O Império Mongol acolheu e promoveu muitas outras culturas. Os historiadores referem-se frequentemente ao intercâmbio cultural na Ásia, no âmbito do Império Mongol, como algo que foi simplesmente facilitado pela paz e pela estabilidade numa área tão vasta – a Pax Mongolica. No entanto, os mongóis foram agentes ativos neste processo, procurando utilizar as diversas culturas do(s) seu(s) império(s) para expandir e consolidar o seu domínio.

Gengis Khan (reinou 1206-1227) conquistou grande parte da Ásia durante a sua vida, e os seus herdeiros deram continuidade à tarefa. Após a morte do sucessor de Gengis, houve uma breve disputa pela sucessão, assumindo o cargo de Grande Cã (Khan), Möngke Khan (reinou 1251-1259), o filho do filho mais novo de Gengis, Tolui, pelo que a família de Möngke era conhecida como os Toluids.

Os Grandes Cãs anteriores já tinham tomado conta do que é hoje o leste do Irão e o norte da China, mas o Império Mongol ainda não tinha acabado. Nunca tinham estabelecido um domínio firme no Irão e grande parte do território era, na prática, governada por senhores da guerra rivais. Entretanto, havia muito espaço para expansão para sul, na direção da China e do Tibete. Möngke e o seu irmão Kublai Khan (reinou 1260-1294) estavam ocupados a liderar campanhas na Ásia Oriental, pelo que, em 1253, Möngke enviou outro irmão, Hülegü (1217-1265), para pacificar o Irão. Hülegü não só destruiu uma das maiores potências da região, uma espécie de seita xiita chamada ismaelita, como prosseguiu a sua campanha contra o que restava do califado abássida. Em 1258, já tinha conquistado Bagdade.

Um ano depois, Möngke morreu e eclodiu uma guerra civil entre os mongóis. Kublai acabou por sair vitorioso (1264) e tornou-se o Grande Cã. Os vários governantes mongóis ainda se viam como parte do mesmo império, mas, após a guerra civil, esse sentimento tornou-se muito mais ténue e os diferentes chanes assumiram identidades e políticas distintas. Em relação aos estado sucessores: o estado de Kublai era a Dinastia Yuan, o governo mongol da China, e o de Hülegü Khan era o Ilcanato, que abrangia o atual Irão, Iraque, Azerbaijão e o leste da Turquia.

Estes dois mantinham uma relação especial. Ambas as dinastias eram da linhagem Toluid e tinham de demonstrar unidade contra os governantes não-Toluid dos outros estados mongóis. Além disso, ambas se estabeleceram em sociedades urbanas ricas e altamente sofisticadas, com raízes que remontavam à Antiguidade. Os mongóis, tradicionalmente nómadas, viram-se subitamente à frente de culturas poderosas. Este foi um grande desafio, mas também uma oportunidade. Utilizaram o multiculturalismo de três formas: para ajudar a governar o império, para obter serviços únicos e para demonstrar o vasto alcance do seu poder.

Desde a expansão inicial do império para além da estepe, Genghis Khan precisava de governar eficazmente as sociedades sedentárias, um conceito muito diferente da vida nómada. Por um lado, o nível de especialização (ou seja, profissões distintas) é muito mais elevado nas sociedades sedentárias. Genghis recrutou os uigures (um povo turco predominantemente muçulmano) nos primeiros tempos para ocupar estas funções em nome dos seus senhores mongóis. Esta necessidade só veio a aumentar.

Na dinastia Yuan, as instituições chinesas foram adaptadas para servir os seus novos governantes mongóis. Bolad Aqa († 1313) era filho do ba'urchi de Börte, a mulher principal de Genghis. Ba'urchi significa literalmente cozinheiro, mas esta era uma posição de muito alto estatuto na sociedade mongol. Exigia a máxima confiança do senhor ou da senhora e conferia-lhes o controlo da casa, bem como acesso pessoal frequente. O registo de Bolad nos registos da corte Yuan é Po-lo, que os historiadores há muito confundiram com Marco Polo (1254-1324). De certa forma, porém, Bolad é como uma versão real do mitificado Marco. Era um colaborador próximo de Kublai Khan e teve, de facto, uma carreira que o levou a percorrer a Rota da Seda. Aliás, Bolad e Marco podem até ter-se encontrado, pois ambos estiveram na corte Yuan no final da década de 1270 e início da década de 1280.

