Na Batalha de Mill Springs (19 de janeiro de 1862), no Kentucky, o brigadeiro-general da União George H. Thomas tinha inicialmente planeado atacar primeiro, avançando a partir de Logan's Crossroads para lançar um assalto ao acampamento confederado em Beech Grove, perto do rio Cumberland, a 16 km (dez milhas) da sua posição.

O plano de Thomas foi antecipado pelo avanço do brigadeiro-general confederado Felix Zollicoffer, que teve início pouco antes da meia-noite do dia 18, com o objetivo de apanhar as forças de Thomas de surpresa. O mau tempo e o mau estado das estradas retardaram a marcha de Zollicoffer, tendo-se perdido assim o elemento surpresa.

Mesmo assim, Thomas acordou na manhã do dia 19 e deparou-se com as forças confederadas à sua frente, em vez de quilometros de distância, em Beech Grove. No entanto, Thomas tinha planeado a batalha cuidadosamente e, por isso, em vez de entrar em pânico, como outro general poderia ter feito, manteve-se fiel ao seu plano original. Quer o inimigo estivesse à sua frente ou à distância, o plano continuava a ser bom. Thomas tinha enviado postos de vigia muito à frente da sua posição logo à chegada (que alertaram o exército para o avanço confederado), e o seu perímetro defensivo era forte e bem consolidado.

Confiado no seu plano, Thomas ordenou metodicamente que reforços preenchessem as lacunas onde fosse necessário ou apoiassem as posições ameaçadas. Reforçado pelo brigadeiro-general Albin F. Schoepf, Thomas ordenou um avanço contra a linha confederada em ambos os flancos e uma carga de baioneta pelo 9.º de Ohio no flanco esquerdo confederado. O acaadémico Stuart W. Sanders descreve a carga:

O 9.º de Ohio empurrou o flanco esquerdo confederado para além da cabana onde estavam posicionados os sentinelas do 10.º de Indiana. Em seguida, empurraram-nos para sul várias centenas de jardas adicionais, até ao local de um hospital confederado. Ao avistarem cavalaria a operar nos seus flancos, os soldados de Ohio pararam e prepararam-se para uma investida, formando um quadrado oco.

(pág. 100)

Isto rompeu as linhas confederadas, que fugiram do campo de batalha em desordem.

A Batalha de Mill Springs tornou-se a primeira vitória da União no teatro de operações ocidental da Guerra Civil Americana, abrindo o leste do Tennessee às tropas da União, permitindo que Ulysses S. Grant lançasse os seus ataques ao Forte Henry e ao Forte Donelson em fevereiro de 1862 (ambas vitórias da União) e mantendo o Kentucky como um estado fronteiriço neutro ao longo de toda a guerra. Sanders escreve:

Como escreveu Eastham Tarrant, da 1.ª Cavalaria do Kentucky, a batalha «foi uma das vitórias mais brilhantes para a causa da União e uma das mais importantes em termos de resultados que ocorreram durante a guerra. Foi a sua primeira grande vitória. Reviveu o ânimo abatido dos leais em todos os Estados Unidos e espalhou consternação nas fileiras do inimigo até então audacioso.

Contradiu as afirmações extravagantes… de que um valente sulista equivalia a cinco ianques no campo de batalha… foi o precursor de uma série de manobras bem-sucedidas e vitórias brilhantes dos exércitos da União, que não só levaram o inimigo a abandonar o Kentucky em massa, mas também a maior parte e as regiões mais férteis do Tennessee.»

(pág. 125)

A 31 de janeiro de 1862, o General Thomas redigiu o seu relatório de ação sobre a batalha para as autoridades da União. Este relatório, juntamente com muitos outros — tanto de generais confederados como da União —, encontra-se preservado nos Official Records of the Union and Confederate Armies in the War of the Rebellion (Registos Oficiais dos Exércitos da União e da Confederação na Guerra da Rebelião). O relato de Thomas provém da Série I, Volume 7.

A tradução infra é do excerto desse relato extraído do artigo General George Thomas' Account of the Battle of Mill Springs, or Logan's Crossroads, Kentucky (Relato do General George Thomas sobre a Batalha de Mill Springs, ou Logan's Crossroads, no Kentucky), de Mark (sem apelido indicado), do sítio Iron Brigader: Civil War Info and Resources (Iron Brigader: Informações e Recursos sobre a Guerra Civil).

QUARTEL-GENERAL DA PRIMEIRA DIVISÃO DO DEPARTAMENTO DO OHIO

Somerset, Kentucky, 31 de janeiro de 1862

Tenho a honra de informar que, ao cumprir as instruções do general comandante do departamento, contidas na sua comunicação de 29 de dezembro, cheguei a Logan's Crossroads, cerca de 10 milhas a norte do acampamento fortificado do inimigo no rio Cumberland, no dia 17 do corrente mês, com uma parte da Segunda e da Terceira Brigadas, a bateria de artilharia de Kenny e um batalhão da cavalaria de Wolford.

