Olaudah Equiano (também conhecido como Gustavus Vassa, viveu aproximadamente entre 1745-1797) foi um africano do vilarejo Igbo de Essaka, do Reino do Benin (atual Nigéria), escravizado por volta dos dez anos de idade, que comprou a liberdade aos 20 anos e se tornou um influente escritor e abolicionista na Grã-Bretanha.

Ele foi tirado da África Ocidental e levado para as então Antilhas Britânicas por volta de 1755 e, de Barbados, foi enviado para a colônia britânica da Virgínia, onde foi comprado pelo tenente Michael H. Pascal, da Marinha Real Britânica. Pascal, um religioso protestante, batizou-o de Gustavus Vassa em homenagem a Gustavus Adolphus (1594-1632), da Casa de Vasa, rei da Suécia e defensor da cristandade protestante.

Pascal trouxe “Gustavus” de volta à Grã-Bretanha, o qual foi vendido, então, em 1762, a um certo James Doran, que o trouxe de volta às Antilhas, onde foi vendido a Robert King, da Philadelphia, que deu a Equiano lições de escrita, de religião e de economia. Em 1765, Equiano comprou sua liberdade e, temendo ser pego e novamente escravizado se permanecesse numa das Treze Colônias, voltou para a Grã-Bretanha.

Em 1789, publicou sua autobiografia, The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African, Written By Himself , que se tornou um best-seller e foi traduzida para diversas línguas. O livro suscitou empatia pelo escravizado e aumentou o apoio à abolição da escravidão na Grã-Bretanha, em suas Treze Colônias, e na Europa como um todo. Ele foi um defensor da abolição até a data de sua morte, em 1797, de causas naturais.

A sua obra continua sendo uma importante fonte primária, não apenas sobre a escravidão no século 18, mas sobre acontecimentos como a Guerra dos Sete Anos, sobre viagens, costumes e vida cotidiana. A seguir, no trecho de sua obra, ele narra a experiência da Passagem do Meio — parte do comércio triangular (comércio triangular de escravizados) entre Europa, África Ocidental e as Américas —, à qual muitos africanos escravizados não sobreviveram.

O texto a seguir é a tradução de um excerto retirado de The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African, Written By Himself, na versão publicada pelo Project Gutenberg online. Este é um fragmento do último parágrafo do Capítulo II e foi ligeiramente editado devido ao espaço. A obra integral consta na bibliografia no final do artigo.

O primeiro elemento que saudou meus olhos quando cheguei à costa foi o mar, e o navio negreiro, que estava então ancorado e aguardava o carregamento. Fui tomado pelo espanto, que logo se converteu em terror quando fui transportado a bordo. Imediatamente, fui apalpado e revirado por alguém da tripulação para ver se eu servia; eu estava então convencido de que tinha chegado a um mundo de maus espíritos que iriam me matar.

Suas feições eram muito diferentes das nossas, seus longos cabelos e a língua que falavam (que era muito diferente de qualquer uma que eu alguma vez já tinha ouvido) me levaram a esta conclusão. De fato, tais eram os horrores de minhas visões e meus medos naquele momento que, se eu possuísse dez mil mundos, eu tranquilamente me separaria de todos eles para trocar a minha condição com a do mais pobre escravo do meu país.

Quando olhei ao redor do navio e vi uma grande fornalha ou caldeira fervente, e a multidão de pessoas negras de todo tipo acorrentadas juntas, todas elas com semblantes abatidos e em sofrimento, não mais duvidei do meu destino; e, completamente tomado de horror e angústia, fiquei apático no convés e desmaiei. Quando me recuperei um pouco, encontrei certos negros perto de mim, os quais acreditei serem alguns daqueles que me trouxeram a bordo e que tinham recebido o seu pagamento; eles conversaram comigo tentando me animar, mas em vão.

Perguntei-lhes se não seríamos comidos por aqueles homens brancos de aparência horrível, rostos avermelhados e cabelos soltos. Disseram-me que não; e um dos integrantes da tripulação me trouxe uma pequena dose de uma bebida alcoólica numa taça de vinho; mas, com medo dele, não peguei de sua mão. Então, um dos negros pegou da mão dele e me deu, e eu dei uma pequena golada, o que, em vez de me reanimar, como pensaram que iria, deixou-me completamente consternado com a estranha sensação que aquilo produziu, já que eu nunca havia provado uma bebida como aquela antes.

Pouco depois disso, os negros que me trouxeram a bordo foram embora e me deixaram entregue ao desespero. Eu me vi então privado de quaisquer chances de retornar à minha terra natal, ou até mesmo da menor pontinha de esperança de chegar à costa, que naquele momento me parecia algo benévolo; e até cheguei a desejar a minha anterior prisão em vez da minha presente situação, permeada de horrores de todo tipo, acentuada ainda mais pela minha ignorância sobre o que eu enfrentaria. Mas não me foi permitido que eu me entregasse à tristeza por muito tempo; logo fui colocado sob o convés, e minhas narinas foram invadidas de um modo que eu nunca tinha experimentado antes na vida: assim, com o fedor asqueroso, eu, em prantos, fiquei tão doente e debilitado que eu não conseguia comer, nem tinha a menor vontade de provar nada.