Bolad cresceu a falar chinês e a sua fluência ajudou-o a colaborar estreitamente com os funcionários chineses. Juntos, fundaram várias instituições de estilo chinês para servir a nova dinastia e também revitalizaram algumas que tinham perdido prestígio com a conquista. Por exemplo, Bolad convenceu Kublai a aumentar os poderes do Gabinete dos Grandes Supervisores da Agricultura — originalmente fundado ainda na dinastia Han (202 a.C. a 220 d.C.) — e a restabelecer as suas cerimónias. Depois, em 1273, começou a trabalhar na Direção da Biblioteca Imperial, dedicada à preservação de documentos, mapas e imagens chineses, incluindo livros de magia proibida. Aqui estava um mongol, ao serviço de um cã mongol, a utilizar recursos chineses para governar a China.

Por vezes, os mongóis deparavam-se com o problema de tentar governar muitas e diversas culturas ao mesmo tempo, o que exigia soluções verdadeiramente multiculturais. Um dos problemas que Hülegü enfrentava era o facto de os povos do Ilcanato utilizarem sistemas de datação muito diferentes. Ninguém conseguia saber exatamente quando algo tinha acontecido ou iria acontecer se os chineses, os cristãos nestorianos, os muçulmanos e os persas utilizassem todos métodos diferentes para determinar a data. (Embora os persas fossem predominantemente muçulmanos, muitos preferiam o antigo calendário zoroastriano, que se referia à ascensão ao trono do rei sassânida Yazdegerd III no ano de 632). Movido por um profundo interesse pela astronomia, Hülegü encontrou a resposta que procurava ao poupar, durante a conquista de uma fortaleza ismaelita, todos os instrumentos astronómicos e o matemático Nasir al-Din Tusi.

Conta-se uma história da época segundo a qual, após perder uma batalha contra os mamelucos em 1260, Hülegü ordenou a morte de todos os mamelucos do reino. No entanto, um homem conseguiu salvar-se simplesmente ao dizer que era astrónomo, tendo sido imediatamente libertado. Isso está certamente de acordo com o passo seguinte de Hülegü. Fundou um observatório em Maragheh, perto da capital Tabriz, e equipou-o com livros e instrumentos provenientes de toda a Eurásia. Em seguida, reuniu uma equipa de excelência composta por astrónomos de todas as diferentes tradições, liderada por Nasir al-Din Tusi e por um homólogo chinês da dinastia Yuan. Trabalharam em Maragheh, sob segurança rigorosa para impedir que alguém roubasse as suas descobertas de vanguarda, até terem compilado em persa o زيج إلخاني ; transliterado: Zīj-i Īlkhānī (Tabelas Astronómicas dos Ilcãs) que harmoniza todos os sistemas de datação. Além disso, esta colaboração multicultural produziu resultados que desafiaram a antiga ortodoxia de Ptolomeu, a tal ponto que alguns historiadores a apelidaram de revolução científica.

Os mongóis sabiam que as inovações dos povos por eles subjugados poderiam conferir ao seu império uma vantagem estratégica que nenhum outro império, por menor que fosse, poderia igualar. Tratava-se de um círculo virtuoso: quanto mais pessoas, mais poder, mais crescimento, mais pessoas.

Quando Hülegü chegou pela primeira vez ao Irão, trouxe consigo engenheiros de cerco chineses. Os cercos sempre tinham sido um problema para as táticas relâmpago da guerra mongol, pelo que os governantes rapidamente recorreram a outros para o fazer por eles, especialmente aos chineses do norte. Guo Kan (1217-1277) foi um desses engenheiros de cerco, presente na conquista de Bagdade em 1258. Era um descendente distante de Guo Baoyu, que tinha finalmente reprimido a rebelião de An Lushan no século IX. De acordo com a história dinástica, bastante exagerada, Guo Kan não ficava em nada atrás dele. Alegadamente, comandou a campanha no Irão quase inteiramente sozinho e conquistou territórios muito mais a oeste do que os exércitos de Hülegü alguma vez chegaram.

Supostamente, Guo Kan chegou mesmo a capturar o califa de Bagdade, construindo uma ponte flutuante sobre o rio para impedir a fuga por barco. Tudo isto não passa de embelezamento, mas o papel dos engenheiros de cerco chineses foi, de facto, vital. Um dispositivo de ponte flutuante capturou, de facto, o dawadar (chanceler) do califa, e os engenheiros chineses quase certamente o conceberam — é até plausível que tenha sido o próprio Guo Kan a fazê-lo. Alguns historiadores argumentaram que trouxeram pólvora, mas isso é improvável. O que os chineses tinham para oferecer era especialização em engenharia de cerco e na criação de máquinas de guerra.

