Ao longo do último e desesperado ano da Segunda Guerra Mundial (1939-45), os militares japoneses levaram a cabo ataques kamikaze: aviões, foguetes pilotados e embarcações eram carregados com explosivos com o objetivo de causar o máximo de danos ao inimigo, mas sem qualquer hipótese realista de sobrevivência para os pilotos. Estas extraordinárias táticas foram consideradas necessárias como a única forma de impedir uma invasão aliada do Japão. Muito menos bem-sucedidos do que se esperava, devido a uma infinidade de medidas defensivas dos Aliados, os 4 000 pilotos kamikaze que deram a vida foram, no entanto, homenageados, reverenciados e recordados no seu país natal como jovens dispostos a fazer o sacrifício supremo para defender a pátria.
O nome «kamikaze» significa «ventos divinos», e as suas origens remontam ao fracasso das invasões mongóis do Japão, em 1274 e 1281. As enormes frotas de invasão de Kublai Khan, além de terem sido repelidas por samurais corajosos, sofreram graves danos causados por tempestades de tufões. Os japoneses atribuíram a estas tempestades uma origem divina, especialmente porque, como último recurso, tinham sido feitas preces pedindo ajuda ao deus xintoísta da guerra, Hachiman. O nome «kamikaze» foi recuperado durante a Guerra do Pacífico, na Segunda Guerra Mundial, uma vez que o Japão enfrentava uma ameaça de invasão semelhante, desta vez por parte dos EUA e das forças armadas aliadas. Mais uma vez, foram necessárias medidas desesperadas para que o Japão fosse salvo da ocupação estrangeira.
Kamikaze tornou-se o novo nome popular para as missões em que os militares japoneses conduziam ataques com o objetivo de infligir o máximo de danos ao inimigo, mas que quase certamente terminariam na sua própria morte. As forças armadas japonesas designavam oficialmente estes grupos de ataque por «Tokko» ou «Tokkotai», que era uma abreviatura de «Tokubetiu Kogeki», significando «Unidades de Ataque Especial».
Os ocidentais rapidamente equipararam os ataques kamikaze a missões suicidas. No entanto, para os próprios japoneses, a ligação entre kamikaze e suicídio não era tão enfática. O Tenente-General Kawabe explica a diferença:
Acreditávamos que a nossa convicção espiritual na vitória contrabalançaria qualquer vantagem científica … Apelidavam os nossos ataques kamikaze «ataques suicidas». Trata-se de um termo impróprio, e ficámos muito aborrecidos por os designarem de «ataques suicidas». Não eram, de forma alguma, suicídios. O piloto não partia em missão com a intenção de cometer suicídio. Ele via-se como uma bomba humana capaz de destruir uma determinada parte da frota inimiga pelo seu país. Consideravam isso algo glorioso, enquanto um «suicídio» pode não ser assim tão glorioso.
(Largas, pág. 38)
Os pilotos kamikaze eram, inicialmente, voluntários. A sua escolha era considerada altamente honrosa e eram aclamados como heróis nacionais. Os pilotos eram motivados pela ideia de que estavam a servir o imperador japonês, amplamente considerado uma figura semidivina. O hino não oficial da Marinha Imperial Japonesa, «Umi Yukaba», chegava mesmo a incluir os seguintes versos:
Através do mar, cadáveres na água,
Através da montanha, cadáveres no campo.
Morrerei pelo Imperador.
Nunca olharei para trás.
(Leckie, pág. 93)
Morrer pelo Imperador do Japão e pela segurança nacional era considerado uma grande honra e estava intimamente ligado à ideia do bushido. Este era o nome do código de honra seguido pelos guerreiros samurai, aqueles especialistas marciais que dominaram a arte da guerra japonesa a partir do século X. O bushido é, na verdade, uma ideia romantizada que só foi desenvolvida no século XVII, quando os samurai já tinham assumido, em grande parte, funções cerimoniais. Na literatura samurai desse período, afirma-se frequentemente que o bushido é «uma forma de morrer». Se os verdadeiros samurais eram realmente tão cavalheirescos como o bushido sugere é irrelevante neste contexto, uma vez que as ideias que o código promovia, tais como a austeridade, a lealdade e a autodisciplina, eram ideais para serem adotadas pelos pilotos kamikaze de meados do século XX.
