A vida após a morte, segundo os Cheyenne, é concebida como uma continuação da vida na Terra. O espírito deixa o corpo e percorre o longo caminho da Via Láctea para chegar a uma aldeia muito semelhante àquela que sempre conheceu, onde é recebido por aqueles que partiram antes. O espírito continua então a viver com o seu Criador e com a sua comunidade.
O Criador, Heammawihio ou Maheo (Ma'heo'o) — o Sábio do Alto — acolhe todos os espíritos de forma igualitária, exceto os das pessoas que morreram por suicídio, como párias da comunidade, ou que viveram uma vida limitada pelo egoísmo. Quando estas pessoas morrem, os seus espíritos dirigem-se para o curto caminho ao longo da Via Láctea que conduz à escuridão e, perdidos ali, podem por vezes regressar à Terra – à comunidade que conheceram – como fantasmas para assustar, atormentar ou enganar os vivos, levando-os a cometer os mesmos erros que cometeram em vida e, assim, a enfrentar o mesmo destino na vida após a morte. Esta é uma das muitas razões pelas quais os Cheyenne, tal como outros povos indígenas da América do Norte, contam histórias que alertam as pessoas para os perigos de interagir com fantasmas ou de os acolher.
Para a maioria das pessoas, no entanto, o longo caminho da Via Láctea é claro, e chegam em segurança à comunidade da vida após a morte, acolhidas pelo seu Criador, para viver eternamente, caçando, pescando e fazendo tudo o que sempre fizeram na Terra. Foram relatadas visões desta vida após a morte por quem esteve doente ou gravemente ferido e depois recuperou, bem como por quem participou no movimento religioso conhecido como a Dança dos Espíritos, especialmente entre 1889 e 1890.
Os pormenores da vida após a morte dos Cheyenne foram registados em pormenor pelo antropólogo e historiador George Bird Grinnell (1849–1938), que viveu entre eles e que também teve à sua disposição os recursos inestimáveis do intérprete e historiador cheyenne-anglo George Bent (também conhecido como Ho-my-ike, cerca de 1843-1918) e do estudioso e investigador George E. Hyde (1882-1968), garantindo a precisão. Os livros de Grinnell sobre os Cheyenne, os Pawnee e outros índios das Planícies continuam a ser considerados alguns dos mais importantes escritos sobre o tema.
A história da criação dos Cheyenne apresenta a visão do mundo como uma extensão do Criador e, tal como Maheo é totalmente bom, também a criação o é. Não existe «mal» no mundo e, por isso, não há pessoas más; apenas pessoas que interpretam mal o que é bom. Todos os seres vivos são considerados igualmente preciosos e merecedores de respeito, uma vez que todos carregam uma centelha do divino, quer se trate de um ser humano, uma rocha, uma árvore, um cão ou um bisonte. Os seres humanos e os animais, no entanto, possuem um espírito conhecido como tasoom — uma alma imortal — que os objetos inanimados não possuem. Quando alguém morre, o seu tasoom regressa Àquele que o criou e, por isso, a vida após a morte dos Cheyenne é povoada não só pelos espíritos das pessoas que faleceram, mas também pelos de cavalos, cães, bisontes e quaisquer outros animais. A paisagem da vida após a morte — as rochas, as árvores e a pradaria — reflete aquilo que as pessoas conheciam em vida como imutável e eterno, possuindo um espírito divino, mas não um tasoom.
Ao nascer, o tasoom é uma tábua rasa e adquire as suas características através das escolhas que se fazem na vida. Uma pessoa que respeitou as tradições da comunidade e da sua família, que reconheceu que o bem da maioria supera os seus próprios desejos individuais, expande a sua alma e, mesmo que tenha falhado em vários aspetos de uma vida virtuosa, ainda pode esperar ser acolhida no lar da vida após a morte. O conto cheyenne A Vida e a Morte de Sweet Medicine, sobre o grande legislador e profeta Sweet Medicine, destaca o valor de colocar o bem maior acima do próprio. Aqueles que viraram as costas à sua comunidade e família, no entanto, ou que optaram por colocar os seus próprios desejos acima do plano traçado para eles por Maheo, vêem os seus espíritos perdidos na vida após a morte; não porque não sejam amados por Maheo, mas porque as suas escolhas na vida moldaram o seu «tasoom» de tal forma que este não consegue encontrar o caminho aberto de regresso a casa.
