O Hino a Nungal (incipit: É, an-gin7 gur-ra; cerca de 1894–1595 a.C.) é um poema sumério que louva Nungal, a deusa das prisões e da reabilitação (também associada ao submundo), bem como a prisão sobre a qual presidia. O seu nome significa "Grande Princesa", sendo também conhecida como Manungal ("Mãe Nungal"). Esta obra, também conhecida como Nungal A, integrava o currículo das escolas de escribas e era copiada com frequência.
A obra está datada do período paleobabilónico (cerca de 1894–1595 a.C.), devido ao número de cópias encontradas dessa época, mas poderá ter sido composta durante o período de Ur III (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.), possivelmente sob o reinado de Shulgi de Ur (reinou entre 2094 e cerca de 2046 a.C.), cujo interesse pela literacia generalizada resultou na criação de mais escolas de escribas (conhecidas como edubba, "a casa das tabuletas"), o que fomentou um maior número de obras escritas.
Contudo, o nome de Nungal surge também no período Dinástico Arcaico na Mesopotâmia (cerca de 2900 a cerca de 2350/2334 a.C.), pelo que o hino, ou alguma versão do mesmo, poderá ter sido composto nessa altura. As muitas cópias cuneiformes da obra foram descobertas nas ruínas da cidade de Nipur (e noutros locais no Iraque) entre meados do século XIX e meados do século XX, tendo a sua popularidade ficado atestada pelo número de tabuletas encontradas.
A obra integrava a Década das escolas de escribas — dez composições que um estudante avançado tinha de dominar antes da graduação —, mas também se crê que tenha sido lida em voz alta ou recitada em eventos em honra de Nungal, uma prática comum durante os festivais na antiga Mesopotâmia.
Nungal era filha de Ereshkigal, a Rainha do Submundo, estando assim associada à vida após a morte, mas também — enquanto nora do deus do céu Enlil (que mantinha a ordem) — à justiça. Casada com Birtum, um deus do submundo, igualmente ligado à justiça, cujo nome se traduz como "grilhão" ou "ferro".
É também referenciada, de forma simbólica, como "filha de An" (Anu), o pai de Enlil, igualmente associado à justiça e à ordem. Leis como o Código de Ur-Nammu e o Código de Hamurabi definiam o que constituía um crime e estipulavam a punição correspondente a ser aplicada pelas autoridades, mas os deuses eram entendidos como o poder fundamental que validava essas leis. O estudioso Stephen Bertman comente:
A chave era uma submissão inata a uma autoridade superior, uma caraterística comportamental que impregnava a cultura mesopotâmica. A principal virtude pessoal da sociedade era a obediência humilde e inquestionável aos deuses e aos seus representantes terrenos. Dentro da sociedade, era o Estado e as suas exigências, e não o indivíduo e os seus direitos, que prevaleciam.
(pág. 70)
Vários deuses estavam associados ao conceito de justiça, mais notavelmente Utu-Shamash, mas desde o período Dinástico Arcaico até ao período paleobabilónico, e possivelmente mais tarde, a divindade responsável por lidar com o acusando após a prática de um crime era Nungal, considerada capaz de separar os inocentes dos culpados.
O encarceramento era apenas utilizado como uma medida temporária na lei mesopotâmica — o acusado era confinado numa casa de guarda ou prisão até que a culpa ou a inocência fossem estabelecidas em julgamento ou através do ordálio —, assumindo depois a punição a forma de uma multa, alguma forma de mutilação, escravidão ou trabalho forçado por um determinado período, ou a morte.
A prisão descrita no Hino a Nungal — embora se considere ter sido moldada com base nas prisões mesopotâmicas reais — parece existir no submundo ou num plano fora do reino mortal, no qual Nungal castiga os malfeitores, reabilita os transviados e recompensa os inocentes. O Hino a Nungal descreve a casa prisional nas linhas 1–61 como a "cadeia dos deuses" e como "uma cidade em ruínas" onde os reclusos deambulam, incapazes de reconhecer até os parentes mais próximos enquanto "passam os dias em prantos e lamentações". Esta secção, narrada por um narrador não identificado, transmite a visão que os prisioneiros têm da "casa" de Nungal, de onde não há fuga possível.
