As práticas de recrutamento e formação durante a Guerra Civil Americana variavam consoante o ano, o oficial comandante e entre as forças adversárias, mas seguiam o mesmo modelo básico. Quando a guerra começou em 1861, ambos os lados acreditavam que seria um conflito curto e facilmente vencido. Ambos perceberam que estavam errados após a Primeira Batalha de Bull Run (Primeira Manassas), a 21 de julho de 1861.

Alguns meses antes, homens de ambos os lados alistavam-se voluntariamente com entusiasmo. Em 1862, porém, quando ficou claro que não se vislumbrava um fim, as práticas de recrutamento e treino mudaram no Sul com a introdução do serviço militar obrigatório e, em 1863, o Norte seguiu o exemplo com o alistamento obrigatório. Ao longo da guerra, no entanto, ambos os lados seguiram políticas semelhantes no que diz respeito ao recrutamento e treino das tropas.

Mesmo antes da Batalha de Forte Sumter, em abril de 1861, o Exército Confederado expandiu-se através de voluntários que formavam companhias locais nas suas cidades natais, as quais se uniam depois a outras para formar regimentos estaduais. A qualidade do treino destes soldados dependia inteiramente do oficial comandante. Um comandante eficiente produzia uma força de combate eficaz.

Em 1862, o alistamento voluntário tinha diminuído e, em abril desse ano, o governo confederado aprovou a Lei do Serviço Militar Obrigatório (Conscription Act) de 1862, que obrigava os homens brancos entre os 18 e os 35 anos a alistarem-se no exército (as idades foram posteriormente alargadas para entre os 17 e os 50 anos). No entanto, eram possíveis isenções. Era possível contratar alguém para ir para a guerra no seu lugar, e quem possuísse 20 escravos ou mais ficava automaticamente isento, tal como os funcionários públicos ou aqueles considerados essenciais na indústria e na produção.

Quer fosse no início ou no final da guerra, os recrutas passavam cerca de duas semanas em treino básico e em exercícios militares. Muitas tropas eram enviadas para a batalha com o mínimo indispensável de disciplina militar, pelo que a eficiência do oficial comandante responsável pelo treino era bastante importante. No início da guerra, não havia armas nem uniformes padronizados, e muitos dos soldados confederados na Primeira Batalha de Bull Run levavam as suas próprias armas e vestiam as suas próprias roupas ou os seus antigos uniformes do Exército dos EUA.

Após a queda do Forte Sumter, o presidente Abraham Lincoln lançou um apelo à mobilização de 75 000 voluntários para reprimir a rebelião — e este apelo foi atendido da mesma forma que o do presidente confederado Jefferson Davis tinha sido no Sul. As autoridades locais recrutaram principalmente nas cidades (no início) e, posteriormente, nas localidades periféricas. Quando um oficial de recrutamento alistava 100 homens, estes formavam uma companhia e eram enviados para treino, que durava cerca de duas semanas.

O entusiasmo inicial pela guerra diminuiu em 1863 e, por isso, o Congresso aprovou a Lei de Alistamento (Enrollment Act) de 1863, estabelecendo o primeiro serviço militar obrigatório a nível nacional. Tal como no Sul, os homens abastados podiam contratar um substituto para ocupar o seu lugar ou o do seu filho. Após a Proclamação de Emancipação (Emancipation Proclamation), surgiu a Ordem de 1863 do Departamento de Guerra, que permitia o recrutamento e a formação de soldados afro-americanos.

Tal como os seus homólogos do Sul, a qualidade dos novos recrutas dependia quase inteiramente da eficiência e da liderança do oficial comandante no campo de treino. Os soldados eram treinados em marcha, formação, manuseamento de armas e na importância da disciplina militar. Inicialmente, as tropas estavam armadas com armas desatualizadas, mas mais tarde passaram a dispor de armas mais precisas. As tropas da União foram equipadas desde o início com uniformes e equipamento padrão.

O recrutamento e o treino no Exército da União são abordados numa das fontes primárias mais importantes sobre a Guerra Civil Americana – Soldiering: The Civil War Diary of Rice C. Bull (Vida de Soldado: O Diário de Rice C. Bull na Guerra Civil). Rice C. Bull (1842-1930) era um jovem de 19 anos de Hartford, Nova Iorque, que se alistou no Exército da União em agosto de 1862. Tornou-se membro do 123.º Regimento de Infantaria de Voluntários, recrutado em Salem, Nova Iorque, e participou em combates ao longo de toda a guerra, nomeadamente na Batalha de Chancellorsville (30 de abril a 6 de maio de 1863) e durante a Marcha de Sherman para o Mar (15 de novembro a 21 de dezembro de 1864).

