O Diálogo do Pessimismo (incipit: Arad mitkāri; cerca de 1000 a.C.) é um poema babilónico composto por dez trocas de palavras entre um senhor e o seu escravo. Em cada uma delas, o senhor propõe uma ação, e o escravo apresenta razões tanto a favor como contra a sua realização. A obra tem vindo a ser interpretada como um texto existencial, uma sátira, uma teodiceia e uma crítica social.

A obra é mais conhecida pela interpretação existencial que defende o suicídio como a única resposta a um mundo sem sentido, no qual não há nenhuma boa razão para seguir um caminho em detrimento de outro. Está catalogada como pertencente ao género da literatura de sabedoria mesopotâmica e era copiada como parte do currículo das escolas de escribas.

É evidente que a obra serviu como texto educativo, mas desconhece-se se os alunos levavam a sério o seu conteúdo e tema. É possível que a obra fosse simplesmente um diálogo cómico que ridicularizava provérbios populares e a sua utilização convencional na sala de aula, da mesma forma que os poemas «Dias de Escola» e «Conselho de um Supervisor a um Jovem Escriba» satirizam o sistema educativo mesopotâmico.

O título do poema é uma designação moderna (atribuída pelo estudioso W. G. Lambert), e o título original, se é que alguma vez existiu, está perdido. A obra desenvolve-se ao longo de dez trocas de palavras sobre a futilidade da ação, uma vez que tudo o que se considera que vale a pena fazer pode ser contrariado por razões igualmente válidas para não o fazer:

A obra termina com uma estrofe final em que o senhor conclui que a única resposta razoável à vida é procurar a morte, mas, antes de dar esse passo, enviará o escravo à sua frente. O escravo, que parece ser o mais sensato dos dois, tem a última palavra ao afirmar que o seu senhor não seria capaz de sobreviver três dias sem ele.

Com base nisto e nas respostas do escravo ao longo do poema, este pode também ser entendido como uma sátira às classes sociais, apresentando o «servo sábio» e o «senhor tolo», um motivo popular em obras literárias antigas e modernas.

O poema pode ter sido originalmente uma composição suméria apresentada como parte do período de exames finais de um aluno na edubba (Casa das Tábuas), a escola de escribas suméria. A edubba foi fundada durante o Período Dinástico Primitivo na Mesopotâmia (cerca de 2900 a cerca de 2350/2334 a.C.) para formar escribas na Suméria, e o seu currículo centrava-se na cópia, memorização e recitação de vários textos. Os alunos passavam da cópia de listas simples e hinos para obras escritas mais difíceis, mas também transcreviam obras orais para o papel.

Antes da invenção da escrita cuneiforme, por volta de 3600/3500 a.C., as histórias e os poemas existiam apenas como tradição oral. Uma das primeiras funções dos escribas na antiga Mesopotâmia teria sido preservar estas obras na forma escrita, como observa o académico Jeremy Black:

Embora uma composição literária sobre a transmissão oral possa parecer paradoxal ou perversa, trata-se simplesmente de um reflexo da realidade quotidiana dos escribas: os padrões de preservação das tabuinhas sugerem fortemente que as nossas fontes manuscritas não são vestígios de uma tradição literária copiada, mas sim de uma tradição de contar, ouvir e memorizar.

Ironicamente, muitas das tabuinhas que preservam a tradição literária mais antiga do mundo são efémeras: foram produzidas como parte do processo de memorização e nunca se destinou que perdurassem.
(pág. 275)

As tabuinhas de argila utilizadas para os exercícios dos alunos eram, de facto, frequentemente recicladas pelos instrutores, que as mergulhavam em baldes de água para amolecer, apagar e remodelar como novas. Os textos de obras escritas consagradas eram, no entanto, preservados para que futuros alunos os memorizassem e recitassem e, entre estes, encontrava-se o Diálogo do Pessimismo. As cópias existentes provêm da Assíria e da Babilónia, escritas em escrita acádia, mas, tal como acontece com muitas outras obras semelhantes, é muito provável que seja muito mais antiga e, como referido, de origem suméria.

