escravos e bens manufaturados de alta qualidade, tais como tecidos finos e joalharia em ouro, eram comprados e vendidos a quem quer que tivesse meios para os adquirir. Os cartagineses tornaram-se famosos pelas suas competências mercantis e pela capacidade de vender qualquer coisa a qualquer pessoa, mas sempre a um preço.
Desde a sua fundação no final do século IX a.C. por colonos da cidade fenícia de Tiro, Cartago começou quase imediatamente a prosperar graças à sua localização estratégica nas rotas comerciais entre o Mediterrâneo ocidental e o Levante. Em menos de um século, a cidade viria a fundar as suas próprias colónias e, no século VI a.C., já tinha assumido o lugar da Fenícia como a maior potência comercial da região. O império comercial de Cartago incluía o Norte de África, a Península Ibérica, a Sicília, a Sardenha, a Córsega, Chipre, Malta e muitas outras ilhas do Mediterrâneo. Ainda assim, insatisfeitos, organizaram expedições para encontrar novas e ainda mais distantes oportunidades comerciais, tais como a viagem de Himilco à Grã-Bretanha, por volta de 450 a.C., e a de Hanno ao longo da costa atlântica de África, por volta de 425 a.C.
Os novos territórios viriam a ser uma fonte de vasta riqueza, principalmente proveniente de recursos naturais, como o ouro e a prata extraídos das regiões conquistadas. Tal como os europeus explorariam os nativos das antigas Américas no século XVI, também os cartagineses colheram ricas recompensas ao transferir metais adquiridos a baixo custo para regiões onde estes tinham um valor muito superior. Além disso, estes novos territórios, que mais tarde exigiram a fundação de colónias para proteger os interesses comerciais e os monopólios de mercado, acabariam por proporcionar novos mercados para onde os cartagineses poderiam exportar os seus próprios produtos manufaturados e aqueles que adquiriam através do comércio com outras culturas. Os cartagineses também não se limitavam às rotas marítimas, pois sabe-se que exploravam as rotas das caravanas do Saara.
No século V a.C., Heródoto descreve o método que os cartagineses utilizavam para fazer trocas com os povos indígenas em novos territórios ao longo da costa norte-africana, para além dos Pilares de Hércules:
Os cartagineses descarregam as suas mercadorias e dispõem-nas na praia; depois, voltam a embarcar nos seus barcos e acendem uma fogueira que produz muito fumo. Quando os habitantes nativos avistam o fumo, dirigem-se à costa e, depois de colocarem ouro em troca das mercadorias, retiram-se. Os cartagineses desembarcam e examinam o que os nativos lá deixaram e, se o ouro lhes parecer um preço justo pelas suas mercadorias, levam-no consigo e partem; caso contrário, voltam aos seus barcos e sentam-se à espera enquanto os nativos se aproximam novamente e colocam mais ouro, até que convençam os cartagineses de que a quantia é suficiente. Nenhuma das partes tenta prejudicar a outra, pois os cartagineses não tocam no ouro até que este iguale o valor das suas mercadorias, nem os nativos tocam nas mercadorias até que os cartagineses tenham levado o ouro.
(Livro IV, 196)
Os mercadores cartagineses, evidentemente, também negociavam com as potências contemporâneas da Grécia, do Egito, da Fenícia e dos reinos helenísticos. Cartago assinou tratados com outros estados para acordar áreas de operação exclusiva, nomeadamente com os etruscos e com Roma, por volta de 509 a.C. e 348 a.C. Os comerciantes cartagineses eram uma presença habitual nos grandes mercados de Atenas, Delos e Siracusa, tendo por vezes quartéis-generais permanentes nas grandes cidades da época, como a zona do Vicus Africus, em Roma. Foram descobertas ânforas púnicas em locais tão distantes como Massília (Marselha), a Córsega e Roma.
Cartago também acolhia, em troca, comerciantes estrangeiros provenientes de Rodes, Atenas e Itália. Estes eram tratados em pé de igualdade com os próprios mercadores da cidade; as suas mercadorias eram compradas, armazenadas e reexportadas pelos comerciantes cartagineses. O comércio foi ainda mais facilitado pela cunhagem de moedas a partir do século V a.C., e as conversões tornaram-se mais fáceis quando os Ptolomeus do Egito adotaram o mesmo padrão fenício para as suas próprias moedas. As moedas cartaginesas eram feitas de ouro, prata, eletro e bronze.