Bull enviou cartas para a família e manteve um diário durante toda a guerra, baseando-se neles para escrever as suas memórias em 1913. A narrativa foi adquirida pela Sociedade Histórica do Condado de Rensselaer, de Troy, (Rensselaer County Historical Society of Troy) Nova Iorque, e foi editada por K. Jack Bauer e publicada em 1977. Desde então, tem sido amplamente considerada como uma das descrições mais precisas da vida de um soldado na Guerra Civil Americana entre 1862 e 1865.

A tradução infra é do excerto das memórias de Bull que descreve em pormenor o alistamento e treino num acampamento nos arredores de Washington, D.C., entre agosto e setembro de 1862. O texto foi retirado de The Civil War: The North (A Guerra Civil: O Norte), editado por Thomas Streissguth, pp. 57-64, sob o título First Days in the Union Army (Os Primeiros Dias no Exército da União). As elipses indicam texto omitido por questões de espaço e número de palavras.

…A guerra tinha começado um ano antes, e aquele período tinha sido de agitação e espera ansiosa… As vitórias eram poucas. Tínhamos sofrido tantos reveses militares que muitos temiam que fosse impossível reunificar o país pela força das armas. Milhares de rapazes como eu sentiam o dever de ajudar a causa da União, alistando-se no Exército…

Já tinha pensado muitas vezes em alistar-me, acreditando que era o meu dever, mas até então não tinha surgido nenhuma oportunidade para o fazer. Antes disso, a maior parte do recrutamento tinha-se feito nas grandes cidades, longe das zonas rurais. Agora, iria ser formado um regimento no nosso próprio condado, e seria composto principalmente por agricultores e rapazes do campo…

Os meus pais, a princípio, relutaram em dar o seu consentimento, mas perceberam que se tratava de um chamamento ao dever que não podia ser ignorado. Após uma reflexão séria e em oração, consentiram, entre lágrimas, que eu partisse. Sei agora como deve ter sido difícil para eles darem a sua aprovação.

A 13 de agosto de 1862, trabalhei com o meu pai no campo de aveia até ao meio-dia a colher o cereal; nessa tarde, fui a Fort Ann e assinei os documentos que me vinculavam ao serviço militar por três anos, a menos que fosse dispensado antes. Tornei-me membro da Companhia D, do 123.º Regimento de Infantaria Voluntária de Nova Iorque.

Naquela noite, fiquei hospedado no Battle Hill Hotel, em Fort Ann. Na manhã seguinte, na companhia de vários outros que viriam a ser meus camaradas, apanhei uma carroça para Salem, onde o Regimento estava a ser organizado e ficaria acampado até receber ordens para se deslocar a algum local para treino preliminar…

A 1 de setembro, o recrutamento estava concluído e todas as companhias estavam com o efetivo completo. Seguiu-se o exame físico, no qual quase todos foram aprovados e aceites. Recebemos então os nossos uniformes e a maior parte do nosso equipamento, que incluía espingardas Enfield antiquadas. Eram armas desajeitadas, com um ar envelhecido. Carregámos essas armas durante algumas semanas, mas, antes de entrarmos em serviço ativo, foram trocadas por mosquetes Springfield, uma arma muito melhor…

A 4 de setembro, fomos alistados ao serviço dos Estados Unidos. Chegaram imediatamente ordens para partirmos de comboio a 5 de setembro. A notícia da nossa partida repentina espalhou-se por toda a região naquela noite e, pela manhã, milhares de pessoas estavam em Salem. Tenho a certeza de que a vila nunca antes, nem desde então, teve uma multidão tão grande de visitantes.

Os familiares, vizinhos e amigos dos soldados estavam lá para dar aos rapazes as suas palavras de despedida, o seu «adeus», os seus votos de boa sorte e para os acompanhar na sua longa viagem. Para muitos, seria a última despedida. Não foi um dia feliz; foi um dia de tristeza.

Finalmente, no final da tarde, colocámos as mochilas aos ombros e marchámos até ao comboio, com a grande multidão a seguir-nos. Depois, houve o último aperto de mão e o último beijo. O comboio arrancou lentamente. As pessoas que se alinhavam ao longo da linha férrea estavam tão dominadas pela emoção que não conseguiam encontrar voz para nos animar. Acenavam silenciosamente com as mãos, enquanto podíamos ver os seus rostos cheios de lágrimas…

No final da noite , partimos de Baltimore, mas desta vez não em carruagens de passageiros. Estávamos amontoados em vagões de gado e éramos um grupo de homens com calor, suados e famintos. A única comida que tínhamos era o que muitos tinham guardado nos seus sacos de mantimentos trazidos de Salem. Estava bastante estragada, mas era o que tínhamos para comer ou nada.