Havia outros contingentes para além dos chineses. Auxiliares e aliados desempenharam um papel crucial na máquina de guerra. Na Batalha de Homs contra os mamelucos, em 1281, o Ilcanato trouxe contingentes da Arménia, da Geórgia e do Sultanato Seljúcida de Rum, os seus estados tributários. Foram também auxiliados pelos Cavaleiros Hospitalários. Os cavaleiros estavam lá porque notáveis cristãos arménios tinham apresentado os mongóis pagãos como aliados espiritualmente aceitáveis ao público cristão latino. Salientaram que os mongóis tratavam bem os cristãos nos seus reinos (o que era razoavelmente verdade), que estavam prestes a ser batizados (o que era um exagero) e até que grandes mongóis se tinham convertido ao cristianismo no passado (o que era uma mentira). Estas medidas para criar confiança por parte dos súbditos dos mongóis foram vitais para os seus empreendimentos militares — mesmo que, no caso dos mamelucos, não tenham sido bem-sucedidas.

Para os mongóis, o poder espiritual e mágico era tão importante quanto o material e igualmente útil nas suas campanhas de conquista. A dinastia Yuan uniu deliberadamente muitas formas de magia. Bolad ajudou a restabelecer os sacrifícios rituais nos templos chineses do Céu, da Terra e dos Cereais, mas agora o oficiante sacrificava um animal ao estilo mongol. A adivinhação da dinastia Yuan incluía horóscopos inspirados nas tradições chinesas e islâmicas. Os eventos celestes eram considerados presságios, pelo que a astronomia e a astrologia exerciam um fascínio particular sobre a elite Yuan. Na verdade, os astrólogos competiam para prever eclipses lunares com a maior precisão, e os melhores ganhavam o favor do soberano. Ainda assim, os cãs complementavam tudo isto com as suas próprias formas tradicionais mongóis de adivinhação: um Tölgechin (adivinho) podia ver o futuro através das fendas em ossos de ovelha queimados, lançando dados ou observando as trajetórias de voo das aves. O monge e cientista inglês Roger Bacon (1219-1292) considerava que estas formas ecléticas de adivinhação proporcionavam aos mongóis uma visão do futuro superior à de qualquer outro povo, o que explicava o seu sucesso militar excecional.

Outra forma proeminente de magia era a geomancia. Os guerreiros mongóis eram estrategas experientes e pastores nómadas, características que lhes conferiam uma sensibilidade particular à toponímia. Acreditavam que as terras possuíam propriedades mágicas, a par das suas propriedades materiais, e que estas podiam ser manipuladas para obter o seu favor. Conta-se que Kublai alisou um mapa — a representação da terra — com a mão e, assim, concebeu uma estratégia vencedora. Por outras palavras, a terra permitiu que o plano de Kublai funcionasse porque tinha sido simbolicamente apaziguada. A corte Yuan também fez uso extensivo tanto das técnicas geomânticas chinesas do «vento e da água» (mais conhecidas como feng shui) como da «ciência da areia» islâmica.

Grandes demonstrações de multiculturalismo podiam mostrar a riqueza, a dimensão e a magnificência do Império Mongol. Trata-se, sem dúvida, de uma ostentação, mas era também mais do que isso. A ideologia mongol, desenvolvida na época de Genghis Khan, defendia que o Céu tinha designado os mongóis para governar o mundo inteiro. Podiam tornar visível a sua pretensão ao domínio universal reunindo representações de muitas e diversas culturas. Além disso, podem ter acreditado que isto tinha um efeito mágico. As sociedades das estepes, assim como os chineses, acreditavam há muito que um microcosmo poderia influenciar um macrocosmo, pelo que a estabilidade do império poderia ser assegurada através da demonstração da harmonia entre os símbolos das suas diversas culturas.

A cozinha Yuan era uma combinação de uma variedade surpreendente de estilos de toda a Ásia. O livro de receitas intitulado 飲膳正要 - Yin-shan Cheng-yao (tradução inglesa de Eugene Anderson: Proper and Essential Knowledge About Drinking and Feasting - Conhecimento Adequado e Essencial sobre Bebidas e Banquetes) desmente a ideia de que os mongóis mantivessem a sua própria gastronomia, enquanto os governantes da China se retiravam para as estepes sem deixar qualquer rasto nos hábitos locais. Em vez disso, misturaram a cozinha chinesa e a mongol, como temperar carne de carneiro assada à mongol com especiarias chinesas e servi-la com vegetais locais. Das 98 receitas da primeira parte do livro, 28 são mongol-turcas, 33 são da Ásia Ocidental com influências chinesas, três são chinesas e uma é de Caxemira. Existem também 28 receitas de um tipo misto — aquilo a que hoje chamaríamos de «fusão» — que são desconhecidas fora deste livro de receitas. Alguns dos ingredientes do Yin-Shan Cheng-yao são tipicamente da Ásia Ocidental, como as romãs (Punica granatum), as nozes (Juglans regia) e o grão-de-bico (Cicer arietinum).