Na passagem abaixo, Grinnell observa que «todos os que morreram são iguais. Após a morte, não há recompensa pela virtude nem castigo pelo pecado» (pág. 91), o que é verdade. Maheo não impede ninguém de regressar a casa; é o próprio tasoom que se afasta de Maheo devido à cor e à forma que assumiu enquanto habitava um corpo e se contentava em viver apenas para si próprio, sem pensar nos outros, incluindo o Criador ou as gerações ainda por nascer.
A vida após a morte era entendida pelos índios das planícies como uma realidade absoluta — tal como o é pelos seus descendentes que vivem hoje — e entendia-se que ali se viveria na mesma forma, por mais etérea que fosse, que o corpo que se tinha deixado para trás na Terra. É por esta razão que os Cheyenne, os Sioux, os Pawnee, os Cherokee e outros mutilavam os cadáveres dos inimigos mortos. A alma dessa pessoa seguiria então para a vida após a morte, onde lhe faltariam mãos, pés, olhos ou outras partes do corpo, não podendo assim desfrutar da sua vida eterna. A realidade da vida após a morte foi também o que impulsionou o movimento da Dança dos Espíritos de 1889-1890 (embora, para algumas nações, como os Pawnee, tenha continuado a ser praticado até ao século XX): os participantes na dança circular entravam em transe, durante o qual viam claramente as aldeias, as pradarias, os bisontes e os espíritos dos falecidos, e contavam depois aos outros as suas visões, encorajando mais pessoas a aderirem ao movimento.
George Bird Grinnell não falava a língua cheyenne e, por isso, contava com as competências do famoso intérprete cheyenne-anglo George Bent. Bent, um guerreiro cheyenne educado em escolas euro-americanas, é responsável por algumas das obras mais famosas de escritores anglo-americanos sobre os índios das Planícies, incluindo as de James Mooney (1861-1921). Trabalhou também em estreita colaboração com o estudioso e investigador George E. Hyde, que reviu os manuscritos de Grinnell e afirmou ter sido o «escritor-fantasma» do seu livro The Fighting Cheyennes (Os Cheyenne Guerreiros - 1915).
George Bent era um brilhante historiador bilingue e George E. Hyde era um investigador, historiador e escritor meticuloso; e, uma vez que foram em grande parte responsáveis pelo conteúdo da obra de Grinnell, esta é considerada fidedigna, sendo as afirmações de Grinnell corroboradas pelas obras de outros historiadores e estudiosos de renome. A sua passagem sobre a vida após a morte, apresentada abaixo, tal como muitas outras nas suas obras, foi extraída de entrevistas organizadas por Bent com curandeiros cheyennes e outras pessoas; por isso, na sua maior parte, parece que se está a ouvir o relato tal como foi contado ao público nativo americano original.
A tradução infra é da passagem extraída da obra de George Bird Grinnell, The Cheyenne Indians: War, Ceremonies, and Religion, Volume II (Os Índios Cheyenne: Guerra, Cerimónias e Religião, Vol. II 1923), reeditada em 1972 pela University of Nebraska Press, págs- 90-94:
Quando Heammawihio criou as pessoas pela primeira vez, criou-as para viverem. Quando morriam, ficavam mortas apenas durante quatro noites, e depois voltavam a viver. Passado algum tempo, o Criador percebeu que isso não servia. Teria tornado as pessoas demasiado corajosas, e elas teriam matado em demasia. É por isso que agora as pessoas morrem para sempre. Se tivesse continuado como no início, as pessoas teriam sido como a águia-careca. Podes sair e matar uma águia-careca, levá-la para casa e usar as suas penas; e, passados quatro dias, se voltares ao local onde a mataste, encontrarás novamente a águia-careca no seu ninho ou perto dele.