O seu objetivo teria sido entreter, ao mesmo tempo que proporcionava aos estudantes um texto interessante para praticarem e, embora seja rotulado como «literatura de sabedoria» nos dias de hoje, pode não ter sido considerado como tal na antiga Mesopotâmia.

A própria designação «literatura de sabedoria» é um conceito moderno aplicado por estudiosos da Bíblia aos livros de Provérbios, Eclesiastes e Jó, muito antes de as obras da literatura mesopotâmica terem sido descobertas em meados do século XIX. Assim que a escrita cuneiforme foi decifrada, obras como As Instruções de Shuruppak (incipit: U4-ri-a u4-ri-a ba-ru-a-ba, cerca de 2500-2000 a.C.), Ludlul-Bel-Nemeqi (Louvarei o Senhor da Sabedoria ou Jó Babilónico cerca de 1700 a.C.) e outras semelhantes ou que se pensa terem influenciado os livros bíblicos posteriores receberam essa mesma designação.

É possível, no entanto, que os primeiros escribas tenham levado o Diálogo do Pessimismo tão a sério quanto outras obras agora agrupadas sob a bandeira da «literatura sapiencial». O estudioso e arqueólogo britânico Wilfred G. Lambert observa:

O Diálogo do Pessimismo, se for levado a sério, dá o passo final, declarando que toda a vida é fútil e que o suicídio é o único bem.
(pág. 17)

Entendido como um comentário sério sobre a futilidade da existência, a obra pode ser comparada a A Disputa entre um Homem e o seu Ba (alma), do período do Império Médio do Egito (2040-1782 a.C.), que, tal como o Diálogo do Pessimismo, se pensa ter influenciado o livro de Eclesiastes, certos provérbios bíblicos e parte do livro de Lamentações.

Na obra egípcia, um homem discute as dificuldades da vida com a sua alma, perguntando por que razão deveria continuar a viver quando isso parece não fazer sentido. A alma diz-lhe que deve simplesmente desfrutar do que a vida tem para oferecer e concentrar-se no que é bom, em vez de no que é mau.

No entanto, há alguma dúvida quanto ao facto de a obra ter sido concebida para ser levada a sério. Estudiosos, incluindo Jean Bottero e A. Leo Oppenheim, contestam o caráter sério da obra, salientando o seu claro absurdo e tom cómico. Oppenheim escreve:

apresenta um senhor e o seu criado envolvidos num diálogo obviamente cómico. O senhor dá ordem após ordem, às quais o criado responde com uma série de provérbios destinados a provar a sabedoria do desejo do senhor. Quando o senhor muda abruptamente de ideias e revoga cada ordem, o criado não tem dificuldade em encontrar outros provérbios para apoiar as últimas ordens.

O objetivo — para além de divertir o leitor — parece ter sido demonstrar que a sabedoria dos provérbios não é um guia fiável. Para dar mais vida à apresentação, o criado é retratado como muito mais perspicaz do que o seu senhor, a quem tenta manifestamente agradar e apaziguar.
(págs. 273-274)

Os estudiosos que defendem que a obra é uma sátira à sabedoria proverbial salientam como o escravo responde consistentemente com máximas convencionais — «Jantar repetidamente relaxa a mente» e «O homem que ama uma mulher esquece a tristeza e o medo», entre muitas outras — e também faz referência a obras literárias como A Epopeia de Gilgamesh (verso 54) e até cita um provérbio (verso 57). Entre as diversas interpretações do poema, estas duas — declaração existencial ou sátira à sabedoria proverbial — são as mais comuns.

A tradução infra é da passagem extraída da obra Babylonian Wisdom Literature (Literatura de Sabedoria Babilónica), traduzida para o inglês por W. G. Lambert. Os números das linhas aqui indicados diferem dos de Lambert por uma questão de clareza. As elipses indicam palavras ou frases em falta. O texto é um dos mais completos que se conservam, apresentando apenas um fragmento entre as linhas 16 e 24, com o início e o final intactos.

1. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

2. «Depressa, traz-me a carruagem e atrela-a para que eu possa dirigir-me ao palácio.»

3. «Conduza, senhor, conduza. Será para o seu benefício. Quando o vir, o rei conceder-lhe-á honras.»