Os imperadores Khagan da dinastia Yuan chegavam mesmo a empregar um sherbetchi. A pista está no nome, pois a função deste funcionário — sempre um cristão nestoriano — era preparar o produto importado do Irão preferido dos mongóis: o sorvete. Tratava-se de um cargo de elevado estatuto e grande influência, como sabemos pelo encontro de Marco Polo com o sherbetchi de Kublai. O custo destes ingredientes e especialistas, juntamente com a fusão deliberada, sugere que a dinastia Yuan estava a criar a sua própria alta cozinha para exibir a sua vasta riqueza e poder de longo alcance sobre muitas culturas e climas, além de saciar os seus estômagos com estilo. Também vale a pena considerar que a mesa de jantar pode ser um excelente exemplo de um microcosmo do Império Mongol. Talvez reunir todas as cozinhas dos súbditos do Khagan perante ele e combiná-las em novos pratos tenha ajudado a unir e a harmonizar todo o império.

Enquanto a Dinastia Yuan afirmava o seu império nas suas tigelas, os Ilcãs faziam-no nos seus livros. Rashid al-Din (1247-1318), um médico e converte ao Islão vindo do judaísmo, tornou-se vizir/ministro do ilcã Ghazan (reinou 1295-1304) e mais tarde de Öljeitu (reinou 1304-1316). Enquanto alto funcionário do governo, colaborou com Bolad numa série de intercâmbios culturais entre o Irão mongol e a China, pois ambos pareciam partilhar a perceção da oportunidade que o domínio mongol da Eurásia proporcionava. A maior contribuição de Rashid al-Din para a história, porém, foi a sua própria obra histórica em persa جامع التواريخ ; transliterado Jāmiʿ al-tawārīkh (Compêndio de Crónicas), de 1308. Nas suas próprias palavras:

Até agora, não foi produzida, em nenhuma época, nenhuma obra que contenha um relato geral da história dos habitantes das regiões do mundo e das diferentes espécies humanas… Hoje, graças a Deus e por Sua vontade, os confins da terra habitada encontram-se sob o domínio da casa de Chinggis Qan e filósofos, astrónomos, eruditos e historiadores do norte e do sul da China, da Índia, da Caxemira, do Tibete, dos uigures, de outras tribos turcas, dos árabes e dos francos — pertencentes a diferentes religiões e seitas — estão reunidos em grande número ao serviço do céu majestoso. E cada um possui manuscritos sobre a cronologia, a história e os artigos de fé do seu próprio povo, e cada um tem conhecimento de algum aspeto disso. A sabedoria, que embeleza o mundo, exige que seja elaborado, a partir dos detalhes destas crónicas e narrativas, um resumo — mas essencialmente completo — que ostentará o nosso nome augusto.

(Allsen, pág. 83)

Esta estrutura era inovadora. Em vez de enquadrar a história em torno de uma única tradição, como o relato histórico do profeta Maomé, o Jāmiʿ al-tawārīkh incluía a história chinesa, judaica, indiana, europeia e islâmica, sem dar destaque a nenhuma delas em particular. Os métodos de investigação de Rashid al-Din também eram invulgares. Contava com uma grande equipa de assistentes e recorreu amplamente a especialistas locais para recolher as suas narrativas, como Kalamashri, o monge caxemiriano, e, claro, Bolad. Além disso, conseguiu de alguma forma aceder à obra em mongol Алтан дэвтэр, transliterado Altan debter (Caderno de Ouro), uma compilação de fragmentos sobre a história da conquista mongol guardada a sete chaves no tesouro do ilcã.

Isto por si só deveria mostrar que o Jāmiʿ al-tawārīkhh tinha o apoio dos ilcãs, mas nenhum projeto de uma escala tão vasta poderia ter sido feito sem o seu patrocínio. Ghazan e Öljeitu queriam este livro porque uma história universal convém a uma sociedade universal. A história do Ilcanato tinha de encaixar nas histórias de todos os seus súbditos para justificar o seu governo aos olhos deles. Eles tinham de ver as suas próprias culturas como ramos da mesma sociedade governada legitimamente pelos ilcãs. O que o Jāmiʿ al-tawārīkh fez foi mostrar como todas estas histórias conduziram de forma bastante natural à unidade do mundo sob os mongóis.

Os governantes mongóis abraçaram, em vez de suprimirem, outras culturas, a fim de demonstrar que estavam destinados a governá-las. Isto funcionou inevitavelmente nos dois sentidos, pois os mongóis estavam a adaptar-se aos outros, tal como estavam a adaptar os outros a si próprios. Com o passar do tempo, o multiculturalismo criou um novo tipo de governo mongol, tanto no Yuan como no Ilcanato, e novos padrões de pensamento que influenciaram as ideologias imperiais dos impérios que lhes sucederam, como os otomanos e os safávidas.