Nas linhas 62–116, Nungal toma a palavra, descrevendo a sua casa como "construída sobre a compaixão", que "dá à luz uma pessoa justa, mas extermina uma pessoa falsa", exemplificando o seu papel de deusa da justiça que está tão interessada na reabilitação quanto na punição. O poema termina com as linhas 117–121 em louvor de Nungal e do "brilho impressionante" da sua casa prisional ao lidar com justiça com os acusados.
O texto infra foi extraído The Literature of Ancient Sumer, (A Literatura da Antiga Suméria) e de The Electronic Corpus of Sumerian Literature (ETCSL O Corpus Eletrónico da Literatura Suméria) traduzido para inglês pelo estudioso Jeremy Black et al. As elipses indicam palavras ou linhas ausentes, enquanto os pontos de interrogação sugerem traduções alternativas para uma palavra.
1–11: Casa, tempestade furiosa do céu e da terra, espancando os seus inimigos; prisão, cadeia dos deuses, augusto cepo do pescoço do céu e da terra! O seu interior é a luz do anoitecer, o crepúsculo espalhando-se amplamente; a sua imponência é aterrorizante. Mar revolto que se eleva alto, ninguém sabe para onde fluem as suas ondas crescentes. Casa, uma armadilha à espera do malvado; faz tremer o ímpio! Casa, uma rede cujas malhas finas são habilmente tecidas, que reúne as pessoas como seu espólio! Casa, que vigia o justo e os malfeitores; nenhum malvado pode escapar ao seu alcance. Casa, rio do ordálio que deixa os justos vivos e escolhe os maus! Casa, de grande nome, submundo, montanha onde Utu se levanta; ninguém pode conhecer o seu interior! Grande casa, prisão, casa de crimes capitais, que impõe punição! Casa, que escolhe os justos e os ímpios; An tornou o seu nome grande!
12–26: Casa cujas fundações estão carregadas de grande imponência! A sua porta é a luz amarela do anoitecer, exsudando brilho. As suas escadas são um grande dragão de boca aberta, à espreita dos homens. O seu batente é um adaga grande cujas duas arestas... o homem mau. A sua arquitrave é um escorpião que rapidamente salta da poeira; domina tudo. As suas pilastras salientes são leões; ninguém ousa precipitar-se no seu aperto. A sua abóbada é o arco-íris, imbuído de pavor terrível. As suas dobradiças são uma águia cujas garras agarram tudo. A sua porta é uma grande montanha que não se abre para o ímpio, mas abre-se para o homem justo, que não foi trazido pelo seu poder. As suas trancas são leões ferozes fechados num abraço vigoroso. O seu trinco é uma jiboia, de língua de fora e a sibilar. O seu ferrolho é uma víbora cornuda, deslizando num lugar selvagem. Casa, perscrutando o céu e da terra, uma rede estendida! Nenhum malfeitor pode escapar ao seu alcance, enquanto arrasta o inimigo de um lado para o outro.
27–31: Nungal, a sua senhora, a poderosa deusa cuja aura cobre o céu e a terra, reside no seu grande e sublime estrado. Tendo tomado assento no recinto da casa, ela controla a Terra a partir daí. Ela ouve o rei na assembleia e esmaga os seus inimigos; a sua vigilância nunca termina.