Desejei então que uma última amiga, a morte, viesse me aliviar; mas logo, para minha tristeza, dois dos homens brancos me ofereceram algo para comer; e, como me recusei a comer, um deles me segurou de repente pelas mãos, deitou-me ao longo de um guincho, creio eu, e amarrou meus pés, enquanto o outro me açoitava severamente. Nunca vivi nada desse tipo antes; e, embora eu não estivesse acostumado com água, e naturalmente temesse aquele elemento na primeira vez que o vi, mesmo assim, se tivesse conseguido me aproximar das redes, eu teria pulado sobre a borda, mas não pude; e, além disso, a tripulação costumava vigiar de muito perto aqueles que não estavam acorrentados no convés, para que não saltássemos na água: e cheguei a ver alguns desses pobres prisioneiros africanos gravemente feridos por tentarem fazer isso, sendo açoitados a cada hora por não comerem.

Na verdade, esse era muitas vezes o meu caso. Pouco tempo depois, em meio aos infelizes homens acorrentados, encontrei alguns da minha própria nação, o que me tranquilizou um pouco. Eu os interroguei sobre o que seria feito de nós; eles me deram a entender que seríamos levados para o país desses homens brancos para trabalhar para eles. Fiquei um pouco reanimado, então, e pensei que, se não fosse pior do que trabalhar, minha situação não seria tão desesperadora: mas ainda temia ser morto, pois as pessoas brancas pareciam e agiam, como eu pensava, de uma maneira muito selvagem; pois eu nunca tinha visto, entre quaisquer povos, casos de crueldade tão brutais; isso não apenas contra nós, negros, mas também contra alguns dos próprios brancos.

Vi um homem branco em particular, quando nos permitiam ficar no convés, ser açoitado tão impiedosamente com uma grossa corda perto do mastro, que ele morreu em consequência disso; e jogaram-no para o lado como teriam feito com um animal. Isto me fez temer essas pessoas ainda mais; e eu não esperava nada menos do que ser tratado da mesma maneira…

…O fedor do porão quando estávamos na costa era tão intoleravelmente repugnante que era perigoso permanecer lá por qualquer tempo que fosse, e deixaram que alguns de nós ficassem no convés para tomar ar fresco; mas agora que todo o carregamento do navio estava confinado junto, tornou-se absolutamente pestilento. A má ventilação do lugar e o calor do clima, acrescidos ao número de pessoas no navio, tão lotado que cada um mal tinha espaço para se virar, quase nos sufocou.

Isso produziu suores abundantes, tanto que o ar logo se tornou impróprio para respirar, devido a uma série de cheiros fedorentos, e levou os escravos a ficarem doentes, muitos dos quais morreram, vítimas da avarice imprudente, que é como posso chamar, de seus compradores. Essa situação miserável, mais uma vez agravada com a irritação causada pelas correntes, tornou-se insuportável; e com a imundície dos baldes em que fazíamos as necessidades, nos quais muitas vezes as crianças caíam, e quase se sufocavam. Os gritos das mulheres e os gemidos dos moribundos faziam do todo uma cena de horror quase inconcebível.

Felizmente, talvez para mim, logo fui reduzido a um estado tão frágil que consideraram necessário me manter quase todo o tempo no convés; e pela minha tenra idade, não me colocaram grilhões. Naquela situação, eu esperava a todo momento compartilhar do mesmo destino dos meus companheiros, alguns dos quais eram quase que diariamente levados ao convés quando estavam à beira da morte, o que eu comecei a esperar que logo colocaria um fim nos meus sofrimentos.

Muitas vezes pensei que vários habitantes das profundezas eram muito mais felizes que eu. Invejei a liberdade que tinham, e muitas vezes desejei poder trocar minha condição pela deles. Toda circunstância pela qual passei serviu apenas para tornar meu estado mais doloroso e aumentar minhas apreensões e meu julgamento sobre a crueldade dos brancos. Um dia, eles tinham apanhado muitos peixes; e quando eles os mataram e se saciaram com quantos quiseram, para o espanto daqueles que estavam no convés, em vez de dar qualquer pedaço a um de nós, eles jogaram as sobras dos peixes de volta ao mar, embora tivéssemos pedido e implorado por um pouco da maneira que podíamos, mas em vão; e alguns dos meus conterrâneos, oprimidos pela fome, aproveitaram a oportunidade, quando pensaram que ninguém os estivesse vendo, e tentaram pegar um pouco para si; mas foram descobertos e essa tentativa lhes garantiu algumas açoitadas muito severas.