Estávamos amontoados, de forma tão impiedosa como se fôssemos animais irracionais, mas o nosso ardor patriótico estava no auge e não se ouviram muitas queixas. Todos pareciam dispostos a sofrer por uma boa causa. Consegui, com muita astúcia, deitar-me no chão do vagão e estava cansado o suficiente para dormir bem até de manhã.

Ao acordar, descobri que estávamos em Annapolis Junction… Desde Annapolis Junction até chegarmos a Washington, vimos acampamentos espalhados ao longo da linha férrea, cujos homens saíam para nos saudar à medida que passávamos. Perto de Washington, verificámos que um grande acampamento de tendas brancas parecia rodear a cidade.

Por volta do meio-dia, o nosso comboio parou nos arredores, a cerca de uma milha da estação. Quando saímos do comboio, fomos imediatamente conduzidos a pé até ao Soldiers Home para o jantar. Ao chegarmos lá, o jantar ainda não estava pronto e todo o regimento foi conduzido para um pátio adjacente e trancado lá dentro, para esperar até que o jantar estivesse pronto. O pátio mal tinha espaço suficiente para acomodar os homens e era o local mais imundo em que alguma vez estive. O chão era irregular e, na verdade, estava infestado de insetos e ratos que corriam em todas as direções.

Ficámos naquele buraco quase uma hora até o «jantar» estar pronto e, depois, fomos conduzidos para o refeitório e sentados em bancos de tábuas ásperas e à volta de mesas de tábuas ásperas, postas com pratos e chávenas de lata e ferro. Estávamos com tanta fome que comíamos quase qualquer coisa, mas este jantar foi o cúmulo. Comemos pão, sem manteiga, carne de porco salgada, muito salgada, e uma mistura chamada café, cujo sabor desafiava qualquer um a distinguir se era chá ou café. Devia ser uma mistura de ambos. Bem, comemos porque estávamos fracos e tínhamos de o fazer, mas posso garantir-vos que foi uma refeição difícil de engolir.

Descobri que era um facto notório que o Lar dos Soldados em Washington era a instituição do género mais mal gerida de todo o país. Como Washington era o quartel-general do Exército e tudo se podia obter em abundância, pareceria que a primeira recepção aos defensores do nosso país deveria ter sido, no mínimo, generosa. Certamente não deveria ser indecente. Na verdade, não era generosa nem sequer decente naquele galpão de alimentação, que se tornou motivo de escárnio e piada entre todos os soldados, e a quem foi dado o nome de «Prisão dos Soldados»…

Na manhã de 16 de setembro, recebemos ordens para arrumar as nossas coisas, desmontar as tendas e estar prontos para partir imediatamente. Antes do meio-dia, formámos fila e dirigimo-nos para a cidade. Marchámos junto ao Capitólio, percorremos a Pennsylvania Avenue por vários quarteirões e, depois de virarmos para sul, passámos pelo Monumento a Washington. Estava inacabado e parecia uma chaminé cuja construção tinha sido abandonada.

Em breve, chegámos à Long Bridge, pela qual milhares dos nossos soldados tinham atravessado. Muitos deles nunca mais regressariam… A partir da ponte, seguimos na direção sudeste durante duas milhas e parámos perto de Fort Albany, um dos fortes erguidos a oeste do Potomac para a defesa de Washington.

O local escolhido para o nosso acampamento situava-se num terreno acidentado e irregular, bem coberto de arbustos e árvores pequenas. Antes de podermos montar as nossas tendas, o terreno teve de ser limpo e nivelado. Foi um trabalho árduo e demorou dois dias até que o nosso acampamento ficasse montado de forma satisfatória.

Estávamos rodeados por milhares de novos soldados que, assim que chegavam a Washington e lhes era atribuído um local, eram enviados para Arlington Heights para serem treinados, disciplinados e preparados para o seu trabalho como soldados.

O general Silas Casey estava no comando deste grande acampamento de treino. Era um oficial veterano, um disciplinador rigoroso, e esperava-se que proporcionasse a estes novos regimentos um treino exaustivo para que, após algumas semanas, pudessem ser destacados para o serviço ativo na frente de batalha. Quando isso acontecesse, os novos regimentos ficariam normalmente intercalados entre regimentos mais antigos que já tinham estado em combate.

Perto de nós estava um regimento de Massachusetts que tinha sido bem treinado por um coronel competente. Enquanto estávamos em Arlington, receberam ordens para se dirigirem para a frente de batalha. Antes de partirem, receberam a visita do Presidente Lincoln, do Secretário William H. Seward e dos dois senadores de Massachusetts, Charles Sumner e Henry Wilson. Uma grande multidão de soldados dos regimentos vizinhos reuniu-se em torno da carruagem dos visitantes e, após aplausos, pediu ao Presidente que proferisse um discurso.