Uma vez que o Quarto e o Décimo Regimentos de Kentucky, o Décimo Quarto de Ohio e o Décimo Oitavo Regimento de Infantaria dos EUA ainda se encontravam na retaguarda, retidos pelo estado quase intransitável das estradas, decidi fazer uma paragem neste ponto, para aguardar a sua chegada e comunicar com o General Schoepf.

O 10.º Regimento de Indiana, a cavalaria de Wolford e a bateria de Kenny tomaram posição na estrada que conduz ao acampamento inimigo. O 9.º Regimento de Ohio e o 2.º Regimento de Minnesota (parte da brigada do Coronel McCook) acamparam a três quartos de milha à direita, na estrada de Robertsport.

Foram destacados postos de vigia reforçados na direção do inimigo, para além do ponto onde a estrada de Somerset e Mill Springs se junta à estrada principal que liga o meu acampamento a Mill Springs, e um posto de vigia de cavalaria a alguma distância à frente da infantaria

O General Schoepf visitou-me no dia da minha chegada e, após consulta, instruí-o a enviar para o meu acampamento a bateria de Standart, o 12.º Regimento do Kentucky e o 1.º e 2.º Regimentos do Tennessee, para permanecerem até à chegada dos regimentos da retaguarda.

Tendo recebido informação na noite do dia 17 de que uma grande caravana de carroças com a sua escolta estava acampada na estrada entre Robertsport e Danville, a cerca de 6 milhas do acampamento do Coronel Steedman, enviei-lhe uma ordem para que enviasse as suas carroças para a frente sob forte escolta e para que marchasse com o seu regimento (o 14.º de Ohio) e o 10.º de Kentucky (Coronel Harlan), com rações para um dia nas mochilas, até ao ponto onde se dizia que o inimigo se encontrava acampado, para os capturar ou dispersar.

Nada de importância ocorreu desde a nossa chegada até à manhã do dia 19, exceto uma escaramuça entre postos de vigia na noite do dia 17. O 4.º de Kentucky, o batalhão de Engenheiros do Michigan e a bateria de Wetmore juntaram-se a nós no dia 18.

Por volta das 6h30 da manhã do dia 19, os postos de guarda da cavalaria de Wolford depararam-se com o inimigo a avançar sobre o nosso acampamento, recuaram lentamente e comunicaram o seu avanço ao Coronel M.D. Manson, comandante da Segunda Brigada. Ele formou imediatamente o seu regimento (o Décimo de Indiana) e tomou posição na estrada para aguardar o ataque, ordenando ao Quarto de Kentucky (Coronel S.S. Fry) que o apoiasse, tendo-me depois informado pessoalmente de que o inimigo avançava em força e das disposições que tinha tomado para lhes resistir.

Ordenei-lhe que se juntasse imediatamente à sua brigada e mantivesse o inimigo sob controlo até que eu pudesse mobilizar as outras tropas, às quais foi ordenado que se formassem imediatamente e que, dez minutos depois, já marchavam para o campo de batalha. O batalhão de Engenheiros do Michigan e a Companhia A do 38.º de Ohio (Capitão Greenwood) receberam ordens para permanecerem como guarda do acampamento.

Ao chegar ao campo de batalha pouco depois, encontrei o 10.º Regimento de Indiana formado em frente ao seu acampamento, aparentemente à espera de ordens, e ordenei-lhes que avançassem para apoiar o 4.º Regimento de Kentucky, que era o único regimento completo então em combate.

Cavalguei então eu próprio para a frente para observar a posição do inimigo, de modo a poder determinar como distribuir as minhas tropas à medida que fossem chegando. Ao chegar à posição ocupada pelo 4.º Regimento de Kentucky, pelo 10.º Regimento de Indiana e pela cavalaria de Wolford, num ponto onde as estradas se bifurcavam em direção a Somerset, deparei-me com o inimigo a avançar por um milheiral e, evidentemente, a tentar flanquear a esquerda do 4.º Regimento de Kentucky, que mantinha a sua posição de forma extremamente determinada.

Ordenei a um dos meus ajudantes que regressasse a cavalo e ordenasse a uma secção de artilharia e à brigada do Tennessee que avançassem sobre a direita do inimigo, e enviei ordens para que o coronel McCook avançasse com os seus dois regimentos (o Nono de Ohio e o Segundo de Minnesota) em apoio do Quarto de Kentucky e do Décimo de Indiana.

Uma secção da bateria do Capitão Kenny tomou posição na orla do campo, à esquerda do Quarto Regimento do Kentucky, e abriu fogo eficaz contra um regimento de soldados do Alabama, que avançava contra o Quarto Regimento do Kentucky.