32–39: Grande casa! Para o inimigo é uma armadilha à espreita, mas dando bons conselhos à Terra; ondas temíveis, investida de uma cheia que transborda as margens do rio (um manuscrito tem em vez disso: que nunca para de rugir, enorme e transbordante (?)). Quando um indivíduo é trazido para lá, não consegue resistir à sua aura. Os deuses do céu e da terra prostram-se perante o seu lugar onde os julgamentos são feitos. Ninegala toma o seu assento no alto do seu estrado de lápis-lazúli. Ela vigia os julgamentos e as decisões, distinguindo o verdadeiro do falso. A sua rede de batalha de malhas finas está verdadeiramente lançada sobre a terra por causa dela; o malfeitor que não segue o seu caminho não escapará ao seu braço.
40–47: Quando um homem de quem o seu deus desaprova (?) chega à porta da grande casa, que é uma tempestade furiosa, uma cheia que cobre toda a gente, ele é entregue às mãos augustas de Nungal, a carcereira da prisão; este homem é retido por um aperto doloroso como um touro selvagem com as patas dianteiras abertas (?). Ele é conduzido a uma casa de luto, o seu rosto é coberto com um pano, e ele anda em redor nu. Ele... a estrada com o pé, ele... numa rua larga. Os seus conhecidos não lhe dirigem a palavra, mantêm-se afastados dele.
48–54: Nem mesmo um homem poderoso consegue abrir a sua porta; os encantamentos são ineficazes (?). Abre-se para uma cidade em ruínas, cujo traçado está destruído. Os seus reclusos, como passarinhos escapados às garras de uma coruja, olham para a sua abertura como para o nascer do sol. O irmão conta ao irmão os dias de infortúnio, mas os seus cálculos ficam totalmente baralhados. Um homem não reconhece os seus semelhantes; tornaram-se estrangeiros. Um homem não retribui a palavra-passe dos seus semelhantes, os seus aspetos estão tão mudados.
55–61: O interior do templo dá origem a prantos, lamentações e gritos. As suas paredes de tijolo esmagam os homens maus e dão um novo nascimento aos homens justos. O seu coração colérico faz com que se passem os dias em prantos e lamentações. Quando o momento chega, a prisão é enfeitada como para um festival público; os deuses estão presentes no local de interrogatório, no ordálio do rio, para separar os justos dos malfeitores; a um homem justo é dado um novo nascimento. Nungal agarra o seu inimigo com firmeza, para que ele não escape às suas garras.
62–74: Então, a senhora exulta; a poderosa deusa, a sagrada Nungal, louva-se a si mesma: "An determinou um destino para mim, a senhora; eu sou a filha de An. Enlil também me proveu de um destino eminente, pois sou a sua nora. Os deuses entregaram os poderes divinos do céu e da terra nas minhas mãos. A minha própria mãe, Ereshkigal, atribuiu-me os seus poderes divinos. Instalei o meu augusto estrado no submundo, a montanha onde Utu se levanta. Eu sou a deusa da grande casa, a sagrada residência real. Falo com grandeza a Inanna; sou a alegria do seu coração. Auxilio Nintud no local do parto (?); sei como cortar o cordão umbilical e conheço as palavras favoráveis ao determinar destinos. Sou a senhora, a verdadeira intendente de Enlil; ele amontoou posses para mim. O celeiro que nunca fica vazio é meu; "
75–82: "A misericórdia e a compaixão são minhas. Não aterrorizo ninguém. Vigio o povo de cabeças pretas: eles estão sob a minha vigilância. Seguro a tabuleta da vida na minha mão e nela registo os justos. Os malfeitores não podem escapar ao meu braço; conheço as suas acções. Todos os países olham para mim como para a sua mãe divina. Suavizo os castigos severos; sou uma mãe compassiva. Acalmo até o coração mais irado, salpicando-o com água fresca. Acalmo o coração ferido; arrebato os homens das mandíbulas da destruição."