O historiador R. Leckie resume aqui as cerimónias pré-voo dos pilotos kamikaze:
… eram aclamados como salvadores: recebiam vinho e jantares, eram fotografados e idolatrados. Muitos deles assistiram aos seus próprios funerais antes de descolarem para a sua última missão. Foram realizados banquetes de despedida em sua honra… Realizaram-se cerimónias samurai solenes e beberam-se muitos brindes de saquê… o conceito do «salvador suicida» tinha cativado tanto a nação — desde as alunas até ao próprio Imperador Hirohito — que a mais pequena palavra de crítica teria sido considerada traição.
(pág. 18)
Os pilotos kamikaze eram famosos por usarem uma fita na cabeça chamada hachimaki, feita de tecido branco dobrado, com o sol nascente da bandeira nacional do Japão no centro. O hachimaki simbolizava perseverança e coragem.
Apesar da propaganda que exagerava a eficácia dos ataques kamikaze, tornou-se difícil encontrar voluntários no final da guerra, como aqui relata o Capitão Nakajima:
No início, podíamos escolher entre um grande número de pessoas que se ofereciam como voluntárias. Mas à medida que a situação da guerra se deteriorava e os aviões de ataque tinham de descolar do próprio Japão — quando o próprio Japão estava sob ataque —, precisávamos de um grande número de pilotos de Ataque Especial. E, nessa altura, não era possível que todos fossem voluntários; entre eles podiam estar aqueles que, na verdade, não desejavam alistar-se e aqueles que foram, de certa forma, arrastados pelos seus camaradas e persuadidos a alistar-se.
(Holmes, pág. 493)
Oficialmente, todos os pilotos kamikaze eram voluntários, mas, na prática, tal como referido na citação acima, existia coação em vários graus. No entanto, muitos pilotos partiram de boa vontade para a sua missão sem regresso, com a imaginação cativada pelo romantismo de tudo aquilo, tal como aqui expresso por um piloto kamikaze:
Quando voar pelos céus
Que belo local de sepultura
Seria o topo de uma nuvem.
(Leckie, pág. 187)
Outros ofereceram-se para fazer o sacrifício supremo, mas não ficaram muito entusiasmados com tal necessidade, como escreveu um piloto:
Digo-o com franqueza: não morro de boa vontade. Não morro sem pesar. O futuro do meu país deixa-me inquieto… Estou terrivelmente angustiado.
(Idem)
Havia também um número crescente de casos de pilotos que regressavam à sua base com algum tipo de desculpa para não terem cumprido a sua missão, por exemplo, mau tempo que obscurecia o alvo, terem-se perdido durante o voo ou terem sofrido uma avaria mecânica.
O primeiro grupo kamikaze foi criado pelo vice-almirante Onishi Takijiro (1891-1945) da 1.ª Frota Aérea. Ele formou uma unidade de 24 aviadores voluntários. Embora os que estavam a bordo não se tivessem apercebido de que a colisão tinha sido deliberada, o primeiro navio a ser atingido por um piloto kamikaze foi o cruzador pesado HMS Australia, a 21 de outubro de 1944, que fazia parte da frota norte-americana nas Filipinas. As missões kamikaze foram identificadas pela primeira vez como tal quatro dias depois, na Batalha das Filipinas, quando pilotos japoneses atacaram os porta-aviões de escolta USS Santee e USS Suwannee.
Nestas missões, os pilotos voluntários dirigiam deliberadamente as suas aeronaves — que eram normalmente modificadas para transportar uma carga de bombas mais pesada do que o habitual, como uma única bomba de 250 kg (551 lb) — diretamente contra alvos como navios de guerra. Os Mitsubishi A6M Zero eram os mais utilizados; de facto, foram utilizados em missões kamikaze ao longo da guerra cerca de 650 A6M Zero, embora qualquer tipo de aeronave pudesse ser utilizado para esse fim, especialmente as obsoletas, incapazes de se defenderem contra os caças aliados mais recentes. Mais raramente, os bombardeiros de torpedos Nakajima B5N eram equipados com enormes bombas de 800 kg (1 760 lb), enquanto o bombardeiro bimotor Mitsubishi G4M era utilizado para transportar uma única bomba Baka (cf. infra). Muitas vezes, eram mobilizados caças mais avançados para escoltar as aeronaves kamikaze, mais lentas, até ao seu destino final.
A razão pela qual os caças eram utilizados em missões kamikaze muito mais do que outros tipos de aeronaves é aqui explicada pelo Capitão Tadashi Nakajima:
A razão era que o Japão tinha cada vez menos aviões de bombardeamento e de ataque, e tivemos de recorrer aos caças. No entanto, é claro que os pilotos de caça não estavam treinados para ataques de bombardeamento e, por isso, considerou-se que a única forma de resolver esta situação era fazer com que esses pilotos de caça se lançassem, com o avião e o corpo, contra os navios inimigos.