Em certa altura, Heammawihio estava com o povo na Terra. Foi ele quem lhes ensinou a fazer pontas de flecha de pedra e facas de pedra e osso para cortar. Ele instruiu-os sobre como pegar nas pontas de flecha que lhes tinha ensinado a fazer e colocá-las nas hastes, mostrou-lhes como fazer um arco e como usar as flechas para atirar. Ele disse-lhes que os animais — o bisonte, o alce e o veado, todos os animais que existem na Terra — e as aves de diferentes espécies, serviam para que eles os caçassem e se alimentassem deles. Acendiam o fogo, tal como ele lhes tinha ensinado, esfregando dois paus um contra o outro até o fogo se acender, e também batendo duas pedras duras uma contra a outra.
Naqueles tempos, Heammawihio disse-lhes que existiam muitos outros povos que eles nunca tinham visto e que, passado algum tempo, iriam encontrá-los; iriam descobrir que todas essas pessoas estavam armadas tal como eles, com flechas de pedra e facas de pedra e osso; ele tinha ensinado a todos os povos da terra a mesma forma de viver.
Heammawihio mostrou-lhes o milho e disse-lhes para o plantarem, cultivarem e comerem, afirmando que, ao fim de muito tempo, todas as pessoas aprenderiam a plantar e a cultivar cereais, bem como a cultivar outras coisas para a sua subsistência. Do outro lado da grande água, disse ele, vivia um povo diferente, e chegaria um dia em que esse povo atravessaria para este lado da água e eles os veriam. Chegaria um tempo em que haveria guerras e muitas pessoas seriam mortas.
Depois de Heammawihio ter passado muito tempo com eles e lhes ter ensinado como viver, disse-lhes que iria subir ao céu, que cuidaria deles e que, quando morressem, deveriam ir ter com ele; enquanto estivessem na Terra, poderiam passar por muitas dificuldades, mas, quando morressem, todos subiriam ao céu e viveriam com ele.
Seyan , o lugar dos mortos, fica lá em cima, onde Heammawihio vive. Aqueles que morrem estão com ele, com exceção apenas daqueles que se suicidaram. Corajosos e covardes, bons e maus, todos vão para lá. Todos os que morreram são iguais. Após a morte, não há recompensa pela virtude nem castigo pelo pecado. O espírito de quem morreu sobe para junto de Heammawihio. Chega-se a Seyan seguindo a Estrada Suspensa, a Via Láctea. Lá, os mortos vivem como viviam na Terra — perseguem bisontes, caçam outros animais e vão para a guerra. Ocasionalmente, pessoas que estiveram muito doentes acreditam que morreram e foram para essa terra, e depois regressaram, mas parecem nunca chegar realmente a esses acampamentos dos mortos. Talvez cheguem a uma curta distância da aldeia e possam encontrar-se e conversar com pessoas que vêm e vão para lá, mas nunca chegam a alcançá-la. Antes de o fazerem, regressam à vida. Descrevem os acampamentos e falam das cabanas brancas pintadas com elegância, das pessoas que vão e vêm, dos varal onde se seca a carne, das mulheres a curtir mantos, de todas as imagens e sons de um acampamento, tal como os conhecem aqui.
A Mulher que Recolhe Ossos — irmã de Águia Vermelha, um curandeiro Cheyenne do Norte —, quando tinha oitenta e quatro anos (nascida por volta de 1818), contou-me a sua experiência ocorrida cerca de cinquenta e quatro anos antes (1848), quando tinha morrido e ido para o lugar dos mortos.
Pouco tempo depois de se ter casado, ficou muito doente… Certa manhã, logo após o nascer do sol, estava sentada, curvada, quando alguém a chamou: «Picking Bones, querem-te ali! A tua mãe precisa de ti!» A sua mãe já estava morta há muito tempo.