Pouco depois, chegou o 2.º de Minnesota (Coronel H. P. Van Cleve), tendo o coronel apresentado-se perante mim para receber instruções. Ordenei-lhe que assumisse a posição do 4.º de Kentucky e do 10.º de Indiana, regimentos esses que se encontravam quase sem munições. O 9.º de Ohio, sob o comando direto do Major Kammerling, assumiu posição à direita da estrada ao mesmo tempo.

Imediatamente após estes regimentos terem assumido as suas posições, o inimigo abriu fogo de forma extremamente determinada e implacável, ao qual as nossas tropas responderam com o mesmo ímpeto, e durante quase meia hora o combate foi travado por ambos os lados da forma mais obstinada.

Nesse momento, o 12.º Regimento do Kentucky (Coronel W. A. Hoskins) e a brigada do Tennessee chegaram ao campo à esquerda do regimento do Minnesota e abriram fogo contra o flanco direito do inimigo, que então começou a recuar. O 2.º de Minnesota manteve um fogo extremamente intenso na frente, e o 9.º de Ohio atacou o inimigo pela direita com baionetas em punho, contornou-lhe o flanco e expulsou-o do campo de batalha, com toda a linha a ceder e a recuar na mais completa desordem e confusão.

Assim que os regimentos conseguiram reorganizar-se e reabastecer as suas cartucheiras, ordenei que toda a força avançasse. A algumas milhas atrás do campo de batalha, uma pequena força de cavalaria estava posicionada junto à estrada, mas alguns tiros da nossa artilharia (uma secção da bateria de Standart) dispersaram-na, e nenhum inimigo foi visto novamente até chegarmos à frente das suas trincheiras.

À medida que nos aproximávamos das suas trincheiras, a divisão foi disposta em linha de batalha e avançou de forma constante até ao cume da colina em Moulden's. A partir deste ponto, ordenei que as trincheiras inimigas fossem bombardeadas, o que foi feito até ao anoitecer pelas baterias de Standart e de Wetmore. A bateria de Kenny foi colocada em posição na extrema esquerda, junto à casa de Russell, de onde recebeu ordens para disparar contra a balsa inimiga, a fim de os dissuadir de tentarem atravessar.

Na manhã seguinte, a bateria do Capitão Wetmore recebeu ordens para se deslocar para a casa de Russell e, com os seus canhões Parrott, ajudou a disparar contra a balsa. A brigada do Coronel Manson tomou posição à esquerda, perto da bateria de Kenny, e foram feitos todos os preparativos para assaltar as trincheiras inimigas na manhã seguinte.

O 14.º de Ohio (Coronel Steedman) e o 10.º de Kentucky (Coronel Harlan), tendo-se juntado após terem estado em serviço destacado logo após a repulsa do inimigo, continuaram com a sua brigada na perseguição, embora não tivessem conseguido chegar a tempo de se juntarem à luta. Estes dois regimentos foram colocados na vanguarda do meu avanço sobre as trincheiras na manhã seguinte e entraram em primeiro lugar.

O General Schoepf também se juntou a mim na noite de 19 com o 17.º, o 31.º e o 38.º de Ohio. Toda a sua brigada entrou juntamente com as outras tropas.

Ao chegarmos às trincheiras, descobrimos que o inimigo tinha abandonado tudo e se tinha retirado durante a noite. Doze peças de artilharia, com os seus caixotes cheios de munições; uma carroça de bateria e duas forjas; uma grande quantidade de munições; um grande número de armas de pequeno calibre, na sua maioria os antigos mosquetes de pederneira; 150 ou 160 carroças e mais de 1 000 cavalos e mulas; uma grande quantidade de provisões, ferramentas de entrincheiramento e equipamento de acampamento e guarnição, caíram nas nossas mãos.

Será enviada uma lista exata de todos os bens capturados assim que esta puder ser elaborada e os bens assegurados.

Uma vez que os barcos a vapor e as balsas foram incendiados pelo inimigo durante a sua retirada, revelou-se impossível atravessar o rio e persegui-los; além disso, o seu comando estava completamente desmoralizado e retirou-se com grande pressa e em todas as direções, tornando bastante duvidosa a possibilidade de os capturar em número significativo, caso fossem perseguidos.

Não há dúvida de que o efeito moral produzido pela sua completa dispersão terá um impacto mais decisivo no restabelecimento dos sentimentos unionistas do que se tivessem sido capturados.

É-me um grande prazer poder testemunhar a firmeza e a boa conduta uniformes, tanto dos oficiais como dos soldados, durante a batalha, e remeto respeitosamente para os relatórios anexos dos diferentes comandantes, onde constam os nomes dos oficiais e soldados cuja boa conduta foi particularmente destacada por eles…

Sou, senhor, com todo o respeito, o seu humilde servo,


Geo. H. Thomas,
General de Brigada, Voluntários dos EUA, Comandante