(Holmes, pág. 485).
Qualquer alvo pertencente ao inimigo era considerado legítimo. O alvo mais cobiçado eram os porta-aviões, mas as defesas aéreas destes e de outros grandes navios de guerra faziam com que raramente fossem afundados ou mesmo gravemente danificados. Um alvo muito mais comum eram os navios que não se podiam defender, como os petroleiros. Até mesmo os navios-hospital, contrariamente à Convenção de Genebra, eram alvo de ataques. O navio-hospital Comfort foi atingido em abril de 1945 por um avião kamikaze, um ataque que matou 30 pessoas e feriu outras 33 a bordo, muitas das quais eram doentes.
Os ataques kamikaze não se limitavam a utilizar aviões de caça. Havia a bomba Baka, uma pequena aeronave impulsionada por um sistema de foguete (mas ainda assim pilotada até ao seu alvo por um ser humano), cuja proa continha 2 600 libras 1 200 kg (2 600 lb) ou mais de explosivos. O nome Baka, que era a alcunha dada pelos militares norte-americanos a este dispositivo, utilizando uma palavra japonesa, traduz-se por «idiota». Os próprios japoneses deram a estas máquinas suicidas o nome mais poético de ohka («flor de cerejeira») ou jinrai («raio»).
A bomba Baka era levada até ao alvo, acoplada a um avião-mãe, e lançada para percorrer os últimos 19 km (12 m) por conta própria. A bomba Baka podia atingir uma velocidade máxima impressionante de 33 km (580 mph) em picada, o que tornava difícil abatê-la, mas isto também constituía uma fraqueza, uma vez que significava que o piloto tinha grande dificuldade em controlar a direção. As bombas Baka, utilizadas pela primeira vez em combate em março de 1945, não foram particularmente bem-sucedidas, pois, por exemplo, na Batalha de Okinawa, apenas um navio aliado foi afundado por tal arma.
Outros métodos kamikaze incluíam atacar navios inimigos utilizando pequenas embarcações carregadas de explosivos, submarinos miniatura e torpedos humanos. A lancha explosiva, designada pela Marinha japonesa por Shinyo, que significa «terramoto marinho», variava em comprimento entre cerca de 5 a 6 m (16 a 21 pés). Uma variante era o Maru-ni, de dimensões semelhantes, que lançava cargas de profundidade para danificar os submarinos inimigos.
Os submarinos miniatura foram utilizados por muitas marinhas durante a Segunda Guerra Mundial, mas a Marinha japonesa empregou versões kamikaze. O Kairyu («Dragão do Mar») media 17 m (56 pés) de comprimento e era operado por dois homens. O Koryu («Dragão Escamoso»), de maiores dimensões, media 26,2 m (86 pés) e tinha uma tripulação composta por dois a cinco homens. Estes submarinos lançavam torpedos a curta distância ou tinham a proa repleta de explosivos para contacto direto com um navio inimigo.
Por fim, os torpedos humanos, que também foram utilizados por outras marinhas, foram adaptados para missões kamikaze. Denominado Kaiten («congro»), o torpedo foi ampliado para permitir que um homem se sentasse na posição vertical e visse através de uma pequena torre cónica, de onde podia direcionar a mira da arma. Os torpedos humanos foram utilizados pela primeira vez em novembro de 1944, na Batalha de Iwo Jima, e novamente em Okinawa. Embora tenham afundado alguns navios inimigos, nenhum dos métodos supra referidos foi particularmente bem-sucedido.
Os ataques kamikaze eram extremamente difíceis de combater, sobretudo porque nem sempre era claro, no calor da ação, que uma aeronave ou embarcação iria ser utilizada de tal forma. O tenente Frank Manson descreve o problema:
…não dá para saber o que o piloto vai fazer no último minuto, se vai desviar-se, como será o seu discernimento, se vai tentar atingir a linha de água, se vai tentar atingir a ponte, ou se vai atingir o vosso navio ou um navio próximo. Mas é uma bomba humana, é isso que é, e tem o cérebro de um homem lá dentro.