Um dia, quando o mar estava tranquilo e o vento moderado, dois dos meus exaustos conterrâneos que estavam acorrentados juntos (eu estava perto deles naquele momento), preferindo a morte a uma vida de tanto sofrimento, de algum modo conseguiram passar através das redes e pular no mar: imediatamente outro companheiro bastante abatido, ao qual, por conta de sua doença, permitiram que ficasse sem as correntes, também seguiu o exemplo; e creio que muitos mais logo fariam o mesmo se não tivessem sido impedidos pela tripulação, que de imediato ficou em alerta.

Aqueles que eram os mais ativos foram colocados num instante sob o convés, e houve um barulho e uma confusão tamanha entre as pessoas do navio, como eu nunca tinha presenciado antes, para que parassem e lançassem o bote para ir atrás dos escravos. Contudo, dois desses condenados haviam se afogado, mas eles pegaram o terceiro, e depois disso o açoitaram sem piedade para servir de exemplo àqueles que preferiam a morte à escravidão. Desse modo, continuamos a passar por mais sofrimentos do que eu consigo agora narrar, sofrimentos inerentes a esse comércio amaldiçoado…

Enfim, avistamos a ilha de Barbados, para a qual os brancos a bordo gritaram, e eles acenaram com alegria para nós. Não sabíamos o que pensar daquilo; mas à medida que a embarcação se aproximava, vimos claramente o porto e outros navios de diversos tipos e tamanhos; logo ancoramos entre eles em Bridge Town. Muitos mercadores e fazendeiros subiram então a bordo, embora fosse noite. Eles nos separaram em grupos e nos examinaram cuidadosamente. Fizeram-nos também pular e apontaram para a terra, o que significava que deveríamos ir para lá.

Acreditávamos, com isso, que seríamos comidos por aqueles homens feios, era como pareciam para nós; e, quando pouco depois fomos todos colocados sob o convés novamente, houve muito medo e tremor, e nada além de prantos amargos ouvidos por toda a noite de tanta apreensão, de tal maneira que, no fim das contas, os brancos trouxeram alguns escravos mais velhos da terra para nos tranquilizar. Disseram-nos que não seríamos comidos, mas que trabalharíamos, e logo iríamos para a terra, onde veríamos muitas pessoas da nossa terra natal.

Aquele relato nos tranquilizou muito; e de fato pouco depois que aportamos, africanos de diferentes línguas vieram até nós. Fomos imediatamente levados ao pátio do mercador, onde fomos todos confinados juntos como ovelhas num cercado, sem distinção de sexo ou idade. Como qualquer objeto ali era novo para mim, tudo que vi me causou espanto. O que primeiro me chocou foi que as casas eram construídas em andares, e em qualquer outro aspecto eram diferentes daquelas da África: mas fiquei ainda mais impressionado ao ver pessoas montadas em cavalos. Eu não sabia o que isso poderia significar; e, além disso, eu pensei que essas pessoas eram cheias de truques mágicos e nada mais.

Enquanto eu estava em choque, um dos meus companheiros de prisão falou sobre os cavalos com um conterrâneo dele, que disse serem do mesmo tipo que tinham em seu país. Eu os compreendi, embora fossem de uma região distante da África, e achei estranho nunca ter visto quaisquer cavalos lá; mas em seguida, quando pude conversar com diferentes africanos, descobri que havia muitos cavalos na terra deles, e maiores que aqueles que então via.

Estávamos há poucos dias sob a custódia do mercador quando fomos vendidos conforme o costume, que é o seguinte: — A um dado sinal (como a batida de um tambor, por exemplo), os compradores se precipitavam para o pátio onde os escravos estavam confinados, e escolhiam o grupo de que gostavam mais. O barulho e a gritaria com a qual isto é feito, e o ímpeto visível nas feições dos compradores, não pouco aumentavam as apreensões dos africanos aterrorizados, que bem poderiam considerar aqueles como os ministros daquela destruição a qual acreditavam estar destinados.

Desse modo, sem escrúpulos, parentes e amigos são separados, muitos dos quais nunca verão um ao outro novamente. Lembro-me de que, quando estava na embarcação em que fui trazido, no aposento dos homens, havia muitos irmãos que, na venda, foram negociados em diferentes lotes; e foi muito comovente, naquela ocasião, ver e ouvir seus gritos durante a partida.

Ó, cristãos nominais! Não poderia um africano questioná-los, tendo aprendido do seu Deus, que diz para fazer ao outro o que gostariam que os outros fizessem a vocês? Não foi suficiente termos sido arrancados do nosso país e dos nossos amigos para trabalhar a serviço da sua luxúria e cobiça de ganhos? Deveria qualquer sentimento de compaixão ser sacrificado em prol de sua avareza? Os amigos e parentes mais queridos, agora ainda mais queridos pela separação dos seus parentes, devem ser ainda separados e impedidos assim de enfrentar as trevas da escravidão com o pequeno conforto de estarem juntos e dividirem os sofrimentos e as penas? Por que os pais devem perder os seus filhos, os irmãos suas irmãs, ou os maridos suas esposas? Certamente, isso é um novo requinte de crueldade, que, como não tem meios de ser reparada, agrava a aflição e agrega novos horrores até mesmo à miséria da escravidão.