83–94: "A minha casa está construída sobre a compaixão; sou uma senhora que dá a vida (?). A sua sombra é como a de um cipreste que cresce num lugar puro. Birtum, o fortíssimo, o meu esposo, reside ali comigo. Tomando assento no seu grande e sublime estrado, ele emite ordens poderosas. Os guardiões da minha casa e as deusas protectoras de aspeto formoso... O meu superintendente-chefe, Ig-alim, é o cepo de pescoço das minhas mãos. Ele foi promovido para cuidar da minha casa;... O meu mensageiro não se esquece de nada: ele é o orgulho do palácio. Na cidade com o nome de (?) Enlil, reconheço o verdadeiro e o falso. Ninharana traz as novidades e coloca-as perante mim. O meu barbeiro-chefe prepara-me a cama na casa imbuída de temor. Nezila organiza ocasiões (um manuscrito acrescenta: e valiosas (?)) alegres (?)."
95–105: "Quando alguém é trazido para o palácio do rei e esse homem é acusado de um crime capital, o meu procurador-chefe, Nindimgul, estende o braço em acusação (?). Ele condena essa pessoa à morte, mas ela não será morta; ele arrebata o homem das mandíbulas da destruição, traz-o para a minha casa da vida e mantém-no sob vigilância. Ninguém veste roupas limpas na minha casa empoeirada (?). A minha casa abate-se sobre a pessoa como um homem embriagado. Ele ficará à escuta de serpentes e escorpiões na escuridão da casa. A minha casa dá à luz uma pessoa justa, mas extermina uma pessoa falsa. Visto que há piedade e lágrimas dentro das suas paredes de tijolo, e é construída com compaixão, ela suaviza o coração dessa pessoa e refresca o seu espírito."
106–116: "Quando tiver apaziguado o coração do seu deus por ele; quando o tiver polido e limpo como prata de boa qualidade, quando o tiver feito resplandecer através da poeira; quando o tiver purificado da sujidade, como prata da melhor qualidade , ele será novamente entregue às mãos propícias do seu deus. Então, que o deus deste homem me louve apropriadamente para sempre! Que este homem me louve efusivamente; que proclame a minha grandeza! A proclamação do meu louvor por toda a Terra será arrebatadora! Que forneça manteiga do curral puro e traga o melhor dela para mim! Que forneça ovelhas engordadas do aprisco puro e traga o melhor delas para mim! Então, nunca cessarei de ser o guardião benevolente deste homem. No palácio, serei o seu protetor; vigiá-lo-ei lá."
117–121: Porque a senhora revelou a sua grandeza; porque dotou a prisão, a cadeia, a sua amada morada, com um brilho impressionante, louvores a Nungal, a poderosa deusa, o cepo de pescoço dos deuses Anuna, cuja ninguém conhece, a primeira cujos poderes divinos são intocáveis!
Como foi referido, o Hino a Nungal fazia parte do currículo das escolas de escribas, era provavelmente recitado em festivais e crê-se que encorajava o cumprimento da lei através do receio dos castigos que aguardavam os transgressores. Jeremy Black comenta:
Esta é uma das composições mais ameaçadoras e perturbadoras do corpus literário sumério, colocando questões difíceis sobre a natureza da justiça e aludindo sombriamente ao destino dos criminosos e transgressores na Mesopotâmia antiga — pois, embora o processo legal esteja bem registado em códigos de leis e registos judiciais, o funcionamento das próprias prisões é praticamente documentado de forma nula.
Enquanto composição curricular, transmitia uma mensagem aos escribas em formação de que era seu dever defender um sistema jurídico justo e equitativo, ao mesmo tempo que mostrava o que os aguardava caso não o fizessem.
(Literature, pág. 339)
Ao mesmo tempo, ao enfatizar a compaixão e a misericórdia da deusa, o poema oferecia esperança de perdão àqueles que erraram por ignorância ou foram desviados pelo destino. Mesmo que alguém tivesse falhado na observação da lei, como diz Nungal, havia ainda a promessa de que a sua casa, ao "dar à luz uma pessoa justa", ofereceria a um infrator uma segunda oportunidade e a redenção.