Ele levantou-se do seu lugar e falou durante cinco ou dez minutos. Estava muito sério e tentou incutir nos soldados a responsabilidade que lhes incumbia, dizendo que seriam apenas os seus esforços que salvariam o país. Parecia magro e abatido e dava para ver que estava preocupado e ansioso. Permaneceu ali algum tempo depois de falar, pelo que muitos de nós tivemos a oportunidade de lhe apertar a mão e trocar algumas palavras de saudação…

Neste acampamento, mantivemo-nos ocupados com exercícios militares… Enquanto lá estivemos, tivemos uma revista, na qual participaram vinte regimentos. Como eram todos regimentos novos, com fileiras completas e uniformes novos e brilhantes, demos um belo espetáculo. Mas a nossa marcha estava longe de estar à altura do padrão. Havia também serviço de sentinela numa linha a cerca de duas milhas do acampamento…

Todos estavam ansiosos por ir para a linha de sentinela, pois isso dava-nos a oportunidade de visitar algumas das quintas localizadas ali, onde podíamos comprar uma refeição. Esta comida parecia maravilhosamente boa em comparação com as nossas rações…

Em Arlington, os pasteleiros de tartes eram inúmeros, e era divertido ver os rapazes a fazer fila para as comprar à medida que saíam do forno. Estavam com tanta fome que ficavam na fila durante horas para conseguir uma tarte que custava 25 cêntimos. Mas foi neste acampamento que ultrapassámos o período infantil da vida militar e nos conformámos com a nossa comida e outras condições que tínhamos de enfrentar no serviço.

O nosso período de treino no acampamento de Arlington durou cerca de duas semanas. O tempo estava bom, estávamos a aclimatar-nos e a saúde dos homens era excelente. Todos os dias aprendíamos algo, não apenas manobras militares. Estávamos a aprender pela experiência como cuidar de nós próprios e como superar melhor as condições com que tínhamos de lidar, que inicialmente considerávamos quase insuportáveis e desnecessárias. Estávamos agora a habituar-nos à disciplina e começávamos a perceber que estávamos apenas a ser preparados para o trabalho que nos esperava.

Na manhã de 29 de setembro, desmontámos as nossas tendas, arrumámos as nossas mochilas e, ao meio-dia, estávamos prontos para partir. Por volta das três da tarde, partimos em direção a Washington, atravessando a Long Bridge às quatro. Esta seria a última vez que atravessaríamos a ponte até a voltarmos a atravessar para participar na Grande Revista do Exército de Sherman, três anos mais tarde. Nessa altura, restavam menos de metade dos que estavam connosco a 29 de setembro. Os outros tinham morrido em combate ou de doença, ou tinham abandonado o serviço devido a ferimentos ou doença.

Depois de atravessarmos a ponte, marchámos até à estação ferroviária para apanhar um comboio com destino a um local que nos era desconhecido. Naquela noite, dormimos na calçada, uma vez que o comboio só estaria pronto às sete da manhã seguinte. Saímos da cidade em vagões de plataforma, viajando lentamente. Havia muitos comboios na linha e passámos grande parte do tempo em ramais. Assim que anoiteceu, chegámos a Frederick, em Maryland. Parámos antes de entrarmos na cidade e dirigimo-nos em fila para os prados onde iríamos passar a noite…

Não havia maneira de preparar refeições, pelo que tudo o que tínhamos para comer depois de sairmos de Arlington tinha sido o pão duro que trazíamos nas nossas mochilas. Os cozinheiros da nossa companhia prepararam-nos um pouco de café, que bebemos com o que restava do nosso pão duro. Sentia-me tão esfomeado como se não tivesse comido nada, pois ainda não tinha alcançado a perfeição militar em que duas ou três fatias de biscoito duro e café fossem suficientes para saciar a minha fome. Ficámos dois dias em Frederick, onde soubemos que em breve nos iríamos juntar ao Exército do Potomac nas proximidades de Harpers Ferry.

Esperava-se que o Exército avançasse em breve. A 4 de outubro, apanhámos novamente o comboio e fomos para uma estação perto de Harpers Ferry. A partir daí, marchámos duas ou três milhas até Harpers Ferry. Deveríamos permanecer ali até sermos destacados para alguma divisão do Exército. Entraríamos então em serviço ativo após apenas um mês no Exército. Assim tão cedo, e praticamente sem treino, estávamos na linha da frente à espera de ordens para o serviço ativo no terreno.