A reputação dos comerciantes cartagineses era bem conhecida, ainda que não particularmente lisonjeira, no mundo grego, como atesta uma personagem principal de uma peça cómica grega perdida, reelaborada pelo dramaturgo romano Plauto na obra O Cartaginesinho (tít. original: Poenulus). Ele descreve um tal de Hanno, um comerciante, que tem entre as suas mercadorias cachimbos, tiras de sapato e panteras — uma carga cómica destinada a mostrar que os cartagineses negociavam com tudo o que lhes caísse nas mãos, desde que lhes rendesse lucro.
Não se sabe exatamente que volume de comércio era realizado pelo Estado e que proporção por comerciantes privados, mas há certamente evidências de ambos. É provável que a maior parte do comércio fosse realizada por comerciantes aristocráticos que também controlavam os cargos políticos e religiosos de Cartago. Uma forma importante de intervenção estatal na área do comércio era a poderosa frota naval cartaginesa. Esta frota permitiu a Cartago manter o seu domínio sobre pontos-chave ao longo das antigas rotas marítimas, como a Sicília e Gades (Cádis), no sul de Espanha. Também lidava impiedosamente com os navios mercantes de potências concorrentes. Qualquer navio estrangeiro descoberto em águas consideradas por Cartago como estando sob a sua jurisdição era afundado. Os piratas eram tratados de forma semelhante.
Os navios mercantes cartagineses eram muito semelhantes aos há muito utilizados pelas cidades fenícias. O mais comum era o grande hippo», com um fundo arredondado. O nome («cavalo») derivava da cabeça de cavalo que aparecia habitualmente na proa. Um segundo tipo era o gaulos («navio» em fenício), que era mais pequeno e com um casco ainda mais largo.
As embarcações cartaginesas e as dos mercadores estrangeiros tinham à sua disposição um grande porto mercantil retangular que se ligava ao porto naval circular da cidade. Ambos os portos eram artificiais, com cerca de dois metros de profundidade, e datam possivelmente de 220-210 a.C. Este porto substituiu, ou talvez tenha ampliado, o simples cais original onde os navios mercantes atracavam em fila. O novo porto comercial media 300 x 150 metros e era acedido através de um canal em arco com 250 metros. Se necessário, era possível levantar correntes de ferro para bloquear esta entrada.
Matérias-primas, especialmente metais preciosos (ouro, prata, estanho, cobre, chumbo e ferro), peles de animais, lã, âmbar, marfim e incenso eram importadas e exportadas. Os escravos constituíam outra mercadoria valiosa que entrava e saía pelo porto de Cartago. Objetos de arte preciosos feitos de ouro, prata e marfim eram exportados das oficinas de Cartago. Havia têxteis finos e bordados, incluindo os tapetes e almofadas requintados pelos quais os cartagineses eram famosos, bem como o tão procurado tecido tingido de púrpura, produzido a partir do extrato do molusco murex. Os produtos manufaturados incluíam armas, utensílios relacionados com a alimentação, tesouras, ferramentas, strígilos de bronze (para limpar o corpo após o exercício), amuletos, joalharia, artigos decorativos de vidro, mobiliário de madeira, estatuetas de cerâmica, ovos de avestruz decorados, incensários e máscaras ornamentais.
Os produtos alimentares comercializados incluíam azeitonas, azeite, vinho, cereais, peixe salgado, alho, romãs, frutos secos, ervas aromáticas e especiarias. Dois naufrágios púnicos, um descoberto ao largo de Ibiza (século V a.C.) e outro ao largo de Marsala, na Sicília (século III a.C.), transportavam ambos cargas de molho de peixe, o garon/garum, pelo qual os romanos se tornariam viciados. O naufrágio de Marsala transportava também ânforas de vinho e azeitonas. Vasos de cerâmica e candeeiros de baixa qualidade, acessíveis às tribos menos abastadas em regiões do império como a Península Ibérica, eram primeiro importados para Cartago a partir de Corinto, passando por Siracusa e pela Itália central e meridional, e depois enviados para serem trocados com as tribos locais.
Naturalmente, os cartagineses não tinham tudo ao seu bel-prazer e enfrentavam concorrência pelo acesso a territórios ricos em recursos e pelo controlo de rotas comerciais lucrativas. Isto levou a guerras na Sicília, especialmente contra os tiranos de Siracusa, e contra Roma, que se revelou um inimigo que não conseguiam igualar. Após séculos a dominar o Mediterrâneo ocidental, as Guerras Púnicas — extremamente dispendiosas e debilitantes — terminariam em 146 a.C. com a destruição de Cartago por Roma. A cidade renasceria um século mais tarde e tornar-se-ia um importante centro comercial e cultural no seio do Império Romano, talvez até entre as cinco principais cidades do mesmo, mas nunca mais atingiu as alturas que outrora alcançara, quando os navios cartagineses dominavam os mares.