Levantou-se, saiu da cabana e dirigiu-se diretamente para norte. Não caminhava sobre o chão; corria, mas os pés não tocavam no chão – pareciam mover-se um pouco acima dele. Não olhava nem para a direita nem para a esquerda, mas diretamente à sua frente. Sentia-se como se estivesse a voar. Ao olhar para baixo, a relva parecia-lhe de um vermelho-amarelado. De repente, chegou ao topo de uma colina e, ao olhar para o chão à sua frente, este parecia verde. Então, mesmo à sua frente, viu um grande penhasco e, nele, uma porta. Correu diretamente contra a porta e, quando a atingiu, esta abriu-se, e ela caiu pelo lado esquerdo. Sentiu as irregularidades do solo contra o seu corpo enquanto ali permanecia deitada.
Alguém dirigiu-lhe a palavra e disse: «A tua mãe voltou.» Ela não viu o rosto da pessoa que falou, mas viu-lhe as pernas a partir dos joelhos; ele usava polainas às riscas azuis. Ao levantar-se, viu homens idosos sentados à sua volta. Tinham o cabelo penteado de formas diferentes, segundo a moda antiga, alguns com o cabelo preso em grandes coques na testa. Os corpos de todos estavam nus, mas todos usavam mantas de bisonte à volta da cintura e das pernas. Reconheceu um homem que estava sentado mais perto dela; era Água Vermelha, que já estava morto há muito tempo. A pessoa que lhe tinha falado voltou a falar, dizendo: «Tens de levar este bebé contigo; é o filho do teu marido.» Ela estendeu os braços e ele colocou-lhe nos braços a criança nua, que ela segurou.
Saiu então pela porta e regressou à sua cabana tal como a tinha deixado, mas levando o bebé à frente de si. Enquanto regressava, não tocou no chão, mas avançou como se estivesse a voar. Lembra-se de chegar a casa e de entrar, segurando o bebé. O seu marido estava sentado ali, e ela disse-lhe: «Aqui está o teu filho; toma-o.» Entregou-o a ele. Depois, virou-se, olhou para a sua cama e viu ali o seu corpo deitado na cama. Ela não sabe como o seu espírito regressou ao corpo, mas, quando recuperou a consciência, estava sentada. Levantou-se e, ao fazê-lo, sentiu-se bem. O seu corpo não tinha saído da cabana. Não tinha havido nenhum bebé na cabana.
O espírito , ou princípio vital, é chamado de «sombra» ou «tasoom»; isto é, a alma, a mente ou a parte espiritual; não o corpo, a parte imortal. Tasoom é também a sombra de qualquer ser vivo, como um homem, um cavalo, um pássaro ou um cão. Não é a sombra de uma árvore, de uma rocha ou de um edifício. Sobre uma pessoa moribunda que perdeu a consciência e apenas respira, podem dizer: «O seu tasoom já se foi há muito tempo; ele está apenas a respirar.»
Aqueles que morrem tornam-se sombras ou espíritos. Se um homem vir a sua sombra, é sinal de que morrerá em breve. Um doente pode mandar chamar um amigo e dizer-lhe: «Bem, meu amigo, mandei-te chamar para te ver mais uma vez, pois estou prestes a morrer. Vi a minha sombra.»
As mulheres viam as suas sombras com mais frequência do que os homens e, no caso delas, a visão não era necessariamente seguida pela morte. Se uma mulher idosa tivesse ficado muito assustada, poderia dizer: «Fiquei tão assustada que vi a minha sombra.» A ideia parece ser que a sua vida foi literalmente arrancada do seu corpo pelo susto e, por um momento, ficou diante dela. A sombra é uma mera forma, vista por um instante e depois desaparece. É como uma sombra, na medida em que não tem detalhes; sem roupa, sem traços – uma silhueta.
Há anos, os índios recusavam-se frequentemente a ser fotografados, porque acreditavam que, quando a fotografia era levada, a vida do sujeito também era levada, e o próprio homem morreria. Consideravam a fotografia como a sombra do homem. Da mesma forma, nos primeiros tempos, quando os pequenos espelhos comerciais chegaram pela primeira vez, muitas pessoas recusavam-se a olhar para eles, porque veriam as suas sombras e a má sorte as seguiria.