4. «Não, escravo, de modo algum irei de carruagem até ao palácio.»

5. «Não conduza, senhor, não conduza. Quando o vir, o rei poderá mandá-lo… e obrigá-lo-á a seguir um caminho que não conhece; fará com que sofra agonia dia e noite.»

6. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

7. «Depressa, traz-me água para as mãos e dá-ma para que eu possa jantar.»

8. «Jante, senhor, jante. Jantar repetidamente relaxa a mente… a refeição do seu deus; Shamash acompanha as mãos lavadas.»

9. «Não, escravo, certamente não vou jantar.»

10. «Não jante, senhor, não jante. A fome e a alimentação, a sede e a bebida, surgem naturalmente num homem.» (ou seja, deve simplesmente comer e beber quando quiser)

11. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

12. «Depressa, traz-me a carruagem e atrela-a para que eu possa dirigir-me para o campo aberto .»

13. «Conduza, senhor, conduza. Um caçador enche-lhe a barriga. Os cães de caça partirão os ossos , o falcão do caçador pousará, e o asno selvagem fugitivo...»

14. «Não, escravo, de modo algum irei até ao campo aberto.»

15. «Não conduza, senhor, não conduza. A sorte do caçador muda; os dentes do cão de caça partir-se-ão, o ninho do falcão do caçador fica na... parede, e o asno selvagem fugitivo tem as terras altas como seu covil.»

(a estrofe seguinte combina casamento e litígio, uma vez que a tabuinha está fragmentada, faltando várias linhas)

16. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

17. «Vou constituir família e ter filhos.»

18. «Tenha alguns, senhor, tenha alguns. O homem que constitui família… uma porta chamada "A Armadilha"… robusto, dois terços fraco.»

19. «... vou arder, partir e regressar. Vou ceder ao meu acusador.»

20. «Então ceda, senhor, ceda.»

21. «Então, então, vou constituir família.»

22. «Não monte um lar. Um homem que segue este caminho destrói o lar do seu pai... Fique em silêncio, senhor, fique em silêncio.»

23. «Não, escravo, não ficarei em silêncio.»

24. «Não fique em silêncio, senhor, não fique em silêncio... a menos que abra a boca... Os seus acusadores serão cruéis consigo...»

25. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

26. «Vou liderar uma revolução.»

27. «Então lidere, senhor, lidere. A menos que lidere uma revolução, de onde virão as suas roupas? Quem lhe permitirá encher o estômago?»

28. «Não, escravo, de forma alguma vou liderar uma revolução.»

29. «O homem que lidera uma revolução ou é morto, ou é esfolado, ou tem os olhos arrancados, ou é detido, ou é atirado para a prisão.»

30. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

31. «Vou amar uma mulher.»

32. «Então ame, senhor, ame. O homem que ama uma mulher esquece a tristeza e o medo.»

33. «Não, escravo, de forma alguma vou amar uma mulher.»

34. «Não ame, senhor, não ame. A mulher é uma armadilha — uma armadilha, um buraco, uma vala. A mulher é uma adaga de ferro afiada que corta a garganta de um homem.»

35. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

36. «Depressa, vai buscar-me água para as mãos e dá-ma, para que eu possa fazer um sacrifício ao meu deus.»

37. «Oferece um sacrifício, senhor, oferece um sacrifício. O homem que faz um sacrifício ao seu deus fica satisfeito com o negócio; está a contrair empréstimo após empréstimo.»

38. «Não, escravo, de modo algum farei um sacrifício ao meu deus.»

39. «Não faça o sacrifício, senhor, não faça o sacrifício. Pode ensinar o seu deus a correr atrás de si como um cão, quer ele lhe peça "ritos", quer lhe pergunte "Não consulta o seu deus?", ou qualquer outra coisa.»

40. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

41. «Vou conceder empréstimos como credor.»

42. «Então conceda empréstimos, senhor, conceda empréstimos. O homem que concede empréstimos como credor – o seu trigo continua a ser seu, enquanto os seus juros são enormes.»

43. «Não, escravo, de modo algum farei empréstimos como credor.»