(Holmes, pág. 493)
Os ataques kamikaze eram frequentemente realizados em grupo. Vários aviões atacavam um único alvo, cada um vindo de uma direção diferente e num ângulo de descida distinto. O tenente Manson estava a bordo do contratorpedeiro USS Laffey quando este foi atacado por pilotos kamikaze (mas não afundado):
Este ataque durou entre setenta a noventa minutos… Foram vinte e seis aviões que realizaram ataques suicidas contra o nosso navio; sete deles foram abatidos pelos nossos artilheiros, quinze conseguiram falhar o navio e fomos, de facto, atingidos — em cheio — por quatro.
(Idem, pág. 494)
Ao longo da Batalha de Okinawa, foram realizados cerca de 1 900 ataques kamikaze contra os navios aliados. Estas ondas de ataques eram designadas pelos militares japoneses como kikusui ou «crisântemos flutuantes», em referência a uma das flores mais apreciadas na cultura japonesa. No entanto, os Aliados venceram esta batalha decisiva da Guerra do Pacífico.
A batalha para impedir que os pilotos kamikaze atingissem os seus alvos tornou-se mais eficiente com o tempo, à medida que a defesa dos navios por parte dos caças aliados se tornou mais bem organizada e mais intensa. Foram destacados navios de guerra de vigilância para utilizarem os seus radares como sistema de alerta precoce para a frota principal que se encontrava na retaguarda. O fogo antiaéreo dos navios da marinha começou a utilizar miras automáticas capazes de seguir alvos em movimento rápido. Foram desenvolvidos projéteis explosivos especiais com fusíveis de proximidade, que literalmente faziam explodir as aeronaves inimigas no ar.
Os bombardeiros aliados atacavam especificamente os aeródromos japoneses, destruindo os aviões kamikaze antes que estes pudessem descolar e garantindo que as pistas de aterragem não voltariam a estar operacionais num futuro próximo. Este foi um desenvolvimento crucial, uma vez que os porta-aviões japoneses nunca foram utilizados para lançar aviões kamikaze, embora, por vezes, transportassem estas aeronaves de uma base terrestre para outra. Para além de todas essas vantagens, o dado estatístico decisivo era que o Japão dispunha de centenas de aviões kamikaze, mas estes enfrentavam milhares de caças aliados a proteger os seus navios-mãe que seguiam no mar.
Durante a guerra morreram mais de 4 000 pilotos japoneses em missões kamikaze. Em última análise, a campanha kamikaze não foi eficaz. Os Aliados continuaram a empurrar as forças japonesas de volta para as ilhas nativas. No total, 47 navios aliados foram afundados e 300 danificados por pilotos kamikaze, mas este número foi relativamente pequeno no contexto geral da Guerra do Pacífico. Onze porta-aviões norte-americanos foram atingidos por aviões kamikaze durante a Guerra do Pacífico, mas, graças a excelentes equipas de reparação naval, a maioria voltou à ação em apenas alguns meses.
É importante referir que, mesmo que um avião kamikaze conseguisse ultrapassar as defesas e atingisse um navio de guerra, o tamanho típico da bomba de 250 kg (551 lb) e o facto de esta atingir o alvo apenas à velocidade a que o avião voava (em vez da velocidade muito superior que teria atingido se fosse lançada de altitude) significavam que era raro um piloto kamikaze conseguir penetrar nos conveses inferiores e afundar um navio de maiores dimensões. A maior parte dos danos limitava-se às superestruturas e aos conveses superiores, que podiam ser reparados com relativa rapidez.
A tática kamikaze teve maior sucesso no início, antes dos Aliados se aperceberem de que os pilotos estavam a despenhar deliberadamente as suas aeronaves, mesmo que estas não estivessem danificadas. Na Batalha das Filipinas, quando os ataques kamikaze foram utilizados pela primeira vez em número significativo, 27% dos ataques causaram danos aos navios aliados. Na Batalha de Okinawa, a última grande batalha da guerra, a taxa de sucesso tinha caído para apenas 15%. Mesmo aqueles que conseguiam penetrar nas defesas normalmente danificavam apenas embarcações de menor importância, tais como petroleiros, navios de carga e navios de apoio menos bem defendidos, todos eles muito mais fáceis de substituir do que os porta-aviões e os navios de guerra.
O facto mais revelador de todos, ao avaliar a eficácia das missões kamikaze, é que as frotas aliadas não foram de forma alguma impedidas de efectuar o seu cerco implacável ao Japão. A flor e nata da juventude militar japonesa tinha sido desperdiçada em vão. A vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial ocorreu em agosto de 1945, não graças a operações ao nível do mar, mas com o lançamento de duas bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki a partir de uma altitude que os pilotos kamikaze teriam dificuldade em alcançar.