44. «Não conceda empréstimos, senhor, não conceda empréstimos. Conceder empréstimos é como amar uma mulher; recebê-los de volta é como ter filhos… Eles comerão o seu trigo, amaldiçoá-lo-ão sem cessar e privá-lo-ão dos juros sobre o seu trigo.»

45. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

46. «Vou emprestar comida ao meu país.»

47. «Então empreste, senhor, empreste. O homem que empresta comida ao seu país, o seu trigo é imenso.»

48. «Não, escravo, não vou emprestar comida ao meu país.»

49. «Não empreste, senhor, não empreste. Eles vão comer o seu trigo, diminuir os juros sobre o seu trigo e, além disso, amaldiçoá-lo sem parar.»

50. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

51. «Vou realizar uma obra de utilidade pública para o meu país.»

52. «Então faça-o, senhor, faça-o. O homem que realiza um bem público para o seu país, as suas ações são colocadas no anel de Marduk.»

53. «Não, escravo, de modo algum farei uma obra de utilidade pública pelo meu país.»

54. «Não o faças, senhor, não o faças. Sobe aos antigos montes de ruínas e passeia por ali; observa os crânios dos altos e dos baixos. Qual é o malfeitor e qual é o benfeitor?»

55. «Escravo, ouve-me.» «Aqui estou, senhor, aqui estou.»

56. «O que é, então, o bem?»

57. «Ter o meu pescoço partido e o teu pescoço partido e sermos atirados para o rio é o bem. "Quem é tão alto que possa subir aos céus? Quem é tão vasto que possa abranger o submundo?"»

58. «Não, escravo, vou matar-te e enviar-te primeiro.»

59. «E o meu senhor certamente não sobreviveria a mim nem que fosse por apenas três dias.»

O Diálogo do Pessimismo, para além das interpretações acima mencionadas, é também entendido por alguns estudiosos como uma teodiceia — uma defesa de um deus contra alegações de sofrimento injusto por parte dos humanos — exemplificada por obras como o Ludlul-Bel-Nemeqi e o Livro de Jó. Esta interpretação parece, no entanto, insustentável, uma vez que o divino é referido apenas duas vezes (linhas 35-39 e linha 52). Na primeira ocasião, sugere-se que os humanos podem tornar os deuses seus servos ao negligenciarem as oferendas sacrificiais; na segunda, trata-se simplesmente de como o divino (Marduk) aprova o serviço público.

Uma quarta interpretação da obra, centrada nos arquétipos do «servo sábio» e do «senhor tolo», interpreta-a como uma sátira à desigualdade social. O senhor dispõe claramente de vastos recursos, mas carece de qualquer perspicácia sobre a melhor forma de os utilizar, enquanto o seu escravo, que nada possui, consegue reconhecer não só o valor desses recursos, mas também as possíveis consequências, positivas e negativas, da sua utilização.

Vários provérbios e contos populares da Mesopotâmia abordam este mesmo tema, recorrendo frequentemente a animais como personagens. O académico Stephen Bertman comenta:

Por trás do humor mesopotâmico, é claro, está uma mensagem séria sobre a injustiça social: como um camponês pobre pode não ter meios para adquirir um terreno decente para cultivar; como os talentos de um trabalhador podem ser explorados por um patrão insensível; e como os ricos e poderosos podem impor-se sobre os humildes.

Apesar dos códigos legais de Ur-Nammu e de Hamurabi, as desigualdades não regulamentadas (e talvez impossíveis de regulamentar) continuavam a espreitar nas entrelinhas — tal como ainda hoje acontece, apesar de todas as nossas leis.
(pág. 180)

A mensagem do poema pode ser tão simples quanto o ditado popular: «são as pessoas erradas que têm todo o dinheiro», referindo-se aos ricos que gastam generosamente em tudo o que lhes apraz, enquanto outros trabalham arduamente durante toda a vida para satisfazer as necessidades básicas. O escravo tem a última palavra na obra, afirmando que, sem ele, o seu senhor não sobreviveria nem sequer três dias; tal como os mais abastados em qualquer sociedade dependem daqueles que consideram inferiores para sustentar a sua riqueza e o luxo de poder escolher o que querem ou não querem fazer.